Havia um muro esquecido no coração do Pelourinho, uma pele de pedra e cal descascada que parecia pedir socorro. Os turistas passavam, os vendedores gritavam, o sol castigava, e o muro continuava lá, como uma cicatriz silenciosa de outros tempos. Até que, numa manhã cinzenta, a magia aconteceu.
Não foi um milagre vindo dos céus, mas da criatividade e da alma de um artista cujo nome, agora repousava ali, imortalizado na própria obra. Ele não pintou um anjo como os dos altares das igrejas de ouro. Ele não usa túnica nem ostenta asas de gesso, e não vive suspenso nas abóbadas de ouro das catedrais, não tinha a pele alva nem as vestes fluidas e transparentes dos querubins barrocos.
O anjo era negro. E não tinha asas comuns.
No lugar delas, uma explosão caligráfica em forma de revoada abraçava o lado esquerdo de sua face. O muro parecia ter ganhado voz. Não uma voz que se ouve com os ouvidos, mas que se sente vibrar no peito. As letras não eram apenas texto, eram formas sagradas, símbolos de uma ancestralidade que o tempo não conseguiu apagar, trazia sua mensagem escrita em suas penas textuais... "O Meu Anjo Negro de Matrizes Africanas"
Para entender é preciso ir buscar na raiz dos primeiros povos a palavra que consiga desenhar essa luz sem peso, como foi gravada na pedra ancestral do Ge’ez: መልአክ (Mal’ak)... ( Anjo).
Era uma manhã de domingo quando parei para observá-lo. O sol já estava alto, e a praça lá embaixo pulsava. Uma baiana vendia acarajé, o cheiro de dendê misturava-se ao som distante de um berimbau se misturando ao batuque arrepiante do Olodum. O anjo, com seu olhar profundo, fitava o vazio, mas parecia ver tudo. Seus traços eram feitos de labirintos e círculos, um mapa de histórias orais compactadas em cada linha.
Fiquei imaginando os momentos vividos daquele muro. Ele vivenciou séculos de dor e resistência. Ouvira as correntes rilharem, o choro das mães, mas também o canto dos terreiros e o batuque do candomblé. O artista não apenas colorira a pedra, ele a libertara. Ele dera a ela uma voz que não se calaria já mais.
Enquanto eu observava, uma menina pequena, com os cabelos em tranças nagô, parou ao meu lado. Ela não olhou para o texto. Ela olhou para o rosto do anjo.
- Mãe, ele é igual a mim... disse ela, com a simplicidade que só as crianças possuem.
E ali estava a resposta. Aquele anjo não precisava de asas para voar. Ele já estava no céu. No céu que ele pintara dentro do coração de cada um que parava para lê-lo. Ele não era uma figura de contemplação passiva, ele era um manifesto. Ele dizia... "Eu sou. Eu estou aqui. Eu te permaneço."
Senti dentro de mim, que o muro não estava mais calado. "O Anjo Negro" cantava em silêncio, e eu cantei junto com ele...
"O Canto das trêz raças", que na voz da Clara Nunes ecou pelo Brasil...
“Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil...”
É o retrato definitivo do canto de resistência e da força que vem do lamento transformado em beleza e arte.Traduzindo exatamente o que o 'Anjo Negro" traz de mistério e de sabedoria ancestral que ele transmite no olhar.
Por Alfredo Guilherme





















