A varanda de madeira sempre foi nosso refúgio. Não era apenas a vista da marina, e da cidade, onde as luzes começavam a piscar como estrelas caídas, até o pôr do sol que pintava o céu há pouco, já estava se despedindo.
Era o silêncio compartilhado, no compasso tranquilo das nossas respirações que abafava o ruído do mundo lá fora.
Naquela noite, porém, havia algo diferente no ar. Um pequeno caderno repousava entre nós, cheio de anotações e rabiscos de contas a pagar e roteiros de futuras viagens.
Mas foi o olhar dela que me parou. Um olhar que eu conhecia há décadas, mas que parecia ter a frescura de uma eterna juventude. Ela segurava minha mão, e eu segurava a dela, e o tempo, aquele carrasco implacável que dizem medir a vida, em segundos simplesmente parou de funcionar.
Foi ali, sob a luz suave de uma luminária rústica, que meus olhos pousaram no relógio de parede. Não era um relógio comum. Seus numerais romanos e as engrenagens de bronze expostas eram apenas o cenário para o coração pulsante bem no centro dele.
Um coração de luz que não marcava segundos, mas eternidade. E a inscrição nele dizia tudo... “O amor ignar o relógio.” ... Um erro gramatical bobo, talvez, ou uma sabedoria poética que eu nunca havia notado antes.
Dizem que o tempo mede a vida, mas o amor ignora qualquer relógio. Olhando para ela, eu não via o peso dos anos, nem a contagem das estações que vivemos. Eu via apenas o presente, esse momento perfeito em que nossas histórias se entrelaçavam novamente.
A felicidade não pede licença e nem consulta o calendário, ela desperta, como a luz de um raio que rompe a noite quando menos se espera. Encontra-la não foi uma questão de tempo, foi uma questão de destino.
A inscrição no relógio parecia zombar da nossa obsessão humana por contar tudo, horas, dias, anos. Eu fico feliz por saber que o amor não sabe contar. Ele apenas sabe ser.
E enquanto estávamos ali, com o pequeno caderno de anotações sobre a mesa de centro, com o aroma de mar e madeira da varanda nos envolvendo, percebi que, no encontro das nossas histórias, o que importava não era o que já tínhamos vivido, mas o que ainda nos restava por viver.
A cidade continuava a acender suas luzes, os barcos continuavam a deslizar silenciosamente pelo mar que já tinha a cor da noite, mas ali, naquela varanda, éramos apenas nós dois.
O relógio, com suas engrenagens de bronze e seu coração de luz, continuava pendurado na parede, mas sua única função era nos lembrar que, para o amor verdadeiro, o tempo é apenas um detalhe que esquecemos de conferir.
Por Alfredo Guilherme





























