Solta a batida e segura o coração! Senhoras e senhores, bem-vindos a tentativa de sobrevivência de um homem romântico.
Você acorda esperando calmaria o cheiro do café passado na hora, mas o destino que adora um deboche resolve trocar a calmaria com vizinhos aí o bagulho é louco, o som é de rachar. Quando a tarde e à noite se aproxima nos fins de semana.
Meu ouvido vira pinico...De tanta merda que eu tenho que ouvir... Um toca funk, a outra música de louvor, e o outro sertanejo e arrocha tipo sofrencia, pra vizinhança toda participar e se irritar... aí a merda toda se completa... tudo sem a permissão do "Apolo' o principal deus da música na mitologia grega, enquanto as Musas, especialmente Euterpe, que são deusas inspiradoras da música e da poesia.
E o pior não é as músicas, Pior é volume do som e das tais letras... Do tal do funk com palavras recheadas de tanta baixaria que eu fico até sem jeito de reproduzir. O cara liga o som num volume que a vizinhança inteira é obrigada a saber, com detalhes anatômicos e cirúrgicos, o que o MC pretende fazer com a moça na parte de trás do carro.
Olha não tá fácil. Eu sou de uma época em que, para conquistar alguém, você precisava de uma playlist com fita K7, com uma seleção de músicas com Ray Conniff e com uma luz baixa o Fábio Jr. sussurrando... "Você pintou como um sonho/ E eu fui atrás com tudo/ Se isso são coisas do amor/ Acredito que estou vivendo em outro mundo".
Hoje? Hoje a paz acabou. O amor moderno não sussurra, ele vem com uma caixa de som JBL do tamanho de uma geladeira batendo no talo.
E aí você escuta... "Só as popozudas, as preparadas, huuu!"
Rapaz, quando eu ouço isso, a minha primeira reação não é dançar. É uma reação de preocupação genuína, quase paternal. Eu olho para o lado e penso..."Preparadas para quê, meu Deus?... Pro Enem? ... Elas levaram casaco? O Tempo vai mudar, vai esfriar ? ... Será que levaram o celular para pegarem o uber para voltar pra casa? Ou vão mesmo tremer a bunda no terreiro do batidão ?
A verdade é que o choque cultural é violento. No meu mundo, a música romântica te ensina a sofrer sentado, olhando a chuva cair na janela, pensando na amada. No funk, não tem tempo para chorar. O cara levou um fora na terça-feira, na quarta ele já tá no pancadão, mandando... "Chorou porque, taca, taca... na xereca, você vai encontrar o amor que te completa". É uma eficiência emocional que a minha geração nunca teve!
Nós demorávamos seis meses de terapia para superar um desafeto amoroso, um olhar torto, o jovem de hoje supera o término de uma relação no tempo de um hiat de bateria.
Então se você, assim como eu, tem o coração mole e o ouvido acostumado com uma boa música, aqui vão algumas regras de ouro para sobreviver à era do "pancadão de som"... Use a Técnica da "Tradução Simultânea". Você não precisa aceitar a letra literalmente.Traduza o funk para o dialeto do romantismo.
Quando o MC grita... "Vem quicando, vem sentando!"... Você fecha os olhos e finge que ele está dizendo: "Aproxime-se com delicadeza e ocupe o assento estofado ao meu lado para partilharmos abraços e beijos apaixonados." Fica muito mais palatável. O ritmo é agressivo, mas na sua mente, tem que parecer que está escutando "bossa nova" ao cair da tarde ensolarada, ao som de Vinícios de Morais.
No baile, todo mundo desce até o chão com uma elasticidade que me dá dor na lombar só de olhar.
O segredo é a fusão. Se não pode vencê-los, confunda-os. Imagina que ser romântico é você chegar na patroa, olhar bem nos olhos, colocar aquela voz aveludada de locutor de rádio da madrugada e manda aveludadamente... "Meu amor... você é o meu chão. E como diz o poeta contemporâneo... hoje eu vou te dar um trato que você vai esquecer até o seu próprio nome. Com todo respeito e carinho."
Em resumo, o funk e a música romântica querem a mesma coisa, juntar as pessoas. A diferença é que a música romântica quer que você case, tenha dois filhos e mude para o interior ao se aposentar. O funk quer resolver tudo nas próximas duas horas.
Eu fico com no o meio-termo, posso até ouvir o batidão, mas o meu coração ainda bate em ritmo desse refrão... ♫...Viver e não ter a vergonha de ser feliz ... Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...
O romântico só tem duas opções, mudar de bairro, ou comprar um fone de ouvido com isolamento acústico daqueles que parecem de operador de britadeira, ou aceitar que, pelos próximos meses, a trilha sonora será o amor moderno explicito sem filtro com muito, mais muito batidão.
Por Alfredo Guilherme

























