sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Crônica : Dentro do carro...

 



A avenida... um rio de metal, um rio de luzes vermelhas que não corre.

O motor vibra, um coração paciente sob minhas mãos, mas eu permaneço imóvel, preso no labirinto de um engarrafamento sem fim.

A chuva golpeia o para-brisa, com a pressa de quem deseja possuir o mundo. As janelas embaçadas erguem muralhas translúcidas, me separam do caos líquido da cidade.

Sou apenas mais um, um motorista anônimo à espera do verde no semáforo. Mas aqui dentro o silêncio tem corpo, tem ossos, tem densidade.

Não é vazio é arquitetura de pensamentos que se transformam em palavras mortas sob o toque distraído do polegar no volante ao ritmo de uma música calma que insiste em existir.

Há ironia nisso... lá fora o mundo se derrama, se transborda, e eu me esforço para não me afogar no clima tenso.

As gotas deslizam como lágrimas que tentam me alcançar, mas falham. Batendo, escorrendo, voltando, no máximo lavam o vidro, e a couraça do carro.

O semáforo vermelho se reflete nas poças, um oráculo imóvel, um decreto de espera.

Eu sou o epicentro de uma calmaria íntima em meio à tempestade urbana. O reflexo no vidro embaçado me devolve um rosto, mapa de batalhas invisíveis, cicatrizes que a tarde cinzenta não revela.

Meu carro já não é veículo é um casulo, vidro e metal, um abrigo sobre rodas.

Os limpadores lutam por clareza, mas eu escolho a opacidade. A anatomia do meu silêncio é feita dessa resistência o direito de estar parado, cercado por carros e pessoas, algo tão cotidiano, e ainda assim ter a capacidade de se adaptar e superar adversidades.

O sinal vai abrir, buzinas vão soar, eu vou acelerar.

Mas por enquanto, sob a luz vermelha do semáforo ao compasso da chuva, sou apenas silêncio, sou apenas espera, sou apenas mais um olhar... Que contempla a própria tempestade, banhado por um mar de lanternas vermelhas a minha frente que nenhuma chuva pode apagar.


Por Alfredo Guilherme