Quem viveu a infância antes da virada do milênio, certamente lembram do tempo em que o mundo operava em câmera lenta. Para se descobrir um segredo da vida, um mistério do corpo ou as engrenagens que faziam isso acontecer, era preciso tempo. O conhecimento era um fruto colhido no topo da árvore, depois de esticar muito o braço. Hoje, o fruto caiu, apodreceu no chão e as crianças estão pisando nele antes mesmo de aprenderem a amarrar os cadarços.
Olho para o lado e vejo um garoto de dez anos fixado em uma tela brilhante. Seus dedos deslizam com uma agilidade assustadora. Ele não está jogando paciência ou assistindo a desenhos animados inocentes, ele está sendo exposto ao bombardeio bruto da existência humana. Guerras transmitidas ao vivo em formato de stories, debates hipersexualizados fragmentados em vídeos de quinze segundos, e uma superexposição voluntária onde a intimidade virou a moeda de troca mais barata do mercado.
A maturidade, que antigamente era um casaco pesado que a gente só vestia lá pelos dezoito ou vinte e um anos, virou um figurino compulsório para crianças de filliação digital. Aos dez anos, a infância é abortada pela enxurrada de algoritmos. Eles já sabem tudo, viram tudo, debatem tudo. Mas será que compreendem algo?
A internet prometeu nos conectar ao topo do conhecimento humano, mas parece ter aberto os portões dos nossos porões mais profundos e obscuros.
Gera-se uma urgência febril em chocar, em expor a própria carne, as próprias dores e as próprias convicções, como se a vida só existisse se validada pelo olhar de um tribunal de desconhecidos virtuais. As guerras reais ceifam vidas do outro lado do mundo, enquanto as guerras virtuais destroem a saúde mental em tempo recorde dentro de quartos trancados.
É inevitável o paralelo bíblico... estaríamos vivendo uma espécie de Sodoma e Gomorra da modernidade?
A diferença é que as cidades antigas foram destruídas pelo fogo que caiu do céu por causa de seus excessos. A nossa Sodoma contemporânea não precisa de fogo divino nós mesmos construímos o nosso próprio incêndio, pixel por pixel, e o carregamos de bom grado e destribuindo-o em mãos ainda inocentemente com a desculpa de paz pra nós e distração para eles. O fogo atual é a luz azul da tela, que queima a inocência, derrete o bom senso e consome o silêncio que a mente humana tanto precisa para se manter sã.
Assistimos ao espetáculo do absurdo na primeira fileira, aplaudindo ou cancelando, mas sempre consumindo.
Mas será que ?... Não estamos apenas repetindo o que nossos pais falavam de certos programas na TV, ou que os nossos avós falavam do Rock 'n' Roll?, E criticavam a canção Jet'aime moi non plus de 1969, que para eles era pornografia musicada, Toda geração acha que o mundo está acabando.
Vamos ter também a autoconsciência e evitar o clichê do "No meu tempo tudo era melhor". Reconhecendo o viés geracional, A internet também traz coisas incríveis, acesso à cultura e educação que nós nunca tivemos.
O problema não é a ferramenta, é a falta de mediação dos pais. E hora de aplicar menos apocalipse, mais educação digital!
Por Alfredo Guilherme






























