Sinopse... Aos 70 anos, o amor pode até ser poesia, mas a pele ainda exige prosa. Heloísa recusa-se a aceitar o papel de "vovozinha assexuada" que a sociedade tenta lhe impor. Entre o ceticismo de sua prima Marta e o charme de um novo encontro, ela descobre que o desejo não tem prazo de validade.
A Narrativa...
Dizem que, com o tempo, a gente vai ficando invisível. Primeiro, as pernas e depois as nádegas deixam de ser o foco dos olhares, e na praia, o olhar dos marmanjos nos atravessa como se fôssemos feitas de vidro soprado. Mas há um segredo que os jovens não imaginam... o desejo não tem rugas.
Chegar aos 70 e sentir-se desejada não é teimosia, é um ato de resistência. É a validação de que o corpo, embora tenha mudado o ritmo, ainda é território de conquista. Quando o celular toca com uma mensagem de segundas intenções, algo dentro da gente dá uma risada gostosa. É a afirmação de que a vida não está passando, ela está acontecendo.
A sensualidade na maturidade é uma obra de arte. É olhar no espelho e, em vez de contar vincos, reconhecer a mulher que sobreviveu e ainda tem fome de prazer. Não somos "bonitas para a nossa idade". Somos mulheres, vibrantes, sacudindo a poeira dos estereótipos. Se a pele ainda arrepia com um beijo na nuca, a vida deu o veredito, você ainda está pronta.
A Cena na Varanda...
Eu sou a Heloisa. Eu e minha prima Marta somos inseparáveis desde que ficamos viúvas. Adoramos o café com bolinhos de chuva ao entardecer, mas somos opostas. Eu uso cores vibrantes, ela é conservadora e acha que já passou da fase de se entregar a uma nova oportunidade de amar.
Naquela tarde dourada, retoquei o batom e Marta me olhou com ironia.
- Vai sair mesmo com o tal do Jorge?
- Marta, se temos idade para remédio de pressão, por que não aceitar um encontro? Prefiro que minha pressão suba hoje só porque ele olhou para o meu decote!
- Mas Heloisa... você não se sente exposta? Achei que a invisibilidade nos traria paz.
- A invisibilidade não é paz, Marta. É exílio. Ontem, quando ele me convidou, senti que meu corpo ainda se comunica otimamente com o sexo oposto.
- Eu nem lembro mais como é sentir desejo, suspirou Marta... - Sabe Heloisa eu fechei a porta e joguei a chave fora.
Toquei o ombro dela...
- A porta nunca tranca por fora, querida. É por dentro. Diga ao espelho... "Eu ainda sou um incêndio, mesmo sob as cinzas".
Marta sorriu... olhando para as próprias mãos, sem a aliança de casada, ensaiou outro sorriso e falou... - Um incêndio, é?
- O maior de todos, pode acreditar... Agora me empresta o seu brinco de pérola? Quero que ele tenha algo bonito para focar em mim, enquanto eu conto sobre a minha viagem para a Grécia.
- Grécia ?... Desde quando você viajou para a Grécia.
- Desde que entrei no Google-Maps, e vi o quanto é lindo aquele lugar.
Heloisa personifica a afirmação da alegria de viver o melhor que a vida pode dar, enquanto a Marta traz as dúvidas que a sociedade planta na cabeça das mulheres.
O Jantar e o Conflito...
O restaurante era charmoso, luz baixa. Jorge, cabelos grisalhos e um olhar que sorri antes dos lábios entenderem a graça do momento, levantou-se ao me ver.
- Você está deslumbrante. O tempo parou na porta quando você entrou.
- O tempo não para, Jorge. Ele só aprendeu a caminhar ao meu lado.
Brindamos. Ele confessou que os filhos acham que ele só deveria morar e cuidar do sitio escutando os pássaros cantar na alvorada. Eu ri...
- Ai é esperar a morte com resiliência... A minha prima acha que perdi o juízo. Mas e você? O que espera daqui em diante?
- O frio na barriga... ele respondeu com ternura... - A prova de que o mundo ainda tem mistérios, E eu quero descobrir todos os seus. Como se sente sendo desejada, Heloisa?
Fizemos uma pausa segura, com olhares de ousadia.
- Eu me sinto viva, é a confirmação de que eu não sou apenas uma espectadora. Neste momento sou a protagonista.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, num gesto convidativo tocando a minha mão.
- Esse toque veio carregado de eletricidade.
Então, Heloisa... vamos pular etapas, e ir direto para o que realmente interessa, um momento que faça a gente esquecer de olhar o relógio?
E assim... A rua nos recebeu com o fresco da noite. O som do restaurante ficou para trás, substituído pelo ruído quase silencioso da cidade naquele horário. caminhamos devagar. Não por cansaço, mas para esticar o tempo.
Nossas mãos se roçam, sem querer algumas vezes até que Jorge, com uma coragem juvenil, entrelaça seus dedos nos meus.
Sentindo o calor dele na minha mão a sensação foi de prazer, liberando os hormônios da recompensa.
- Engraçado Jorge como a gente desaprende a dar as mãos, não é? A gente acaba esquecendo como é bom ser apenas... um par, um casal.
Casualmente passamos em frente a um pequeno bar de jazz. A música vaza pela porta entreaberta, um saxofone baixo, rouco. Jorge faz um gesto de convite, uma reverência leve.
- Diz a lenda... quem não aceita dançar na calçada, corre o risco de virar estátua. Me concede?
Mesmo acanhada aceitei... - Jorge, as pessoas vão achar que bebemos vinho demais.
- E bebemos. O vinho da audácia.
Dançamos na calçada ao som de um jazz vindo de um bar. Houve um beijo, com gosto de vinho e descobertas.
Mas... ao chegar em casa, eu não estava flutuando... Entrei como um furacão, joguei a bolsa no sofá, chutei os sapatos pela sala, Marta, de pijama, estranhou.
- O príncipe virou sapo?
- O jantar foi divino, Marta! A conversa foi de tirar o fôlego!
- Então por que essa cara? Ele te beijou?
- Beijou! Um perfeito macho alfa !
- E qual é o problema, criatura?
- O problema é que o cidadão me deixou na porta com um "durma com os anjos"! Marta, olha o meu RG! Eu não tenho tempo para "conhecer a alma" antes de conhecer o que tem debaixo do lençol! Eu usei hidratante caro, lingerie de renda vermelha... e ele nem viu, e me tratou como uma porcelana chinesa!
Marta riu alto...
- Ele teve respeito, Heloisa!
- Respeito? E eu lá queria essa porra de respeito, eu queria era gozar intensamente! Acho que as doses de Tibolona e a Bremelanotida, ativaram tudo aqui dentro, os meus receptores estão até agora ligados à excitação.
- Que santa inocência a minha, jamais imaginava que as mulheres tinham os seus segredinhos, para liberar o libido.
- Eu estava pronta para o "vamos para um lugar reservado" e ganhei um beijinho na testa!
Peguei o celular, decidida...
- Vou mandar uma mensagem agora... "Jorge, a porcelana está inteira, mas o conteúdo é inflamável. No próximo jantar, traga menos poesia e mais coragem."
Minutos depois, o celular vibrou. O sorriso que brotou no meu rosto era predatório. Mostrei a tela para Marta.
"Heloisa, passei o caminho me culpando por ser cauteloso. Achei que avançar o sinal seria desrespeito. Que erro o meu. Sábado, não quero poesia. Quero o incêndio. Passo aí às oito."
Marta se jogou no sofá, rindo...
- Ele vai te matar, ou você vai matar ele! Você literalmente é um perigo para os macho da melhor idade.
- Que seja uma morte com o coração a mil, e não parando por tédio!
O Manifesto Final....
Sozinha no quarto, soltei o cabelo diante do espelho. Tirei o brinco de pérola, o símbolo da "senhora respeitável". Olhei minhas marcas. A sociedade nos quer vovozinhas que cheiram a sabonete de glicerina. Mas o desejo é o último fôlego da juventude que se recusa a morrer em mim. Meu corpo não é um museu fechado, é uma casa com as luzes acesas e a mesa posta.
O outono pode estar lá fora, mas aqui dentro... ainda é pleno verão. E sábado? Sábado, o Jorge que se prepare.
Sábado... O Incêndio...
O relógio da sala marcava 19h45. Marta estava sentada na poltrona, fingindo ler o seu livro de receitas, mas seus olhos não saíam da figura que caminhava de um lado para o outro pelo corredor.
Heloisa não estava para brincadeira. Usava um vestido preto justo, de um tecido que brilhava suavemente sob a luz, e um perfume que deixava um rastro de mistério no ar. Nada de pérolas hoje, apenas um par de brincos dourados que balançavam conforme ela caminhava.
- Meu Deus, Heloisa... Marta baixou o livro... - Se o Jorge sobreviver essa noite, ele merece uma medalha. Ou um check-up cardiológico completo.
- Marta, querida, se ele vier com a coragem que prometeu na mensagem, quem vai precisar de fôlego extra sou eu... Heloisa conferiu o batom vermelho no espelho.... - Hoje não tem papo de Google Maps e viagem falsa. Hoje eu quero ser o território real pra ele explorar.
Às oito em ponto, a campainha tocou. Não era um toque tímido. Era um toque firme.
Jorge estava parado à porta. Não usava o terno do primeiro jantar. Estava com uma camisa de linho azul-escura, os primeiros botões abertos, e um olhar que não pedia licença. Ele não me disse "Você está deslumbrante". Ele apenas me segurou pela cintura, puxou para perto dele e sussurrou no meu ouvido...
- A porcelana ainda está inteira, Heloisa? Porque eu vim disposto a quebrar o protocolo.
Eu senti um calafrio que não vinha do vento da noite. Era a eletricidade da "Bremelanotida" encontrando o destino certo.
- Jorge... a porcelana foi guardada. O que sobrou é inflamável.
Jorge dirigiu até um pequeno bistrô escondido, onde as mesas eram separadas por cortinas de veludo. O vinho foi servido, mas as taças mal foram tocadas. O diálogo não era banal, era sobre o agora.
- Sabe o que eu pensei a semana toda?... Jorge perguntou, cobrindo a mão de Heloisa com a dele... - Que passamos a vida inteira sendo o que os outros esperam. O pai provedor, a mãe zelosa, o avô paciente. Mas quem sobra quando as luzes se apagam?
- Sobra o desejo, Jorge. Aquele que a gente tentou domesticar mas que ainda ruge aqui dentro.
- Então vamos viver o melhor de nós... Jorge levantou-se e estendeu a mão. ... - Eu reservei uma suíte no hotel antigo da praça. Aquele com lençóis de algodão egípcio e uma vista que a gente não vai se importar em olhar.
O Manifesto da Carne...
No quarto, a luz era suave, e quente. O silêncio da noite era preenchido apenas pelo som da respiração de ambos. Heloisa sentiu o peso dos seus setenta anos desaparecer. As marcas em sua pele não eram defeitos, eram o mapa de uma estrada longa que finalmente chegava ao destino prazeroso.
Jorge a tocou com a firmeza de quem conhece o valor do tempo. Não havia a pressa atrapalhada da juventude, mas havia uma profundidade que só a maturidade permite. Cada beijo era um reconhecimento, cada toque era uma afirmação.
- Você é linda, Heloisa... ele disse, com a voz rouca, enquanto seus dedos traçavam as curvas do corpo dela.
- Eu hoje, eu sou sua.
Naquela noite, a Tibolona e o Estrogênio foram apenas figurantes. O papel principal foi da coragem. Heloisa descobriu que o prazer aos setenta não é um consolo, é um banquete. Foi intenso, foi cru, foi humano foi selvagem. Ela não se sentiu uma vovozinha, sentiu-se a própria força da natureza.
O Amanhecer...
No domingo de manhã, Heloisa chegou em casa. Marta já estava na varanda, com o café pronto com pães com manteiga na chapa quentinhos. Ela olhou para a prima, que trazia o cabelo levemente desalinhado e um brilho nos olhos que nenhuma maquiagem consegue simular.
- E então?... Marta perguntou, com um sorriso cúmplice. - O incêndio foi grande?
Heloisa sentou-se, tomando um gole de café, deu uma mordida lenta no pão e suspirou de satisfação.
- Marta... o incêndio foi tão grande que eu acho que mudei o clima da cidade com nuvens escuras no céu.
- E o Jorge? Sobreviveu?
- Ele não só sobreviveu, como já marcou o próximo encontro no sábado... Heloisa piscou para a prima. - E sabe de uma coisa? Descobri que tem coisas prazerosas para a gente descobrir entre quatro paredes. Mas a sociedade insiste em dizer que devem ser guardados em gavetas com cheiro de naftalina,
Marta olhou para dentro de si, pela primeira vez em anos, ajeitou o próprio cabelo e soltou o primeiro botão da blusa, deixando seus seios parcialmente a vista, foi neste instante que a pergunta surgiu, carregada de uma curiosidade renovada e urgente...
- Heloisa... me passa o contato daquele seu médico? Que te indicou a usar aquele... injetável, que ativou seus receptores ligados à excitação. Acho que está na hora de eu conferir como anda a minha "porcelana".
As duas riram alto, o som ecoando pela varanda, celebrando a descoberta de que a vida, afinal, não tem data de validade para quem decide arder de prazer no amor.
FIM...
Por Alfredo Guilherme











