domingo, 8 de fevereiro de 2026

Admirável Silhueta....

 


​      Existem imagens que não pedem licença, elas simplesmente se instalam na memória através do olhar. E decidem morar lá por um bom tempo.

     Para mim, essa imagem foi o contorno contra o vidro embaçado em uma livraria, no bairro boêmio da Vila Madalena em São Paulo, numa noite em que a chuva forte, deu lugar para a tradicional garoa paulistana, que insistia em tentar apagar as cores da cidade, do lado de fora.

​     Eu estava do outro lado da rua, caminhando protegido por um guarda-chuva, quase inútil, com uma das vareta quebrada, quando a vi. A luz interna da loja iluminava um corpo feminino, ao mesmo tempo as estantes, mas ela era apenas uma sombra recortada envolta por um brilho convidativo ao olhar.

    Uma “admirável silhueta “ que parecia ter saído de um filme francês romântico em preto e branco, mas com uma doçura que nem o preto e o branco conseguiria esconder essa imagem encantadora.

​     Fiquei parado, ignorando os sapatos encharcados. Observei o modo como aquela silhueta inclinava a cabeça para ler os títulos nas prateleiras mais altas. Havia uma dança silenciosa ali, o movimento do braço que subia, a ponta dos pés que buscava um centímetro a mais, para alcançar, e sensual era o balanço leve dos seus cabelos.

​     Eu não conhecia o seu rosto, mas já estava apaixonado pela sua postura.

     ​Dizem que o amor precisa de detalhes, mas naquele momento, o detalhe era a ausência de tudo o que fosse concreto. Ela era uma promessa desenhada no escuro. Eu me peguei imaginando se o seu sorriso acompanhava a curva delicada que eu via no seu perfil, ou se o seu olhar tinha a mesma profundidade daquela sombra que me hipnotizava.

     ​Criei coragem e atravessei a rua. No meio de carros que passaram como borrões, e eu só conseguia focar naquele recorte perfeito atrás do vidro. 

     Quando empurrei a porta, o sino tocou e o calor do ambiente me atingiu.

     ​Ela se virou… E nesse instante a silhueta ganhou cor, profundidade e, finalmente, vida. A luz revelou seus olhos curiosos e o modo como mordia o lábio inferior, indecisa entre dois livros. O contorno era admirável, sim, mas a realidade... meu Deus… era covardia. A sombra que tinha me intrigado, pessoalmente, me desarmou por completo.

​      Aproximei-me, fingindo interesse em qualquer volume na prateleira ao lado. Ela sorriu com o canto da boca, como se soubesse que tinha sido observada e aquele movimento compôs a moldura final de que eu precisava.

     ​- Esse é muito bom… eu disse, apontando para o livro na sua mão, embora nem tivesse visto a capa.

​     E a silhueta, agora preenchida de vida, sorriu, tornou-se o rascunho de tudo o que eu queria escrever dali em diante.

      A transição da sombra para a voz é o momento em que o encanto virou conexão, no corredor estreito da livraria, entre o cheiro de papel antigo e a chuva batendo no vidro.

​     O sorriso dela foi o golpe de misericórdia. Não era um sorriso ensaiado, era daqueles que começam nos olhos antes de chegarem à boca. Ela fechou o livro, uma edição de capa dura que eu ainda não tinha identificado e me olhou de cima a baixo, notando meus sapatos e a barra da calça molhada.

​     - Você deve gostar muito de ler… ela disse, com uma ponta de ironia na voz… - Ou lembrou a tempo que o teto da livraria é um dos poucos lugares secos da cidade hoje.

     ​- Ainda bem que lembrei a tempo…Confessei, sentindo que a verdade estava perigosamente estampada no meu rosto... - Vi uma silhueta do lado de fora e achei que valia o risco de pegar um resfriado para ver se o resto da imagem era tão interessante quanto o contorno.

​      Ela arqueou uma sobrancelha. A agora ela tinha sobrancelhas expressivas e um brilho desafiador no olhar.

​     - Ela então?  Perguntou, dando um passo à frente, entrando no meu espaço pessoal… - O resto da imagem passou no teste de qualidade ou você prefere só me ver como uma silhueta?

     ​- Digamos que a luz fez um excelente trabalho de preenchimento revelado você por inteira.

​     Ela soltou uma risada curta, o som mais bonito que eu ouvira em toda a semana. Estendeu o livro para mim. Era uma coletânea de poemas.

     ​- Se você não for um perseguidor literário, eu espero que seja, que tal você me ajudar a decidir. Este ou este?… Ela apontou para um outro volume, de contos clássicos, que estava na prateleira.

​     - O , de poemas… respondi, sem hesitar. - Eles combinam mais com quem faz pose de mistério diante de uma estante de livros.

​     - Eu não estava fazendo pose! Ela protestou, fingindo indignação. - Eu estava tentando decidir se levava algo para ler ou se esperava a chuva passar me deliciando, tomando um café aqui no fundo da livraria.

     ​- Bem, o café aqui é terrível… menti descaradamente, sabendo que o café deles era com grãos premiado. - Mas conheço um lugar a duas quadras daqui que serve um excelente café ou um chocolate quente que faz a chuva lá fora parecer uma benção.

​     Ela olhou para o vidro embaçado, da vitrine atrás de mim. Colocou o livro de poemas debaixo do braço e caminhou em direção ao caixa.

​     - Se eu for, você promete parar de me chamar de "silhueta" e perguntar meu nome?

​     - Prometo. Mas só depois de saborearmos um café quentinho. Algumas coisas não podem ser apressadas.

​     Ela ia pagar o livro, eu me antecipei para pagar, já na saída, abri meu guarda-chuva. Era pequeno demais para dois, o que nos forçou a quebrar a distância que as sombras impunham. A silhueta agora tinha calor, perfume de sândalo e um ombro que roçava no meu.

​     -  Meu nome é Beatriz… ela disse, baixinho, enquanto dávamos o primeiro passo na calçada molhada.

​     - Eu sou o Lucas. E, só para constar, Beatriz... a luz da iluminação aqui da rua fica muito bem em você.

     A cafeteira era pequena, com luzes baixas e o som da chuva abafado pelas paredes grossas de tijolinho. Sentados em uma mesa redonda de mármore, o vapor das xícaras subia entre eles, criando uma nova cortina, desta vez muito mais íntima.

​     - Então, Lucas... Beatriz começou envolvendo a xícara com as mãos para se aquecer. - Além de perseguir contornos em vitrines, o que mais você faz da vida quando não está debaixo de um guarda-chuva pequeno demais?

​     - Eu sou arquiteto… respondi, observando como o reflexo das luzes do café dançava nos olhos dela.  - Talvez por isso eu tenha reparado na sua silhueta primeiro. Tenho esse vício de olhar para as formas, para as linhas que dividem o espaço. Mas confesso que, no seu caso, a estrutura interna é bem mais surpreendente.

     ​Beatriz riu, mas foi um riso suave, acompanhado de um olhar pensativo.

​     - Estrutura interna? Gostei da metáfora. Quando você entrou na livraria, você correu o risco de descobrir que a pessoa poderia não combinar com o desenho que você fez dela na sua cabeça.

​     - E eu estou correndo esse risco agora?…  Perguntou, inclinando-se um pouco mais para a frente.

​     - Não, de maneira alguma…ele disse…olhando nos olhos dela.

     Abri o livro de poemas que acabara de comprar e folheando-o até parar em uma página marcada apenas pela sorte. Lucas tomou das minhas mãos escrevendo algumas palavras a lápis e fechou o livro, me devolvendo.

     - Se você esperava alguém silenciosa e misteriosa como aquela sombra na vitrine, sinto decepcionar. Eu falo demais, sou teimosa e perco as chaves de casa pelo menos duas vezes por semana.

​     - Bom, eu também não sou apenas um arquiteto observador, retruquei. - Sou péssimo em esportes, tenho pavor de altura, não curto redes sociais e, claramente, não sei escolher guarda-chuvas. Acho que estamos quites.

​     A conversa fluiu como se o roteiro já estivesse escrito há anos. Falamos de livros, de medos bobos e daquela estranha sensação de que o mundo, às vezes, conspira para que dois estranhos se molhem na mesma calçada.

​    Depois de Anos…

​    A chuva ainda parecia a mesma, batendo ritmicamente contra a janela do apartamento no 12º andar. Mas, do lado de dentro, muita coisa havia mudado.

     ​Lucas estava parado na porta do quarto, observando Beatriz sentada na poltrona perto da janela, lendo sob a luz de um abajur. O cenário era estranhamente familiar. A luz vinha de trás dela, projetando na parede oposta era a mesma admirável silhueta que ele vira na livraria dois anos antes.

​    O contorno do pescoço, o arco das costas, o ângulo do cotovelo. Tudo estava lá.

    ​Mas agora, Lucas não precisava mais imaginar o que preenchia aquela sombra. Ele sabia o tom exato da voz dela ao acordar, conhecia a cicatriz pequena no joelho dela, sabia que ela preferia poemas tristes em dias ensolarados e que o seu riso era o único som capaz de organizar o caos do seu dia.

​     Ele se aproximou e colocou a mão no ombro dela. Beatriz não se assustou, apenas inclinou a cabeça para trás, sorrindo para ele.

​     - O que foi? Amor… ela perguntou.

​     - Nada. Só admirando a vista.

​     - A chuva?

​     - Não… ele respondeu, dando um beijo no topo da cabeça dela. - A sua silhueta, ela continua sendo a minha parte favorita do dia, mas agora eu prefiro o que está por dentro dela.

     Beatriz sorriu, como se tivesse lido os pensamentos dele, e abriu o livro de poemas naquela mesma página que os uniu. 
     Na margem do papel, agora amarelado pelo tempo, havia uma anotação feita a lápis, com a letra apressada de Lucas, datada daquela primeira noite no café.

"Para a mulher que, antes de ser um rosto, foi uma luz. Que a nossa vida seja sempre assim um contorno que a gente escolhe preencher, todos os dias, com a cor que o amor decidir inventar."

     ​Ela fechou o livro devagar, sentindo o peso daquelas palavras, puxou-o para perto trocando de lugar com ele sentado no seu colo. Trocaram beijos apaixonados. 

     A sombra na parede mudou, os dois contornos se fundiram em um só, e a chuva lá fora, agora parecia apenas ser a trilha sonora de uma história que tinha deixado de ser uma silhueta para se tornar realidade.

    Lucas percebeu que, por mais que a arquitetura do mundo mudasse e os anos trouxessem novas linhas para os seus rostos, aquela admirável mulher seria sempre o seu lugar de retorno de um encontro que começou no escuro de uma vitrine e terminou no brilho de um lar.

     

     Por Alfredo Guilherme



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