segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Reflexões... Entre Objetos e Metáforas...



          A borboleta e a tela...

   
     
Havia uma mesa, e sobre ela um celular adormecido. Sua tela clara quando se tornava negra era como um lago sem a luz do luar, um espelho de nada, à espera de rostos que nunca chegavam.

    Então, vinda de um lugar que não se sabe de onde, uma borboleta pousou.
    Era frágil e livre, como se trouxesse nos olhos a lembrança do vento.

    E naquele instante, a tela perdeu sua autoridade de oráculo.
    Nenhuma mensagem, nenhuma chamada, nenhum alerta tinha mais sentido do que o simples bater de asas.

    A borboleta não sabia de aplicativos.
    Não conhecia senhas.
    Não entendia de algoritmos.
    Mas carregava um segredo antigo…
    "O que é vivo só se revela no silêncio atento".

    E assim ficou...
    Pousada no escuro da tela, era a metáfora de tudo o que esquecemos quando escolhemos a vida que brilha por dentro do vidro em vez da que dança voando no ar em liberdade fora da tela.


    O copo e a sede...

    Na mesa esquecida, um copo com água. Transparente, silencioso, paciente.
    Do lado, alguém com a boca seca, rolando telas no celular, como quem procura um gole que nunca vem.

    O copo não vibra, não emite alerta, mas guarda dentro dele a resposta... "A sede não se mata em pixels, só em goles que descem pela garganta e lembram que estamos vivos".


     A janela e o vento...

Havia uma janela fechada.
    Do lado de fora, o vento fazia festa, trazia cheiros de chuva, vozes de passarinhos, e um convite sem palavras.

    Mas dentro, alguém preferia o ar-condicionado constante, previsível, sem surpresas no frescor do ambiente.
    Até que uma fresta se abriu, e o vento entrou, desarrumando os cabelos, derrubando papéis, bagunçando certezas e refinando o ar.

    Foi nesse instante que se descobriu, que a vida não gosta de controles e seus botões de ligar e desligar, ela prefere... "Janelas abertas".


 A chave e a porta...

No bolso, uma chave esquecida...

     De uma porta que nunca se abriu de verdade.
     As pessoas passavam, por ela, todos os dias, sempre olhando para baixo, como quem procura caminhos em mapas digitais na tela do celular.

     Mas um dia, por acaso, a chave caiu do bolso,  rolou até a porta... E no encaixe exato, fez-se o estalo.

     Atrás da silenciosa madeira, havia um quintal, com árvores e flores que ninguém fotografava, e um banco gasto pelo tempo, em um gramado verde esmeralda.
     Ali, a vida estava inteira, esperando o gesto simples de girar a chave e olhar para a vida e viver o melhor dela.


     Por Alfredo Guilherme 



16 comentários:

Anônimo disse...

Gostei de mais essa postagem caro amigo Alfredo vc construiu uma série de parábolas modernas, onde objetos do cotidiano, se tornam símbolos de escolhas humanas. O legal que o texto não é contra a tecnologia em si, mas contra o esquecimento do essencial, e refletir sobre a necessidade de recuperar o contato com o que é vivo, simples e imprevisível.

Anônimo disse...

Você me convidou a perceber que a vida pede presença, não apenas distração, ao abrir as janelas, permitindo que o mundo real atravesse as nossas rotinas.

Anônimo disse...

Meu amigo Alfredo, a borboleta no seu texto, pousada sobre o celular é uma metáfora que lembra Clarice Lispector, que tantas vezes escreveu sobre o instante como revelação. Em A Descoberta do Mundo, ela diz: “O que me interessa é o que acontece no intervalo, no silêncio.” A sua borboleta é esse intervalo vivo, que desmonta o poder da tecnologia e devolve para nos leitores a consciência de que o essencial não se revela em notificações, mas em atenção.

Anônimo disse...

A sede só se mata em goles reais, seu texto denuncia a ilusão de substituição que a tecnologia cria, como se o virtual pudesse suprir necessidades físicas e existenciais.

Anônimo disse...

Muito legal essa necessidade de recuperar o contato com o que é vivo, simples e imprevisível.

Anônimo disse...

Alfredo, o texto que você compartilhou é belíssimo, uma sequência de metáforas que funcionam como pequenos espelhos da vida contemporânea.

Anônimo disse...

Saí do texto com vontade de largar o celular na mesa e confiar mais nos gestos pequenos, esses que não rendem curtidas, mas sustentam a vida.

Anônimo disse...

A imagem do copo ao lado da sede me atravessou profundamente, porque é assim que tenho vivido: cercada de respostas que não saciam. Obrigada por me lembrar que o essencial não pisca, não notifica, não faz barulho. Ele apenas permanece. Terminei a leitura com vontade de abrir janelas por fora e por dentro.

Anônimo disse...

Você escreve como quem não quer convencer ninguém, apenas lembrar. E talvez por isso seus textos toquem tanto, porque não disputam atenção, oferecem presença.

Anônimo disse...

Não costumo comentar, mas seus textos pedem resposta. Eles ficam ecoando depois da leitura, como uma música baixa no fundo do dia. Há uma espécie de cuidado com o leitor, como se você dissesse, vai lendo devagar, está tudo aqui, Obrigado por esse espaço onde a vida não precisa correr.

Anônimo disse...

Ler seu blog virou um pequeno ritual pra mim. Não entro correndo, não leio em voz alta. Leio como quem se sente o conteúdo dentro do peito.

Anônimo disse...

Parabéns é pra ler várias vezes é viajar várias vezes é recuperar o tempo perdido ser essa borboleta.

Anônimo disse...

Você me provocou a refletir sobre como muitas vezes buscamos o alívio em distrações digitais, quando a solução está ao alcance da mão, simples e concreta.

Anônimo disse...

Alfredo, esse ensaio pode ser lido como uma crítica poética à vida digital, mas também como um manifesto pela simplicidade.

Anônimo disse...

O texto sugere que a vida verdadeira não se revela em notificações, mas no silêncio atento.Muito bom.

Anônimo disse...

Realmente vc tem toda a razão, desligar a tela para ver a borboleta, beber a água real, abrir a janela ao vento, girar a chave da porta esquecida. São gestos mínimos que revelam uma verdade maior, a vida só acontece nos instantes que respiramos fora deles.