terça-feira, 7 de abril de 2026

Crônica : Inventário do Absurdo e o Silêncio do Céu...

 


​       Ligo a televisão pra ver o telejornal e a sensação é de que o mundo virou um rascunho malfeito, rabiscado por mãos apressadas e cruéis. A gente olha em volta e se pergunta... em que momento o bom senso pediu demissão e o ódio virou o CEO do planeta?

​     Parece que estamos vivendo em um roteiro de ficção científica de baixo orçamento, onde os vilões usam ternos caros e discursam sobre proteção, enquanto gastão o que poderia acabar com a fome mundial. É uma estupidez que dói na retina. Ver gente poderosa, que tem o mundo na palma da mão, gastar saliva e recursos para perseguir quem só quer um lugar para não morrer de fome ou de medo. O imigrante, esse eterno estrangeiro da humanidade, virou o alvo preferencial de quem confunde pátria com condomínio fechado.

​      E o racismo? Esse fantasma que nunca foi embora, agora resolveu andar à luz do dia, sem lençol na cabeça, destilando um veneno que a gente achou que o tempo tivesse neutralizado. É o auge da burrice humana odiar alguém pela tonalidade da pele, como se a biologia fosse um critério de caráter.

​      Mas o que aperta o peito de verdade, o que faz o café da manhã amargar, é a imagem das bombas. Elas caem silenciosas no papel, mas barulhentas na alma. Inocentes, crianças que mal aprenderam a amarrar o sapato, virando efeito colateral. Quem aperta o botão dorme tranquilo? Quem financia o metal que vira estilhaço, será que consegue olhar nos olhos do próprio filho?

​     Aí a gente olha para cima. No meio do caos, a pergunta inevitável brota como erva daninha na calçada... "Até quando, Deus?".

​     É um grito que ecoa há séculos. A gente quer uma intervenção, um raio que desmonte as fábricas de armas, uma ventania que leve a arrogância dos tiranos. Queremos que o Criador desça do camarote e tome as rédeas da carruagem que parece estar indo direto para o abismo.

​     Mas talvez, e aqui entra a parte difícil da crônica e da vida... O silêncio de Deus não seja ausência. Talvez seja um espelho. É como se Ele estivesse nos devolvendo a pergunta...  "Até quando vocês vão deixar isso acontecer?".

​      Remover as coisas estúpidas do planeta não é como apagar um arquivo corrompido no computador. Exige uma faxina ética que começa no quintal de casa, na nossa recusa em rir de uma piada racista, na nossa coragem de dizer não, a quem prega o ódio disfarçado de ordem.

​     A divindade, seja qual for a sua crença, deu aos homens a inteligência para criar a penicilina a vacina contra a covid e a música de Bach. Se usamos essa mesma inteligência para fabricar bombas e cercas, a culpa dificilmente é de quem está nas nuvens. É de quem está com os pés no chão e as mãos sujas de indiferença.

​      O mundo está feio, estamos no habituando com o desrespeito, sim. Mas enquanto houver alguém indignado o suficiente para perguntar "até quando", ainda há uma fagulha de humanidade tentando não apagar no meio do temporal. Que a gente não perca a capacidade de se espantar com o absurdo, porque o dia em que a estupidez for vista como normal, aí sim, estaremos verdadeiramente órfãos.


     Por Alfredo Guilherme 


7 comentários:

Anônimo disse...

Excelente reflexão. A 'faxina ética' que você mencionou começa mesmo nas pequenas coisas, no nosso 'quintal'. Às vezes nos sentimos impotentes diante dos poderosos, mas manter a capacidade de se indignar é o que nos mantém humanos. Parabéns pelo texto e pela coragem de tocar em feridas tão profundas.

Anônimo disse...

Alfredo, que texto necessário! A parte em que você diz que o silêncio de Deus é, na verdade, um espelho, me deu um nó na garganta.

Anônimo disse...

Mais uma crônica brilhante, Alfredo Guilherme. Você conseguiu traduzir exatamente o que sinto toda manhã. O mundo está feio, mas sua escrita nos ajuda a suportar o temporal e a manter essa fagulha acesa. Texto impecável!

Anônimo disse...

Bravo, Alfredo! A comparação da pátria com um 'condomínio fechado' define perfeitamente essa elite que governa o mundo. É revoltante ver recursos infinitos para bombas e migalhas para a fome. Sua crônica é um soco no estômago da nossa indiferença. Não podemos nos habituar ao desrespeito nunca!

Anônimo disse...

👏👏👏👏👏👏👏👏adorei mais essa sua crônica

Anônimo disse...

Muitas vezes transferimos a responsabilidade para o céu quando a caneta que assina as guerras está nas mãos de homens de terno e gravata aqui embaixo.

Anônimo disse...

Obrigado por colocar em palavras essa amargura que a gente sente ao ligar o telejornal.