sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um conto contado : União sólida...




      Eles eram uma moeda de um real, sólida, brilhante, indivisível. Até que o silêncio, esse ácido lento, começou a corroer a liga que os unia. Sem nenhum alarde, o centro prateado se descolou do aro dourado, revelando que a união era na verdade, um ajuste de pressão que já não suportava a verdade... Dizem que o amor é uma liga metálica, forjada para resistir ao manuseio bruto dos nossos dias, mas não se separam, a não ser por omissão.


       (Ela... para ele...)
       Eu sempre fui o teu contorno. Passei anos acreditando que minha missão era te proteger, te apertar contra mim para que o mundo visse em nós uma peça única, um valor indivisível. Eu era o ouro que brilhava na vitrine da nossa vida social, você era o meu lastro, o meu centro prateado.

​      Mas hoje, deitados sobre este linho do lençol que mais parece uma areia movediça de silêncios, eu percebi que me tornei uma moldura com medo de te apertar nos meus braços... Eu sinto o teu ser, logo ali, a poucos milímetros de distância, mas não me atrevo a me mover. Tenho medo de que, se eu tentar te abraçar de novo, você descubra que meus desejos cresceram para dentro, criando arestas que a sua segurança não suportaria.

​     A gente se perdeu na liberdade. E você se calou para não me ferir com suas vontades mais cruas, e eu me tornei rígida para que você nunca suspeitasse das minhas. Criamos uma etiqueta para o amor, e sexo, uma polidez que, aos poucos, foi desgastando a liga que nos unia. Somos dois prisioneiros de uma perfeição que inventamos. Eu, o círculo, e você, o núcleo central.

​     Olho para o vazio e a distância, que você deixou em mim e vejo o deserto. É curioso como a liberdade de ser quem somos parece mais perigosa do que a segurança de sermos sós, mesmo estando juntos. Queria que você soubesse que eu trocaria todo o brilho das minhas bordas por um minuto de uma verdade que nos fizesse tremer, eu sigo aqui, fingindo que ainda sou inteira.

​      Somos o retrato de um "nós" que desabou para dentro. Estamos no mesmo lençol, na mesma foto. Mas, entre o meu dourado e o teu brilho fosco, ouço o teu eco. Sinto o frio do teu metal roçar a memória da minha pele, mas permaneço aqui, imóvel, como se o peso que carrego no peito me impedisse de rolar de volta para o teu abraço.


      (Ele... para ela...)
      Me descolei de você porque não aguentava mais a pressão de ser exatamente o que você esperava que eu fosse.Tive medo de que, se eu confessasse os meus desejos mais íntimos, aqueles que não têm o brilho limpo da nossa rotina, eu acabaria por arranhar o teu dourado. Eu me tornei menor para não te incomodar, e nesse processo de encolhimento, nasceu esse espaço entre nós.

​     O que você chama de distância, eu chamo de preservação. ​O meu silêncio não é falta de querer, é o medo de que o meu querer seja vasto demais para o teu círculo.​ A minha imobilidade não é desdém é o receio de que, ao tentar me encaixar novamente, a gente descubra que as partes originais juntas, nunca existiu, que fomos apenas dois metais forçados a uma união expostos como um erro de cunhagem

     Mas onde está a poesia do toque? Onde está o risco de sermos uma liga nova, derretida e misturada? ​Mas entre o meu desejo e a tua borda dourada, existe uma parede invisível da nossa liberdade vigiada. Somos vizinhos de um abismo. E, enquanto você não aceitar o meu núcleo imperfeito, e eu não confiar na tua moldura para me acolher sem me sufocar, seremos apenas duas peças de metal esperando que o tempo nos oxide, até que não sobre nada além de pó e da lembrança de uma moeda que nunca se permitiu ser gasta de verdade.

​     Depois deste diálogo...  

​     Sob a luz fraca do abajur, da sala, as mãos de ambos se encontraram por acaso ao lado das duas partes da moeda. Não houve um susto, apenas um reconhecimento. Ele tocou o centro prateado, ela, o aro dourado. Naquele instante, o silêncio de ambos que antes era um muro, transformou-se em uma ponte de vidro.

​     Não houve exagerados pedidos de perdão ou promessas de que tudo voltaria a ser como antes. Eles entenderam, no toque frio do metal, que o tempo tinha dilatado o dourado e o gasto prateado da moeda tinha se separado, e que nunca mais poderia ser a mesma de 2025. 

     ​Com um movimento lento, ele deslizou o núcleo prateado para dentro do círculo dourado dela. Não foi um encaixe perfeito, pois havia uma pequena cicatriz, a ser curada para 2026. Mas foi justamente nessa cicatriz que eles encontraram a liberdade que faltava. 

​      Eles não voltariam a ser "um real". Tornaram-se algo mais valioso e menos comercial, um par que aceita a própria fragmentação. Decidiram que a beleza não estava na perfeição da cunhagem, mas na coragem de permanecerem juntos, mesmo sabendo que agora eram feitos de partes que podem, a qualquer momento, se soltar de novo.

     Descobriram que o amor não precisa ser uma peça fundida e estática, mas um reencontro constante de partes que aprenderam a ser livres, mesmo quando escolhem, deliberadamente, o abraço do mesmo metal.



       Por Alfredo Guilherme





14 comentários:

Anônimo disse...

Ao ler seu texto, meu caro amigo Alfredo, imediatamente fui envolvido por uma metáfora poderosa, o amor como uma moeda de um real, aparentemente sólida e indivisível, mas que, com o tempo e o silêncio, pode revelar suas fissuras. A sua narrativa convida quem lê a refletir sobre a fragilidade das relações humanas, mostrando que muitas vezes o que parece união perfeita é apenas um ajuste de pressão, sustentado por expectativas e omissões.

Anônimo disse...

Seu texto me tocou porque mostra que amar é ter coragem de se reinventar, mesmo sabendo que as partes podem se soltar de novo.

Anônimo disse...

O seu texto mostra que o amor não é uma fusão perfeita, mas uma constante negociação entre diferenças. adorei o texto...

Anônimo disse...

Gosteii da metáfora da moeda sugere que o valor de uma relação não está em sua aparência social ou em sua “cunhagem perfeita”, mas na coragem de aceitar imperfeições e continuar escolhendo o outro.

Anônimo disse...

A imagem da moeda de um real é genial. Muita gente vive assim mantendo o 'aro dourado' intacto para a vitrine social (família, amigos, fotos de viagem), enquanto o núcleo está solto, sem encaixe. É doloroso ler sobre esse 'desejo que cresceu para dentro'. Às vezes, o que a gente mais quer é alguém que aceite as nossas arestas, mas a gente gasta a vida tentando ser redondo e liso para não incomodar.

Anônimo disse...

Achei poético e realista o desfecho sobre 2026. Não existe esse 'voltar ao que era antes'. O tempo dilata a gente, a vida gasta o brilho. O que resta é esse encaixe com folga no amor.

Anônimo disse...

Achei o texto show, adorei a ideia de que a beleza está na cicatriz e não na perfeição da cunhagem. Ser menos comercial e 'mais valioso' é o segredo para uma relação que respira. Que texto necessário para quem sente que está morando ao lado de um abismo no próprio lençol.

Anônimo disse...

Que texto visceral! Meu caro amigo, principalmente na parte em que ele diz que o silêncio é preservação' e não desdém me fez parar para pensar. Quantas vezes a gente se cala e se encolhe para não quebrar a expectativa do parceiro? A gente acha que está salvando o casamento, mas na verdade estamos apenas criando esse erro de cunhagem que você acabou de descrever.

Anônimo disse...

É amigo seu texto é um lembrete de que a intimidade real só acontece quando a gente para de fingir que é uma peça inteira e aceita que somos fragmentados.

Anônimo disse...

Seu texto é um convite à coragem. Ele sugere que a única forma de uma moeda (ou de um casal) ter valor real é se ela se permitir ser "gasta" pela verdade, mesmo que isso signifique perder o brilho impecável peranta a sociedade.. 👍

Anônimo disse...

A 'polidez' que você citou no texto, muitas vezes, e o veneno disfarçado de antídoto. Quando paramos de incomodar o outro com a nossa verdade, paramos também de interessá-lo. O silêncio que preserva é o mesmo que isola, ótimo texto amigo.

Anônimo disse...

Meu caro amigo, ler os comentrios da galera me faz perceber que esse vazio entre o aro e o núcleo é uma geografia muito mais comum do que imaginamos.

Anônimo disse...

Não busquem ser moedas perfeitas. Busquem ser uma liga metálica que aceita o fogo. Às vezes, é preciso derreter o que fomos para descobrir o que podemos ser juntos.

Anônimo disse...

A parada é o seguinte, é saber que o outro pode se soltar, mas que existe um espaço seguro para o reencaixe.