Se a Academia Brasileira de Letras se reunisse numa terça-feira à tarde no Bar do Tião, perto das quatro da tarde, garanto que mudaria o dicionário. Não existe lugar no planeta onde a geopolítica mundial, o amor pelo futebol e as dores na coluna e outros problemas, sejam resolvidos com tanta precisão em tão pouco tempo e pouco investimento quanto num balcão de fórmica engordurada.
O balcão de boteco é o único parlamento onde o quórum é permanente e a imunidade diplomática é concedida pelo garçom. Ali, entre uma estufa de salgados sobreviventes de duas guerras mundiais e uma estatueta de São Longuinho, a humanidade desfila em diálogos curtos, certeiros e recheados daquela ironia fina que só a vida calejada ensina.
Anotei mentalmente algumas pérolas da filosofia botequeira. Acompanhe a profundidade dos debates... do amor, saúde e da economia financeira...
Seu Vanderlei, com a cabeça apoiada na mão, contemplando a espuma do copo de chope... Mandou essa...
- Tião... o amor é um negócio complicado. A minha patroa disse que eu sou um homem sem ambição, que eu prefiro o balcão do que o sucesso pessoal.
O velho garçom Tião, continuou passando o pano no balcão no mesmo ritmo de sempre, e respondeu... - Seu Vanderlei, deixa eu falar uma coisa... quem muito escolhe, acaba escolhido. Cavalo dado não se olha os dentes, mas também não pensa que ele vai puxar carcaça pesada. O senhor tá casado há trinta anos né.
Seu Vanderlei, deu um gole pensativo pra responder... - Trinta e dois, Tião, de uma trégua não declarada.
Tião completou o copo de cerveja do Vanderlei recolhendo a garrafa vazia, olhou nos olhos dele e falou... - Pois é meu caro amigo... casamento é que nem melancia... para saber se é boa, é só depois que abre. E você já abriu, já comeu, agora não adianta reclamar que tem caroço... Pois a vida é curta e o seu fiado comigo já está ficando longo.
A segunda cena que presenciei, foi com o Seu Edgar, que entrou de lado no boteco capengando, segurando a lombar com um gemido dramático...
- Oi pessoal !!!!... Fui no médico hoje... Alguém gritou... - E aí qual foi a do doutor ?... - Ele olhou meus exames e disse que eu tô com o colesterol no teto, a glicose na estratosfera e o ácido úrico pedindo passagem. Mandou eu cortar o torresmo, a cerveja e a carne vermelha.
Zé Agripino, sem tirar os olhos do jogo do Corinthians que passava na TV de 14 polegadas sem som... preocupado indagou... - E você vai cortar ? tem uma carne mais avermelhada e rosada, que deve ser preservada hein !!!
- Cortar o quê, Zé ? Eu cortei foi o médico! Mudei até meu plano de saúde. Aquele lá não entende nada da minha anatomia. Se eu tirar o torresmo, o que é que vai dar liga no meu organismo com a cerveja? Fique você sabendo que passarinho não come pedra porque sabe a garganta que tem.
Zé Agripino, acenou com a cabeça em sinal de respeito intelectual... e falou mansinho - É isso amigo. Quem tem medo de cagada não toma o sumo da cana de açúcar moída, a deliciosa garapa, no calor... Me vê mais uma porção de moela, Tião!
A sabedoria financeira e a modernidade foi a última que eu presenciei... Em um outro canto do boteco lá estava Julinho do Pandeiro, digitando furiosamente na tela do celular...
- O meu primo me mandou uma mensagem dizendo pra eu investir em Bitcoim... Criptomoeda, negócio digital que não existe o dindim fisicamente, mas rende mil por cento, alguém aqui já embarcou nessa parada ?
Seu Gentil, com os seus74 anos, com o seu surrado boné do clube do bairro, tomando um café curto no copo americano se manifestou... - Julinho, presta atenção no velho aqui. Dinheiro que a gente não pega na mão pra contar... não é dinheiro, é miragem !!!. Você já viu cachorro abanar o rabo pra foto de osso?
- Não, Seu Gentil...
- Pois então pega essa visão.... Quando a esmola é demais, até o cego desconfia, faz até santo descer do altar pra te dar um abraço fraterno, e o pastor te convence que agora você vai prosperar. Portanto fica no ritmo do seu pandeiro amigo, que esse seu Bitcoim é a nota de duzentos que nunca sobrou na sua carteira.
Na boa meus amigos, para que gastar fortunas com terapeutas, ou com gurus da internet se o Brasil tem esse patrimônio imaterial à disposição no boteco da esquina mais próxima?
A gente entra no boteco achando que vai tomar só um café rápido para rebater a canseira e sai de lá com dicas e ditados populares novos, e a certeza absoluta de que, enquanto houver chope gelado e a sabedoria de quem ainda não frequentou seções no Alcoólicos Anônimos.
O mundo pode até girar da porta pra fora, depois de bebericar, mas no balcão do Boteco, respeitosamente xingar a mãe do juiz é de boa, e segue o jogo meus amigos.
Por Alfredo Guilherme


















