segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Crônica: Com quem será?...



      Essa imagem é um retrato silencioso, mas barulhento em significados. Ela captura o exato momento em que o "Com quem será?" da adolescência deixa de ser uma brincadeira na roda de amigos com o aniversariante para se tornar a celebração de uma jornada.

​     Houve um tempo em que o amor era uma profecia cantada em coro. Nas festinhas de aniversário, entre o bolo e o guaraná, os amigos formavam o tribunal do destino... “Com quem será...?” O coração de adolescente batia no ritmo daquela rima boba, e o “Vai depender " era sempre uma provocação lançada sobre algum olhar trocado no canto da sala.

​     Aos quinze anos, o amor é urgente e ruidoso. Aos sessenta, ele é sereno e essencial.

​     A foto ilustrativa não nos mostra um homem que carrega um terno azul impecável, mas sim uma história inteira nos ombros. O cabelo prateado e o olhar que busca o horizonte ou talvez o vulto daquela que finalmente preencheu o espaço vazio da canção, revelam uma verdade que os jovens raramente compreendem, no caso filhos da pretendente, na verdade o sonho de ter uma companheira não caduca com o tempo.

​     Muitos acreditam que, após décadas de estrada, o coração se aposenta. Mentira. Ele apenas se torna mais seletivo. Ele troca a ansiedade pela presença. A crônica da vida desse homem, agora emoldurada pelo sol poente e pelo balanço das palmeiras, os pés descalsos é o capítulo final de uma espera que valeu cada passo na areia.

​     O... Casamento na Praia tem um  Simbolismo... Escolher a praia para esse momento não é por acaso. O mar é o símbolo máximo do tempo  incessante, profundo, por vezes tempestuoso, mas sempre capaz de calmaria.

     Os pés descalços... Representam a humildade de quem já caminhou muito e não precisa mais de saltos ou etiquetas rígidas para saber onde pisa.

     O altar de bambu, leve, flexível, como deve ser um relacionamento na maturidade.

     ​A luz do entardecer... É o chamado "Golden Hour". Na vida, assim como na fotografia, é a luz mais bonita, aquela que suaviza as rugas e doura a alma.

​     O Veredito Final... Aquele "Vai depender" que os amigos cantavam há quarenta ou cinquenta anos atrás finalmente encontrou sua resposta.  Não dependia da sorte, do acaso ou da pressão dos colegas. Dependia da maturidade para entender que o amor é uma escolha diária, e não um sorteio de festa.

​     Hoje, o aniversariante de outrora não precisa mais que ninguém cante por ele. No silêncio das ondas, ele olha para o lado e sorri. O "Com quem será" virou "Com você". E o cenário, esse altar montado entre o céu e o oceano, é o testemunho de que nunca é tarde para começar o melhor capítulo do livro da vida.

​     Se você está planejando algo assim ou se essa foto te representou um momento real, e transmitiu uma paz contagiante. E a certeza que o amor na maturidade é acima de tudo, um ato de coragem e esperança.


​     Por Alfredo Guilherme 


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Admirável Silhueta....

 


​      Existem imagens que não pedem licença, elas simplesmente se instalam na memória através do olhar. E decidem morar lá por um bom tempo.

     Para mim, essa imagem foi o contorno contra o vidro embaçado em uma livraria, no bairro boêmio da Vila Madalena em São Paulo, numa noite em que a chuva forte, deu lugar para a tradicional garoa paulistana, que insistia em tentar apagar as cores da cidade, do lado de fora.

​     Eu estava do outro lado da rua, caminhando protegido por um guarda-chuva, quase inútil, com uma das vareta quebrada, quando a vi. A luz interna da loja iluminava um corpo feminino, ao mesmo tempo as estantes, mas ela era apenas uma sombra recortada envolta por um brilho convidativo ao olhar.

    Uma “admirável silhueta “ que parecia ter saído de um filme francês romântico em preto e branco, mas com uma doçura que nem o preto e o branco conseguiria esconder essa imagem encantadora.

​     Fiquei parado, ignorando os sapatos encharcados. Observei o modo como aquela silhueta inclinava a cabeça para ler os títulos nas prateleiras mais altas. Havia uma dança silenciosa ali, o movimento do braço que subia, a ponta dos pés que buscava um centímetro a mais, para alcançar, e sensual era o balanço leve dos seus cabelos.

​     Eu não conhecia o seu rosto, mas já estava apaixonado pela sua postura.

     ​Dizem que o amor precisa de detalhes, mas naquele momento, o detalhe era a ausência de tudo o que fosse concreto. Ela era uma promessa desenhada no escuro. Eu me peguei imaginando se o seu sorriso acompanhava a curva delicada que eu via no seu perfil, ou se o seu olhar tinha a mesma profundidade daquela sombra que me hipnotizava.

     ​Criei coragem e atravessei a rua. No meio de carros que passaram como borrões, e eu só conseguia focar naquele recorte perfeito atrás do vidro. 

     Quando empurrei a porta, o sino tocou e o calor do ambiente me atingiu.

     ​Ela se virou… E nesse instante a silhueta ganhou cor, profundidade e, finalmente, vida. A luz revelou seus olhos curiosos e o modo como mordia o lábio inferior, indecisa entre dois livros. O contorno era admirável, sim, mas a realidade... meu Deus… era covardia. A sombra que tinha me intrigado, pessoalmente, me desarmou por completo.

​      Aproximei-me, fingindo interesse em qualquer volume na prateleira ao lado. Ela sorriu com o canto da boca, como se soubesse que tinha sido observada e aquele movimento compôs a moldura final de que eu precisava.

     ​- Esse é muito bom… eu disse, apontando para o livro na sua mão, embora nem tivesse visto a capa.

​     E a silhueta, agora preenchida de vida, sorriu, tornou-se o rascunho de tudo o que eu queria escrever dali em diante.

      A transição da sombra para a voz é o momento em que o encanto virou conexão, no corredor estreito da livraria, entre o cheiro de papel antigo e a chuva batendo no vidro.

​     O sorriso dela foi o golpe de misericórdia. Não era um sorriso ensaiado, era daqueles que começam nos olhos antes de chegarem à boca. Ela fechou o livro, uma edição de capa dura que eu ainda não tinha identificado e me olhou de cima a baixo, notando meus sapatos e a barra da calça molhada.

​     - Você deve gostar muito de ler… ela disse, com uma ponta de ironia na voz… - Ou lembrou a tempo que o teto da livraria é um dos poucos lugares secos da cidade hoje.

     ​- Ainda bem que lembrei a tempo…Confessei, sentindo que a verdade estava perigosamente estampada no meu rosto... - Vi uma silhueta do lado de fora e achei que valia o risco de pegar um resfriado para ver se o resto da imagem era tão interessante quanto o contorno.

​      Ela arqueou uma sobrancelha. A agora ela tinha sobrancelhas expressivas e um brilho desafiador no olhar.

​     - Ela então?  Perguntou, dando um passo à frente, entrando no meu espaço pessoal… - O resto da imagem passou no teste de qualidade ou você prefere só me ver como uma silhueta?

     ​- Digamos que a luz fez um excelente trabalho de preenchimento revelado você por inteira.

​     Ela soltou uma risada curta, o som mais bonito que eu ouvira em toda a semana. Estendeu o livro para mim. Era uma coletânea de poemas.

     ​- Se você não for um perseguidor literário, eu espero que seja, que tal você me ajudar a decidir. Este ou este?… Ela apontou para um outro volume, de contos clássicos, que estava na prateleira.

​     - O , de poemas… respondi, sem hesitar. - Eles combinam mais com quem faz pose de mistério diante de uma estante de livros.

​     - Eu não estava fazendo pose! Ela protestou, fingindo indignação. - Eu estava tentando decidir se levava algo para ler ou se esperava a chuva passar me deliciando, tomando um café aqui no fundo da livraria.

     ​- Bem, o café aqui é terrível… menti descaradamente, sabendo que o café deles era com grãos premiado. - Mas conheço um lugar a duas quadras daqui que serve um excelente café ou um chocolate quente que faz a chuva lá fora parecer uma benção.

​     Ela olhou para o vidro embaçado, da vitrine atrás de mim. Colocou o livro de poemas debaixo do braço e caminhou em direção ao caixa.

​     - Se eu for, você promete parar de me chamar de "silhueta" e perguntar meu nome?

​     - Prometo. Mas só depois de saborearmos um café quentinho. Algumas coisas não podem ser apressadas.

​     Ela ia pagar o livro, eu me antecipei para pagar, já na saída, abri meu guarda-chuva. Era pequeno demais para dois, o que nos forçou a quebrar a distância que as sombras impunham. A silhueta agora tinha calor, perfume de sândalo e um ombro que roçava no meu.

​     -  Meu nome é Beatriz… ela disse, baixinho, enquanto dávamos o primeiro passo na calçada molhada.

​     - Eu sou o Lucas. E, só para constar, Beatriz... a luz da iluminação aqui da rua fica muito bem em você.

     A cafeteira era pequena, com luzes baixas e o som da chuva abafado pelas paredes grossas de tijolinho. Sentados em uma mesa redonda de mármore, o vapor das xícaras subia entre eles, criando uma nova cortina, desta vez muito mais íntima.

​     - Então, Lucas... Beatriz começou envolvendo a xícara com as mãos para se aquecer. - Além de perseguir contornos em vitrines, o que mais você faz da vida quando não está debaixo de um guarda-chuva pequeno demais?

​     - Eu sou arquiteto… respondi, observando como o reflexo das luzes do café dançava nos olhos dela.  - Talvez por isso eu tenha reparado na sua silhueta primeiro. Tenho esse vício de olhar para as formas, para as linhas que dividem o espaço. Mas confesso que, no seu caso, a estrutura interna é bem mais surpreendente.

     ​Beatriz riu, mas foi um riso suave, acompanhado de um olhar pensativo.

​     - Estrutura interna? Gostei da metáfora. Quando você entrou na livraria, você correu o risco de descobrir que a pessoa poderia não combinar com o desenho que você fez dela na sua cabeça.

​     - E eu estou correndo esse risco agora?…  Perguntou, inclinando-se um pouco mais para a frente.

​     - Não, de maneira alguma…ele disse…olhando nos olhos dela.

     Abri o livro de poemas que acabara de comprar e folheando-o até parar em uma página marcada apenas pela sorte. Lucas tomou das minhas mãos escrevendo algumas palavras a lápis e fechou o livro, me devolvendo.

     - Se você esperava alguém silenciosa e misteriosa como aquela sombra na vitrine, sinto decepcionar. Eu falo demais, sou teimosa e perco as chaves de casa pelo menos duas vezes por semana.

​     - Bom, eu também não sou apenas um arquiteto observador, retruquei. - Sou péssimo em esportes, tenho pavor de altura, não curto redes sociais e, claramente, não sei escolher guarda-chuvas. Acho que estamos quites.

​     A conversa fluiu como se o roteiro já estivesse escrito há anos. Falamos de livros, de medos bobos e daquela estranha sensação de que o mundo, às vezes, conspira para que dois estranhos se molhem na mesma calçada.

​    Depois de Anos…

​    A chuva ainda parecia a mesma, batendo ritmicamente contra a janela do apartamento no 12º andar. Mas, do lado de dentro, muita coisa havia mudado.

     ​Lucas estava parado na porta do quarto, observando Beatriz sentada na poltrona perto da janela, lendo sob a luz de um abajur. O cenário era estranhamente familiar. A luz vinha de trás dela, projetando na parede oposta era a mesma admirável silhueta que ele vira na livraria dois anos antes.

​    O contorno do pescoço, o arco das costas, o ângulo do cotovelo. Tudo estava lá.

    ​Mas agora, Lucas não precisava mais imaginar o que preenchia aquela sombra. Ele sabia o tom exato da voz dela ao acordar, conhecia a cicatriz pequena no joelho dela, sabia que ela preferia poemas tristes em dias ensolarados e que o seu riso era o único som capaz de organizar o caos do seu dia.

​     Ele se aproximou e colocou a mão no ombro dela. Beatriz não se assustou, apenas inclinou a cabeça para trás, sorrindo para ele.

​     - O que foi? Amor… ela perguntou.

​     - Nada. Só admirando a vista.

​     - A chuva?

​     - Não… ele respondeu, dando um beijo no topo da cabeça dela. - A sua silhueta, ela continua sendo a minha parte favorita do dia, mas agora eu prefiro o que está por dentro dela.

     Beatriz sorriu, como se tivesse lido os pensamentos dele, e abriu o livro de poemas naquela mesma página que os uniu. 
     Na margem do papel, agora amarelado pelo tempo, havia uma anotação feita a lápis, com a letra apressada de Lucas, datada daquela primeira noite no café.

"Para a mulher que, antes de ser um rosto, foi uma luz. Que a nossa vida seja sempre assim um contorno que a gente escolhe preencher, todos os dias, com a cor que o amor decidir inventar."

     ​Ela fechou o livro devagar, sentindo o peso daquelas palavras, puxou-o para perto trocando de lugar com ele sentado no seu colo. Trocaram beijos apaixonados. 

     A sombra na parede mudou, os dois contornos se fundiram em um só, e a chuva lá fora, agora parecia apenas ser a trilha sonora de uma história que tinha deixado de ser uma silhueta para se tornar realidade.

    Lucas percebeu que, por mais que a arquitetura do mundo mudasse e os anos trouxessem novas linhas para os seus rostos, aquela admirável mulher seria sempre o seu lugar de retorno de um encontro que começou no escuro de uma vitrine e terminou no brilho de um lar, Lucas se afastou para fazer um café.

​     O silêncio da casa não era vazio, era preenchido pelo som rítmico da respiração dela no sofá e pelo estalar discreto da madeira do piso. Lucas a observou por um instante encostado na porta da cozinha. Não havia a iluminação dramática daquela antiga vitrine, apenas a luz suave do abajur de canto, que revelava a realidade sem filtros, um livro esquecido no colo, os óculos levemente tortos e o cansaço honesto de quem também construiu aquele refúgio.

​     Ele se aproximou e, ao cobri-la com a manta, percebeu que a "arquitetura" mais bonita que haviam projetado juntos não tinha paredes de concreto. 

     Era feita de paciência nos dias em que o mundo lá fora parecia desmoronar. Reconhecimento na forma como um sabia o café preferido do outro sem precisar perguntar. Permanência no fato de que, entre tantas vitrines brilhantes que a vida ofereceu, eles escolheram o reflexo um do outro.

     Ela despertou quando sentiu o peso da manta. Ajustou os óculos e encontrou o olhar de Lucas, que ainda a observava.

     ​- O que foi? Ela perguntou com a voz rouca de sono. - Tenho algo no rosto? Umas ruguinhas a mais.

​     Lucas riu baixo, sentando-se no braço do sofá.

     - Algumas linhas novas, talvez. Mas eu estava pensando na vitrine. De como você parecia inalcançável lá atrás.

​     Ela sorriu, segurando a mão dele. A pele era morna e real.

     - A vitrine era só vidro Lucas, aqui dentro tem barulho, tem conta pra pagar e tem esse seu hábito de me olhar como se eu fosse um milagre.

​     - E você não é? Ele provocou.

​     - Sou a mulher que esquece a chave na porta... ela rebateu, puxando-o para mais perto. - Mas sou a mulher que sempre vai abrir essa porta para você.

​     Lucas feliz. O encontro que começou no escuro de uma noite qualquer tinha, finalmente, encontrado o seu amanhecer definitivo. A realidade, ele descobriu, era muito melhor do que a vitrine, nela, ele podia tocar a mão que o guiava de volta para casa.  

    

     Por Alfredo Guilherme



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Crônica : Dentro do carro...

 



A avenida... um rio de metal, um rio de luzes vermelhas que não corre.

O motor vibra, um coração paciente sob minhas mãos, mas eu permaneço imóvel, preso no labirinto de um engarrafamento sem fim.

A chuva golpeia o para-brisa, com a pressa de quem deseja possuir o mundo. As janelas embaçadas erguem muralhas translúcidas, me separam do caos líquido da cidade.

Sou apenas mais um, um motorista anônimo à espera do verde no semáforo. Mas aqui dentro o silêncio tem corpo, tem ossos, tem densidade.

Não é vazio é arquitetura de pensamentos que se transformam em palavras mortas sob o toque distraído do polegar no volante ao ritmo de uma música calma que insiste em existir.

Há ironia nisso... lá fora o mundo se derrama, se transborda, e eu me esforço para não me afogar no clima tenso.

As gotas deslizam como lágrimas que tentam me alcançar, mas falham. Batendo, escorrendo, voltando, no máximo lavam o vidro, e a couraça do carro.

O semáforo vermelho se reflete nas poças, um oráculo imóvel, um decreto de espera.

Eu sou o epicentro de uma calmaria íntima em meio à tempestade urbana. O reflexo no vidro embaçado me devolve um rosto, mapa de batalhas invisíveis, cicatrizes que a tarde cinzenta não revela.

Meu carro já não é veículo é um casulo, vidro e metal, um abrigo sobre rodas.

Os limpadores lutam por clareza, mas eu escolho a opacidade. A anatomia do meu silêncio é feita dessa resistência o direito de estar parado, cercado por carros e pessoas, algo tão cotidiano, e ainda assim ter a capacidade de se adaptar e superar adversidades.

O sinal vai abrir, buzinas vão soar, eu vou acelerar.

Mas por enquanto, sob a luz vermelha do semáforo ao compasso da chuva, sou apenas silêncio, sou apenas espera, sou apenas mais um olhar... Que contempla a própria tempestade, banhado por um mar de lanternas vermelhas a minha frente que nenhuma chuva pode apagar.


Por Alfredo Guilherme