Nas terras onde a mata fechada sussurra segredos ancestrais ao vento, os mais velhos ainda contam a lenda de 'Babatunde e Olori', duas almas entrelaçadas no amor, entre a saudade da terra-mãe e o encanto sagrado da floresta brasileira.
Babatunde atravessara o oceano contra a sua vontade. Trazia no corpo as marcas do sofrimento do porão infecto do navio negreiro, mas mantinha o peito intacto de fé. Carregava na memória o ritmo dos atabaques de sua aldeia e a bênção dos orixás. Ao aportar em Salvador, foi vendido a um senhor de engenho.
Os anos se arrastaram entre o desespero e a dor, até que, cansado de testemunhar a violência e a crueldade dos castigos, e mulheres violentadas servido sexualmente o senhor do engenho, ele alimentou a esperança ao ouvir falar do Quilombo, um refúgio sagrado de liberdade.
Numa noite emoldurada pela escuridão, ele fugiu, esgueirando-se pela mata densa para escapar dos temidos 'Capitães do Mato', caçadores de fugitivos das fazendas.
Seu destino era um dos quilombos que resistiam nas matas suburbanas. Ao chegar, foi acolhido por seus irmãos de raça, e encontrou na vastidão verde o refúgio seguro para manter viva a chama de seu povo.
Foi ali, sobre a copa de árvores centenárias, que seus olhos cruzaram com os de Olori... Uma mulher de olhar profundo como a noite e voz tão doce que parecia acalmar tempestades.
O amor entre eles floresceu como uma flor rara no coração da floresta. Não era apenas paixão de corpos, mas um encontro de espíritos, guiado pela força de Oxóssi e pela doçura de Oxum. Babatunde entoava cantos para a folhagem, enquanto Olori dançava ao som do vento, erguendo entre as árvores um santuário inabalável de paz e devoção.
Contudo, o tempo terreno de Babatunde cumpriu-se. Numa tarde serena, seu sopro de vida descansou e seu corpo foi devolvido à terra. Devastada pela dor, Olori ajoelhou-se junto às raízes de uma árvore secular, e entregou suas lágrimas ao solo úmido, suplicando a Olodumare que não a separasse de seu grande amor.
Atentos às suas preces e à pureza de uma união que alimentava a vida da própria mata, os orixás intervieram com uma poética metamorfose. O corpo de Babatunde desfez-se suavemente sob a terra, transformando-se nas raízes profundas de um imponente Jequitibá. Instantes depois, Olori sentiu seus pés criarem raízes e seus braços estenderem-se em ramos verdejantes. Ela renasceu como Floridil, uma majestosa trepadeira de flores perfumadas que abraçou o Jequitibá eternamente, subindo por seu tronco até alcançar a luz do céu.
Até hoje, quem caminha em silêncio por uma mata, jura ouvir o sussurro do vento entre as folhas, entoando a melodia eterna de amor e fé de "Olori e Babatunde" que o tempo jamais conseguirá apagar.
Por Alfredo Guilherme



















