Quando o tédio se instala e a rotina parece um disco arranhado, a gente inventa. Inventar é o verbo preferido de quem se recusa a deixar a vida ser apenas um passar de horas. Mas, quando o assunto é o amor, o que se pode inventar?
O amor, por natureza, já é uma invenção constante. Ele não é um dado da natureza, como a chuva ou o pôr do sol, ele é uma construção que exige manutenção diária. Inventar no amor não é criar algo do nada, mas sim dar novos significados ao que já existe.
É inventar um ritual para o café da manhã de domingo, transformando uma refeição comum em um evento sagrado de silêncio e cumplicidade. É inventar uma linguagem própria, feita de olhares, apelidos que só fazem sentido para os dois e silêncios que não pesam. É inventar desculpas para se tocar, para se olhar, para se reencontrar no meio do caos do dia a dia.
No amor, a gente inventa o perdão quando a mágoa tenta se instalar. Inventamos paciência quando a convivência testa os limites. Inventamos surpresas que não precisam de dinheiro, apenas de atenção, um bilhete escondido, uma música enviada no meio da tarde, um elogio inesperado sobre algo que o outro nem sabia que a gente notava.
Inventar no amor é, acima de tudo, a arte de não deixar o outro se tornar invisível. É a resistência contra a naturalização do afeto. Porque o perigo do amor não é o fim, é a indiferença, é o momento em que a gente para de inventar e começa a apenas repetir.
E para a manutenção diária de afeto...Então, se não tem nada para fazer, invente. Invente um novo jeito de dizer “Eu te amo” sem usar essas palavras. Invente um novo momento para o rala e rola ao apagar das luzes, vai a dica... na garagem de casa na madrugada dentro do carro... invente um novo assunto para a mesa de jantar, uma nova forma de segurar a mão amada.
O amor é uma obra inacabada, e a gente é, ao mesmo tempo, o artista e a própria matéria-prima.
Por Alfredo Guilherme



















