domingo, 8 de fevereiro de 2026

Admirável Silhueta....

 


​      Existem imagens que não pedem licença, elas simplesmente se instalam na memória através do olhar. E decidem morar lá por um bom tempo.

     Para mim, essa imagem foi o contorno contra o vidro embaçado em uma livraria, no bairro boêmio da Vila Madalena em São Paulo, numa noite em que a chuva forte, deu lugar para a tradicional garoa paulistana, que insistia em tentar apagar as cores da cidade, do lado de fora.

​     Eu estava do outro lado da rua, caminhando protegido por um guarda-chuva, quase inútil, com uma das vareta quebrada, quando a vi. A luz interna da loja iluminava um corpo feminino, ao mesmo tempo as estantes, mas ela era apenas uma sombra recortada envolta por um brilho convidativo ao olhar.

    Uma “admirável silhueta “ que parecia ter saído de um filme francês romântico em preto e branco, mas com uma doçura que nem o preto e o branco conseguiria esconder essa imagem encantadora.

​     Fiquei parado, ignorando os sapatos encharcados. Observei o modo como aquela silhueta inclinava a cabeça para ler os títulos nas prateleiras mais altas. Havia uma dança silenciosa ali, o movimento do braço que subia, a ponta dos pés que buscava um centímetro a mais, para alcançar, e sensual era o balanço leve dos seus cabelos.

​     Eu não conhecia o seu rosto, mas já estava apaixonado pela sua postura.

     ​Dizem que o amor precisa de detalhes, mas naquele momento, o detalhe era a ausência de tudo o que fosse concreto. Ela era uma promessa desenhada no escuro. Eu me peguei imaginando se o seu sorriso acompanhava a curva delicada que eu via no seu perfil, ou se o seu olhar tinha a mesma profundidade daquela sombra que me hipnotizava.

     ​Criei coragem e atravessei a rua. No meio de carros que passaram como borrões, e eu só conseguia focar naquele recorte perfeito atrás do vidro. 

     Quando empurrei a porta, o sino tocou e o calor do ambiente me atingiu.

     ​Ela se virou… E nesse instante a silhueta ganhou cor, profundidade e, finalmente, vida. A luz revelou seus olhos curiosos e o modo como mordia o lábio inferior, indecisa entre dois livros. O contorno era admirável, sim, mas a realidade... meu Deus… era covardia. A sombra que tinha me intrigado, pessoalmente, me desarmou por completo.

​      Aproximei-me, fingindo interesse em qualquer volume na prateleira ao lado. Ela sorriu com o canto da boca, como se soubesse que tinha sido observada e aquele movimento compôs a moldura final de que eu precisava.

     ​- Esse é muito bom… eu disse, apontando para o livro na sua mão, embora nem tivesse visto a capa.

​     E a silhueta, agora preenchida de vida, sorriu, tornou-se o rascunho de tudo o que eu queria escrever dali em diante.

      A transição da sombra para a voz é o momento em que o encanto virou conexão, no corredor estreito da livraria, entre o cheiro de papel antigo e a chuva batendo no vidro.

​     O sorriso dela foi o golpe de misericórdia. Não era um sorriso ensaiado, era daqueles que começam nos olhos antes de chegarem à boca. Ela fechou o livro, uma edição de capa dura que eu ainda não tinha identificado e me olhou de cima a baixo, notando meus sapatos e a barra da calça molhada.

​     - Você deve gostar muito de ler… ela disse, com uma ponta de ironia na voz… - Ou lembrou a tempo que o teto da livraria é um dos poucos lugares secos da cidade hoje.

     ​- Ainda bem que lembrei a tempo…Confessei, sentindo que a verdade estava perigosamente estampada no meu rosto... - Vi uma silhueta do lado de fora e achei que valia o risco de pegar um resfriado para ver se o resto da imagem era tão interessante quanto o contorno.

​      Ela arqueou uma sobrancelha. A agora ela tinha sobrancelhas expressivas e um brilho desafiador no olhar.

​     - Ela então?  Perguntou, dando um passo à frente, entrando no meu espaço pessoal… - O resto da imagem passou no teste de qualidade ou você prefere só me ver como uma silhueta?

     ​- Digamos que a luz fez um excelente trabalho de preenchimento revelado você por inteira.

​     Ela soltou uma risada curta, o som mais bonito que eu ouvira em toda a semana. Estendeu o livro para mim. Era uma coletânea de poemas.

     ​- Se você não for um perseguidor literário, eu espero que seja, que tal você me ajudar a decidir. Este ou este?… Ela apontou para um outro volume, de contos clássicos, que estava na prateleira.

​     - O , de poemas… respondi, sem hesitar. - Eles combinam mais com quem faz pose de mistério diante de uma estante de livros.

​     - Eu não estava fazendo pose! Ela protestou, fingindo indignação. - Eu estava tentando decidir se levava algo para ler ou se esperava a chuva passar me deliciando, tomando um café aqui no fundo da livraria.

     ​- Bem, o café aqui é terrível… menti descaradamente, sabendo que o café deles era com grãos premiado. - Mas conheço um lugar a duas quadras daqui que serve um excelente café ou um chocolate quente que faz a chuva lá fora parecer uma benção.

​     Ela olhou para o vidro embaçado, da vitrine atrás de mim. Colocou o livro de poemas debaixo do braço e caminhou em direção ao caixa.

​     - Se eu for, você promete parar de me chamar de "silhueta" e perguntar meu nome?

​     - Prometo. Mas só depois de saborearmos um café quentinho. Algumas coisas não podem ser apressadas.

​     Ela ia pagar o livro, eu me antecipei para pagar, já na saída, abri meu guarda-chuva. Era pequeno demais para dois, o que nos forçou a quebrar a distância que as sombras impunham. A silhueta agora tinha calor, perfume de sândalo e um ombro que roçava no meu.

​     -  Meu nome é Beatriz… ela disse, baixinho, enquanto dávamos o primeiro passo na calçada molhada.

​     - Eu sou o Lucas. E, só para constar, Beatriz... a luz da iluminação aqui da rua fica muito bem em você.

     A cafeteira era pequena, com luzes baixas e o som da chuva abafado pelas paredes grossas de tijolinho. Sentados em uma mesa redonda de mármore, o vapor das xícaras subia entre eles, criando uma nova cortina, desta vez muito mais íntima.

​     - Então, Lucas... Beatriz começou envolvendo a xícara com as mãos para se aquecer. - Além de perseguir contornos em vitrines, o que mais você faz da vida quando não está debaixo de um guarda-chuva pequeno demais?

​     - Eu sou arquiteto… respondi, observando como o reflexo das luzes do café dançava nos olhos dela.  - Talvez por isso eu tenha reparado na sua silhueta primeiro. Tenho esse vício de olhar para as formas, para as linhas que dividem o espaço. Mas confesso que, no seu caso, a estrutura interna é bem mais surpreendente.

     ​Beatriz riu, mas foi um riso suave, acompanhado de um olhar pensativo.

​     - Estrutura interna? Gostei da metáfora. Quando você entrou na livraria, você correu o risco de descobrir que a pessoa poderia não combinar com o desenho que você fez dela na sua cabeça.

​     - E eu estou correndo esse risco agora?…  Perguntou, inclinando-se um pouco mais para a frente.

​     - Não, de maneira alguma…ele disse…olhando nos olhos dela.

     Abri o livro de poemas que acabara de comprar e folheando-o até parar em uma página marcada apenas pela sorte. Lucas tomou das minhas mãos escrevendo algumas palavras a lápis e fechou o livro, me devolvendo.

     - Se você esperava alguém silenciosa e misteriosa como aquela sombra na vitrine, sinto decepcionar. Eu falo demais, sou teimosa e perco as chaves de casa pelo menos duas vezes por semana.

​     - Bom, eu também não sou apenas um arquiteto observador, retruquei. - Sou péssimo em esportes, tenho pavor de altura, não curto redes sociais e, claramente, não sei escolher guarda-chuvas. Acho que estamos quites.

​     A conversa fluiu como se o roteiro já estivesse escrito há anos. Falamos de livros, de medos bobos e daquela estranha sensação de que o mundo, às vezes, conspira para que dois estranhos se molhem na mesma calçada.

​    Depois de Anos…

​    A chuva ainda parecia a mesma, batendo ritmicamente contra a janela do apartamento no 12º andar. Mas, do lado de dentro, muita coisa havia mudado.

     ​Lucas estava parado na porta do quarto, observando Beatriz sentada na poltrona perto da janela, lendo sob a luz de um abajur. O cenário era estranhamente familiar. A luz vinha de trás dela, projetando na parede oposta era a mesma admirável silhueta que ele vira na livraria dois anos antes.

​    O contorno do pescoço, o arco das costas, o ângulo do cotovelo. Tudo estava lá.

    ​Mas agora, Lucas não precisava mais imaginar o que preenchia aquela sombra. Ele sabia o tom exato da voz dela ao acordar, conhecia a cicatriz pequena no joelho dela, sabia que ela preferia poemas tristes em dias ensolarados e que o seu riso era o único som capaz de organizar o caos do seu dia.

​     Ele se aproximou e colocou a mão no ombro dela. Beatriz não se assustou, apenas inclinou a cabeça para trás, sorrindo para ele.

​     - O que foi? Amor… ela perguntou.

​     - Nada. Só admirando a vista.

​     - A chuva?

​     - Não… ele respondeu, dando um beijo no topo da cabeça dela. - A sua silhueta, ela continua sendo a minha parte favorita do dia, mas agora eu prefiro o que está por dentro dela.

     Beatriz sorriu, como se tivesse lido os pensamentos dele, e abriu o livro de poemas naquela mesma página que os uniu. 
     Na margem do papel, agora amarelado pelo tempo, havia uma anotação feita a lápis, com a letra apressada de Lucas, datada daquela primeira noite no café.

"Para a mulher que, antes de ser um rosto, foi uma luz. Que a nossa vida seja sempre assim um contorno que a gente escolhe preencher, todos os dias, com a cor que o amor decidir inventar."

     ​Ela fechou o livro devagar, sentindo o peso daquelas palavras, puxou-o para perto trocando de lugar com ele sentado no seu colo. Trocaram beijos apaixonados. 

     A sombra na parede mudou, os dois contornos se fundiram em um só, e a chuva lá fora, agora parecia apenas ser a trilha sonora de uma história que tinha deixado de ser uma silhueta para se tornar realidade.

    Lucas percebeu que, por mais que a arquitetura do mundo mudasse e os anos trouxessem novas linhas para os seus rostos, aquela admirável mulher seria sempre o seu lugar de retorno de um encontro que começou no escuro de uma vitrine e terminou no brilho de um lar.

     

     Por Alfredo Guilherme



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Crônica : Dentro do carro...

 



A avenida... um rio de metal, um rio de luzes vermelhas que não corre.

O motor vibra, um coração paciente sob minhas mãos, mas eu permaneço imóvel, preso no labirinto de um engarrafamento sem fim.

A chuva golpeia o para-brisa, com a pressa de quem deseja possuir o mundo. As janelas embaçadas erguem muralhas translúcidas, me separam do caos líquido da cidade.

Sou apenas mais um, um motorista anônimo à espera do verde no semáforo. Mas aqui dentro o silêncio tem corpo, tem ossos, tem densidade.

Não é vazio é arquitetura de pensamentos que se transformam em palavras mortas sob o toque distraído do polegar no volante ao ritmo de uma música calma que insiste em existir.

Há ironia nisso... lá fora o mundo se derrama, se transborda, e eu me esforço para não me afogar no clima tenso.

As gotas deslizam como lágrimas que tentam me alcançar, mas falham. Batendo, escorrendo, voltando, no máximo lavam o vidro, e a couraça do carro.

O semáforo vermelho se reflete nas poças, um oráculo imóvel, um decreto de espera.

Eu sou o epicentro de uma calmaria íntima em meio à tempestade urbana. O reflexo no vidro embaçado me devolve um rosto, mapa de batalhas invisíveis, cicatrizes que a tarde cinzenta não revela.

Meu carro já não é veículo é um casulo, vidro e metal, um abrigo sobre rodas.

Os limpadores lutam por clareza, mas eu escolho a opacidade. A anatomia do meu silêncio é feita dessa resistência o direito de estar parado, cercado por carros e pessoas, algo tão cotidiano, e ainda assim ter a capacidade de se adaptar e superar adversidades.

O sinal vai abrir, buzinas vão soar, eu vou acelerar.

Mas por enquanto, sob a luz vermelha do semáforo ao compasso da chuva, sou apenas silêncio, sou apenas espera, sou apenas mais um olhar... Que contempla a própria tempestade, banhado por um mar de lanternas vermelhas a minha frente que nenhuma chuva pode apagar.


Por Alfredo Guilherme


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Luz ânbar e fios de prata...


   Dedicatória

     Para aqueles que não temem o tempo. Para os que entendem que a pele possui memória e que o vinho é apenas o fogo que a maturidade não apaga, ela refina.


 

​     O gosto suave daqueles primeiros beijos no carro incendiou nossas bocas, mas o que realmente ardia era a coragem de admitir o óbvio, não queríamos, naquele momento, apenas sair para conversar. Cedemos ao que os sentidos gritavam. Isso conferiu ao nosso encontro uma dimensão espiritual, quase predestinada.

    E fizemos o que nossos anseios desejavam.

    O Malbec era um rastro de veludo e fogo em nossas gargantas, tornando o mundo lá fora um mero detalhe esquecido. Sob a luz âmbar que recortava o quarto, cada movimento nosso era uma confissão. Não houve a hesitação comum aos desconhecidos, havia, sim, uma liberdade selvagem, como se nossas almas tivessem marcado esse encontro séculos antes de nossos corpos se tocarem.

​     Aproximei-me e vi a luz brincar com os fios de prata em seu cabelo, moldura sagrada para a urgência do seu olhar. Ali, a paz profunda deu lugar ao delírio. Minhas mãos leram sua pele como quem descobre um mapa antigo e precioso. O que era silêncio e desejo contido tornou-se uma sinfonia de respirações curtas e entregas sem reservas.

     Apesar do peso dos anos, a intimidade surgiu como se nossos corpos tivessem memória própria. Não havia o receio do novo, apenas a liberdade de quem realiza o desejo sem pedir licença. Cada centímetro revelado era uma estação de prazer, onde a maturidade celebrava a vida em sua forma mais crua e bela.

     ​O Beijo. Não o de quem se conhece agora, mas o de quem se reconhece na sede alheia. Um pacto selado de que nada seria negado. Na fusão do auge, o amor deixou de ser uma promessa futura para se tornar uma presença viva e pulsante, um grito de libertação.

​     O "continuaremos" foi escrito no suor, no calor das peles coladas e na exaustão doce que se seguiu. As taças ficaram vazias, mas nós transbordávamos. Os sorrisos entre os lençóis desalinhados eram puros, carregados da certeza de que, naquela noite, não apenas nos conhecemos, nós nos pertencemos.

     ​O amanhã entrou sem pedir licença, tingindo o quarto com um tom de mel que o tempo parecia não querer apagar. O silêncio, antes preenchido pela urgência, agora pulsava no ritmo calmo de nossas respirações. Ao abrir os olhos, vi que a embriaguez do vinho dera lugar à sobriedade do afeto. O mistério transformara-se em intimidade.

     ​Havia uma beleza crua naquele amanhecer. Sua pele, marcada pelo calor da entrega, brilhava sob os primeiros raios de sol, e os fios de prata em seu cabelo eram fios de luz sobre o travesseiro. Encontramos abrigo no meio da tempestade.

     ​Quando seus olhos encontraram os meus, o sorriso não era de despedida, mas de confirmação. O amor, que atingira sua nota mais alta no escuro, estabilizava-se agora em uma melodia suave e contínua. Beijei-te com a calma de quem já conhece cada curva. O café que viria a seguir teria o sabor daquela primeira taça de Malbec, algo que começou avassalador, mas que possui a estrutura necessária para permanecer.

     ​Saímos cúmplices, entregues ao melhor que a vida guarda.

​     Além do Horizonte do Quarto...

    ​A porta se fechou, mas o que levávamos não cabia em malas. O trajeto de volta foi marcado por um silêncio confortável, aquele que só existe entre quem não precisa mais esconder nada.

​    Já não estávamos sob a luz protegida do hotel. Agora, o sol batia no rosto, revelando as marcas que o tempo e a noite deixaram. Sentamos em uma pequena cafeteria de esquina, o aroma do grão torrado substituiu o rastro do vinho. Ali, entre o tilintar das xícaras, percebemos que a liberdade do escuro era, na verdade, um passaporte para a transparência do dia.

​     A vida real tem horários e distâncias, mas toda vez que nossas mãos se tocavam por cima da mesa, a eletricidade voltava. Descobri que o brilho nos seus olhos ao falar dos seus sonhos era tão intenso quanto o que vivemos entre os lençóis.

    ​Nossas rotinas se entrelaçaram como os fios de prata em nossos cabelos. O "continuaremos" deixou de ser o eco de uma noite para se tornar a mensagem no meio da tarde, o jantar planejado à pressa, o abraço demorado na porta. Não éramos mais apenas dois desejos realizados, éramos dois destinos que decidiram caminhar lado a lado, mantendo o fogo do Malbec aceso em cada novo amanhecer.


    ​Posfácio:

    Dizem que as grandes paixões pertencem à juventude, mas o que descobrimos entre o vinho e os fios de prata é que o desejo maduro é muito mais perigoso e belo, porque ele é consciente. Que cada leitor encontre, entre a taça e o lençol, a coragem de dizer... continuaremos.


     Por Alfredo Guilherme


  

domingo, 25 de janeiro de 2026

Jorge Ben Jor...A constância do som...

   


     Imagine que um som “massa” começa a preencher o carro. Um charme que não tenta ser nada além do que é. O amor, afinal, não precisa de esforço para ser incrível.

     A maré estava pra peixe numa manhã ensolarada. Dois apaixonados desciam a serra rumo ao litoral de Santos quando Jorge Ben Jor entrou em cena. As cordas do violão vibraram no corpo deles, marcando o tempo. Entre notas e sussurros, a conversa se misturava à melodia.

     - Escuta essa voz, esse violão... Ele usa o polegar no grave e o contratempo na outra mão. É uma batida que parece o meu coração quando te vê. Não corre, flutua. É como se Jorge soubesse que, quando estou com você, não tenho pressa de chegar a lugar nenhum.

     - Já passamos por tantos dias de sol... Se hoje chover, tanto faz. Seguramos a mão um do outro em tempestades. O tempo passou, os meses voaram, e continuamos aqui. A chuva caiu lá fora, mas não molhou o que a gente construiu. Criamos o nosso próprio clima.

     Ela tocou a coxa dele, acompanhando com os dedos o balanço suave da melodia.

     - Você se tornou o meu ritmo favorito. Aprendi a ler seus silêncios e amar cada detalhe que só o tempo revela. Jorge pede para a chuva não molhar o amor dele porque sabe que é precioso ser cuidadoso. Eu te prometo continuar cuidando da gente.

     - Pode chover, pode o tempo correr. Se os próximos anos forem como os meses que já vivemos, só tenho a agradecer. Não importa o clima lá fora, desde que o meu mundo continue sendo você.

    O violão de Jorge simbolizava fidelidade e parceria. Eles já haviam enfrentado tempestades e saído secos, reforçando a segurança da relação. Olharam nos olhos, sentindo aquele frio na barriga que só o início traz.

     - Engraçado como o tempo é relativo. São só alguns meses, mas se eu fechar os olhos e ouvir esse violão, parece que já nos conhecemos de outras vidas. Jorge canta com naturalidade, a mesma que sinto quando estou com você. Nada foi forçado, tudo simplesmente fluiu.

     - Você chegou como essa chuva da música... lavando tudo, trazendo frescor. Em tão pouco tempo já sinto que você é meu lugar seguro. Quando o mundo lá fora é barulhento, basta o seu sorriso para tudo se acalmar.

     - Dizem que o início é a melhor parte, mas eu acho que a melhor parte é perceber que, a cada dia, quero mais um mês, mais um ano, mais uma vida ao seu lado. Jorge pede para a chuva parar, e eu peço para o tempo não ter pressa.

     - Pode chover ou fazer sol. Você já transformou meus dias comuns em bênção. Que venham todos os meses que o destino guardar. Você só sai da minha vida se eu for também.

     - Não vou sair... Querer mais e mais é desejar futuro sem pesar o presente.

     - Essa música me lembra a gente... não precisamos de produção. É uma elegância natural, como o seu jeito de acordar.

     - No refrão, Jorge pede... “Por favor, chuva ruim não molhe mais o meu amor assim...” Ela sorriu...

    - Ainda bem que tenho seu abraço para me proteger. Pode cair o temporal que for.

     Falar de Jorge Ben Jor é falar de alegria, balanço e suingue solar. Ele transformou o violão em percussão, criando um transe que obriga o corpo a balançar. O romance com ele não é melancólico, é vibrante.

     - Amor... Jorge canta muito, mas não pode ver o que eu vejo... o brilho dos seus olhos. Isso é o que me aquece de verdade.

     - Fique sabendo, meu querido... Estou rendida, mas de forma leve e alegre. Essa letra mostra que você está enfeitiçado por mim de um jeito positivo. E quando o violão for sumindo no fade out, você pode me beijar no acostamento e dizer: “Eu te amo. Obrigado por ser o motivo dessa música fazer sentido hoje.”

     - Vamos deixar essa música ser a trilha sonora do que estamos construindo. Daqui a dez anos, quando ela tocar, quero lembrar exatamente do brilho dos seus olhos hoje.

     Eles pararam o carro. O beijo selou a promessa.

     “Chove Chuva” é mais que uma canção, é um mantra, uma declaração de amor inesquecível. Enquanto o mundo corre lá fora, Jorge cria uma bolha de intimidade. E dentro dela, o tempo dança com eles e eles dançam com o tempo.

     Por Alfredo Guilherme


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Crônica: O Banquete da Escassez...



​      Sentaram-se à mesa como quem se prepara para um duelo de esgrima. As armas, porém, eram sílabas e o campo de batalha, um desejo represado ou, para ser mais exato, o puro tesão, contido.

    ​Ele encarava a porcelana vazia do prato, ela, transbordava do vinho no cristal. No centro da mesa, quase palpável, pairava aquele... "Estranho gozo"... A satisfação de não se pertencerem por inteiro, guardando sempre uma margem para o erro e um respiro para a dúvida.

​    Eram arquitetos do atalho da incompletude. Sabiam, com uma lucidez cortante, que se atingissem a plenitude, aquela 'mornidão' doméstica e previsível, o encanto poderia desabar em cinzas. Preferiam o desvio, por atalhos para estarem juntos, exigiam que ouvesse, o atrito elétrico entre o que queriam e o que se negavam a ter.

​    Foi então que ele lançou o primeiro oxímoro da noite... - Nossa distância é o que mais nos aproxima, disse ele, com a leveza de quem pede uma garrafa de vinho de uma safra especial ao garçom.

​    Ela sorriu, aceitando o convite para esse jogo. Passaram a se desfiar em contradições deliciosas, amarrados pelo avesso por um fio de seda... Falavam de uma "liberdade aprisionada", de um "silêncio ensurdecedor" que gritava entre os talheres. Criavam sintagmas capazes de angustiar qualquer gramático, mas que, para eles, eram a única tradução possível. Ergueram castelos feitos de "sim" e "não" pronunciados no mesmo fôlego.

​    O ápice da noite deu-se quando o assunto roçou o sexo em seus corpos. Não havia fome, mas urgência. Não havia sede, nesse deserto vasto em que viviam. Debateram, com uma volúpia quase cerebral, o grande impace... "O porque da falta de apetite sexual".

​    Concluíram que não era desinteresse. Era uma espécie de "luxúria casta". Desejavam-se com tal intensidade que o ato físico parecia uma simplificação grosseira, uma tradução mal feita do que realmente sentiam. 

    Preferiam o gozo das palavra, a ereção da ideia, o orgasmo abstrato do conceito. Alimentavam-se da própria carência, e era justamente essa falta que os mantinha, paradoxalmente, inteiros.

​    Ao final da noite, levantaram-se sem tocarem em suas mãos, caminharam lado a lado. Ainda assim, transbordavam intimidade.

​    É preciso conhecer muito bem a intimidade mais profunda do outro e não está no toque, mas no conhecimento silencioso do outro, e na capacidade de ser incompleto estando ao lado.

    

     Por Alfredo Guilherme



domingo, 11 de janeiro de 2026

Crônica: Mistério dos Seios ...


       Os seios não são apenas curvas, são enigmas que atiçam a imaginação.  

     Eles se erguem como desafio, se escondem como promessa. São o território onde o olhar se perde e o desejo os encontra.  

     Na penumbra de um olhar, os seios surgem como horizonte de desejo. São mares que se agitam ao menor toque, se tornam colinas que guardam o sopro da feminilidade. O erotismo deles não está apenas na nudez, mas na sugestão no tecido que desliza, na respiração que os faz dançar, no silêncio cúmplice de quem os observa

     Há uma insolência neles, o jeito como se insinuam sob o tecido de uma blusa de seda, se oferecem ao acaso de um toque. São pele viva de prazer, guiando o corpo para a vertigem. Em cada movimento guiam o corpo para a vertigem, um convite para cada suspiro ser uma provocação.  

     Os seios carregam o poder de transformar silêncio em delírio. Não precisam de palavras, basta o contorno, o ritmo da respiração, o arrepio que percorre a pele. Eles são poesia erótica em carne viva de abundância e de prazer, mas se eles falacem... diriam... “Aproxime-se” quando se erguem, dizem “Espere” quando se escondem… Por serem símbolos de prazer e de poder, são capazes de transformar o instante mais banal em ritual de sedução.  

     E quando revelados, não são apenas vistos, são celebrados. O olhar que os descobre não é inocente, é cúmplice, é faminto, é reverente. Porque os seios não pertencem apenas ao corpo, pertencem ao imaginário, ao desejo, ao fogo que consome e renova.  

     Assim, entre o sagrado e o profano, eles permanecem como o mais provocante dos símbolos, não apenas como fonte de vida, mas também... Um convite eterno à perdição deliciosa na união de corpos. 


      Por Alfredo Guilherme 



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Reflexões... Entre Objetos e Metáforas...



          A borboleta e a tela...

   
     
Havia uma mesa, e sobre ela um celular adormecido. Sua tela clara quando se tornava negra era como um lago sem a luz do luar, um espelho de nada, à espera de rostos que nunca chegavam.

    Então, vinda de um lugar que não se sabe de onde, uma borboleta pousou.
    Era frágil e livre, como se trouxesse nos olhos a lembrança do vento.

    E naquele instante, a tela perdeu sua autoridade de oráculo.
    Nenhuma mensagem, nenhuma chamada, nenhum alerta tinha mais sentido do que o simples bater de asas.

    A borboleta não sabia de aplicativos.
    Não conhecia senhas.
    Não entendia de algoritmos.
    Mas carregava um segredo antigo…
    "O que é vivo só se revela no silêncio atento".

    E assim ficou...
    Pousada no escuro da tela, era a metáfora de tudo o que esquecemos quando escolhemos a vida que brilha por dentro do vidro em vez da que dança voando no ar em liberdade fora da tela.


    O copo e a sede...

    Na mesa esquecida, um copo com água. Transparente, silencioso, paciente.
    Do lado, alguém com a boca seca, rolando telas no celular, como quem procura um gole que nunca vem.

    O copo não vibra, não emite alerta, mas guarda dentro dele a resposta... "A sede não se mata em pixels, só em goles que descem pela garganta e lembram que estamos vivos".


     A janela e o vento...

Havia uma janela fechada.
    Do lado de fora, o vento fazia festa, trazia cheiros de chuva, vozes de passarinhos, e um convite sem palavras.

    Mas dentro, alguém preferia o ar-condicionado constante, previsível, sem surpresas no frescor do ambiente.
    Até que uma fresta se abriu, e o vento entrou, desarrumando os cabelos, derrubando papéis, bagunçando certezas e refinando o ar.

    Foi nesse instante que se descobriu, que a vida não gosta de controles e seus botões de ligar e desligar, ela prefere... "Janelas abertas".


 A chave e a porta...

No bolso, uma chave esquecida...

     De uma porta que nunca se abriu de verdade.
     As pessoas passavam, por ela, todos os dias, sempre olhando para baixo, como quem procura caminhos em mapas digitais na tela do celular.

     Mas um dia, por acaso, a chave caiu do bolso,  rolou até a porta... E no encaixe exato, fez-se o estalo.

     Atrás da silenciosa madeira, havia um quintal, com árvores e flores que ninguém fotografava, e um banco gasto pelo tempo, em um gramado verde esmeralda.
     Ali, a vida estava inteira, esperando o gesto simples de girar a chave e olhar para a vida e viver o melhor dela.


     Por Alfredo Guilherme 



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um conto contado : União sólida...




      Eles eram uma moeda de um real, sólida, brilhante, indivisível. Até que o silêncio, esse ácido lento, começou a corroer a liga que os unia. Sem nenhum alarde, o centro prateado se descolou do aro dourado, revelando que a união era na verdade, um ajuste de pressão que já não suportava a verdade... Dizem que o amor é uma liga metálica, forjada para resistir ao manuseio bruto dos nossos dias, mas não se separam, a não ser por omissão.


       (Ela... para ele...)
       Eu sempre fui o teu contorno. Passei anos acreditando que minha missão era te proteger, te apertar contra mim para que o mundo visse em nós uma peça única, um valor indivisível. Eu era o ouro que brilhava na vitrine da nossa vida social, você era o meu lastro, o meu centro prateado.

​      Mas hoje, deitados sobre este linho do lençol que mais parece uma areia movediça de silêncios, eu percebi que me tornei uma moldura com medo de te apertar nos meus braços... Eu sinto o teu ser, logo ali, a poucos milímetros de distância, mas não me atrevo a me mover. Tenho medo de que, se eu tentar te abraçar de novo, você descubra que meus desejos cresceram para dentro, criando arestas que a sua segurança não suportaria.

​     A gente se perdeu na liberdade. E você se calou para não me ferir com suas vontades mais cruas, e eu me tornei rígida para que você nunca suspeitasse das minhas. Criamos uma etiqueta para o amor, e sexo, uma polidez que, aos poucos, foi desgastando a liga que nos unia. Somos dois prisioneiros de uma perfeição que inventamos. Eu, o círculo, e você, o núcleo central.

​     Olho para o vazio e a distância, que você deixou em mim e vejo o deserto. É curioso como a liberdade de ser quem somos parece mais perigosa do que a segurança de sermos sós, mesmo estando juntos. Queria que você soubesse que eu trocaria todo o brilho das minhas bordas por um minuto de uma verdade que nos fizesse tremer, eu sigo aqui, fingindo que ainda sou inteira.

​      Somos o retrato de um "nós" que desabou para dentro. Estamos no mesmo lençol, na mesma foto. Mas, entre o meu dourado e o teu brilho fosco, ouço o teu eco. Sinto o frio do teu metal roçar a memória da minha pele, mas permaneço aqui, imóvel, como se o peso que carrego no peito me impedisse de rolar de volta para o teu abraço.


      (Ele... para ela...)
      Me descolei de você porque não aguentava mais a pressão de ser exatamente o que você esperava que eu fosse.Tive medo de que, se eu confessasse os meus desejos mais íntimos, aqueles que não têm o brilho limpo da nossa rotina, eu acabaria por arranhar o teu dourado. Eu me tornei menor para não te incomodar, e nesse processo de encolhimento, nasceu esse espaço entre nós.

​     O que você chama de distância, eu chamo de preservação. ​O meu silêncio não é falta de querer, é o medo de que o meu querer seja vasto demais para o teu círculo.​ A minha imobilidade não é desdém é o receio de que, ao tentar me encaixar novamente, a gente descubra que as partes originais juntas, nunca existiu, que fomos apenas dois metais forçados a uma união expostos como um erro de cunhagem

     Mas onde está a poesia do toque? Onde está o risco de sermos uma liga nova, derretida e misturada? ​Mas entre o meu desejo e a tua borda dourada, existe uma parede invisível da nossa liberdade vigiada. Somos vizinhos de um abismo. E, enquanto você não aceitar o meu núcleo imperfeito, e eu não confiar na tua moldura para me acolher sem me sufocar, seremos apenas duas peças de metal esperando que o tempo nos oxide, até que não sobre nada além de pó e da lembrança de uma moeda que nunca se permitiu ser gasta de verdade.

​     Depois deste diálogo...  

​     Sob a luz fraca do abajur, da sala, as mãos de ambos se encontraram por acaso ao lado das duas partes da moeda. Não houve um susto, apenas um reconhecimento. Ele tocou o centro prateado, ela, o aro dourado. Naquele instante, o silêncio de ambos que antes era um muro, transformou-se em uma ponte de vidro.

​     Não houve exagerados pedidos de perdão ou promessas de que tudo voltaria a ser como antes. Eles entenderam, no toque frio do metal, que o tempo tinha dilatado o dourado e o gasto prateado da moeda tinha se separado, e que nunca mais poderia ser a mesma de 2025. 

     ​Com um movimento lento, ele deslizou o núcleo prateado para dentro do círculo dourado dela. Não foi um encaixe perfeito, pois havia uma pequena cicatriz, a ser curada para 2026. Mas foi justamente nessa cicatriz que eles encontraram a liberdade que faltava. 

​      Eles não voltariam a ser "um real". Tornaram-se algo mais valioso e menos comercial, um par que aceita a própria fragmentação. Decidiram que a beleza não estava na perfeição da cunhagem, mas na coragem de permanecerem juntos, mesmo sabendo que agora eram feitos de partes que podem, a qualquer momento, se soltar de novo.

     Descobriram que o amor não precisa ser uma peça fundida e estática, mas um reencontro constante de partes que aprenderam a ser livres, mesmo quando escolhem, deliberadamente, o abraço do mesmo metal.



       Por Alfredo Guilherme





quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

 


     Olá, pessoal!

​     O final do ano chegou e eu não poderia deixar passar sem agradecer a cada um de vocês que acompanhou o blog nestes últimos meses. Cada comentário, curtida e compartilhamento é o que mantém este espaço vivo.

​     Desejo que o Natal de vocês seja repleto de luz e que o Ano Novo traga fôlego renovado para tirarmos todos os planos do papel. Que em 2026 continuemos aprendendo e crescendo juntos por aqui!

​     Boas festas e muito obrigado por fazerem parte da nossa comunidade.

     Alfredo Guilherme 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Crônica : Confeitaria Íntima & Amores Confeitados...

 


      O amor deles tinha um defeito grave, era doce demais para caber só na imaginação. Eles eram um casal perigoso, não por ciúmes, não por brigas, mas porque jamais passaram um dia sem cometer um pequeno delito de gula amorosa.

      Tudo começou inocente. Um chocolate, um pudim aqui, um brigadeiro acolá, aquela mania de comer sobremesa antes do prato principal porque segundo eles “A vida é imprevisível demais pra deixar o melhor pro fim”.

     Mas ninguém imaginava que a relação deles com doces, literalmente, ia transbordar para outras áreas… Especialmente para o quarto, que sempre fora na visão geral um ambiente pacato, dedicado ao descanso, sono e ao silêncio... Até aquela sexta-feira… Quando eles levaram a confeitaria para dentro do próprio quarto.

     Não havia malícia explícita nisso apenas a teimosa convicção de que amor temperado com açúcar não engorda, só expande a alma.
E assim, decidiram transformar o quarto num templo gastronômico das emoções imprudentes.

     Era uma noite quente, dessas que fazem a gente questionar se realmente vale a pena ser adulto sem viver esses momentos. E pronto. A poesia do caos começou. 

     Ela entrou no quarto segurando uma bandeja com os ingredientes, como quem leva um segredo perigoso, um olhar de quem estava prestes a cometer poesia ou crime, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

     - Amor, isso aqui vai dar errado... Devemos seguir receita?  Ela perguntou, com o cabelo preso com uma colher de sorvete.

     - Jamais seguir a receita... ele respondeu. - O amor não leva medidas, tudo que dá errado viram boas lembranças... ele respondeu, como um sábio totalmente irresponsável.

     Foi aí que o doce de leite encontrou um destino alternativo. Eles não se tocavam se provavam, como quem descobre sabores antigos escondidos na pele.

     Não estavam se amando nas preliminares se é sim se confeitizando. Era uma mistura de sedução e festa da uva, intercalando com goles de um encorpado vinho.

     A cama virou laboratório de confeitaria, um fio de calda escorrendo pelo travesseiro, um floco de chocolate com  chantilly, pousando no ombro dela como se fosse neve tropical, uma cereja teimosa que insistia em rolar para direções filosóficas. e molhadas de desejos.

     - Estamos parecendo dois confeiteiros sem diploma... ela riu, cheia de doce até na alma.
     - Somos dois apaixonados nosso amor é uma sobremesa performática... 
ele corrigiu... E quem é que discorda de um homem com doce de leite pelo corpo e com chantilly nos cantos dos lábios?

     A verdade é que havia algo profundamente humano e deliciosamente afetivo,  naquela bagunça açucarada. Eles eram adultos, sim, mas adultos que se permitiam se lamber e sugar, no meio da luxúria, e isso já era poesia suficiente.

     A cada toque, não era pele que encontravam, era sabor. A cada gargalhada, os corpos ganhava um novo ingrediente, uma nova lembrança pegajosa que ficaria impregnada na pele para se saciarem.

     Se amaram adocicados, já exaustos e com cheiro de confeitaria clandestina, continuaram abraçados no lençol que não veria um elogio da máquina de lavar. Em silêncio contemplaram o teto com a serenidade de missionários que cumpriram um ritual místico.

      - Amor… ela disse, com a voz doce demais para ser natural...  - Acho que inventamos a “Confeitaria Erótica”, você acha que existe limite, quando a gente ama alguém?

     - Claro que existe... ele disse.  - Só que a gente acabou de ultrapassar.

     Riram juntos, como cúmplices da própria maluquice adocicada. Adormeceram grudados, não pela paixão, mas porque doce de leite que endureceu mais rápido do que eles pensavam.

     E amanheceram com uma certeza nova. O amor, quando é bom, tem sempre gosto de sobremesa, e um pouco de sujeira poética pelo lençol como testemunha que ficou pra contar história.

     Bom !!!… Se isso não é amor, nada mais é.

     

     Por Alfredo Guilherme



terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Crônica : 0 Charme do Pântano...

 



​     Acordei com a sensação estranha de que meu travesseiro cheirava a lodo e ao mesmo tempo eu me sentia bem, me sentia, vitorioso, meio confuso também... Não era um cheiro ruim, entendam bem. Era aquele aroma de terra molhada onde a vida acontece fervilhando, escondida sob a superfície. 

    Tinha acabado de sonhar com um jacaré e um sapo. Juntos... Na minha sala cheia d'água... Aí já viu né... Corri para o onipresente "Livro dos Sonhos" da internet, que é sem dúvidas... O oráculo moderno das nossas neuroses matinais. 

    O veredito saltou na tela do celular com a sutileza de um neon piscante... "Jacaré e sapo juntos indicam domínio das artes da sedução e uso de atrativos físicos para obter aprovação do sexo oposto."

​     Caramba... Eu congelei na frente da tela do celular, corri para me olhar no espelho. Olhei para o meu reflexo. Cabelo amassado do lado esquerdo, olheiras de quem maratonou série ruim, e ainda usava uma camiseta que você ganha de quem viaja para as praias afrodisíacas do nordeste e te traz uma de presente com dizeres “Eu ❤️ amo Maceió” e você nunca vai usar ela para sair na rua.

     Naquele instante nela, deveria estar escrito em nome da biologia evolutiva, ... “O Don Juan do pântano”...

​      Mas para escrever essa crônica exigiu uma investigação. Se o subconsciente diz que sou um mestre da sedução anfíbia e reptiliana, quem sou eu para discordar de Freud e seus zoológicos mentais? Comecei a analisar a lógica da coisa. E, surpreendentemente, ela fazia sentido.

​     O Jacaré não é o sedutor clássico. Ele não é o pavão que abre as asas como um leque e dança. O jacaré é o mestre do timing. É a sedução de sangue frio. Ele fica ali, boiando, como quem não quer nada, parecendo um tronco inofensivo, apenas dois olhos vidrados na superfície. Ele não corre atrás, ele atrai pela curiosidade ou pela falsa sensação de segurança. A "arte da sedução" do jacaré é a paciência. É saber que, se você ficar parado na posição certa, com o sorriso certo, aquela boca cheia de dentes, a presa ou o amor da sua vida acaba vindo beber água na sua margem.

​     Já o Sapo... ah, o sapo é o malandro da história. Se o jacaré vence pelo perigo estático, o sapo vence pela lábia. É o coaxar. É a conversa mole no ouvido. O sapo tem aquela pele úmida, meio viscosa, que a gente finge que não gosta, mas que carrega uma textura de realidade. E tem, claro, o mito do feitiço, que o príncipe virou sapo. A sedução do sapo reside na promessa do o que eu posso vir a ser. Ele usa a sua fisicalidade, o papo inchado, o pulo desengonçado, para chamar a atenção. É o sujeito que não é bonito, mas é "simpático", que ganha no cansaço e na insistência.

​     O sonho estava me dizendo, então, que eu opero nesse cruzamento perigoso entre a mordida fatal e o coaxar melódico.

​     Saí de casa me sentindo diferente…  Entrei na padaria não como o cliente que pede uma "média e pão na chapa", mas como o predador do balcão. Estufei o peito, meu momento sapo, e lancei um olhar fixo e penetrante para a atendente meu momento jacaré.

​     - Vai querer o de sempre ? Ela perguntou, sem nem olhar no meu rosto, matando minha performance reptiliana.

​     - Hoje não, respondi, tentando colocar uma voz grave e sedutora, um coaxar de barítono. - Hoje eu quero um suco de laranja sem açúcar, e um sonho. Notaram né, que merda de pedido foi o meu, suco sem açúcar e um sonho ultradoce, mas tudo bem, estava no meu momento de sedução. Ela me entregou o suco, e um saquinho de papel com o doce cheio de creme.

     ​Saí rindo de mim mesmo, ainda mordendo o açúcar do sonho. Talvez o livro dos sonhos exagerou na parte do "domínio formal e científico dos sonhos, e durante o estudo da onirologia, os caras viajaram na maionese.

     Ou talvez a sedução real seja exatamente isso, saber que a gente é meio bicho, meio desajeitado, que às vezes a gente precisa ficar quieto como um tronco e às vezes precisa fazer barulho pra ser notado.

​     E no resumo da ópera… No fim das contas, a atração física que o sonho mencionava não era sobre ter o corpo malhado com barriga de tanquinho. Era sobre ter a casca grossa, para aguentar os foras e a pele fria, para não esquentar a cabeça.

​     Cá, com meus botões eu pensei… No pântano das relações modernas, quem tem paciência de jacaré e lábia de sapo, de fato, nunca ficam muito tempo sem se dar bem na arte do amor, ou seja nunca morrem de fome... Se é que você entendeu…


    Por Alfredo Guilherme 


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Manifesto... Entre Lençóis....

 


        Eu não sou estatística.  
      Não sou estereótipo. 
      Sou voz que rasga o silêncio. 
      Sou corpo que exige respeito.

     Entre lençóis, não há pudor. Há pele. Há suor. Há desejo. Mas cuidado, o desejo também carrega história. Carrega séculos de estereótipos, de fantasias coloniais, de olhares que reduziram corpos a rótulos simplesmente.

     E aí, o elogio virava ferida. A carícia virava lembrança de opressão. O prazer se contaminava com preconceito, hoje vivemos outra realidade.

     Mas amar é revolução. Amar é desaprender…  Desaprender frases herdadas, desaprender o costume de transformar o amor apenas em experiência privada, desaprender o vício de hierarquizar corpos. sendo que ele pode constituir-se como prática de resistência e emancipação.

     Amar é escutar… É perguntar... O que te fere?...  É responder... Meu prazer não é poder, é respeito.

     Liberdade se existir correntes… Liberdade é quebrá-las. Intimidade não é exotizar. Intimidade é reconhecer o outro por inteiro.

     Entre, lençóis e corpos, ardentes descobrimos que o verdadeiro gozo não nasce da hierarquia, mas da leveza de se ver humano, sem pudor, sem muros, sem grades, sem máscaras.

     E assim, no silêncio da noite. 
     O amor se fez poesia. 
     Um pacto de desaprender.
     É um convite a reinventar o desejo. 
     Vivendo a beleza de ser livre.
     Quebrando correntes invisíveis do prazer.
       Isso é raro. É bonito. É necessário.


      Por Alfredo  Guilherme 


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crônica: Dispensa de Cor... BRASIL E SEU ARQUIVO DA HUMILIAÇÃO...



     Há documentos no Brasil que cortam mais fundo que qualquer espada. Não porque descrevem violência explícita, mas porque oficializam aquilo que nunca deveria ter sido escrito. A desumanização como política de Estado.

     Entre eles, repousa silenciosa e vergonhosa a prática imperial da “Dispensa da cor”. Um recurso jurídico que, ironicamente, dizia mais sobre a nação do que sobre o requerente.

     No século XIX, em pleno Império, pessoas pretas, livres escreviam cartas pedindo autorização para que a própria cor não fosse usada contra elas.
    Era uma súplica institucionalizada. Um ritual de humilhação administrativa. Um ato que dizia, com caligrafia elegante...

    “Rogo a Vossa Majestade que me dispense da nota de cor, para que eu possa exercer o cargo.”

    É difícil não ler isso como um epitáfio civil. Porque ali, entre carimbos e tinta desbotada, está a prova de que a modernidade brasileira se ergueu com uma lógica brutal… 'A cidadania tinha pigmento'.
    E quem não correspondia ao tom ideal precisava pedir dispensa para existir, para trabalhar, para servir ao Estado que o negava.

    A violência desse mecanismo não está apenas na desigualdade que produz, mas na pedagogia que instaura a cor como falha, o corpo preto como erro, a dignidade como concessão.

    E o mais perverso é que tudo isso era feito sem gritos, sem algemas, sem espetáculo. A brutalidade brasileira sempre gostava e ainda gosta, de ser discreta.

    Mas o que essa história revela não é apenas o passado. É o método. É a estrutura mental que permanece.

    Porque, hoje, a dispensa da cor pode não ser escrita, mas ecoa nos currículos descartados, nos corpos suspeitos por padrão, nos espaços onde a branquitude se imagina neutra e universal.

    A academia chama isso de racismo estrutural. Eu chamo de "Memória Persistente do Açoite". Um país que não se livra dos fantasmas porque continua se alimentando deles.

    E, ainda assim, esse eco exige ser enfrentado. Não como culpa, a culpa paralisa, mas como responsabilidade histórica.
    Como compromisso ético com a verdade, O Brasil não foi cordial. Foi hierárquico. Foi seletivo. E fez da cor uma fronteira interna.

    Escrever sobre isso não é remoer o passado.
É recusá-lo. É rasgar o decreto simbólico que dizia que alguém precisava pedir permissão para ser gente. É reescrever o que deveria ter sido óbvio desde sempre.

      Porque nenhum país se torna justo enquanto sua história permanece intacta intocada, esterilizada, confortável.

     A justiça exige fissura. Exige incômodo. Exige olhar para "o arquivo da humilhação" sem desviar os olhos.

     Lembrar disso não é abrir ferida, é impedir que ela cicatrize torta.
     É reconhecer que, sim, já existiu um Brasil, onde era preciso pedir permissão para ser.
     E que ainda estamos tentando construir, c
om ajuda do nosso atual, Governo, Democrático e Justo um Brasil onde ninguém precise pedir mais nada além de respeito.


     Por Alfredo Guilherme