Há quem teime em dizer que o amor é fogo. Fogo que consome, que queima, que exige ser alimentado por dois e só dois, sob o risco de virar cinzas. Mas quem olha para o alto percebe o engano. O amor é firmamento. É um céu imenso onde cada estrela brilha com luz própria e, longe de anular a vizinha, junta-se a ela para desenhar constelações.
Nesse horizonte, o sexo não é a chama que disputa o mesmo oxigênio. É expansão. É o próprio universo dobrando de tamanho a cada toque.
Quando os corpos se encontram nesse território sem fronteiras, as mãos parecem se multiplicar na pele. Há um idioma secreto feito de olhares, uma cumplicidade silenciosa que não pede contrato nem exige exclusividade. Ali, a palavra 'posse' perde o sentido, reina a 'partilha'. Não existem paredes ou limites sufocantes, apenas horizontes que se dobram para revelar novas paisagens.
O coração humano, quando desarmado das velhas molduras e dos velhos medos, descobre sua verdadeira natureza, ele não é quarto fechado, é casa grande. Cabe mais de um hóspede sem que a ternura de cada gesto perca o afeto, o desvelo ou a verdade. Cada presença traz sua própria luz, nenhuma ocupa o lugar da outra.
E o mundo... Ah, o mundo assiste de fora, de sobrancelhas franzidas, desconfiado com suas réguas curtas. "Como é possível?", é a pergunta norma engravatada.
Os amantes não se dão ao trabalho de explicar com lógica. Eles respondem com a linguagem da vida, “O amor não se mede pela escassez de um prato dividindo migalhas. Ele não se esgota. Ele transborda.”
Pois o amor é como um jardim em plena primavera. A rosa não exige que o girassol se feche para que ela possa abrir suas pétalas ao sol. A beleza de uma flor não rouba o encanto da outra, antes, somam-se no mesmo perfume. É como uma grande sinfonia de vozes distintas, nenhuma precisa calar para que a harmonia seja perfeita.
É, acima de tudo, a coragem de amar. Sem pedir licença ao tempo, sem se curvar à idade, sem baixar a cabeça quando o mundo insiste em erguer muros e pronunciar seus "nãos". Porque onde a regra vê desordem, o coração livre enxerga apenas o seu estado mais natural, a imensidão.
Por Alfredo Guilherme

























