quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Desejo vs - O Estereótipo da Idade...



      Sinopse... Aos 70 anos, o amor pode até ser poesia, mas a pele ainda exige prosa. Heloísa recusa-se a aceitar o papel de "vovozinha assexuada" que a sociedade tenta lhe impor. Entre o ceticismo de sua prima Marta e o charme de um novo encontro, ela descobre que o desejo não tem prazo de validade.

     ​A Narrativa...

​     Dizem que, com o tempo, a gente vai ficando invisível. Primeiro, as pernas e depois as nádegas deixam de ser o foco dos olhares, e na praia, o olhar dos marmanjos nos atravessa como se fôssemos feitas de vidro soprado. Mas há um segredo que os jovens não imaginam... o desejo não tem rugas.

​     Chegar aos 70 e sentir-se desejada não é teimosia, é um ato de resistência. É a validação de que o corpo, embora tenha mudado o ritmo, ainda é território de conquista. Quando o celular toca com uma mensagem de segundas intenções, algo dentro da gente dá uma risada gostosa. É a afirmação de que a vida não está passando, ela está acontecendo.

​     A sensualidade na maturidade é uma obra de arte. É olhar no espelho e, em vez de contar vincos, reconhecer a mulher que sobreviveu e ainda tem fome de prazer. Não somos "bonitas para a nossa idade". Somos mulheres, vibrantes, sacudindo a poeira dos estereótipos. Se a pele ainda arrepia com um beijo na nuca, a vida deu o veredito, você ainda está pronta.

​    A Cena na Varanda...

​    Eu sou a Heloisa. Eu e minha prima Marta somos inseparáveis desde que ficamos viúvas. Adoramos o café com bolinhos de chuva ao entardecer, mas somos opostas. Eu uso cores vibrantes, ela é conservadora e acha que já passou da fase de se entregar a uma nova oportunidade de amar.

​     Naquela tarde dourada, retoquei o batom e Marta me olhou com ironia.

     - Vai sair mesmo com o tal do Jorge?

     - Marta, se temos idade para remédio de pressão, por que não aceitar um encontro? Prefiro que minha pressão suba hoje só porque ele olhou para o meu decote!

     - Mas Heloisa... você não se sente exposta? Achei que a invisibilidade nos traria paz.

     - A invisibilidade não é paz, Marta. É exílio. Ontem, quando ele me convidou, senti que meu corpo ainda se comunica otimamente com o sexo oposto.

     - Eu nem lembro mais como é sentir desejo, suspirou Marta... - Sabe Heloisa eu fechei a porta e joguei a chave fora.

     Toquei o ombro dela... 

     - A porta nunca tranca por fora, querida. É por dentro. Diga ao espelho... "Eu ainda sou um incêndio, mesmo sob as cinzas".

     Marta sorriu... olhando para as próprias mãos, sem a aliança de casada, ensaiou outro sorriso e falou... - Um incêndio, é?

     - O maior de todos, pode acreditar... Agora me empresta o seu brinco de pérola? Quero que ele tenha algo bonito para focar em mim, enquanto eu conto sobre a minha viagem para a Grécia.

     - Grécia ?... Desde quando você viajou para a Grécia.

     - Desde que entrei no Google-Maps, e vi o quanto é lindo aquele lugar.

​     Heloisa personifica a afirmação da alegria de viver o melhor que a vida pode dar, enquanto a Marta traz as dúvidas que a sociedade planta na cabeça das mulheres.

     O Jantar e o Conflito...

     ​O restaurante era charmoso, luz baixa. Jorge,  cabelos grisalhos e um olhar que sorri antes dos lábios entenderem a graça do momento, levantou-se ao me ver.

     - Você está deslumbrante. O tempo parou na porta quando você entrou.

     - O tempo não para, Jorge. Ele só aprendeu a caminhar ao meu lado.

     Brindamos. Ele confessou que os filhos acham que ele só deveria morar e cuidar do sitio escutando os pássaros cantar na alvorada. Eu ri...

     - Ai é esperar a morte com resiliência... A minha prima acha que perdi o juízo. Mas e você? O que espera daqui em diante?

     - O frio na barriga... ele respondeu com ternura... - A prova de que o mundo ainda tem mistérios, E eu quero descobrir todos os seus. Como se sente sendo desejada, Heloisa?

     Fizemos uma pausa segura, com olhares de ousadia.

     - Eu me sinto viva, é a confirmação de que eu não sou apenas uma espectadora. Neste momento sou a protagonista.

     Ele estendeu a mão sobre a mesa, num gesto convidativo tocando a minha mão.

     - Esse toque veio carregado de eletricidade.

     Então, Heloisa... vamos pular etapas, e ir direto para o que realmente interessa, um momento que faça a gente esquecer de olhar o relógio?

​     E assim... A rua nos recebeu com o fresco da noite. O som do restaurante ficou para trás, substituído pelo ruído quase silencioso da cidade naquele horário. caminhamos devagar. Não por cansaço, mas para esticar o tempo.

     ​Nossas mãos se roçam, sem querer algumas vezes até que Jorge, com uma coragem juvenil, entrelaça seus dedos nos meus.

     Sentindo o calor dele na minha mão a sensação foi de prazer, liberando os hormônios da  recompensa. 

     - Engraçado Jorge como a gente desaprende a dar as mãos, não é? A gente acaba esquecendo como é bom ser apenas... um par, um casal.

​     Casualmente passamos em frente a um pequeno bar de jazz. A música vaza pela porta entreaberta, um saxofone baixo, rouco. Jorge faz um gesto de convite, uma reverência leve.

      - Diz a lenda... quem não aceita dançar na calçada, corre o risco de virar estátua. Me concede?

      Mesmo acanhada aceitei... - Jorge, as pessoas vão achar que bebemos vinho demais.

      - E bebemos. O vinho da audácia.

​      Dançamos na calçada ao som de um jazz vindo de um bar. Houve um beijo, com gosto de vinho e descobertas.

      Mas... ao chegar em casa, eu não estava flutuando... Entrei como um furacão, joguei a bolsa no sofá, chutei os sapatos pela sala, Marta, de pijama, estranhou.

     - O príncipe virou sapo?

     - O jantar foi divino, Marta! A conversa foi de tirar o fôlego!

     - Então por que essa cara? Ele te beijou?

     - Beijou! Um perfeito macho alfa !

     - E qual é o problema, criatura?

     - O problema é que o cidadão me deixou na porta com um "durma com os anjos"! Marta, olha o meu RG! Eu não tenho tempo para "conhecer a alma" antes de conhecer o que tem debaixo do lençol! Eu usei hidratante caro, lingerie de renda vermelha... e ele nem viu, e me tratou como uma porcelana chinesa!

​     Marta riu alto...

     - Ele teve respeito, Heloisa!

     - Respeito? E eu lá queria essa porra de respeito, eu queria era gozar intensamente! Acho que as doses de Tibolona e a Bremelanotida, ativaram tudo aqui dentro, os meus receptores estão até agora  ligados à excitação.

     - Que santa inocência a minha, jamais imaginava que as mulheres tinham os seus segredinhos, para liberar o libido. 

      - Eu estava pronta para o "vamos para um lugar reservado" e ganhei um beijinho na testa!

​     Peguei o celular, decidida...

     - Vou mandar uma mensagem agora... "Jorge, a porcelana está inteira, mas o conteúdo é inflamável. No próximo jantar, traga menos poesia e mais coragem."

      ​Minutos depois, o celular vibrou. O sorriso que brotou no meu rosto era predatório. Mostrei a tela para Marta.

     "Heloisa, passei o caminho me culpando por ser cauteloso. Achei que avançar o sinal seria desrespeito. Que erro o meu. Sábado, não quero poesia. Quero o incêndio. Passo aí às oito."

     ​Marta se jogou no sofá, rindo...

     - Ele vai te matar, ou você vai matar ele! Você literalmente é um perigo para os macho da melhor idade.

     - Que seja uma morte com o coração a mil, e não parando por tédio!

​     O Manifesto Final....

​     Sozinha no quarto, soltei o cabelo diante do espelho. Tirei o brinco de pérola, o símbolo da "senhora respeitável". Olhei minhas marcas. A sociedade nos quer vovozinhas que cheiram a sabonete de glicerina. Mas o desejo é o último fôlego da juventude que se recusa a morrer em mim. Meu corpo não é um museu fechado, é uma casa com as luzes acesas e a mesa posta.

     ​O outono pode estar lá fora, mas aqui dentro... ainda é pleno verão. E sábado? Sábado, o Jorge que se prepare.

     Sábado... O Incêndio...

​     O relógio da sala marcava 19h45. Marta estava sentada na poltrona, fingindo ler o seu livro de receitas, mas seus olhos não saíam da figura que caminhava de um lado para o outro pelo corredor.

​     Heloisa não estava para brincadeira. Usava um vestido preto justo, de um tecido que brilhava suavemente sob a luz, e um perfume que deixava um rastro de mistério no ar. Nada de pérolas hoje, apenas um par de brincos dourados que balançavam conforme ela caminhava.

​     - Meu Deus, Heloisa...  Marta baixou o livro... - Se o Jorge sobreviver essa noite, ele merece uma medalha. Ou um check-up cardiológico completo.

     - Marta, querida, se ele vier com a coragem que prometeu na mensagem, quem vai precisar de fôlego extra sou eu... Heloisa conferiu o batom vermelho no espelho.... - Hoje não tem papo de Google Maps e viagem falsa. Hoje eu quero ser o território real pra ele explorar.

​     Às oito em ponto, a campainha tocou. Não era um toque tímido. Era um toque firme.

     ​Jorge estava parado à porta. Não usava o terno do primeiro jantar. Estava com uma camisa de linho azul-escura, os primeiros botões abertos, e um olhar que não pedia licença. Ele não me disse "Você está deslumbrante". Ele apenas me segurou pela cintura, puxou para perto dele e sussurrou no meu ouvido... 

     - A porcelana ainda está inteira, Heloisa? Porque eu vim disposto a quebrar o protocolo.

     ​Eu senti um calafrio que não vinha do vento da noite. Era a eletricidade da "Bremelanotida" encontrando o destino certo.

     - Jorge... a porcelana foi guardada. O que sobrou é inflamável.

     Jorge dirigiu até um pequeno bistrô escondido, onde as mesas eram separadas por cortinas de veludo. O vinho foi servido, mas as taças mal foram tocadas. O diálogo não era banal, era sobre o agora.

​     - Sabe o que eu pensei a semana toda?...  Jorge perguntou, cobrindo a mão de Heloisa com a dele... - Que passamos a vida inteira sendo o que os outros esperam. O pai provedor, a mãe zelosa, o avô paciente. Mas quem sobra quando as luzes se apagam?

     - Sobra o desejo, Jorge. Aquele que a gente tentou domesticar mas que ainda ruge aqui dentro.

     - Então vamos viver o melhor de nós... Jorge levantou-se e estendeu a mão. ... - Eu reservei uma suíte no hotel antigo da praça. Aquele com lençóis de algodão egípcio e uma vista que a gente não vai se importar em olhar.

​     O Manifesto da Carne...

​     No quarto, a luz era suave, e quente. O silêncio da noite era preenchido apenas pelo som da respiração de ambos. Heloisa sentiu o peso dos seus setenta anos desaparecer. As marcas em sua pele não eram defeitos, eram o mapa de uma estrada longa que finalmente chegava ao destino prazeroso.

​     Jorge a tocou com a firmeza de quem conhece o valor do tempo. Não havia a pressa atrapalhada da juventude, mas havia uma profundidade que só a maturidade permite. Cada beijo era um reconhecimento, cada toque era uma afirmação.

​     - Você é linda, Heloisa... ele disse, com a voz rouca, enquanto seus dedos traçavam as curvas do corpo dela.

     - Eu hoje, eu sou sua.

     ​Naquela noite, a Tibolona e o Estrogênio foram apenas figurantes. O papel principal foi da coragem. Heloisa descobriu que o prazer aos setenta não é um consolo, é um banquete. Foi intenso, foi cru, foi humano foi selvagem. Ela não se sentiu uma vovozinha, sentiu-se a própria força da natureza.

​     O Amanhecer...

​     No domingo de manhã, Heloisa chegou em casa. Marta já estava na varanda, com o café pronto com pães com manteiga na chapa quentinhos. Ela olhou para a prima, que trazia o cabelo levemente desalinhado e um brilho nos olhos que nenhuma maquiagem consegue simular.

​     - E então?... Marta perguntou, com um sorriso cúmplice. - O incêndio foi grande?

     Heloisa sentou-se, tomando um gole de café, deu uma mordida lenta no pão e suspirou de satisfação.

     - Marta... o incêndio foi tão grande que eu acho que mudei o clima da cidade com nuvens escuras no céu.

     - E o Jorge? Sobreviveu?

     - Ele não só sobreviveu, como já marcou o próximo encontro no sábado...  Heloisa piscou para a prima. - E sabe de uma coisa? Descobri que tem coisas prazerosas para a gente descobrir entre quatro paredes. Mas a sociedade insiste em dizer que devem ser guardados em gavetas com cheiro de naftalina,

​     Marta olhou para dentro de si, pela primeira vez em anos, ajeitou o próprio cabelo e soltou o primeiro botão da blusa, deixando seus seios parcialmente a vista, foi neste instante que a pergunta surgiu, carregada de uma curiosidade renovada e urgente...

     - Heloisa... me passa o contato daquele seu médico? Que te indicou a usar aquele... injetável, que ativou seus receptores ligados à excitação. Acho que está na hora de eu conferir como anda a minha "porcelana".

     ​As duas riram alto, o som ecoando pela varanda, celebrando a descoberta de que a vida, afinal, não tem data de validade para quem decide arder de prazer no amor.

FIM...

     Por Alfredo Guilherme


terça-feira, 7 de abril de 2026

Crônica : Inventário do Absurdo e o Silêncio do Céu...

 


​       Ligo a televisão pra ver o telejornal e a sensação é de que o mundo virou um rascunho malfeito, rabiscado por mãos apressadas e cruéis. A gente olha em volta e se pergunta... em que momento o bom senso pediu demissão e o ódio virou o CEO do planeta?

​     Parece que estamos vivendo em um roteiro de ficção científica de baixo orçamento, onde os vilões usam ternos caros e discursam sobre proteção, enquanto gastão o que poderia acabar com a fome mundial. É uma estupidez que dói na retina. Ver gente poderosa, que tem o mundo na palma da mão, gastar saliva e recursos para perseguir quem só quer um lugar para não morrer de fome ou de medo. O imigrante, esse eterno estrangeiro da humanidade, virou o alvo preferencial de quem confunde pátria com condomínio fechado.

​      E o racismo? Esse fantasma que nunca foi embora, agora resolveu andar à luz do dia, sem lençol na cabeça, destilando um veneno que a gente achou que o tempo tivesse neutralizado. É o auge da burrice humana odiar alguém pela tonalidade da pele, como se a biologia fosse um critério de caráter.

​      Mas o que aperta o peito de verdade, o que faz o café da manhã amargar, é a imagem das bombas. Elas caem silenciosas no papel, mas barulhentas na alma. Inocentes, crianças que mal aprenderam a amarrar o sapato, virando efeito colateral. Quem aperta o botão dorme tranquilo? Quem financia o metal que vira estilhaço, será que consegue olhar nos olhos do próprio filho?

​     Aí a gente olha para cima. No meio do caos, a pergunta inevitável brota como erva daninha na calçada... "Até quando, Deus?".

​     É um grito que ecoa há séculos. A gente quer uma intervenção, um raio que desmonte as fábricas de armas, uma ventania que leve a arrogância dos tiranos. Queremos que o Criador desça do camarote e tome as rédeas da carruagem que parece estar indo direto para o abismo.

​     Mas talvez, e aqui entra a parte difícil da crônica e da vida... O silêncio de Deus não seja ausência. Talvez seja um espelho. É como se Ele estivesse nos devolvendo a pergunta...  "Até quando vocês vão deixar isso acontecer?".

​      Remover as coisas estúpidas do planeta não é como apagar um arquivo corrompido no computador. Exige uma faxina ética que começa no quintal de casa, na nossa recusa em rir de uma piada racista, na nossa coragem de dizer não, a quem prega o ódio disfarçado de ordem.

​     A divindade, seja qual for a sua crença, deu aos homens a inteligência para criar a penicilina a vacina contra a covid e a música de Bach. Se usamos essa mesma inteligência para fabricar bombas e cercas, a culpa dificilmente é de quem está nas nuvens. É de quem está com os pés no chão e as mãos sujas de indiferença.

​      O mundo está feio, estamos no habituando com o desrespeito, sim. Mas enquanto houver alguém indignado o suficiente para perguntar "até quando", ainda há uma fagulha de humanidade tentando não apagar no meio do temporal. Que a gente não perca a capacidade de se espantar com o absurdo, porque o dia em que a estupidez for vista como normal, aí sim, estaremos verdadeiramente órfãos.


     Por Alfredo Guilherme 


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Crônica: Compasso de um Abraço em Chamas...

 



​       O mundo lá fora parecia estar desabando em ruídos metálicos e pressas sem sentido, mas, em algum lugar, a palheta do artista não pede licença, é o próprio calor boêmio de Buenos Aires após o entardecer, transmutado em tinta.

​     O salão estava mergulhado naquela penumbra aconchegante que só os lugares que guardam segredos sabem cultivar. No ar, o perfume era uma mistura de madeira antiga, vestígios de tabaco e a promessa de um vinho tinto recém-servido. Quando as primeiras notas do bandoneón rasgaram o silêncio, o mundo lá fora,  com seus prazos, contas a pagar e ruídos banais,  simplesmente deixou de existir.

​     Eles se aproximaram sem pressa, como quem reconhece um território sagrado. Não houve convite verbal, o chamado estava na curvatura exata do braço dele e no leve inclinar da cabeça dela. No tango, o consentimento é um sussurro magnético.

​     Ao se unirem, o abraço aconteceu. Não um abraço de despedida ou de cumprimento, mas o encaixe de duas peças, pessoas que simplesmente passaram o dia separadas pela rotina. O rosto dela buscou o dele e, por um instante, as têmporas se tocaram, um ponto de contato onde o pensamento de um se tornava o movimento do outro.

​     Eles começaram a caminhar. O tango é, essencialmente, o ato de caminhar juntos sob uma tempestade controlada. A cada passo, o terno risca-de-giz dele roçava o vestido dela, um atrito suave que ditava o pulso da dança. Ela fechou os olhos, entregando o equilíbrio ao eixo dele, confiando que o mundo não cairia enquanto aquela mão espalmada em suas costas a mantivesse firme.

​     Musicalmente, eles eram o próprio instrumento. Quando a melodia se tornava dramática e o músico apertava o fole do bandoneón com força, os dois estancavam em um corte seco, uma pausa cheia de tensão e desejo. É o som do bandoneón reclamando da vida, enquanto o salto dela risca o chão como um fósforo.

​     Quando o som subia em um agudo lírico, os movimentos se tornavam circulares, fluidos, quase como se flutuassem sobre o piso de taco encerado.

​     Não havia plateia para eles. Naquele quadrado de chão, eram apenas os dois e a memória de todos os casais que já dançaram aquela mesma dor e aquela mesma alegria. O calor que emanava do fundo avermelhado da cena parecia vir de dentro deles, uma combustão lenta alimentada pela proximidade e pelo ritmo.

​     Ao final da música, não houve aplausos imediatos no coração do casal. Apenas o silêncio compartilhado de quem acabou de fazer uma viagem sem sair do lugar. Ele a segurou por um segundo a mais do que o necessário, ela respirou fundo, guardando o cheiro do momento na memória.

​     Saíram da pista como quem acorda de um sonho bom, ainda envolvidos pela música, com as mãos entrelaçadas e a certeza de que, naquela noite, o tempo tinha sido gentil o suficiente para parar, envolvendo-os.


     Por Alfredo Guilherme 


    Obra do artista Juarez Machado 




quarta-feira, 18 de março de 2026

Poema ... Silêncios da Guerra



​     As ruas não secaram de gente, mas transbordam de medo.

     Onde o passo era dança, hoje o chão é incerteza, e destruição, o vazio caminha onde o mundo parou.

​     Mães erguem braços, muralhas de fé e espanto,
protegendo o amanhã com o peso do manto, enquanto pessoas silenciosas são pó no vidro trincado, rostos de papel num retrato guardado.

     O aroma do pão, que o sol despertava, é o fantasma de uma mesa que a paz diária visitava.

​     A guerra é cega, não soletra batismos, só entende de faltas, de lutos, de abismos.

     Ela invade o refúgio, descostura a vida, devora o sustento, e se farta.

​     Em cada soleira, a espera é um rio estancado, o passo que ecoa, mas nunca é chegado, a voz que se perde no vácuo do vento, suspenso no frio do momento.

​     Lá fora, líderes discursam impérios e glória, enquanto, o povo soletra com dor a memória.

     E entre o estrondo do ferro e o vácuo do chão, resta apenas a saudade, essa chega sem chão, florindo em silêncio no centro cinzento da destruição. 


     Meu Deus... Porque isso ainda acontece?


     Por Alfredo Guilherme 


      O silêncio na guerra não é paz, é suspensão. É o silêncio do telefone que não toca, da rua que ficou vazia pelo medo, e da voz que se calou. Esse "silêncio ensurdecedor" é, muitas vezes, mais aterrorizante do que o barulho das bombas, porque ele representa a ausência definitiva.




quinta-feira, 12 de março de 2026

Crônica : O Custo e o Brilho de um Olhar...

 


​       Existe uma diferença abissal entre o olhar que admira a paisagem e o olhar aproximado. O primeiro é turista... o segundo é morador. Quando nos aproximamos o suficiente para ver as ranhuras na íris do outro, estamos pedindo licença para entrar. Mas quanto vale essa entrada?

​     A moeda de troca aqui não é o ouro, mas o tempo e a entrega. E é nesse balanço que a gente esbarra na eterna dualidade entre o "para sempre" e o "agora".

​     Muitos buscam o infinito do amor eterno como quem busca um seguro de vida. Querem a garantia de que, daqui a cinquenta anos, aquele olhar ainda estará lá, intacto, como uma estátua de mármore. É uma busca nobre, mas perigosa. O infinito, por definição, não cabe no relógio humano. Quando olhamos muito longe, para o horizonte do "eterno", corremos o risco de tropeçar nos cadarços do presente.

​     Aí entra a sabedoria do Poetinha... Vinícius de Moraes, com a malícia e a ternura de quem viveu muitas vidas em uma só, nos deu a saída de emergência mais elegante da literatura...

​"Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure."

​     O que Vinícius propõe não é um amor descartável, mas um amor presencial. O olhar aproximado de que ele fala não está preocupado se haverá brilho nos olhos no próximo século, ele está ocupado demais incendiando o minuto atual.

​     Um olhar aproximado vale exatamente o risco da decepção.... De longe, todo mundo é perfeito, uma pintura impressionista... De perto, vemos as rugas, olheiras, e dúvidas, no leve tremor da pálpebra.

​     E é aí que o amor ganha valor real. Amar o "Eterno" é fácil, pois o eterno é uma ideia. Amar o "Enquanto dure" exige coragem, porque aceita a finitude. Vale o peso de saber que cada segundo é único e que a eternidade, se existir, é apenas uma sucessão de agoras, bem vividos.

     ​O olhar aproximado vale a vida inteira comprimida em um instante. Não importa se o contrato é de cem anos ou de uma tarde de sol, se houve a coragem de enxergar e ser visto, a conta já está paga.

    E  bebendo da fonte do estilo Vinícius, com a mistura do clássico com o cotidiano, na busca pelo absoluto no frágil e a entrega ao momento... 

     Aí vai... O Contrato do Instante...

​Não me peça o juramento das estrelas,

que brilham mortas há milênios no vazio.

Eu prefiro o calor das mãos, o arrepio,

e o direito sagrado de perdê-las.

​Não quero o amor de mármore e museu,

estático, perfeito, emoldurado.

Quero o amor que chega desgrenhado,

dizendo, o mundo lá fora se perdeu.

​Pois o que vale o infinito sem o toque?

A eternidade é um deserto sem cansaço.

Que o destino, enfim, nos desloque,

para o centro exato de um abraço.

​E se o tempo for um sopro ou for um rio,

que nos leve enquanto o brilho ainda é chama.

Pois só conhece o sol quem sente o frio.

E só vive de fato quem se inflama.

​Que seja eterno, sim, mas no presente,

neste olhar aproximado que nos consome.

Pois o amor não é um título ou um nome,

é o susto de se achar outra pessoa.

     Por Alfredo Guilherme



segunda-feira, 9 de março de 2026

Crônica: O Microatrito do Silêncio no WhatsApp...

 


        Vamos tocar em uma ferida aberta da nossa era digital a tirania do visto e ter que no mesmo momento  responder. Isso é que a psicologia chama de autorregulação emocional. 

     Vivemos em um mundo que exige reflexos de fibra óptica, extremamente rápido e a pausa é, ironicamente, a maior prova de controle da sofisticação mental. É a diferença entre reagir (instinto) e responder (consciência).

     E é nesse exato momento de "maturidade vs. ansiedade", que o celular da Helena não tocou, mas ela sentiu o peso dele vibrando sobre a mesa de madeira, como se o aparelho tivesse ganhado vida própria tendo um estrimilique, após o outro ao receber a última notificação. Era uma destas  perguntas idiotas no grupo de família, seguida por um comentário sarcástico de um parente em outra aba.

​     Helena olhou para a tela. A luz azul iluminou o seu rosto, mas ela não estendeu a mão para pegar.

​     E se lembrou de quando a comunicação tinha o ritmo de uma conversa de varanda, havia o tempo para um café, o tempo do silêncio e o tempo da resposta. Agora, o cursor fica piscando parecendo um metrônomo desregulado, exigindo uma pressa que o coração não quer mais acompanhar.

     Ela tinha acabado de ler em um artigo naquela manhã, sobre a maturidade psicológica, um nome sofisticado para o que ela sentia naquele instante, na verdade, pra ela era um ato de resistência.

​     Seus dedos coçaram… A dopamina sussurrava em sua mente…“Responda logo, mostre que você está online, que você é produtiva, que você é presente”... Mas Helena respirou fundo. Ela percebeu que a pressão por ser instantânea era, no fundo, uma forma de ser superficial.

​     Ela levantou-se e foi até a janela. Observou o movimento da rua por exatos dois minutos. Naquele intervalo, ela não era um perfil, com uma foto melhorada com filtro, ou presente com o status de "digitando...". Ela era apenas Helena, uma mulher que possuía o seu próprio tempo.

​     Ao voltar para a mesa, a ansiedade tinha dado lugar a uma clareza mansa... Desbloqueou o aparelho, não como uma súdita... mas como uma editora da própria vida. Digitou uma resposta curta, precisa e gentil. Não porque o conteúdo da mensagem pedia, mas porque ela, finalmente, tinha algo a dizer.

​     E o"visto azulzinho" apareceu. E o mundo não acabou por essa atitude. Assim Helena descobriu que a paz mora no espaço entre a notificação e o toque.

​     Consciente, Helena estava representando a transição entre o usuário reativo, que vive para apagar incêndios de mensagens digitais, e o usuário consciente que entende que a tecnologia deve servir ao ritmo humano, e não o contrário.

     A Teoria da Autodeterminação... A pressão pela resposta instantânea é uma motivação extrínseca, vem de fora, do dispositivo, da expectativa de outras pessoas. ​

     A maturidade psicológica, nesse contexto, é um exercício de autonomia. ​Quando o indivíduo escolhe o tempo da interação, ele retoma ao "foco de seu controle interno". Deixando de ser um processador de dados passivo para ser um agente ativo da própria comunicação pessoal.


     Por Alfredo Guilherme 



terça-feira, 3 de março de 2026

Crônica: O Alinhavo do Tempo...

 



     Essa imagem de um casal de feltro, abraçados e sorridentes sob o sol, é o lembrete visual de que o "Inverno da vida" não precisa ser frio. Existe uma doçura tátil na velhice que a juventude, em sua pressa, muitas vezes não consegue sentir.

​     Dizem que a velhice é o "fim da linha", um desfecho inevitável onde as cores desbotam e o corpo, antes ágil, torna-se uma máquina de ruidos e cautelas. Mas há um segredo guardado por aqueles que decidiram envelhecer com o coração macio, como o feltro dos bonecos da ilustração, a felicdade na idade avançada não é sobre o que resta, mas sobre a textura do que foi construído.

​     Quando somos jovens, a vida é um tecido de cetim brilhante, escorregadio, tudo é urgente. Queremos o mundo para ontem. Na maturidade, a trama muda. O tecido se torna lã. É mais denso, mais quente, cheio de pequenas imperfeições que contam uma história. 

     O "fim de vida" que tanto assusta, mas para quem o vive com sabedoria, é apenas o momento em que a pressa finalmente pede licença para a presença.

​     Ser feliz aos setenta, oitenta ou noventa anos é uma rebeldia deliciosa. É entender que, se os passos são mais lentos, a paisagem finalmente pode ser vista. É descobrir que o amor não precisa mais de grandes arroubos dramáticos, ele se manifesta no encaixe de um abraço que já conhece todas as curvas do outro, na mão que segura a cintura com a firmeza de quem atravessou tempestades e agora só quer aproveitar o sol na areia.

​"A velhice só é um fardo para quem acredita que o valor da vida está na velocidade, e não no sentido."

​     Muitos olham para os cabelos brancos e veem o fim. Mas, se olharmos bem, a velhice pode ser o ápice da liberdade. É quando o que os outros vão pensar, perde a validade. É a hora de usar o chapéu de palha, os óculos escuros e o maiô colorido, sorrindo para o mar como se o tempo fosse apenas um detalhe técnico.

​     No fim das contas, a idade avançada nos ensina que nada é realmente um fim, mas um alinhavo. Juntamos os retalhos de quem fomos, das perdas que sofremos e dos risos que demos, e costuramos tudo com o fio da gratidão.

     E nesse abraço final, descobrimos que, enquanto houver sol e alguém para segurar nossa mão... A vida ainda é um presente feito à mão, único e absolutamente macio.

​    Poética e Profunda...

Não conte os anos pelos danos,

mas pela maciez da alma que resiste.

A pele pode rugar o pano,

mas o amor é o fio que nos assiste.

​O fim não é o abismo ou o cansaço,

é o momento de colher o que foi luz.

É a calma de se perder num abraço,

onde o peso do mundo não mais reluz.

​Ser feliz no outono da existência

é descobrir que o sol ainda aquece,

que a pressa deu lugar à paciência

e que o coração, enfim, floresce.


          Por Alfredo Guilherme 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Crônica: Com quem será?...



      Essa imagem é um retrato silencioso, mas barulhento em significados. Ela captura o exato momento em que o "Com quem será?" da adolescência deixa de ser uma brincadeira na roda de amigos com o aniversariante para se tornar a celebração de uma jornada.

​     Houve um tempo em que o amor era uma profecia cantada em coro. Nas festinhas de aniversário, entre o bolo e o guaraná, os amigos formavam o tribunal do destino... “Com quem será...?” O coração de adolescente batia no ritmo daquela rima boba, e o “Vai depender " era sempre uma provocação lançada sobre algum olhar trocado no canto da sala.

​     Aos quinze anos, o amor é urgente e ruidoso. Aos sessenta, ele é sereno e essencial.

​     A foto ilustrativa não nos mostra um homem que carrega um terno azul impecável, mas sim uma história inteira nos ombros. O cabelo prateado e o olhar que busca o horizonte ou talvez o vulto daquela que finalmente preencheu o espaço vazio da canção, revelam uma verdade que os jovens raramente compreendem, no caso filhos da pretendente, na verdade o sonho de ter uma companheira não caduca com o tempo.

​     Muitos acreditam que, após décadas de estrada, o coração se aposenta. Mentira. Ele apenas se torna mais seletivo. Ele troca a ansiedade pela presença. A crônica da vida desse homem, agora emoldurada pelo sol poente e pelo balanço das palmeiras, os pés descalsos é o capítulo final de uma espera que valeu cada passo na areia.

​     O... Casamento na Praia tem um  Simbolismo... Escolher a praia para esse momento não é por acaso. O mar é o símbolo máximo do tempo  incessante, profundo, por vezes tempestuoso, mas sempre capaz de calmaria.

     Os pés descalços... Representam a humildade de quem já caminhou muito e não precisa mais de saltos ou etiquetas rígidas para saber onde pisa.

     O altar de bambu, leve, flexível, como deve ser um relacionamento na maturidade.

     ​A luz do entardecer... É o chamado "Golden Hour". Na vida, assim como na fotografia, é a luz mais bonita, aquela que suaviza as rugas e doura a alma.

​     O Veredito Final... Aquele "Vai depender" que os amigos cantavam há quarenta ou cinquenta anos atrás finalmente encontrou sua resposta.  Não dependia da sorte, do acaso ou da pressão dos colegas. Dependia da maturidade para entender que o amor é uma escolha diária, e não um sorteio de festa.

​     Hoje, o aniversariante de outrora não precisa mais que ninguém cante por ele. No silêncio das ondas, ele olha para o lado e sorri. O "Com quem será" virou "Com você". E o cenário, esse altar montado entre o céu e o oceano, é o testemunho de que nunca é tarde para começar o melhor capítulo do livro da vida.

​     Se você está planejando algo assim ou se essa foto te representou um momento real, e transmitiu uma paz contagiante. E a certeza que o amor na maturidade é acima de tudo, um ato de coragem e esperança.


​     Por Alfredo Guilherme 


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Admirável Silhueta....

 


​      Existem imagens que não pedem licença, elas simplesmente se instalam na memória através do olhar. E decidem morar lá por um bom tempo.

     Para mim, essa imagem foi o contorno contra o vidro embaçado em uma livraria, no bairro boêmio da Vila Madalena em São Paulo, numa noite em que a chuva forte, deu lugar para a tradicional garoa paulistana, que insistia em tentar apagar as cores da cidade, do lado de fora.

​     Eu estava do outro lado da rua, caminhando protegido por um guarda-chuva, quase inútil, com uma das vareta quebrada, quando a vi. A luz interna da loja iluminava um corpo feminino, ao mesmo tempo as estantes, mas ela era apenas uma sombra recortada envolta por um brilho convidativo ao olhar.

    Uma “admirável silhueta “ que parecia ter saído de um filme francês romântico em preto e branco, mas com uma doçura que nem o preto e o branco conseguiria esconder essa imagem encantadora.

​     Fiquei parado, ignorando os sapatos encharcados. Observei o modo como aquela silhueta inclinava a cabeça para ler os títulos nas prateleiras mais altas. Havia uma dança silenciosa ali, o movimento do braço que subia, a ponta dos pés que buscava um centímetro a mais, para alcançar, e sensual era o balanço leve dos seus cabelos.

​     Eu não conhecia o seu rosto, mas já estava apaixonado pela sua postura.

     ​Dizem que o amor precisa de detalhes, mas naquele momento, o detalhe era a ausência de tudo o que fosse concreto. Ela era uma promessa desenhada no escuro. Eu me peguei imaginando se o seu sorriso acompanhava a curva delicada que eu via no seu perfil, ou se o seu olhar tinha a mesma profundidade daquela sombra que me hipnotizava.

     ​Criei coragem e atravessei a rua. No meio de carros que passaram como borrões, e eu só conseguia focar naquele recorte perfeito atrás do vidro. 

     Quando empurrei a porta, o sino tocou e o calor do ambiente me atingiu.

     ​Ela se virou… E nesse instante a silhueta ganhou cor, profundidade e, finalmente, vida. A luz revelou seus olhos curiosos e o modo como mordia o lábio inferior, indecisa entre dois livros. O contorno era admirável, sim, mas a realidade... meu Deus… era covardia. A sombra que tinha me intrigado, pessoalmente, me desarmou por completo.

​      Aproximei-me, fingindo interesse em qualquer volume na prateleira ao lado. Ela sorriu com o canto da boca, como se soubesse que tinha sido observada e aquele movimento compôs a moldura final de que eu precisava.

     ​- Esse é muito bom… eu disse, apontando para o livro na sua mão, embora nem tivesse visto a capa.

​     E a silhueta, agora preenchida de vida, sorriu, tornou-se o rascunho de tudo o que eu queria escrever dali em diante.

      A transição da sombra para a voz é o momento em que o encanto virou conexão, no corredor estreito da livraria, entre o cheiro de papel antigo e a chuva batendo no vidro.

​     O sorriso dela foi o golpe de misericórdia. Não era um sorriso ensaiado, era daqueles que começam nos olhos antes de chegarem à boca. Ela fechou o livro, uma edição de capa dura que eu ainda não tinha identificado e me olhou de cima a baixo, notando meus sapatos e a barra da calça molhada.

​     - Você deve gostar muito de ler… ela disse, com uma ponta de ironia na voz… - Ou lembrou a tempo que o teto da livraria é um dos poucos lugares secos da cidade hoje.

     ​- Ainda bem que lembrei a tempo…Confessei, sentindo que a verdade estava perigosamente estampada no meu rosto... - Vi uma silhueta do lado de fora e achei que valia o risco de pegar um resfriado para ver se o resto da imagem era tão interessante quanto o contorno.

​      Ela arqueou uma sobrancelha. A agora ela tinha sobrancelhas expressivas e um brilho desafiador no olhar.

​     - Ela então?  Perguntou, dando um passo à frente, entrando no meu espaço pessoal… - O resto da imagem passou no teste de qualidade ou você prefere só me ver como uma silhueta?

     ​- Digamos que a luz fez um excelente trabalho de preenchimento revelado você por inteira.

​     Ela soltou uma risada curta, o som mais bonito que eu ouvira em toda a semana. Estendeu o livro para mim. Era uma coletânea de poemas.

     ​- Se você não for um perseguidor literário, eu espero que seja, que tal você me ajudar a decidir. Este ou este?… Ela apontou para um outro volume, de contos clássicos, que estava na prateleira.

​     - O , de poemas… respondi, sem hesitar. - Eles combinam mais com quem faz pose de mistério diante de uma estante de livros.

​     - Eu não estava fazendo pose! Ela protestou, fingindo indignação. - Eu estava tentando decidir se levava algo para ler ou se esperava a chuva passar me deliciando, tomando um café aqui no fundo da livraria.

     ​- Bem, o café aqui é terrível… menti descaradamente, sabendo que o café deles era com grãos premiado. - Mas conheço um lugar a duas quadras daqui que serve um excelente café ou um chocolate quente que faz a chuva lá fora parecer uma benção.

​     Ela olhou para o vidro embaçado, da vitrine atrás de mim. Colocou o livro de poemas debaixo do braço e caminhou em direção ao caixa.

​     - Se eu for, você promete parar de me chamar de "silhueta" e perguntar meu nome?

​     - Prometo. Mas só depois de saborearmos um café quentinho. Algumas coisas não podem ser apressadas.

​     Ela ia pagar o livro, eu me antecipei para pagar, já na saída, abri meu guarda-chuva. Era pequeno demais para dois, o que nos forçou a quebrar a distância que as sombras impunham. A silhueta agora tinha calor, perfume de sândalo e um ombro que roçava no meu.

​     -  Meu nome é Beatriz… ela disse, baixinho, enquanto dávamos o primeiro passo na calçada molhada.

​     - Eu sou o Lucas. E, só para constar, Beatriz... a luz da iluminação aqui da rua fica muito bem em você.

     A cafeteira era pequena, com luzes baixas e o som da chuva abafado pelas paredes grossas de tijolinho. Sentados em uma mesa redonda de mármore, o vapor das xícaras subia entre eles, criando uma nova cortina, desta vez muito mais íntima.

​     - Então, Lucas... Beatriz começou envolvendo a xícara com as mãos para se aquecer. - Além de perseguir contornos em vitrines, o que mais você faz da vida quando não está debaixo de um guarda-chuva pequeno demais?

​     - Eu sou arquiteto… respondi, observando como o reflexo das luzes do café dançava nos olhos dela.  - Talvez por isso eu tenha reparado na sua silhueta primeiro. Tenho esse vício de olhar para as formas, para as linhas que dividem o espaço. Mas confesso que, no seu caso, a estrutura interna é bem mais surpreendente.

     ​Beatriz riu, mas foi um riso suave, acompanhado de um olhar pensativo.

​     - Estrutura interna? Gostei da metáfora. Quando você entrou na livraria, você correu o risco de descobrir que a pessoa poderia não combinar com o desenho que você fez dela na sua cabeça.

​     - E eu estou correndo esse risco agora?…  Perguntou, inclinando-se um pouco mais para a frente.

​     - Não, de maneira alguma…ele disse…olhando nos olhos dela.

     Abri o livro de poemas que acabara de comprar e folheando-o até parar em uma página marcada apenas pela sorte. Lucas tomou das minhas mãos escrevendo algumas palavras a lápis e fechou o livro, me devolvendo.

     - Se você esperava alguém silenciosa e misteriosa como aquela sombra na vitrine, sinto decepcionar. Eu falo demais, sou teimosa e perco as chaves de casa pelo menos duas vezes por semana.

​     - Bom, eu também não sou apenas um arquiteto observador, retruquei. - Sou péssimo em esportes, tenho pavor de altura, não curto redes sociais e, claramente, não sei escolher guarda-chuvas. Acho que estamos quites.

​     A conversa fluiu como se o roteiro já estivesse escrito há anos. Falamos de livros, de medos bobos e daquela estranha sensação de que o mundo, às vezes, conspira para que dois estranhos se molhem na mesma calçada.

​    Depois de Anos…

​    A chuva ainda parecia a mesma, batendo ritmicamente contra a janela do apartamento no 12º andar. Mas, do lado de dentro, muita coisa havia mudado.

     ​Lucas estava parado na porta do quarto, observando Beatriz sentada na poltrona perto da janela, lendo sob a luz de um abajur. O cenário era estranhamente familiar. A luz vinha de trás dela, projetando na parede oposta era a mesma admirável silhueta que ele vira na livraria dois anos antes.

​    O contorno do pescoço, o arco das costas, o ângulo do cotovelo. Tudo estava lá.

    ​Mas agora, Lucas não precisava mais imaginar o que preenchia aquela sombra. Ele sabia o tom exato da voz dela ao acordar, conhecia a cicatriz pequena no joelho dela, sabia que ela preferia poemas tristes em dias ensolarados e que o seu riso era o único som capaz de organizar o caos do seu dia.

​     Ele se aproximou e colocou a mão no ombro dela. Beatriz não se assustou, apenas inclinou a cabeça para trás, sorrindo para ele.

​     - O que foi? Amor… ela perguntou.

​     - Nada. Só admirando a vista.

​     - A chuva?

​     - Não… ele respondeu, dando um beijo no topo da cabeça dela. - A sua silhueta, ela continua sendo a minha parte favorita do dia, mas agora eu prefiro o que está por dentro dela.

     Beatriz sorriu, como se tivesse lido os pensamentos dele, e abriu o livro de poemas naquela mesma página que os uniu. 
     Na margem do papel, agora amarelado pelo tempo, havia uma anotação feita a lápis, com a letra apressada de Lucas, datada daquela primeira noite no café.

"Para a mulher que, antes de ser um rosto, foi uma luz. Que a nossa vida seja sempre assim um contorno que a gente escolhe preencher, todos os dias, com a cor que o amor decidir inventar."

     ​Ela fechou o livro devagar, sentindo o peso daquelas palavras, puxou-o para perto trocando de lugar com ele sentado no seu colo. Trocaram beijos apaixonados. 

     A sombra na parede mudou, os dois contornos se fundiram em um só, e a chuva lá fora, agora parecia apenas ser a trilha sonora de uma história que tinha deixado de ser uma silhueta para se tornar realidade.

    Lucas percebeu que, por mais que a arquitetura do mundo mudasse e os anos trouxessem novas linhas para os seus rostos, aquela admirável mulher seria sempre o seu lugar de retorno de um encontro que começou no escuro de uma vitrine e terminou no brilho de um lar, Lucas se afastou para fazer um café.

​     O silêncio da casa não era vazio, era preenchido pelo som rítmico da respiração dela no sofá e pelo estalar discreto da madeira do piso. Lucas a observou por um instante encostado na porta da cozinha. Não havia a iluminação dramática daquela antiga vitrine, apenas a luz suave do abajur de canto, que revelava a realidade sem filtros, um livro esquecido no colo, os óculos levemente tortos e o cansaço honesto de quem também construiu aquele refúgio.

​     Ele se aproximou e, ao cobri-la com a manta, percebeu que a "arquitetura" mais bonita que haviam projetado juntos não tinha paredes de concreto. 

     Era feita de paciência nos dias em que o mundo lá fora parecia desmoronar. Reconhecimento na forma como um sabia o café preferido do outro sem precisar perguntar. Permanência no fato de que, entre tantas vitrines brilhantes que a vida ofereceu, eles escolheram o reflexo um do outro.

     Ela despertou quando sentiu o peso da manta. Ajustou os óculos e encontrou o olhar de Lucas, que ainda a observava.

     ​- O que foi? Ela perguntou com a voz rouca de sono. - Tenho algo no rosto? Umas ruguinhas a mais.

​     Lucas riu baixo, sentando-se no braço do sofá.

     - Algumas linhas novas, talvez. Mas eu estava pensando na vitrine. De como você parecia inalcançável lá atrás.

​     Ela sorriu, segurando a mão dele. A pele era morna e real.

     - A vitrine era só vidro Lucas, aqui dentro tem barulho, tem conta pra pagar e tem esse seu hábito de me olhar como se eu fosse um milagre.

​     - E você não é? Ele provocou.

​     - Sou a mulher que esquece a chave na porta... ela rebateu, puxando-o para mais perto. - Mas sou a mulher que sempre vai abrir essa porta para você.

​     Lucas feliz. O encontro que começou no escuro de uma noite qualquer tinha, finalmente, encontrado o seu amanhecer definitivo. A realidade, ele descobriu, era muito melhor do que a vitrine, nela, ele podia tocar a mão que o guiava de volta para casa.  

    

     Por Alfredo Guilherme



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Crônica : Dentro do carro...

 



A avenida... um rio de metal, um rio de luzes vermelhas que não corre.

O motor vibra, um coração paciente sob minhas mãos, mas eu permaneço imóvel, preso no labirinto de um engarrafamento sem fim.

A chuva golpeia o para-brisa, com a pressa de quem deseja possuir o mundo. As janelas embaçadas erguem muralhas translúcidas, me separam do caos líquido da cidade.

Sou apenas mais um, um motorista anônimo à espera do verde no semáforo. Mas aqui dentro o silêncio tem corpo, tem ossos, tem densidade.

Não é vazio é arquitetura de pensamentos que se transformam em palavras mortas sob o toque distraído do polegar no volante ao ritmo de uma música calma que insiste em existir.

Há ironia nisso... lá fora o mundo se derrama, se transborda, e eu me esforço para não me afogar no clima tenso.

As gotas deslizam como lágrimas que tentam me alcançar, mas falham. Batendo, escorrendo, voltando, no máximo lavam o vidro, e a couraça do carro.

O semáforo vermelho se reflete nas poças, um oráculo imóvel, um decreto de espera.

Eu sou o epicentro de uma calmaria íntima em meio à tempestade urbana. O reflexo no vidro embaçado me devolve um rosto, mapa de batalhas invisíveis, cicatrizes que a tarde cinzenta não revela.

Meu carro já não é veículo é um casulo, vidro e metal, um abrigo sobre rodas.

Os limpadores lutam por clareza, mas eu escolho a opacidade. A anatomia do meu silêncio é feita dessa resistência o direito de estar parado, cercado por carros e pessoas, algo tão cotidiano, e ainda assim ter a capacidade de se adaptar e superar adversidades.

O sinal vai abrir, buzinas vão soar, eu vou acelerar.

Mas por enquanto, sob a luz vermelha do semáforo ao compasso da chuva, sou apenas silêncio, sou apenas espera, sou apenas mais um olhar... Que contempla a própria tempestade, banhado por um mar de lanternas vermelhas a minha frente que nenhuma chuva pode apagar.


Por Alfredo Guilherme


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Luz ânbar e fios de prata...


   Dedicatória

     Para aqueles que não temem o tempo. Para os que entendem que a pele possui memória e que o vinho é apenas o fogo que a maturidade não apaga, ela refina.


 

​     O gosto suave daqueles primeiros beijos no carro incendiou nossas bocas, mas o que realmente ardia era a coragem de admitir o óbvio, não queríamos, naquele momento, apenas sair para conversar. Cedemos ao que os sentidos gritavam. Isso conferiu ao nosso encontro uma dimensão espiritual, quase predestinada.

    E fizemos o que nossos anseios desejavam.

    O Malbec era um rastro de veludo e fogo em nossas gargantas, tornando o mundo lá fora um mero detalhe esquecido. Sob a luz âmbar que recortava o quarto, cada movimento nosso era uma confissão. Não houve a hesitação comum aos desconhecidos, havia, sim, uma liberdade selvagem, como se nossas almas tivessem marcado esse encontro séculos antes de nossos corpos se tocarem.

​     Aproximei-me e vi a luz brincar com os fios de prata em seu cabelo, moldura sagrada para a urgência do seu olhar. Ali, a paz profunda deu lugar ao delírio. Minhas mãos leram sua pele como quem descobre um mapa antigo e precioso. O que era silêncio e desejo contido tornou-se uma sinfonia de respirações curtas e entregas sem reservas.

     Apesar do peso dos anos, a intimidade surgiu como se nossos corpos tivessem memória própria. Não havia o receio do novo, apenas a liberdade de quem realiza o desejo sem pedir licença. Cada centímetro revelado era uma estação de prazer, onde a maturidade celebrava a vida em sua forma mais crua e bela.

     ​O Beijo. Não o de quem se conhece agora, mas o de quem se reconhece na sede alheia. Um pacto selado de que nada seria negado. Na fusão do auge, o amor deixou de ser uma promessa futura para se tornar uma presença viva e pulsante, um grito de libertação.

​     O "continuaremos" foi escrito no suor, no calor das peles coladas e na exaustão doce que se seguiu. As taças ficaram vazias, mas nós transbordávamos. Os sorrisos entre os lençóis desalinhados eram puros, carregados da certeza de que, naquela noite, não apenas nos conhecemos, nós nos pertencemos.

     ​O amanhã entrou sem pedir licença, tingindo o quarto com um tom de mel que o tempo parecia não querer apagar. O silêncio, antes preenchido pela urgência, agora pulsava no ritmo calmo de nossas respirações. Ao abrir os olhos, vi que a embriaguez do vinho dera lugar à sobriedade do afeto. O mistério transformara-se em intimidade.

     ​Havia uma beleza crua naquele amanhecer. Sua pele, marcada pelo calor da entrega, brilhava sob os primeiros raios de sol, e os fios de prata em seu cabelo eram fios de luz sobre o travesseiro. Encontramos abrigo no meio da tempestade.

     ​Quando seus olhos encontraram os meus, o sorriso não era de despedida, mas de confirmação. O amor, que atingira sua nota mais alta no escuro, estabilizava-se agora em uma melodia suave e contínua. Beijei-te com a calma de quem já conhece cada curva. O café que viria a seguir teria o sabor daquela primeira taça de Malbec, algo que começou avassalador, mas que possui a estrutura necessária para permanecer.

     ​Saímos cúmplices, entregues ao melhor que a vida guarda.

​     Além do Horizonte do Quarto...

    ​A porta se fechou, mas o que levávamos não cabia em malas. O trajeto de volta foi marcado por um silêncio confortável, aquele que só existe entre quem não precisa mais esconder nada.

​    Já não estávamos sob a luz protegida do hotel. Agora, o sol batia no rosto, revelando as marcas que o tempo e a noite deixaram. Sentamos em uma pequena cafeteria de esquina, o aroma do grão torrado substituiu o rastro do vinho. Ali, entre o tilintar das xícaras, percebemos que a liberdade do escuro era, na verdade, um passaporte para a transparência do dia.

​     A vida real tem horários e distâncias, mas toda vez que nossas mãos se tocavam por cima da mesa, a eletricidade voltava. Descobri que o brilho nos seus olhos ao falar dos seus sonhos era tão intenso quanto o que vivemos entre os lençóis.

    ​Nossas rotinas se entrelaçaram como os fios de prata em nossos cabelos. O "continuaremos" deixou de ser o eco de uma noite para se tornar a mensagem no meio da tarde, o jantar planejado à pressa, o abraço demorado na porta. Não éramos mais apenas dois desejos realizados, éramos dois destinos que decidiram caminhar lado a lado, mantendo o fogo do Malbec aceso em cada novo amanhecer.


    ​Posfácio:

    Dizem que as grandes paixões pertencem à juventude, mas o que descobrimos entre o vinho e os fios de prata é que o desejo maduro é muito mais perigoso e belo, porque ele é consciente. Que cada leitor encontre, entre a taça e o lençol, a coragem de dizer... continuaremos.


     Por Alfredo Guilherme