terça-feira, 9 de junho de 2026

Crônica : Meu ouvido virou pinico...

 


       Solta a batida e segura o coração! Senhoras e senhores, bem-vindos a tentativa de sobrevivência de um homem romântico. 

     Você acorda esperando calmaria o cheiro do café passado na hora, mas o destino que adora um deboche resolve trocar a calmaria com vizinhos aí o bagulho é louco, o som é de rachar. Quando a tarde e à noite se aproxima nos fins de semana.

     Meu ouvido vira pinico...De tanta merda que eu tenho que ouvir... Um toca funk, a outra música de louvor, e o outro sertanejo e arrocha tipo sofrencia, pra vizinhança toda participar e se irritar... aí a merda toda se completa... tudo sem a permissão do "Apolo' o principal deus da música na mitologia grega, enquanto as Musas, especialmente Euterpe, que são deusas inspiradoras da música e da poesia.

      E o pior não é as músicas, Pior é volume do som e das tais letras... Do tal do funk com palavras recheadas de tanta baixaria que eu fico até sem jeito de reproduzir. O cara liga o som num volume que a vizinhança inteira é obrigada a saber, com detalhes anatômicos e cirúrgicos, o que o MC pretende fazer com a moça na parte de trás do carro.

​      Olha não tá fácil. Eu sou de uma época em que, para conquistar alguém, você precisava de uma playlist com fita K7, com uma seleção de músicas com Ray Conniff e com uma luz baixa o Fábio Jr. sussurrando... "Você pintou como um sonho/  E eu fui atrás com tudo/  Se isso são coisas do amor/  Acredito que estou vivendo em outro mundo".

      Hoje? Hoje a paz acabou. O amor moderno não sussurra, ele vem com uma caixa de som JBL do tamanho de uma geladeira batendo no talo.

​     E aí você escuta... "Só as popozudas, as preparadas, huuu!"

​     Rapaz, quando eu ouço isso, a minha primeira reação não é dançar. É uma reação de preocupação genuína, quase paternal. Eu olho para o lado e penso..."Preparadas para quê, meu Deus?...  Pro Enem? ... Elas levaram casaco? O Tempo vai mudar, vai esfriar ? ... Será que levaram o celular para pegarem o uber para voltar pra casa? Ou vão mesmo tremer a bunda no terreiro do batidão ?

     A verdade é que o choque cultural é violento. No meu mundo, a música romântica te ensina a sofrer sentado, olhando a chuva cair na janela, pensando na amada. No funk, não tem tempo para chorar. O cara levou um fora na terça-feira, na quarta ele já tá no pancadão, mandando... "Chorou porque, taca, taca... na xereca, você vai encontrar o amor que te completa". É uma eficiência emocional que a minha geração nunca teve! 

     Nós demorávamos seis meses de terapia para superar um desafeto amoroso, um olhar torto, o jovem de hoje supera o término de uma relação no tempo de um hiat de bateria.

​     Então se você, assim como eu, tem o coração mole e o ouvido acostumado com uma boa música, aqui vão algumas regras de ouro para sobreviver à era do "pancadão de som"... Use a Técnica da "Tradução Simultânea". Você não precisa aceitar a letra literalmente.Traduza o funk para o dialeto do romantismo.

     Quando o MC grita... "Vem quicando, vem sentando!"... Você fecha os olhos e finge que ele está dizendo: "Aproxime-se com delicadeza e ocupe o assento estofado ao meu lado para partilharmos abraços e beijos apaixonados."  Fica muito mais palatável. O ritmo é agressivo, mas na sua mente, tem que parecer que está escutando "bossa nova" ao cair da tarde ensolarada, ao som de Vinícios de Morais.

​     No baile, todo mundo desce até o chão com uma elasticidade que me dá dor na lombar só de olhar. 

​     O segredo é a fusão. Se não pode vencê-los, confunda-os. Imagina que ser romântico é você chegar na patroa, olhar bem nos olhos, colocar aquela voz aveludada de locutor de rádio da madrugada e manda aveludadamente... "Meu amor... você é o meu chão. E como diz o poeta contemporâneo... hoje eu vou te dar um trato que você vai esquecer até o seu próprio nome. Com todo respeito e carinho."

​     Em resumo, o funk e a música romântica querem a mesma coisa, juntar as pessoas. A diferença é que a música romântica quer que você case, tenha dois filhos e mude para o interior ao se aposentar. O funk quer resolver tudo nas próximas duas horas.

    ​Eu fico com no o meio-termo, posso até ouvir o batidão, mas o meu coração ainda bate em ritmo desse refrão... ♫...Viver e não ter a vergonha de ser feliz ... Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

    O romântico só tem duas opções, mudar de bairro, ou comprar um fone de ouvido com isolamento acústico daqueles que parecem de operador de britadeira, ou aceitar que, pelos próximos meses, a trilha sonora será o amor moderno explicito sem filtro com muito, mais muito batidão.


      Por Alfredo Guilherme



sábado, 6 de junho de 2026

Crônica : Vibrante... O Voo e o Florescer...

      


​       Naquele fim de tarde, o vento soprava suave, guardando segredos entre as árvores. Não havia pressa, apenas o desejo latente de permanecer. Sob o dourado do sol, um colibri aproximou-se da flor. O coração da ave batia em frenesi, enquanto as pétalas se abriam em um silêncio sagrado, oferecendo-se ao encontro.

​    O amor humano é esse cortejo, uma dança aérea de delicadeza, vibração e desejo. Nos seres apaixonados, a metáfora ganha vida e se transforma em poesia concreta. São dois corações que se buscam, dois olhares que se cruzam e duas almas que se reconhecem no voo da ternura.

​    Assim como o colibri vibra suas asas diante do mistério da flor, o coração humano pulsa acelerado diante de quem ama. Nesse estado de encantamento, cada gesto é um voo sutil, cada palavra é néctar e cada silêncio é um repouso suave sobre pétalas invisíveis. A aproximação deixa de ser apenas busca e torna-se celebração, o instante exato em que o tempo se suspende e o universo se resume ao encontro.

​    A flor, por sua vez, é a imagem da vulnerabilidade que confia. É a beleza que desabrocha e expõe sua essência, tal como alguém que se desarma para ser visto de verdade. O cortejo, tecido em pequenos rituais, mensagens inesperadas, toques sutis, sorrisos que iluminam o dia, é uma promessa silenciosa de cuidado.

​    Nesse ritual, habitam juntas a fragilidade e a força. O apaixonado é o pássaro que assume o risco do voo, e a amada é a flor que se abre em entrega. Há uma promessa de eternidade escondida na urgência desse instante efêmero.

​    Em suma, amar é a arte de ser colibri e flor ao mesmo tempo o que voa e o que floresce, o que busca e o que acolhe, a asa que se entrega e o perfume que recebe. É o espaço sagrado onde dois corações, finalmente, se reconhecem e florescem juntos.

​      Por Alfredo Guilherme





terça-feira, 2 de junho de 2026

Camarão que dorme, a onda leva...

 


       Quem nunca ouviu o ditado popular “Camarão que dorme, a onda leva”? Ele é um clássico, mas essa variação traz uma verdade ainda mais objetiva sobre a realidade do ditado... "O Siri que não anda deixa o Camarão passar".

     Na biologia das praias e dos mangues, enquanto o "Siri" permanece estático, o "Camarão", com sua esperteza, está sempre em movimento, assumindo o controle da área e saindo na frente. 

     Na vida real, principalmente no amor a dinâmica é exatamente a mesma.

Qual é o preço da estagnação? A vida não tem botão de “pausa”. Enquanto você hesita, o tempo corre, as oportunidades mudam de mãos e o mundo continua girando.

       A zona de conforto é um disfarce. Ficar parado fingindo que está tudo bem é o caminho mais rápido para ver os outros conquistarem os objetivos que você queria.

O “Camarão” da vez pode ser aquele colega de trabalho que aceita o projeto difícil, o amigo que arrisca abrir o próprio negócio ou quem simplesmente decide estudar algo novo dentro da Inteligência Artificial.
      Eles não são necessariamente mais inteligentes, apenas estão atentos às novidades que surgem em nossas vidas  todos os dias.

Se você não der o passo firme à frente, alguém dará por você. E não adianta reclamar da “sorte” que o Camarão tem, quando foi você quem escolheu fincar as patas na areia.

      Quem hesita, ou melhor dizendo, vacila, vê a fila andar. No terreno dos sentimentos, o “siriismo” é fatal. Quantas histórias de amor morreram antes mesmo de começar porque alguém teve medo de dar o primeiro passo?

No amor, o silêncio e a lentidão raramente são interpretados como timidez, na maioria das vezes, parecem desinteresse.

     Seja por orgulho, medo da rejeição ou pura acomodação, deixar para amanhã aquela mensagem, aquele convite ou aquela conversa sincera é um risco enorme. O Camarão do amor não espera.

Enquanto você ensaia, a onda passa e leva a oportunidade embora.

     Na moral, galera, papo reto e sem rodeios, quem não se movimenta vira espectador da vitória dos outros. Não dá para passar a vida assistindo aos “camarões” alcançarem o sucesso profissional ou viverem romances incríveis enquanto você apenas observa.

     Se você quer ter sucesso, mude a estratégia. Se você quer aquela pessoa, vá em frente. Saia da inércia, mexa as pernas e ande rápido, antes que o “Camarão” passe à frente, mudando o rumo da sua história.



     Por Alfredo Guilherme



sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Arte de Ser um Bom Vivant...

 



​      Dizem que na juventude abusamos do desperdício, e isso é normal, quando somos jovens, mas a verdade é que o tempo só ganha sabor quando a gente aprende a desacelerar. Passamos a maior parte da existência correndo atrás do relógio, batendo cartões, acumulando metas e empilhando boletos. Trabalhar, produzir, vencer. E então, um dia, a engrenagem dá uma trégua. 

     É  quando olhamos no espelho, contamos os fios de prata e percebemos que o horizonte que nos resta é precioso demais para ser gasto com pressa.

​     Mas afinal, o que é ser um "bom vivant" quando a maior parte da jornada profissional já ficou para trás?

​     Há quem confunda o termo com ostentação, jantares caríssimos, viagens de luxo, poses milimetricamente calculadas. Bobagem. 

     O verdadeiro bom vivant da maturidade é um mestre da simplicidade sofisticada. É aquele que descobriu que o luxo não está no preço das coisas, mas no valor do tempo que dedicamos a nós.

​      Ser um bom vivant, hoje, é ter a audácia de não fazer nada sem carregar nenhuma culpa por isso. É trocar o despertador estridente pelo canto dos pássaros ou pelo silêncio bom de uma manhã de sol. É esticar o café da manhã por duas horas, lendo as noticias pelo tablet, vendo a vida passar pela janela e sentindo o gosto real da bebida, sem engoli-la correndo para encarar o trânsito para o trabalho.

​      Saborear a vida depois de tanto trabalhar é aprender a ver o invisível. É caminhar pela cidade sem um destino fixo, apenas pelo prazer de observar a arquitetura, os tipos humanos, o movimento das ruas. É carregar os olhos com curiosidade, como quem fotografa mentalmente os pequenos milagres do cotidiano, o riso de uma criança, a conversa fiada no balcão da padaria, o pôr do sol que a gente sempre esquecia de olhar porque estava trancado em uma sala da empresa.

​     O bom vivant desta etapa não tem pressa para chegar, porque ele entendeu que a graça está no caminho. Ele escolhe a dedo suas batalhas e, principalmente, suas companhias. Não há mais espaço para conversas vazias, relações por conveniência ou redes sociais barulhentas que nada tem de produtivo, que esgotam a nossa energia.

      Em vez disso, busca-se o abraço demorado dos netos, a mesa com cervejas com os velhos amigos, as cantorias despretensiosas que lembram os tempos de outrora e as paixões que ainda fazem o peito vibrar, seja por uma música, por um livro ou pelo clube do coração, ou pilotar uma moto na estrada vendo o dia nascer e ter o infinito como destino.

​      Aproveitar os dias que nos restam não é uma corrida contra o tempo para recuperar o que passou, é, sim, um pacto de paz com o presente. É olhar para trás com orgulho da história escrita e olhar para frente com a leveza de quem não precisa provar mais nada para ninguém.

​     Cada novo amanhecer deixa de ser "mais um dia de luta" e passa a ser o que sempre deveria ter sido, um bônus, um presente, um brinde. Ser um bom vivant é, em suma, assinar o próprio manifesto de liberdade. É viver o hoje com a sabedoria de quem sabe que a vida é curta, mas pode ser imensa se soubermos como degustá-la.

​     Já que ganhamos o direito a mais um pouco de prosa, vale a pena colocar os pingos nos is. Se até aqui crônica foi um manifesto, daqui em diante vai ser um "guia de bastidores" para o bom vivant que cansou de formalidades. Porque, convenhamos, a teoria é linda, mas a prática exige um certo verniz de sem-vergonhice no bom sentido, claro.

​     Para começar, o bom vivant da maturidade é ser um mestre na arte de dizer "não". E diz com um sorriso tão pacífico que o outro não tem nem como ficar chateado.

     ​Precisar responder no grupo de mensagens agora? Claro que não, o mundo pode esperar duas horas ou até dois dias, enquanto a gente caminha sem rumo ou tira aquele cochilo sagrado após o almoço.

​     Essa nova fase é o campeonato mundial do desapego. A gente passa trinta, quarenta anos guardando a louça fina para uma "ocasião especial" que nunca chega, ou economizando aquele vinho bom para uma visita que sempre desmarca. O bom vivant descobre que a ocasião especial é o fato de estar vivo hoje. É o foda-se para a liberdade, sem precisar abertar o tal botão do Foda-se.

​     Outra grande virtude desse estágio é a reconexão com os sentidos. Quando a pressa sai de cena, os olhos finalmente enxergam as nuances da cidade a luz do sol que bate torta na fachada daquele prédio antigo, o desenho das sombras nas calçadas. Os ouvidos passam a preferir uma boa melodia, daquelas que tocam na alma, em vez do barulho metálico das notificações do celular. 

​     Aproveitar o tempo que nos resta depois de uma vida de labuta não é nenhum bicho de sete cabeças. É apenas parar de adiar a própria felicidade. É entender que o terno e a gravata, reais ou metafóricos já cumpriram seu papel e que agora a vida combina muito mais com uma roupa confortável, um par de tenis confortavel, bernuda e camisa regata e caminhar por uma bela praia do nordeste e o direito absoluto de ser o dono do próprio tempo.

​     No fim das contas, ser um... "Bom Vivant" é a melhor vingança que a gente pode ter contra a correria dos tempos modernos. É olhar para o relógio e, pela primeira vez na vida, rir da cara dele.


     Por Alfredo Guilherme




quinta-feira, 28 de maio de 2026

Crônica: Malvado Favorito....





      Às vezes, a vida não pede um herói de capa vermelha e de cueca por cima da calça como o Super Homem, e nem alguém com um discurso polido de auto critica. No caos desvairado dessa rotina que nos atropela sem pedir licença, ser o "bonzinho" o tempo todo é o caminho mais rápido para o esgotamento psicológico. 

     É aí que entra a necessidade de canalizar o nosso próprio "Malvado Favorito", inspirado no senhor na imagem, da ilustração, que usa seus óculos escuros como um escudo, nós também precisamos de uma barreira contra o absurdo. 

     A vida segue louca, e se aceitarmos cada demanda, cada crítica e cada imposição com um sorriso complacente, acabamos virando figurantes da nossa própria história.

​     Ser o "Malvado" não é sobre crueldade, é sobre ter  limites... Dizer "não" sem culpa... Quando o mundo exige mais do que temos para dar, o "não" é o nosso raio encolhedor contra as expectativas alheias.

     Com um estilo inabalável...
Mantendo a pose e o sorriso no canto da boca, mesmo cercado por Minions (ou problemas) que parecem multiplicar o caos ao nosso redor.

     ​Focar no próprio plano, enquanto o mundo gira em desatino, o "vilão" foca no seu objetivo, seja ele roubar a lua ou apenas garantir um pouco de paz no final do dia.

      Na  ilustração vemos uma liderança carismática em meio ao laboratório da vida. O segredo está em não se deixar levar pela correnteza. Às vezes, precisamos ser o personagem "rabugento" para proteger o que há de mais doce e autêntico em nós, aquele lado que só mostramos para quem realmente importa.

​    Aceitar a vida desvairada não significa ser passivo diante dela. Significa olhar para a loucura de frente, ajustar os óculos escuros, e decidir que, hoje, as regras quem dita é você. Afinal, todo mundo precisa de um pouco de "maldade" para sobreviver com a sanidade intacta.


     Por Alfredo Guilherme 



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Crônica: O retorno...

 



​      Dizem que o amor é um prato que se serve quente, mas o retorno, são cinzas e para tentar soprar uma nova brasa, exige paciência de monge e pulmão de aço. 
     Quando decidimos voltar, não estamos apenas abraçando uma pessoa, estamos tentando fazer um pacto de amnésia com o nosso próprio passado.

​      O problema é que o passado não é um inquilino educado. Ele não vai embora só porque pedimos. Ele fica ali, esfolando os desejos, lembrando daquela palavra dita num domingo de chuva ou da  ausência debaixo dos lençóis, de um amor gostoso,  essa falta, dói mais que um corte de navalha.

      A pergunta  é... Como esquecer o passado quando ele deixou cicatrizes na alma?

​     A verdade, nua e crua, é que não se esquece. Tentar apagar a memória é lutar contra a própria biografia. O segredo não é o esquecimento, mas a ressignificação. É preciso tratar o erro antigo como um tapete velho que foi trocado de lugar, mais ele ainda está na casa, mas você não tropeça mais nele.

​     Para que a promessa de amor eterno não seja apenas uma reciclagem de erros, é necessário um enterro simbólico. É preciso admitir, aquela relação morreu. 

     Esta agora, embora tenha os mesmos protagonistas, é uma peça nova. Se você tentar costurar o presente com as linhas arrebentadas de ontem, o tecido vai rasgar na primeira puxada.

​     Esquecer o que esfolou o amor exige um desapego quase divino. É entender que o outro também mudou (ou deveria ter mudado). Se você volta para a mesma pessoa esperando que ela seja a mesma, você está condenado ao mesmo fim. Mas se você volta para descobrir quem essa pessoa se tornou, há uma chance.

​     O amor eterno não nasce da ausência de cicatrizes, mas da decisão mútua de não cutucá-las mais. É preciso olhar para o parceiro e ver não o "ex" que te feriu, mas para esse que está te acolhendo agora. 

     Se o desejo foi esfolado, deixe que a pele nova cresça. Ela será mais grossa, menos sensível a erros  e, talvez, muito mais resistente ao tempo.

     O retorno é como abrir um livro que você já leu, esperando que o autor tenha escrito um final alternativo nas margens. É um movimento de coragem e, por vezes, de uma teimosia quase poética.

​     Amar de novo a mesma pessoa é o maior exercício de otimismo que o ser humano pode praticar. É dizer ao destino... "Eu conheço o abismo, mas desta vez, eu trouxe asas".

    

       Por Alfredo Guilherme 

    



sexta-feira, 15 de maio de 2026

Stand-up de Letras : O Mito do Eterno Amante...

 


​       Sabe, eu andei lendo uns poetas ultimamente... Um deles me chamou a atenção... E vocês sabem, poeta é um bicho audacioso, e sonhador pra cacete? O sujeito provavelmente amou uma mulher só fazendo papai e mamãe com ela a vida inteira mesmo tendo a chave do 'cofrinho' em mãos, e quer ditar as regras. Detalhe... se você não sabe o que é o cofrinho não pergunte ao seu amado... isso pode deixar você sentando de ladinho por uns dias...

     Ele escreveu  assim... "Amar é ser amante o resto da vida".

​     Aí é foda né... Pensando bem... se for do jeito dele não é não. 

​     Bonita, a frase dele... Dá até vontade de ninar o coração... Mas dá para acreditar?

      A palavra "amante" tem peso! Tem cheiro de perfume proibido, tem batom marcado onde você nem consegue enxergar... Mas a sua mulher sim vai ver na hora de lavar a sua camisa... Tudo acontece  acompanhada com aquela frase sacana no pé do ouvido... "Quero que você vá com uma lembrança minha e do meu corpo, meu amor".

​     Agora, convenhamos... quem escreve uma frase desta "Amar é ser amante o resto da vida", nunca teve que discutir quem esqueceu de comprar o papel higiênico numa noite de terça-feira  chuvosa!. Às 23.00 horas.

​     A verdade é que qualquer união que dure mais que a validade de um produto importado da 25 de Março sofre uma metamorfose. A gente deixa de ser amante para ser sócio. É a "Holding Familiar de Dívidas e Boletos Ltda".

​     Ser amante é fácil! O cara chega perfumado, banho tomado, roupa de marca... O hálito é uma floresta de menta pra disfarçar o cigarro. Agora, o marido? O marido chega com "cheiro de dia útil". A camisa amassada pelo cinto de segurança e aquela pergunta protocolar... - Como foi seu dia?.

     E a esposa responde com todo o romantismo... de uma mula dando coice...  - A mesma merda de sempre!.

     Nesse momento, ou você ri, ou é o estopim para um barraco que não vai ter hora para acabar!.

​    Manter a missão de "ser amante" no casamento exige um malabarismo que faria o pessoal do "Cirque du Soleil " pedir demissão por estresse.

    Ah, os filhos! Os maiores sabotadores do romance desde a invenção da fechadura. É impressionante como eles desenvolvem um 'radar de momento impróprio' e decidem ter um pesadelo ou sede exatamente quando o clima esquenta. Ser amante nessas horas exige um plano de infiltração digno de filme de espionagem, não é?"

    O amante sussurra... "Ficaria a noite toda olhando nos seus olhos...".

    O marido, no pé do ouvido, antes do apagão total, manda essa...  - Você pagou o boleto do celular? Tomara que não, assim você larga de ficar vendo essa merda do TikTok e me dá mais atenção!.

​    Gente, é difícil manter o erotismo quando o seu maior rival sexual é a porra do celular!

​     E no quarto? No começo, dormir junto é com um nó górdio de paixão. Depois de dez anos, é uma negociação territorial da OTAN pelo espaço da cama. O som ambiente muda! Em vez do estalar da lenha na lareira com um Malbec, você tem o concerto noturno do nariz entupido.

     Tenta olhar para a pessoa como objeto de desejo enquanto ela usa aquele dilatador nasal... parece um trator atolado na lama tentando dar partida!.

​     Mas o verdadeiro inimigo do amante é a 'pia da cozinha'.

     Esqueça Ostra, Amendoim, Viagra e Catuaba ... Quer saber, o maior afrodisíaco do mundo para quem está casado há mais de cinco anos? É chegar em casa e ver que o outro lavou a louça sem ninguém pedir!

     A mulher olha para aquela pia brilhando e pensa... "Puta merda !!! ...Meu Deus, que homem! Que sensualidade! Vou me entregar agora... só vou dobrar essa pilha de roupa primeiro".

​     A frase dos poetas precisa de um "update": "Amar é tentar ser amante".

     É ter a audácia de dar um tapa na bunda dela enquanto ela escova os dentes. É mandar um... - Tô te querendo, minha linda... e receber de volta...  - Mesmo sem eu me depilar?.

​     Resumindo, ser amante no caos do dia a dia não é só amor. É teimosia. É a forma mais heroica de amar que existe, porque é a recusa de ser domesticado. É entender que o outro não é seu, ele só está com você por uma opção que a gente renova... a cada café da manhã.

​     Vamos fazer um brinde imaginário com uma taça de Malbec em nome de todos os amantes...

     Mas antes... de terminar deixa eu falar... só mais algumas coisinhas... que acontece bem antes do café da manhã, o amante acorda e já sai beijando... safa pra caramba o malandro, acorda, pra dar um mijão e já faz um bochecho escondido com Listerine e volta pra cama fingindo que brotou uma flor na boca dele.

      No casamento, não... No casamento, se você tenta um beijo às seis da manhã, com segundas intenções de fazer um sexo matinal, a outra pessoa desvia os lábios com a agilidade de um ninja !  Que desenvolveu a técnica do 'beijo de bico lateral'. É aquele selinho que você dá meio de lado, prendendo a respiração, pra não acordar os demônios do hálito que habitam no estômago... 

     Casamento também é um pacto de sobrevivência ? Sim é... E a gente segue sendo amantes... mas cada um pro seu lado do travesseiro até mesmo depois de escovar os dentes!. Para uma noite confortável depois do rala e rola.


     Por Alfredo Guilherme 


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Crônica : Zumbido Erudito...

 


       "Quem convidou esse violinista?" ele traz um novo significado para o termo "música ambiente". Claramente, estamos presenciando nestas noite quentes, o ensaio solo do mestre "Violinista da Orelha", o primeiro inseto a levar o conceito de "zumbido no ouvido" para um nível erudito.

​      Aqui estão algumas interpretações do que está acontecendo nesse recital indesejado do... "Pior Visitante do Mundo", chamado na intimidade no escuro do seu quarto de... Filho da P....!!!. Aí voçê lembra que ele também é uma criação do criador... Se desculpa, pede perdão e engole o final do palavrão.

​     Sabe quando você deita a cabeça no travesseiro e ouve um zumbidinho? Pois é. Só que dessa vez o pernilongo não quer seu sangue, ele quer o seu reconhecimento artístico. Ele não vai embora com um tapa, ele só quer que você aplauda e grite... "Bravo!!!!"... Aí sim ele se afasta já com a pança  cheia do seu sangue.

​     A... Terapia de Choque Musical, acontece quando deixamos as janelas abertas ao entardecer criamos para nós um "fone de ouvido com som natural". O grave é potente, o agudo é uma picada e o cancelamento de ruído é inexistente, já que o violinista está literalmente apoiado em seu ouvido.

​     Detalhes interessantes e curiosos sobre o Artista... 
      Nome artístico: Paganini da Dengue. 
     Repertório: Inclui clássicos como "Vou atormentar a sua noite" (em versão estendida de 4 horas) e a sonata de prevenção "Não me jogue enseticida  enquanto eu busco o Mi sustenido".

      A música é divina, mas a proximidade do palco é um pouco... incomoda, com uma picada, sugando seu sangue e a sua sanidade mental alterada... Aviso Importante...Você precisa urgentemente acender velas de citronela repelente na sua casa. 


      Por Alfredo Guilherme


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Crônica : Arca de Noé... No crepúsculo do mundo antigo...

 


​      No Crepúsculo do Mundo Antigo... O céu já não era azul, tinha a cor de chumbo derretido, pesando sobre a nuca de quem ainda insistia em olhar para cima. O ar estava carregado por uma umidade que se colava à pele como uma sentença. Lá embaixo, no vale, a estrutura de madeira erguia-se como um esqueleto de gigante, um insulto geométrico à paisagem árida que todos conheciam.

​     A Bíblia afirma que o mundo se tornara extremamente violento e corrupto. O texto sagrado narra que "A maldade do homem se multiplicara sobre a terra"... e que "Todo o desígnio dos pensamentos de seu coração era continuamente mau" (Gênesis 6:5). Esse cenário teria causado arrependimento e tristeza ao Criador, que decidiu "limpar" passar a regua, na face da terra. Ninguém percebeu quando os pássaros pararam de cantar, apenas começaram a voar baixo, em círculos nervosos, como se o horizonte estivesse encolhendo.

​     Então, o primeiro pingo caiu. Não foi uma bênção, foi um impacto.

​     Do lado de fora, instalou-se o desespero de quem descobriu, tarde demais, que o chão não era mais sólido. A água não subia apenas dos rios, ela parecia brotar das entranhas do mundo, reclamando cada palmo de solo manchado. 
     A Arca era agora o único pulso em um planeta que havia decidido parar o próprio coração. Lá dentro, entre o breu e o balanço das águas, restava apenas o tempo, a espera para que a fúria passasse e a vida pudesse, um dia, tentar ser nova outra vez.

     Se olharmos para essa história com o rigor da lógica atual, pontos cruciais saltam aos olhos. É uma perspectiva justa e compartilhada pela ciência moderna, quando saímos do campo da fé e entramos na engenharia, genética e biologia, a conta apresenta furos impossíveis de ignorar para um construtor contemporâneo. 

     O Funil Genético... Se toda a diversidade da Terra, milhões de espécies derivasse de apenas dois exemplares de cada, enfrentaríamos um problema de consanguinidade terminal. A falta de variabilidade genética extinguiria as espécies por doenças e mutações em poucas gerações. 

     O Pesadelo Logístico... Acomodar e ventilar milhares de animais geraria um calor absurdo e toneladas de metano. Com apenas uma janela, como descreve o texto, a temperatura interna seria letal. Além disso, o maior desafio não seriam os animais em si, mas o estoque de comida necessário para mantê-los vivos por um ano inteiro. 

     Uma logística impossível... A não ser que teve uma mãozinha do criador... Como Noé buscou os pinguins na Antártida, os cangurus na Austrália e as onças-pintadas e micos leão dourado aqui no Brasil? E como esses animais voltaram para seus continentes depois, cruzando oceanos, sem deixar rastros de fósseis pelo caminho? Para a mente moderna, a geografia é o maior inimigo desse relato.

​     A Gestão Humana... Apenas oito pessoas, Noé, sua esposa e filhos, cuidando de milhares de seres vivos? Seria um colapso operacional. A limpeza de dejetos e a distribuição de água potável consumiriam 24 horas por dia, sem tempo para sono ou manutenção da embarcação.

     ​Para visualizar a capacidade da Arca, precisamos trocar a teologia pela biometria. Usando as medidas bíblicas (135 metros de comprimento por 22,5 metros de largura), temos uma área total de cerca de 9.100 metros quadrados distribuídos em três andares.

​     Por que não poderia ser maior? Se Noé tentasse superar esses 135 metros usando apenas madeira, enfrentaria um colapso estrutural. Navios de madeira muito longos tendem a "arquear" ou "selar" com o movimento das ondas. Esse esforço abre frestas no casco, levando ao naufrágio. O maior navio de madeira já registrado, o Wyoming (1909), tinha 137 metros e sofria constantes infiltrações devido a essa flexão.

​     Em suma, para abrigar a fauna moderna e seus mantimentos sem recursos milagrosos, como a hibernação, a Arca precisaria ter as dimensões de alguns modernos porta-aviões juntos em um só. Algo impossível de manter íntegro apenas com a marcenaria da antiguidade.

​     O Mito como Metáfora... Por outro lado, a mente que escreveu esse relato talvez não estivesse preocupada com a precisão científica, que sequer existia, mas sim com o simbolismo. 

     No mundo antigo, histórias de dilúvios catastróficos são comuns, como a Epopeia de Gilgamesh, na Mesopotâmia, que precede a Bíblia. 
     Subidas drásticas no nível do mar ou inundações devastadoras nas bacias dos rios Tigre e Eufrates eram reais. Para quem vivia ali, o mundo conhecido realmente acabou debaixo d’água.

​     A humanidade evoluiu... Hoje, a Arca funciona mais como uma metáfora sobre preservação e recomeço da humanidade, do que como um manual naval.

​     Sendo você um entusiasta da história e das antiguidades, o que diria... Que essa "história" durou tanto tempo justamente por causa do seu mistério, ou foi apenas a falta da ciência que a manteve viva?

     As Pirâmides ou a Arca ?...quem foi feita primeira ?

     Evidência físicas... Se olharmos para os registros no cronograma Biblico seguindo os calculos feitos por estudiosos bliblicos como o arcebispo James Ussher no segulo XVVII o deluvio teria oacorrrido por volta de 2348 a.C...

    As Pirâmide de Gizé, e a grande Pirâmide de Quéops foram contruidas cerca de 200 anos antes da arca. tem por volta de 4.500 anos, isso gera um daqueles furos logisticos...    

    O deluvio conreu nas montanhas mais altas da terra e destrui tuda a civilização então me diz como as Pirâmides continuaram lá intactas sem marcas de erosão maritina frofunda com a cultura egípcia comtunuando a crescer sem interrupção ?.

     ​Para muitos historiadores, essa diferença de datas é a prova de que o relato de que a Arca é uma "metáfora ou um evento regional", e os egípcios não estariam no meio de sua civilização mais gloriosa e, subitamente, teriam sido interrompidos pela água, o que os registros dinásticos deles não mencionam.

​      As Pirâmides são mais antigas como objetos físicos existentes. desafiando o tempo, muito antes de qualquer escriba colocar a história de Noé no pergaminho.

​      Como você gosta de "capturar o invisível", é fascinante notar que as pirâmides são a prova do que o homem pode erguer na terra, enquanto a Arca permanece como o símbolo do que o homem precisa para sobreviver quando a terra falhava.

    As grandes Pirâmides é algo que podemos tocar fotografar e medir, a Arca talvez vença como narrativa nesse duelo histórico...

      

       Por Alfredo Guilherme





domingo, 3 de maio de 2026

Amigo da Onça versão 2026...O Consultor do Caos...

 



 Dizem que, em 2026, a inteligência artificial resolve tudo. Mas nada supera a "burrice mundial" e a maldade refinada do nosso brasileirissimo... "Amigo da Onça". Ele nunca deixou de usar o paletó de linho branco, só trocou a sua velha maquina de escrever 'Olivetti' por um notebook de última geração, mas o objetivo continua o mesmo... Garantir que você se estrepe com um sorriso no rosto.

O “Amigo da Onça”... Foi o Cartom mais famoso do jornal e revista nos anos, 40 até 60... Não morreu, apenas se reinventou. Hoje veste roupa de influencer, fala em lives no Instagram, posta reels motivacionais no TikTok e jura estar preocupado com o bem estar coletivo da periferia.

É o mesmo personagem de Péricles Maranhão, só que agora com pós-graduação em maltragem e marketing digital e assessoria de imprensa de politicos que adoram fazer merda em nome da religião.

Na política, ele surge em discursos inflamados, promete transparência, ética e moral, mas por trás das cortinas negocia favores, distribui cargos e se alimenta do velho toma-lá-dá-cá. É aquele político que se diz defensor da democracia, mas não perde a chance de manipular informações e plantar desconfiança, lambe a bunda do presidente americano e manda jogar bomba no Brasil, se dizendo ser patriota.

Nos aplicativos de relacionamento, o "Amigo da Onça" é aquele que jura estar em busca do amor verdadeiro, mas coleciona matches como troféus.

Ele agora atua como um "coach de vida" ao reverso. Se você tem um problema, ele tem a solução... para te ferrar de vez.​

Dicas para o vigor total... Para aquele amigo que reclama da idade, o "Amigo da Onça" é categórico... "Quer ereção a noite toda? Esqueça a medicina. O segredo é psicológico, durma abraçado com um pacote com 50 mil reais em especie, e deixe a porta da casa e o portão abertos. Se o seu corpo não ficar em estado de alerta máximo, nada mais fica!"

Para o primo cardíaco que precisava se exercitar, ele sugeriu o "CrossFit do Infarto": "Nada de caminhada leve. O negócio é subir a escadaria da igreja da Penha no Rio são 365 degraus... carregando um botijão de gás no ombro, aí depois você assiste o jogo do seu time na final da Libertadores. Se o coração aguentar o gol anulado pelo VAR, você está curado!"

Abriu uma confeitaria para Diabéticos, para a sua tia com glicose nas alturas, ele preparou um "Bolo de Mel com Cobertura de Rapadura e Granulado de Açúcar Mascavo". Segundo ele, o açúcar é natural, vem da terra, e o que vem da natureza só faz bem. A vista dela embaçou, ele disse que era apenas o excesso de luz divina entrando nos olhos dela.

Nas redes sociais, Facebook e Instagram seguem como grandes aliados do "Amigo da Onça". Não permitem a nudez artística, mas deixam circular teorias conspiratórias, fake news e vídeos de violência explícita. A hipocrisia é tamanha que você pode ser banido por publicar uma obra clássica, mas não por espalhar mentiras sobre vacinas e doenças que colocam vidas em risco.

Na vida pessoal, o "Amigo da Onça" é aquele colega que condena palavrões, mas passa horas gargalhando de memes pesados. É o amigo que se diz contra “conteúdo impróprio”, mas compartilha vídeos recheados de deboches. É o parceiro que se indigna com pequenas falhas, mas fecha os olhos para as próprias incoerências

No fundo, o "Amigo da Onça" é eterno porque representa a contradição humana, a máscara da amizade escondendo ironia, hipocrisia e interesse. Hoje ainda é o principal representante de perfil fake, amanhã ele vai encontrar outras formas de enganar. Mas sempre estará lá, sorrindo, pronto para te dar o abraço amigo, por traz e te foder novamente.

Nota de Rodapé... O "Amigo da Onça" 2026 lembra que a vida é curta, mas pode ser bem mais curta se você seguir os conselhos dele. Ele não aceita reclamações no SAC, até porque, no lugar onde os clientes dele vão parar, o sinal de Wi-Fi é péssimo e faz muito calor... Será que é o inferno ?.

Por Alfredo Guilherme


sexta-feira, 24 de abril de 2026

Um conto contado... Desatando o Nó...




        Atmosfera do "sertão é  mística" tem uma força única, não é? É aquele lugar onde o sagrado e o humano se misturam no meio da poeira.
      Esse é um conto, sobre a fé, e o sertão e os nós que a gente aperta quando não consegue soltar do coração de alguém.

​      Dizem em causos contados... ou o que sobrou deles entre os bancos de madeira da praça da Vila dos Desatados, escondida nos confins do sertão baiano, ela só existe por causa de mágoas de amor.

     Já que a Vila dos Desatados foi batizada, agora imagine a cena, o final de tarde, o céu cor de goiabada e o vento trazendo o som das fitas de cetim batendo contra as grades da igreja.

​      Diferente de todas as igrejas do mundo, onde os fiéis vem renovar a fé, pedem chuva, saúde, melhoras financeiras, ou até mesmo um amor pra vida eterna, na pequena capela azul-anil da Vila, o povo só entra para tratar de uma doença específica do coração, quem está padecendo por amor... Aquele amor que não volta.          

     Lá reside a imagem de Nossa Senhora dos nós do Amor, a única santa no mundo destadora destes nós, que veste um manto celestial liso, segura entre as mãos uma fita de seda vermelha, cheia de laços cegos, apertados pelo suor de quem amou sozinho.

​      O Milagre do Desapego... A história começou com a beata Zulmira, uma mulher que passou quarenta anos esperando por um tropeiro que prometeu voltar, quando o umbuzeiro desse flor. O umbuzeiro floresceu, secou, caiu e virou lenha, mas Zulmira continuava com o coração amarrado num nó tão apertado que ela já nem conseguia mais respirar fundo.

​      Dizem que, numa noite de lua de sangue, ela fez um pedido inusitado a santa. Não pediu que o tropeiro voltasse. Zulmira, cansada da espera que róia os ossos, pediu algo mais difícil... "Minha Mãe, não traga ele de volta, não. Desate o nó que ele deu dentro de mim. Solte a ponta da minha vida que ficou presa na dele."

      ​No dia seguinte, Zulmira acordou e, pela primeira vez em quatro décadas, não olhou para a estrada. Tomou um café forte, sentiu o gosto da rapadura e percebeu que o nó no peito tinha virado fita solta ao vento.

       Outro causo contado é o da "Fita Púrpura de Tião da Terra"... Fora da pequena capela, o mundo se veste de fitas de cores vibrantes. São milhares delas, amarradas nas grades de ferro forjado que circundam a capela de Nossa Senhora dos Nós de Amor. Com o tempo, as fitas mais antigas desbotavam sob o sol implacável do sertão, tornando-se brancas e quebradiças, como esqueletos de promessas esquecidas. Mas as novas… gritavam suas dores ao vento.

​      Tião da Terra, um homem cujo apelido vinha da cor de sua pele e da secura de sua alma, chegou numa tarde em que o céu parecia sangrar. O vento trazia o som das fitas batendo contra o metal, um sussurro constante, como se a própria igreja estivesse respirando as mágoas acumuladas. Ele segurava uma fita púrpura, a magoa era com a Niceia, a moça que partira para a capital vinte anos atrás e nunca mais dera notícias.

​     Ele caminhou em direção à Capela. As mãos dele, calejadas pelo trabalho na terra rachada, tremiam. Ele não queria rezar para que ela voltasse. A razão, embora tardia, já lhe dissera que Niceia não existia mais na sua vida. Ele viera para desatar.

​     Ele segurou a fita púrpura, sentindo o cetim macio, em contraste com a pele grossa de suas mãos. Ele fechou os olhos e, por um momento, a voz do vento pareceu organizar-se em palavras. Ele começou a dar o nó na grade.

​     O primeiro nó… é pela lembrança do sorriso dela dizendo te amo... sussurrou, a voz rouca. Ele apertou a fita. O nó ficou cego.
​     O segundo… é pela promessa que a gente fez na primeira noite de amor... continuou. Ele deu mais duas voltas na fita, apertando com tanta força que os nós ficaram brancos nas pontas.
​     O terceiro… é pela raiva de você ter ido sem dizer adeus... O nó foi dado com fúria, quase rasgando o cetim.

​     Ele parou. O vento continuava. O som das fitas era hipnótico. Ele olhou pela porta principal para a imagem da Santa no altar. Os olhos dela, feitos de madeira pintada e verniz, pareciam absorver toda a sua angústia. Tião sentiu o peso de duas décadas acumulado no peito, como uma pedra que carregava.

​     Ele deu um passo para trás, como o ritual exigia. Virou de costas, se olhasse para trás, o nó apertaria de novo.

      ​- Minha Senhora... começou a falar, e a voz já não era dele, mas de um homem exausto... -  Eu já dei os nós. O nó está na grade, mas a ponta está presa no meu coração. Me ajude a largar.

​      O silêncio na igreja foi total por um segundo, até que uma rajada de vento mais forte passou por ele e entrou pela porta aberta. As fitas coloridas no altar e nas grades subiram em um redemoinho frenético. A fita púrpura de Tião, recém-amarrada, estalou.

​      Foi quando Tião sentiu um tremor sutil. Ele teve a nítida sensação de que a mão da santa, que antes segurava a fita vermelha simbólica, agora estava estendida em direção à sua fita púrpura. 

     ​Ele caminhou devagar em direção a praça em frente à  capela, a poeira subindo a cada passo. Ele sentiu o sol poente, cor de goiabada, bater no rosto. Ele não olhou para trás. Ele não conferiu se a Santa realmente se mexera ou se fora apenas um truque da luz e do seu desejo de cura.

​      A fita púrpura ficara para trás, amarrada na grade, com nós cegos no metal, a pedra que ele carregara no seu caminho, por vinte anos tinha, finalmente, virado poeira. O vento que batia na Vila dos Desatados agora corria livre, sem encontrar mais nenhum nó que o impedisse de passar. Ele estava livre.

​      A Romaria dos Esquecidos continua até hoje... Já, Vila dos Desatados, vive de quem precisa esquecer. A rotina da cidade é ditada pelo ritmo dos desamados... O fiel chega à igreja com uma fita de cetim. Cada nó na fita representa uma lembrança o cheiro do perfume, o primeiro beijo no pé da serra, e de promessas feitas em nome do amor. 

        ​A Cura... A pessoa deve sair da igreja sem olhar para trás. Se olhar, o nó aperta de novo.

​     A cidade é silenciosa, pois quem sofre de amor não faz barulho. Os moradores são especialistas em remédios caseiros para o "aperto no peito", geralmente um chá de casca de angico com um pouco de mel e o conselho de que "ninguém morre de saudade, a gente só fica mais leve depois que desata".

​      O Mistério da Santa... O que ninguém conta aos turistas é que a imagem da Santa, parece mudar de expressão. Se o nó é de um amor que ainda tem jeito, as mãos dela parecem relaxadas. Mas, quando chega um coração teimoso, daqueles que insistem em sofrer por quem já casou e teve filhos em outra freguesia, dizem que a Santa franze a testa, como quem diz... "Tenha juízo, cristão, que eu sou Desatadora, não sou fazedora de milagre impossível!"

​      Na Vila dos Desatados, o milagre não é o encontro. É a liberdade de caminhar sozinho sob o sol do meio-dia, sentindo que o coração, finalmente, está livre para um amor verdadeiro...

    

       Por Alfredo Guilherme





segunda-feira, 20 de abril de 2026

Crônica: Inquilino Maldito...

 


​          Inicindo, mais essa crônica com aquele sorriso de quem sabe das coisas até certo ponto... A gente vive num país onde o Marechal Deodoro da Fonseca cheio de razão, pois tinha acabado de meter o pé na bunda da família real que só não levaram o morro do Pão de Açúcar no Rio, pra Portugal porque não tinha mais Pau Brasil pra fazer uma Super Caravela de Transporte... 

     Sabe o que ele fez... o tal Marechal... Tentou mandar no nosso coração por decreto? É sério! Em 1890, o homem deu uma canetada... achando que estava resolvendo a vida dos brasileiros... Instituiu o casamento civil, acho que ele queria separar a Igreja do Estado e disse... 'A partir de hoje, o amor só vale se tiver carimbo do juiz!'.

​     E hoje, não é fácil aguentar a minha vizinha carola que mora no 402, que não perde a chance quando me vê e fala com aquela voz de fofoqueira... Ô, vizinho... vocês já moram juntos há dez anos, dividem o edredom, o boleto do condomínio e até o remédio do colesterol... Quando é que sai esse casório? Deus tá vendo essa pouca vergonha, viu?'

​     Pois é. Pro Estado, eu sou 'União Estável'. É chique, né? Parece nome de firma de seguro. 'Senhor fulano & Cia /  Estabilidade Garantida'. Pro juiz, se a gente divide a escova de dentes e o espaço da cama, tá resolvido. Tá no contrato.

​      Mas pra religião? Aí, vem a bagunça... Pra religião, eu sou um "Funicador", que mora com o 'inquilino o pecado'... Eu adoro essa expressão... "Viver em Pecado". Dá a entender que o pecado é um cara folgado de chinelo e regata, que mora no meu apê, não paga aluguel, torce contra o meu time, toma a minha cerveja e ainda dorme na minha cama !. Tipo como no filme,  "Dona Flor"  e seus dois maridos. Enquanto o Estado e a Igreja discutem na porta quem tem a chave da verdade. Resumindo, o pecado parece ser o único que está se divertindo na história toda!

​     A doutrina diz que o amor é tipo um vinho caro, safra especial. Só pode abrir se tiver a bênção. Se você abrir, numa noite em que o tesão falou mais alto, antes do café da manhã, com um pão na chapa... pronto! Tá confirmado, acabou a inocência você, provou o fruto proibido.

​     E na boa... quem não provou esse fruto antes, pode acabar provando um fruto bichado que teve marimbondo beliscando a fruta no pé.... O mundo mudou, a gente já viaja pra Marte, usa inteligência artificial pra tudo... mas a gente ainda treme! Quando a Igreja olha pra gente e diz... 'Fornicador!'. O Estado olha e diz... 'Parceiro!'. E eu olho pro extrato do banco e digo... 'Quem paga essa porra sou eu, caramba!'

​     O mais engraçado é o pessoal da 'melhor idade', que de melhor às vezes só tem o desconto na farmácia, passagem gratuita no busão. O casal tá junto há trinta anos. Já criou filho, já criou neto, já sobreviveu a cinco planos econômicos e três pandemias... mas aí resolve 'regularizar', entram na igreja com os joelhos trêmulos. Parece que estão indo confessar um crime! Querem o carimbo de Deus pra ver se o tal  'inquilino o pecado' finalmente se muda da casa.

​     E nessa confusão toda a gente fica nesse equilíbrio em cima do muro... de um lado papel que o Marechal firmou, do outro o líder religioso com o sermão. 

     E a gente, fica tentando entender se o amor precisa de firma reconhecida ou se basta a insistência de acordar do lado da mesma pessoa todo o santo dia... e ainda achar que valeu a pena.

​     Porque, vou dizer pra vocês.. O amor "sem firma reconhecida" tem um sabor de liberdade que nenhum cartório consegue autenticar. 


    Por Alfredo Guilherme