Dedicatória
Para aqueles que não temem o tempo. Para os que entendem que a pele possui memória e que o vinho é apenas o fogo que a maturidade não apaga, ela refina.
O gosto suave daqueles primeiros beijos no carro incendiou nossas bocas, mas o que realmente ardia era a coragem de admitir o óbvio, não queríamos, naquele momento, apenas sair para conversar. Cedemos ao que os sentidos gritavam. Isso conferiu ao nosso encontro uma dimensão espiritual, quase predestinada.
E fizemos o que nossos anseios desejavam.
O Malbec era um rastro de veludo e fogo em nossas gargantas, tornando o mundo lá fora um mero detalhe esquecido. Sob a luz âmbar que recortava o quarto, cada movimento nosso era uma confissão. Não houve a hesitação comum aos desconhecidos, havia, sim, uma liberdade selvagem, como se nossas almas tivessem marcado esse encontro séculos antes de nossos corpos se tocarem.
Aproximei-me e vi a luz brincar com os fios de prata em seu cabelo, moldura sagrada para a urgência do seu olhar. Ali, a paz profunda deu lugar ao delírio. Minhas mãos leram sua pele como quem descobre um mapa antigo e precioso. O que era silêncio e desejo contido tornou-se uma sinfonia de respirações curtas e entregas sem reservas.
Apesar do peso dos anos, a intimidade surgiu como se nossos corpos tivessem memória própria. Não havia o receio do novo, apenas a liberdade de quem realiza o desejo sem pedir licença. Cada centímetro revelado era uma estação de prazer, onde a maturidade celebrava a vida em sua forma mais crua e bela.
O Beijo. Não o de quem se conhece agora, mas o de quem se reconhece na sede alheia. Um pacto selado de que nada seria negado. Na fusão do auge, o amor deixou de ser uma promessa futura para se tornar uma presença viva e pulsante, um grito de libertação.
O "continuaremos" foi escrito no suor, no calor das peles coladas e na exaustão doce que se seguiu. As taças ficaram vazias, mas nós transbordávamos. Os sorrisos entre os lençóis desalinhados eram puros, carregados da certeza de que, naquela noite, não apenas nos conhecemos, nós nos pertencemos.
O amanhã entrou sem pedir licença, tingindo o quarto com um tom de mel que o tempo parecia não querer apagar. O silêncio, antes preenchido pela urgência, agora pulsava no ritmo calmo de nossas respirações. Ao abrir os olhos, vi que a embriaguez do vinho dera lugar à sobriedade do afeto. O mistério transformara-se em intimidade.
Havia uma beleza crua naquele amanhecer. Sua pele, marcada pelo calor da entrega, brilhava sob os primeiros raios de sol, e os fios de prata em seu cabelo eram fios de luz sobre o travesseiro. Encontramos abrigo no meio da tempestade.
Quando seus olhos encontraram os meus, o sorriso não era de despedida, mas de confirmação. O amor, que atingira sua nota mais alta no escuro, estabilizava-se agora em uma melodia suave e contínua. Beijei-te com a calma de quem já conhece cada curva. O café que viria a seguir teria o sabor daquela primeira taça de Malbec, algo que começou avassalador, mas que possui a estrutura necessária para permanecer.
Saímos cúmplices, entregues ao melhor que a vida guarda.
Além do Horizonte do Quarto...
A porta se fechou, mas o que levávamos não cabia em malas. O trajeto de volta foi marcado por um silêncio confortável, aquele que só existe entre quem não precisa mais esconder nada.
Já não estávamos sob a luz protegida do hotel. Agora, o sol batia no rosto, revelando as marcas que o tempo e a noite deixaram. Sentamos em uma pequena cafeteria de esquina, o aroma do grão torrado substituiu o rastro do vinho. Ali, entre o tilintar das xícaras, percebemos que a liberdade do escuro era, na verdade, um passaporte para a transparência do dia.
A vida real tem horários e distâncias, mas toda vez que nossas mãos se tocavam por cima da mesa, a eletricidade voltava. Descobri que o brilho nos seus olhos ao falar dos seus sonhos era tão intenso quanto o que vivemos entre os lençóis.
Nossas rotinas se entrelaçaram como os fios de prata em nossos cabelos. O "continuaremos" deixou de ser o eco de uma noite para se tornar a mensagem no meio da tarde, o jantar planejado à pressa, o abraço demorado na porta. Não éramos mais apenas dois desejos realizados, éramos dois destinos que decidiram caminhar lado a lado, mantendo o fogo do Malbec aceso em cada novo amanhecer.
Posfácio:
Dizem que as grandes paixões pertencem à juventude, mas o que descobrimos entre o vinho e os fios de prata é que o desejo maduro é muito mais perigoso e belo, porque ele é consciente. Que cada leitor encontre, entre a taça e o lençol, a coragem de dizer... continuaremos.
Por Alfredo Guilherme

11 comentários:
O que mais chama atenção é a forma como o texto rompe com a ideia de que grandes paixões pertencem apenas à juventude.
Grande amigo Alfredo à coragem de viver plenamente o desejo, sem medo do tempo ou das marcas que ele traz. O Continuaremos é mais do que uma promessa realmente é a afirmação de que a maturidade pode ser palco das paixões mais belas e perigosas, justamente porque são vividas com lucidez e entrega.
Curti esse texto por é uma verdadeira celebração da maturidade do amor e da paixão.
Ao ler destaquei a intensidade da paixão, aqui ressalto a filosofia que o texto carrega, a maturidade como palco da liberdade e da beleza crua do amor são maravilhosas.
Parabéns um Belo conto pra quem viveu momentos parecidos amei 💝
Que legal essa toque para o leitor de que há uma provocação, que cada um encontre coragem para dizer “continuaremos”. Essa palavra é chave, pois transforma o instante em permanência, o desejo em caminho, e o encontro em destino.
Destino caminho e desejo, igual a muito e eterno AMOR💝
O texto também desafia convenções ele afirma que a paixão não é monopólio da juventude. Pelo contrário, o amor maduro é mais perigoso porque é consciente, vivido sem ilusões, mas com entrega plena.
Destino caminho paixão desejo quando é vivido na mesma intensidade é eterno 💝💝
Seu texto nos convida a refletir será que não é justamente na maturidade que o amor encontra sua forma mais autêntica, porque já não precisa provar nada, apenas existir?
Lindo demais esse texto parabens
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