Viver bem é uma questão de coragem, dizem por aí. Daquelas com ideais maiúsculos, de quem investe no amanhã, muda de país, troca de carreira aos cinquenta ou resolve pular de paraquedas aos sessenta anos.
Mas essa verdade é uma daquelas que a gente vai descobrindo sem pressa, no compasso macio do dia a dia. Viver melhor não exige holofotes nem grandes revoluções.
Trata-se, quase sempre, de uma sutil troca de lentes, para enxergar melhor a vida.
Outro dia, voltando para casa, reparei numa árvore que sempre esteve ali. Pela primeira vez vi o desenho das folhas contra o céu avermelhado do entardecer. Estranho pensar que passei anos sem enxergar esse detalhe, como se a pressa tivesse apagado a paisagem.
Descobrir novos modos de habitar a própria vida é um exercício diário de desaprender o cotidiano. Nos pequenos rituais do recomeço... A gente passa boa parte do tempo esperando pelo "momento certo" para mudar. Aí programar a viagem dos sonhos, e ter a esperança de dias melhores na próxima semana.
No entanto, o milagre da renovação acontece nos intervalos soltos da rotina. Lembro de uma manhã em que deixei o celular de lado e fiquei apenas com a xícara de café nas mãos. O vapor subindo parecia um convite para respirar mais devagar. Foi nesse instante que percebi que o silêncio também tem sabor.
Dar espaço para os próprios pensamentos é como escutar o silêncio. Foi numa tarde chuvosa que desliguei a TV e fiquei apenas ouvindo o som da água batendo na janela. Sem música, sem notícias, só o silêncio acompanhado da chuva. Descobri que esse vazio não é ausência, mas presença.
Sabiamente alguém já dizia: "Viver bem é dar aos dias a leveza que eles merecem."
Descobrir novos caminhos não significa abandonar quem fomos, mas convidar quem somos hoje para tomar um café e conversar com calma. Certa vez, sentei sozinho num café do bairro e comecei a escrever num guardanapo tudo o que havia mudado em mim nos últimos anos. Foi como reencontrar uma versão antiga de mim mesmo e perceber que, apesar das mudanças, ainda havia pontos de encontro.
Quando mudamos o olhar sobre as coisas simples, o cotidiano deixa de ser um peso e volta a ser uma bela paisagem. E é exatamente nessa brecha que a vida recomeça, florida e nova, em qualquer dia de semana.
Por Alfredo Guilherme



























