O designer passou noites em claro em um escritório minimalista em Seul ou Cupertino. Discutiu com engenheiros a fração de milímetro da curvatura do vidro, a textura fosca do titânio que absorve a luz sem refletir os dedos, o clique perfeito dos botões laterais. Um poema de silício e alumínio, feito para ser acariciado pela polpa dos dedos, uma joia da tecnologia moderna criada para o deleite dos sentidos.
Aí você compra o aparelho. Abre a caixa com o coração acelerado e, antes mesmo de ligar a tela, comete o sacrilégio, enfia o milagre da engenharia humana dentro de uma capinha de silicone vagabunda, e a pior de todas é aquela cheia de brilho, comprada na banca do metrô por trinta reais.
Pronto. O design ultrafino virou um paralelepípedo opaco. O toque acetinado foi substituído por essa porcaria barata. O celular perdeu a identidade, a beleza e a dignidade. Tudo em nome do medo. O pavor absoluto do chão, da quina da mesa, do destino cruel que aguarda os desatentos. Vivemos na era do celular blindado, onde a estética se curva diante da paranoia da queda.
O mais trágico é perceber que fazemos exatamente a mesma coisa fora das telas. Quantos de nós não recebemos a vida de peito aberto, com todas as suas linhas elegantes, suas vulnerabilidades táteis e sua beleza original, para logo em seguida tratarmos de providenciar uma "capinha" protetora? No amor, então, somos campeões de vendas na banquinha de acessórios de proteção emocional.
Conhecemos alguém que é puro titânio e vidro curvo. Alguém que brilha, que tem cliques perfeitos, que desperta aquela vontade de tocar sem pressa. Mas o medo do tombo fala mais alto. A lembrança daquela última tela estilhaçada na calçada da desilusão ainda dói no bolso da alma.
Então, por precaução, envelopamos o sentimento.
Colocamos uma película de distanciamento, uma capinha grossa de ironia, um para-choque de desculpas. Deixamos o amor pesado, quadrado, sem graça, mas teoricamente protegido contra quedas livres.
Passamos a vida segurando uma blindagem de insegurança, esquecendo a textura do que está escondido ali dentro. O amor fica sem riscos, é verdade. Mas também fica sem toque, sem o frescor do material original, sem o design que o destino planejou.
Há quem diga que o amor precisa ser vivido "na pele", com o risco do risco, com a iminência do trinco. Porque um coração intacto, que nunca sofreu um arranhão e passou a vida protegido por uma capa de covardia, pode até chegar ao fim da jornada sem nenhuma marca na carcaça. Mas vai terminar sem nunca ter sabido o que é, de fato, a beleza de sentir o mundo de verdade.
Talvez seja hora de tirar o celular da capinha. E algumas outras coisinhas do peito também. Se quebrar, a gente junta os pedaços ou aprende a conviver com as cicatrizes.
Por Alfredo Guilherme





























