quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

 


     Olá, pessoal!

​     O final do ano chegou e eu não poderia deixar passar sem agradecer a cada um de vocês que acompanhou o blog nestes últimos meses. Cada comentário, curtida e compartilhamento é o que mantém este espaço vivo.

​     Desejo que o Natal de vocês seja repleto de luz e que o Ano Novo traga fôlego renovado para tirarmos todos os planos do papel. Que em 2026 continuemos aprendendo e crescendo juntos por aqui!

​     Boas festas e muito obrigado por fazerem parte da nossa comunidade.

     Alfredo Guilherme 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Crônica : Confeitaria Íntima & Amores Confeitados...

 


      O amor deles tinha um defeito grave, era doce demais para caber só na imaginação. Eles eram um casal perigoso, não por ciúmes, não por brigas, mas porque jamais passaram um dia sem cometer um pequeno delito de gula amorosa.

      Tudo começou inocente. Um chocolate, um pudim aqui, um brigadeiro acolá, aquela mania de comer sobremesa antes do prato principal porque segundo eles “A vida é imprevisível demais pra deixar o melhor pro fim”.

     Mas ninguém imaginava que a relação deles com doces, literalmente, ia transbordar para outras áreas… Especialmente para o quarto, que sempre fora na visão geral um ambiente pacato, dedicado ao descanso, sono e ao silêncio... Até aquela sexta-feira… Quando eles levaram a confeitaria para dentro do próprio quarto.

     Não havia malícia explícita nisso apenas a teimosa convicção de que amor temperado com açúcar não engorda, só expande a alma.
E assim, decidiram transformar o quarto num templo gastronômico das emoções imprudentes.

     Era uma noite quente, dessas que fazem a gente questionar se realmente vale a pena ser adulto sem viver esses momentos. E pronto. A poesia do caos começou. 

     Ela entrou no quarto segurando uma bandeja com os ingredientes, como quem leva um segredo perigoso, um olhar de quem estava prestes a cometer poesia ou crime, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

     - Amor, isso aqui vai dar errado... Devemos seguir receita?  Ela perguntou, com o cabelo preso com uma colher de sorvete.

     - Jamais seguir a receita... ele respondeu. - O amor não leva medidas, tudo que dá errado viram boas lembranças... ele respondeu, como um sábio totalmente irresponsável.

     Foi aí que o doce de leite encontrou um destino alternativo. Eles não se tocavam se provavam, como quem descobre sabores antigos escondidos na pele.

     Não estavam se amando nas preliminares se é sim se confeitizando. Era uma mistura de sedução e festa da uva, intercalando com goles de um encorpado vinho.

     A cama virou laboratório de confeitaria, um fio de calda escorrendo pelo travesseiro, um floco de chocolate com  chantilly, pousando no ombro dela como se fosse neve tropical, uma cereja teimosa que insistia em rolar para direções filosóficas. e molhadas de desejos.

     - Estamos parecendo dois confeiteiros sem diploma... ela riu, cheia de doce até na alma.
     - Somos dois apaixonados nosso amor é uma sobremesa performática... 
ele corrigiu... E quem é que discorda de um homem com doce de leite pelo corpo e com chantilly nos cantos dos lábios?

     A verdade é que havia algo profundamente humano e deliciosamente afetivo,  naquela bagunça açucarada. Eles eram adultos, sim, mas adultos que se permitiam se lamber e sugar, no meio da luxúria, e isso já era poesia suficiente.

     A cada toque, não era pele que encontravam, era sabor. A cada gargalhada, os corpos ganhava um novo ingrediente, uma nova lembrança pegajosa que ficaria impregnada na pele para se saciarem.

     Se amaram adocicados, já exaustos e com cheiro de confeitaria clandestina, continuaram abraçados no lençol que não veria um elogio da máquina de lavar. Em silêncio contemplaram o teto com a serenidade de missionários que cumpriram um ritual místico.

      - Amor… ela disse, com a voz doce demais para ser natural...  - Acho que inventamos a “Confeitaria Erótica”, você acha que existe limite, quando a gente ama alguém?

     - Claro que existe... ele disse.  - Só que a gente acabou de ultrapassar.

     Riram juntos, como cúmplices da própria maluquice adocicada. Adormeceram grudados, não pela paixão, mas porque doce de leite que endureceu mais rápido do que eles pensavam.

     E amanheceram com uma certeza nova. O amor, quando é bom, tem sempre gosto de sobremesa, e um pouco de sujeira poética pelo lençol como testemunha que ficou pra contar história.

     Bom !!!… Se isso não é amor, nada mais é.

     

     Por Alfredo Guilherme



terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Crônica : 0 Charme do Pântano...

 



​     Acordei com a sensação estranha de que meu travesseiro cheirava a lodo e ao mesmo tempo eu me sentia bem, me sentia, vitorioso, meio confuso também... Não era um cheiro ruim, entendam bem. Era aquele aroma de terra molhada onde a vida acontece fervilhando, escondida sob a superfície. 

    Tinha acabado de sonhar com um jacaré e um sapo. Juntos... Na minha sala cheia d'água... Aí já viu né... Corri para o onipresente "Livro dos Sonhos" da internet, que é sem dúvidas... O oráculo moderno das nossas neuroses matinais. 

    O veredito saltou na tela do celular com a sutileza de um neon piscante... "Jacaré e sapo juntos indicam domínio das artes da sedução e uso de atrativos físicos para obter aprovação do sexo oposto."

​     Caramba... Eu congelei na frente da tela do celular, corri para me olhar no espelho. Olhei para o meu reflexo. Cabelo amassado do lado esquerdo, olheiras de quem maratonou série ruim, e ainda usava uma camiseta que você ganha de quem viaja para as praias afrodisíacas do nordeste e te traz uma de presente com dizeres “Eu ❤️ amo Maceió” e você nunca vai usar ela para sair na rua.

     Naquele instante nela, deveria estar escrito em nome da biologia evolutiva, ... “O Don Juan do pântano”...

​      Mas para escrever essa crônica exigiu uma investigação. Se o subconsciente diz que sou um mestre da sedução anfíbia e reptiliana, quem sou eu para discordar de Freud e seus zoológicos mentais? Comecei a analisar a lógica da coisa. E, surpreendentemente, ela fazia sentido.

​     O Jacaré não é o sedutor clássico. Ele não é o pavão que abre as asas como um leque e dança. O jacaré é o mestre do timing. É a sedução de sangue frio. Ele fica ali, boiando, como quem não quer nada, parecendo um tronco inofensivo, apenas dois olhos vidrados na superfície. Ele não corre atrás, ele atrai pela curiosidade ou pela falsa sensação de segurança. A "arte da sedução" do jacaré é a paciência. É saber que, se você ficar parado na posição certa, com o sorriso certo, aquela boca cheia de dentes, a presa ou o amor da sua vida acaba vindo beber água na sua margem.

​     Já o Sapo... ah, o sapo é o malandro da história. Se o jacaré vence pelo perigo estático, o sapo vence pela lábia. É o coaxar. É a conversa mole no ouvido. O sapo tem aquela pele úmida, meio viscosa, que a gente finge que não gosta, mas que carrega uma textura de realidade. E tem, claro, o mito do feitiço, que o príncipe virou sapo. A sedução do sapo reside na promessa do o que eu posso vir a ser. Ele usa a sua fisicalidade, o papo inchado, o pulo desengonçado, para chamar a atenção. É o sujeito que não é bonito, mas é "simpático", que ganha no cansaço e na insistência.

​     O sonho estava me dizendo, então, que eu opero nesse cruzamento perigoso entre a mordida fatal e o coaxar melódico.

​     Saí de casa me sentindo diferente…  Entrei na padaria não como o cliente que pede uma "média e pão na chapa", mas como o predador do balcão. Estufei o peito, meu momento sapo, e lancei um olhar fixo e penetrante para a atendente meu momento jacaré.

​     - Vai querer o de sempre ? Ela perguntou, sem nem olhar no meu rosto, matando minha performance reptiliana.

​     - Hoje não, respondi, tentando colocar uma voz grave e sedutora, um coaxar de barítono. - Hoje eu quero um suco de laranja sem açúcar, e um sonho. Notaram né, que merda de pedido foi o meu, suco sem açúcar e um sonho ultradoce, mas tudo bem, estava no meu momento de sedução. Ela me entregou o suco, e um saquinho de papel com o doce cheio de creme.

     ​Saí rindo de mim mesmo, ainda mordendo o açúcar do sonho. Talvez o livro dos sonhos exagerou na parte do "domínio formal e científico dos sonhos, e durante o estudo da onirologia, os caras viajaram na maionese.

     Ou talvez a sedução real seja exatamente isso, saber que a gente é meio bicho, meio desajeitado, que às vezes a gente precisa ficar quieto como um tronco e às vezes precisa fazer barulho pra ser notado.

​     E no resumo da ópera… No fim das contas, a atração física que o sonho mencionava não era sobre ter o corpo malhado com barriga de tanquinho. Era sobre ter a casca grossa, para aguentar os foras e a pele fria, para não esquentar a cabeça.

​     Cá, com meus botões eu pensei… No pântano das relações modernas, quem tem paciência de jacaré e lábia de sapo, de fato, nunca ficam muito tempo sem se dar bem na arte do amor, ou seja nunca morrem de fome... Se é que você entendeu…


    Por Alfredo Guilherme 


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Manifesto... Entre Lençóis....

 


        Eu não sou estatística.  
      Não sou estereótipo. 
      Sou voz que rasga o silêncio. 
      Sou corpo que exige respeito.

     Entre lençóis, não há pudor. Há pele. Há suor. Há desejo. Mas cuidado, o desejo também carrega história. Carrega séculos de estereótipos, de fantasias coloniais, de olhares que reduziram corpos a rótulos simplesmente.

     E aí, o elogio virava ferida. A carícia virava lembrança de opressão. O prazer se contaminava com preconceito, hoje vivemos outra realidade.

     Mas amar é revolução. Amar é desaprender…  Desaprender frases herdadas, desaprender o costume de transformar o amor apenas em experiência privada, desaprender o vício de hierarquizar corpos. sendo que ele pode constituir-se como prática de resistência e emancipação.

     Amar é escutar… É perguntar... O que te fere?...  É responder... Meu prazer não é poder, é respeito.

     Liberdade se existir correntes… Liberdade é quebrá-las. Intimidade não é exotizar. Intimidade é reconhecer o outro por inteiro.

     Entre, lençóis e corpos, ardentes descobrimos que o verdadeiro gozo não nasce da hierarquia, mas da leveza de se ver humano, sem pudor, sem muros, sem grades, sem máscaras.

     E assim, no silêncio da noite. 
     O amor se fez poesia. 
     Um pacto de desaprender.
     É um convite a reinventar o desejo. 
     Vivendo a beleza de ser livre.
     Quebrando correntes invisíveis do prazer.
       Isso é raro. É bonito. É necessário.


      Por Alfredo  Guilherme 


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crônica: Dispensa de Cor... BRASIL E SEU ARQUIVO DA HUMILIAÇÃO...



     Há documentos no Brasil que cortam mais fundo que qualquer espada. Não porque descrevem violência explícita, mas porque oficializam aquilo que nunca deveria ter sido escrito. A desumanização como política de Estado.

     Entre eles, repousa silenciosa e vergonhosa a prática imperial da “Dispensa da cor”. Um recurso jurídico que, ironicamente, dizia mais sobre a nação do que sobre o requerente.

     No século XIX, em pleno Império, pessoas pretas, livres escreviam cartas pedindo autorização para que a própria cor não fosse usada contra elas.
    Era uma súplica institucionalizada. Um ritual de humilhação administrativa. Um ato que dizia, com caligrafia elegante...

    “Rogo a Vossa Majestade que me dispense da nota de cor, para que eu possa exercer o cargo.”

    É difícil não ler isso como um epitáfio civil. Porque ali, entre carimbos e tinta desbotada, está a prova de que a modernidade brasileira se ergueu com uma lógica brutal… 'A cidadania tinha pigmento'.
    E quem não correspondia ao tom ideal precisava pedir dispensa para existir, para trabalhar, para servir ao Estado que o negava.

    A violência desse mecanismo não está apenas na desigualdade que produz, mas na pedagogia que instaura a cor como falha, o corpo preto como erro, a dignidade como concessão.

    E o mais perverso é que tudo isso era feito sem gritos, sem algemas, sem espetáculo. A brutalidade brasileira sempre gostava e ainda gosta, de ser discreta.

    Mas o que essa história revela não é apenas o passado. É o método. É a estrutura mental que permanece.

    Porque, hoje, a dispensa da cor pode não ser escrita, mas ecoa nos currículos descartados, nos corpos suspeitos por padrão, nos espaços onde a branquitude se imagina neutra e universal.

    A academia chama isso de racismo estrutural. Eu chamo de "Memória Persistente do Açoite". Um país que não se livra dos fantasmas porque continua se alimentando deles.

    E, ainda assim, esse eco exige ser enfrentado. Não como culpa, a culpa paralisa, mas como responsabilidade histórica.
    Como compromisso ético com a verdade, O Brasil não foi cordial. Foi hierárquico. Foi seletivo. E fez da cor uma fronteira interna.

    Escrever sobre isso não é remoer o passado.
É recusá-lo. É rasgar o decreto simbólico que dizia que alguém precisava pedir permissão para ser gente. É reescrever o que deveria ter sido óbvio desde sempre.

      Porque nenhum país se torna justo enquanto sua história permanece intacta intocada, esterilizada, confortável.

     A justiça exige fissura. Exige incômodo. Exige olhar para "o arquivo da humilhação" sem desviar os olhos.

     Lembrar disso não é abrir ferida, é impedir que ela cicatrize torta.
     É reconhecer que, sim, já existiu um Brasil, onde era preciso pedir permissão para ser.
     E que ainda estamos tentando construir, c
om ajuda do nosso atual, Governo, Democrático e Justo um Brasil onde ninguém precise pedir mais nada além de respeito.


     Por Alfredo Guilherme