Era uma terça-feira comum até eu me ver parado no trânsito, segurando o volante do meu novíssimo carro elétrico. Não vou dizer a marca porque não vou ganhar porra nenhuma fazendo propaganda pra eles. O silêncio do motor era tanto que dava para ouvir meus próprios pensamentos, o que, cá entre nós, costuma ser um perigo.
Olhei para o painel digital reluzente, depois para os cabos de alta tensão que eu sabia estarem passando em algum lugar debaixo do meu assento. Foi aí que me veio à mente a pérola destrutiva que li na internet naquela mesma manhã... "Dirigir um carro elétrico é o mesmo que ficar sentado dentro de um forno micro-ondas ligado."
Olhei para os meus braços. Olhei no espelho retrovisor para ver como estava o meu rosto.
Pensei e repensei... Será que se eu ficasse preso nesse engarrafamento por mais duas horas, eu sairia do carro pronto, descongelado e no ponto correto de servir, acompanhado de uma porção de batatas?... Comecei a me apavorar discretamente. Travei o fiofó... nem um peidinho sairia naquele instante. Se a teoria da internet estivesse certa, a qualquer momento o painel daria três apitos agudos, a porta destravaria sozinha e uma luz amarela se acenderia sobre a minha cabeça, indicando que o meu lado esquerdo já estava bem passado.
Aqueci as mãos no volante, por puro nervosismo, claro, e não por radiação, e comecei a checar os sintomas. Sentia um calor no peito. Seria a tal frequência magnética agitando as moléculas de água do meu corpo a 2,45 Gigahertz? Não, era só o café coado que tomei pressionando a porta dos fundos para a saída do número 2.
Passei a mão no cabelo para ver se não estava estalando como pipoca. Tudo no lugar. Testei o rádio. Em vez de emitir o chiado assustador de uma tempestade solar, começou a tocar uma música do The Bee Gees calma e relaxante. Nenhum sinal de que meu almoço interno estava sendo preparado pela bateria de lítio no assoalho.
Eis a grande piada do pavor moderno, criamos veículos dignos de ficção científica, blindados com toneladas de aço, alumínio e engenharia de ponta, cujos campos magnéticos são tão inofensivos quanto os de uma geladeira de casa... mas basta um boato de algum "fdp" na "rede social" para a gente achar que está virando lasanha congelada sobre quatro rodas.
O sinal finalmente abriu. Acelerei suavemente, sem barulho de motor, sem fumaça, sem poluir o meio ambiente e, para a decepção dos alarmistas de plantão da net, sem dourar a pele. A única coisa que realmente corre o risco de esquentar dentro de um carro moderno é a cabeça do motorista quando tenta entender as teorias da internet.
Em resumo... Essa é só mais uma crônica que eu escrevi... Eu, brasileiro aposentado, só vou poder ter um carro moderno assim só se for na outra encarnação... Quando eu for um politico abençoado por algum banqueiro safado... Deus me livre !!!!...
Por Alfredo Guilherme




















