sexta-feira, 24 de abril de 2026

Um conto contado... Desatando o Nó...




        Atmosfera do "sertão é  mística" tem uma força única, não é? É aquele lugar onde o sagrado e o humano se misturam no meio da poeira.
      Esse é um conto, sobre a fé, e o sertão e os nós que a gente aperta quando não consegue soltar do coração de alguém.

​      Dizem em causos contados... ou o que sobrou deles entre os bancos de madeira da praça da Vila dos Desatados, escondida nos confins do sertão baiano, ela só existe por causa de mágoas de amor.

     Já que a Vila dos Desatados foi batizada, agora imagine a cena, o final de tarde, o céu cor de goiabada e o vento trazendo o som das fitas de cetim batendo contra as grades da igreja.

​      Diferente de todas as igrejas do mundo, onde os fiéis vem renovar a fé, pedem chuva, saúde, melhoras financeiras, ou até mesmo um amor pra vida eterna, na pequena capela azul-anil da Vila, o povo só entra para tratar de uma doença específica do coração, quem está padecendo por amor... Aquele amor que não volta.          

     Lá reside a imagem de Nossa Senhora dos nós do Amor, a única santa no mundo destadora destes nós, que veste um manto celestial liso, segura entre as mãos uma fita de seda vermelha, cheia de laços cegos, apertados pelo suor de quem amou sozinho.

​      O Milagre do Desapego... A história começou com a beata Zulmira, uma mulher que passou quarenta anos esperando por um tropeiro que prometeu voltar, quando o umbuzeiro desse flor. O umbuzeiro floresceu, secou, caiu e virou lenha, mas Zulmira continuava com o coração amarrado num nó tão apertado que ela já nem conseguia mais respirar fundo.

​      Dizem que, numa noite de lua de sangue, ela fez um pedido inusitado a santa. Não pediu que o tropeiro voltasse. Zulmira, cansada da espera que róia os ossos, pediu algo mais difícil... "Minha Mãe, não traga ele de volta, não. Desate o nó que ele deu dentro de mim. Solte a ponta da minha vida que ficou presa na dele."

      ​No dia seguinte, Zulmira acordou e, pela primeira vez em quatro décadas, não olhou para a estrada. Tomou um café forte, sentiu o gosto da rapadura e percebeu que o nó no peito tinha virado fita solta ao vento.

       Outro causo contado é o da "Fita Púrpura de Tião da Terra"... Fora da pequena capela, o mundo se veste de fitas de cores vibrantes. São milhares delas, amarradas nas grades de ferro forjado que circundam a capela de Nossa Senhora dos Nós de Amor. Com o tempo, as fitas mais antigas desbotavam sob o sol implacável do sertão, tornando-se brancas e quebradiças, como esqueletos de promessas esquecidas. Mas as novas… gritavam suas dores ao vento.

​      Tião da Terra, um homem cujo apelido vinha da cor de sua pele e da secura de sua alma, chegou numa tarde em que o céu parecia sangrar. O vento trazia o som das fitas batendo contra o metal, um sussurro constante, como se a própria igreja estivesse respirando as mágoas acumuladas. Ele segurava uma fita púrpura, a magoa era com a Niceia, a moça que partira para a capital vinte anos atrás e nunca mais dera notícias.

​     Ele caminhou em direção à Capela. As mãos dele, calejadas pelo trabalho na terra rachada, tremiam. Ele não queria rezar para que ela voltasse. A razão, embora tardia, já lhe dissera que Niceia não existia mais na sua vida. Ele viera para desatar.

​     Ele segurou a fita púrpura, sentindo o cetim macio, em contraste com a pele grossa de suas mãos. Ele fechou os olhos e, por um momento, a voz do vento pareceu organizar-se em palavras. Ele começou a dar o nó na grade.

​     O primeiro nó… é pela lembrança do sorriso dela dizendo te amo... sussurrou, a voz rouca. Ele apertou a fita. O nó ficou cego.
​     O segundo… é pela promessa que a gente fez na primeira noite de amor... continuou. Ele deu mais duas voltas na fita, apertando com tanta força que os nós ficaram brancos nas pontas.
​     O terceiro… é pela raiva de você ter ido sem dizer adeus... O nó foi dado com fúria, quase rasgando o cetim.

​     Ele parou. O vento continuava. O som das fitas era hipnótico. Ele olhou pela porta principal para a imagem da Santa no altar. Os olhos dela, feitos de madeira pintada e verniz, pareciam absorver toda a sua angústia. Tião sentiu o peso de duas décadas acumulado no peito, como uma pedra que carregava.

​     Ele deu um passo para trás, como o ritual exigia. Virou de costas, se olhasse para trás, o nó apertaria de novo.

      ​- Minha Senhora... começou a falar, e a voz já não era dele, mas de um homem exausto... -  Eu já dei os nós. O nó está na grade, mas a ponta está presa no meu coração. Me ajude a largar.

​      O silêncio na igreja foi total por um segundo, até que uma rajada de vento mais forte passou por ele e entrou pela porta aberta. As fitas coloridas no altar e nas grades subiram em um redemoinho frenético. A fita púrpura de Tião, recém-amarrada, estalou.

​      Foi quando Tião sentiu um tremor sutil. Ele teve a nítida sensação de que a mão da santa, que antes segurava a fita vermelha simbólica, agora estava estendida em direção à sua fita púrpura. 

     ​Ele caminhou devagar em direção a praça em frente à  capela, a poeira subindo a cada passo. Ele sentiu o sol poente, cor de goiabada, bater no rosto. Ele não olhou para trás. Ele não conferiu se a Santa realmente se mexera ou se fora apenas um truque da luz e do seu desejo de cura.

​      A fita púrpura ficara para trás, amarrada na grade, com nós cegos no metal, a pedra que ele carregara no seu caminho, por vinte anos tinha, finalmente, virado poeira. O vento que batia na Vila dos Desatados agora corria livre, sem encontrar mais nenhum nó que o impedisse de passar. Ele estava livre.

​      A Romaria dos Esquecidos continua até hoje... Já, Vila dos Desatados, vive de quem precisa esquecer. A rotina da cidade é ditada pelo ritmo dos desamados... O fiel chega à igreja com uma fita de cetim. Cada nó na fita representa uma lembrança o cheiro do perfume, o primeiro beijo no pé da serra, e de promessas feitas em nome do amor. 

        ​A Cura... A pessoa deve sair da igreja sem olhar para trás. Se olhar, o nó aperta de novo.

​     A cidade é silenciosa, pois quem sofre de amor não faz barulho. Os moradores são especialistas em remédios caseiros para o "aperto no peito", geralmente um chá de casca de angico com um pouco de mel e o conselho de que "ninguém morre de saudade, a gente só fica mais leve depois que desata".

​      O Mistério da Santa... O que ninguém conta aos turistas é que a imagem da Santa, parece mudar de expressão. Se o nó é de um amor que ainda tem jeito, as mãos dela parecem relaxadas. Mas, quando chega um coração teimoso, daqueles que insistem em sofrer por quem já casou e teve filhos em outra freguesia, dizem que a Santa franze a testa, como quem diz... "Tenha juízo, cristão, que eu sou Desatadora, não sou fazedora de milagre impossível!"

​      Na Vila dos Desatados, o milagre não é o encontro. É a liberdade de caminhar sozinho sob o sol do meio-dia, sentindo que o coração, finalmente, está livre para um amor verdadeiro...

    

       Por Alfredo Guilherme




segunda-feira, 20 de abril de 2026

Crônica: Inquilino Maldito...

 


​          Inicindo, mais essa crônica com aquele sorriso de quem sabe das coisas até certo ponto... A gente vive num país onde o Marechal Deodoro da Fonseca cheio de razão, pois tinha acabado de meter o pé na bunda da família real que só não levaram o morro do Pão de Açúcar no Rio, pra Portugal porque não tinha mais Pau Brasil pra fazer uma Super Caravela de Transporte... 

     Sabe o que ele fez... o tal Marechal... Tentou mandar no nosso coração por decreto? É sério! Em 1890, o homem deu uma canetada... achando que estava resolvendo a vida dos brasileiros... Instituiu o casamento civil, acho que ele queria separar a Igreja do Estado e disse... 'A partir de hoje, o amor só vale se tiver carimbo do juiz!'.

​     E hoje, não é fácil aguentar a minha vizinha carola que mora no 402, que não perde a chance quando me vê e fala com aquela voz de fofoqueira... Ô, vizinho... vocês já moram juntos há dez anos, dividem o edredom, o boleto do condomínio e até o remédio do colesterol... Quando é que sai esse casório? Deus tá vendo essa pouca vergonha, viu?'

​     Pois é. Pro Estado, eu sou 'União Estável'. É chique, né? Parece nome de firma de seguro. 'Senhor fulano & Cia /  Estabilidade Garantida'. Pro juiz, se a gente divide a escova de dentes e o espaço da cama, tá resolvido. Tá no contrato.

​      Mas pra religião? Aí, vem a bagunça... Pra religião, eu sou um "Funicador", que mora com o 'inquilino o pecado'... Eu adoro essa expressão... "Viver em Pecado". Dá a entender que o pecado é um cara folgado de chinelo e regata, que mora no meu apê, não paga aluguel, torce contra o meu time, toma a minha cerveja e ainda dorme na minha cama !. Tipo como no filme,  "Dona Flor"  e seus dois maridos. Enquanto o Estado e a Igreja discutem na porta quem tem a chave da verdade. Resumindo, o pecado parece ser o único que está se divertindo na história toda!

​     A doutrina diz que o amor é tipo um vinho caro, safra especial. Só pode abrir se tiver a bênção. Se você abrir, numa noite em que o tesão falou mais alto, antes do café da manhã, com um pão na chapa... pronto! Tá confirmado, acabou a inocência você, provou o fruto proibido.

​     E na boa... quem não provou esse fruto antes, pode acabar provando um fruto bichado que teve marimbondo beliscando a fruta no pé.... O mundo mudou, a gente já viaja pra Marte, usa inteligência artificial pra tudo... mas a gente ainda treme! Quando a Igreja olha pra gente e diz... 'Fornicador!'. O Estado olha e diz... 'Parceiro!'. E eu olho pro extrato do banco e digo... 'Quem paga essa porra sou eu, caramba!'

​     O mais engraçado é o pessoal da 'melhor idade', que de melhor às vezes só tem o desconto na farmácia, passagem gratuita no busão. O casal tá junto há trinta anos. Já criou filho, já criou neto, já sobreviveu a cinco planos econômicos e três pandemias... mas aí resolve 'regularizar', entram na igreja com os joelhos trêmulos. Parece que estão indo confessar um crime! Querem o carimbo de Deus pra ver se o tal  'inquilino o pecado' finalmente se muda da casa.

​     E nessa confusão toda a gente fica nesse equilíbrio em cima do muro... de um lado papel que o Marechal firmou, do outro o líder religioso com o sermão. 

     E a gente, fica tentando entender se o amor precisa de firma reconhecida ou se basta a insistência de acordar do lado da mesma pessoa todo o santo dia... e ainda achar que valeu a pena.

​     Porque, vou dizer pra vocês.. O amor "sem firma reconhecida" tem um sabor de liberdade que nenhum cartório consegue autenticar. 


    Por Alfredo Guilherme 



quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Desejo vs - O Estereótipo da Idade...



      Sinopse... Aos 70 anos, o amor pode até ser poesia, mas a pele ainda exige prosa. Heloísa recusa-se a aceitar o papel de "vovozinha assexuada" que a sociedade tenta lhe impor. Entre o ceticismo de sua prima Marta e o charme de um novo encontro, ela descobre que o desejo não tem prazo de validade.

     ​A Narrativa...

​     Dizem que, com o tempo, a gente vai ficando invisível. Primeiro, as pernas e depois as nádegas deixam de ser o foco dos olhares, e na praia, o olhar dos marmanjos nos atravessa como se fôssemos feitas de vidro soprado. Mas há um segredo que os jovens não imaginam... o desejo não tem rugas.

​     Chegar aos 70 e sentir-se desejada não é teimosia, é um ato de resistência. É a validação de que o corpo, embora tenha mudado o ritmo, ainda é território de conquista. Quando o celular toca com uma mensagem de segundas intenções, algo dentro da gente dá uma risada gostosa. É a afirmação de que a vida não está passando, ela está acontecendo.

​     A sensualidade na maturidade é uma obra de arte. É olhar no espelho e, em vez de contar vincos, reconhecer a mulher que sobreviveu e ainda tem fome de prazer. Não somos "bonitas para a nossa idade". Somos mulheres, vibrantes, sacudindo a poeira dos estereótipos. Se a pele ainda arrepia com um beijo na nuca, a vida deu o veredito, você ainda está pronta.

​    A Cena na Varanda...

​    Eu sou a Heloisa. Eu e minha prima Marta somos inseparáveis desde que ficamos viúvas. Adoramos o café com bolinhos de chuva ao entardecer, mas somos opostas. Eu uso cores vibrantes, ela é conservadora e acha que já passou da fase de se entregar a uma nova oportunidade de amar.

​     Naquela tarde dourada, retoquei o batom e Marta me olhou com ironia.

     - Vai sair mesmo com o tal do Jorge?

     - Marta, se temos idade para remédio de pressão, por que não aceitar um encontro? Prefiro que minha pressão suba hoje só porque ele olhou para o meu decote!

     - Mas Heloisa... você não se sente exposta? Achei que a invisibilidade nos traria paz.

     - A invisibilidade não é paz, Marta. É exílio. Ontem, quando ele me convidou, senti que meu corpo ainda se comunica otimamente com o sexo oposto.

     - Eu nem lembro mais como é sentir desejo, suspirou Marta... - Sabe Heloisa eu fechei a porta e joguei a chave fora.

     Toquei o ombro dela... 

     - A porta nunca tranca por fora, querida. É por dentro. Diga ao espelho... "Eu ainda sou um incêndio, mesmo sob as cinzas".

     Marta sorriu... olhando para as próprias mãos, sem a aliança de casada, ensaiou outro sorriso e falou... - Um incêndio, é?

     - O maior de todos, pode acreditar... Agora me empresta o seu brinco de pérola? Quero que ele tenha algo bonito para focar em mim, enquanto eu conto sobre a minha viagem para a Grécia.

     - Grécia ?... Desde quando você viajou para a Grécia.

     - Desde que entrei no Google-Maps, e vi o quanto é lindo aquele lugar.

​     Heloisa personifica a afirmação da alegria de viver o melhor que a vida pode dar, enquanto a Marta traz as dúvidas que a sociedade planta na cabeça das mulheres.

     O Jantar e o Conflito...

     ​O restaurante era charmoso, luz baixa. Jorge,  cabelos grisalhos e um olhar que sorri antes dos lábios entenderem a graça do momento, levantou-se ao me ver.

     - Você está deslumbrante. O tempo parou na porta quando você entrou.

     - O tempo não para, Jorge. Ele só aprendeu a caminhar ao meu lado.

     Brindamos. Ele confessou que os filhos acham que ele só deveria morar e cuidar do sítio escutando os pássaros cantar na alvorada. Eu ri...

     - Ai é esperar a morte com resiliência... A minha prima acha que perdi o juízo. Mas e você? O que espera daqui em diante?

     - O frio na barriga... ele respondeu com ternura... - A prova de que o mundo ainda tem mistérios, E eu quero descobrir todos os seus. Como se sente sendo desejada, Heloisa?

     Fizemos uma pausa segura, com olhares de ousadia.

     - Eu me sinto viva, é a confirmação de que eu não sou apenas uma espectadora. Neste momento sou a protagonista.

     Ele estendeu a mão sobre a mesa, num gesto convidativo tocando a minha mão.

     - Esse toque veio carregado de eletricidade.

     Então, Heloisa... vamos pular etapas, e ir direto para o que realmente interessa, um momento que faça a gente esquecer de olhar o relógio?

​     E assim... A rua nos recebeu com o frescor da noite. O som do restaurante ficou para trás, substituído pelo ruído quase silencioso da cidade naquele horário, caminhamos devagar. Não por cansaço, mas para esticar o tempo.

     ​Nossas mãos se roçam, sem querer algumas vezes até que Jorge, com uma coragem juvenil, entrelaça seus dedos nos meus.

     Sentindo o calor dele na minha mão a sensação foi de prazer, liberando os hormônios da recompensa. 

     - Engraçado Jorge como a gente desaprende a dar as mãos, não é? A gente acaba esquecendo como é bom ser apenas... um par, um casal.

​     Casualmente passamos em frente a um pequeno bar de jazz. A música vaza pela porta entreaberta, um saxofone baixo, rouco. Jorge faz um gesto de convite, uma reverência leve.

      - Diz a lenda... quem não aceita dançar na calçada, corre o risco de virar estátua. Me concede?

      Mesmo acanhada aceitei... - Jorge, as pessoas vão achar que bebemos vinho demais.

      - E  bebemos. O vinho da audácia.

​      Dançamos na calçada ao som de jazz vindo do bar. Houve um beijo, com gosto de vinho e descobertas.

      Mas... ao chegar em casa, eu não estava flutuando... Entrei como um furacão, joguei a bolsa no sofá, chutei os sapatos pela sala, Marta, de pijama, estranhou.

     - O príncipe virou sapo?

     - O jantar foi divino, Marta! A conversa foi de tirar o fôlego!

     - Então por que essa cara? Ele te beijou?

     - Beijou! Um perfeito macho alfa !

     - E qual é o problema, criatura?

     - O problema é que o cidadão me deixou na porta com um "durma com os anjos"! Marta, olha o meu RG! Eu não tenho tempo para "conhecer a alma" antes de conhecer o que tem debaixo do lençol! Eu usei hidratante caro, lingerie de renda vermelha... e ele nem fez questão de ver, e me tratou como uma porcelana chinesa!

​     Marta riu alto...

     - Ele teve respeito, Heloisa!

     - Respeito? E eu lá queria essa porra de respeito, eu queria era gozar intensamente! Acho que as doses de Tibolona e a Bremelanotida, ativaram tudo aqui dentro de mim, e os meus receptores estão até agora  ligados à excitação.

     - Que santa inocência a minha, jamais imaginava que as mulheres tinham  seus segredinhos, para liberar o libido. 

      - Eu estava pronta para o "vamos para um lugar reservado" e ganhei um beijinho na testa!

​     Peguei o celular, decidida...

     - Vou mandar uma mensagem agora... "Jorge, a porcelana está inteira, mas o conteúdo é inflamável. No próximo jantar, traga menos poesia e mais coragem."

      ​Minutos depois, o celular vibrou. O sorriso que brotou no meu rosto era predatório. Mostrei a tela para Marta.

     "Heloisa, passei o caminho me culpando por ser cauteloso. Achei que avançar o sinal seria desrespeito. Que erro o meu. Sábado, não quero poesia. Quero o incêndio. Passo aí às oito."

     ​Marta se jogou no sofá, rindo...

     - Ele vai te matar, ou você vai matar ele! Você literalmente é um perigo para os macho da melhor idade.

     - Que seja uma morte com o coração a mil, e não parando por tédio!

​     O Manifesto Final....

​     Sozinha no quarto, soltei o cabelo diante do espelho. Tirei o brinco de pérola, o símbolo da "senhora respeitável". Olhei minhas marcas. A sociedade nos quer vovozinhas que cheiram a sabonete de glicerina. Mas o desejo é o último fôlego da juventude que se recusa a morrer em mim. Meu corpo não é um museu fechado, é uma casa com as luzes acesas e a mesa posta.

     ​O outono pode estar lá fora, mas aqui dentro... ainda é pleno verão. E sábado? Sábado, o Jorge que se prepare.

     Sábado... O Incêndio...

​     O relógio da sala marcava 19h45. Marta estava sentada na poltrona, fingindo ler o seu livro de receitas, mas seus olhos não saíam da figura que caminhava de um lado para o outro pelo corredor.

​     Heloisa não estava para brincadeira. Usava um vestido preto justo, de um tecido que brilhava suavemente sob a luz, e um perfume que deixava um rastro de mistério no ar. Nada de pérolas hoje, apenas um par de brincos dourados que balançavam conforme ela caminhava.

​     - Meu Deus, Heloisa...  Marta baixou o livro... - Se o Jorge sobreviver essa noite, ele merece uma medalha. Ou um check-up cardiológico completo.

     - Marta, querida, se ele vier com a coragem que prometeu na mensagem, quem vai precisar de fôlego extra sou eu... Heloisa conferiu o batom vermelho no espelho.... - Hoje não tem papo de Google Maps e viagem falsa. Hoje eu quero ser o território real pra ele explorar.

​     Às oito em ponto, a campainha tocou. Não era um toque tímido. Era um toque firme.

     ​Jorge estava parado à porta. Não usava o terno do primeiro jantar. Estava com uma camisa de linho azul-escura, os primeiros botões abertos, e um olhar que não pedia licença. Ele não me disse "Você está deslumbrante". Ele apenas me segurou pela cintura, puxou para perto dele e sussurrou no meu ouvido... 

     - A porcelana ainda está inteira, Heloisa? Porque eu vim disposto a quebrar o protocolo.

     ​Eu senti um calafrio que não vinha do vento da noite. Era a eletricidade da "Bremelanotida" encontrando o destino certo.

     - Jorge... a porcelana foi guardada. O que sobrou é inflamável.

     Jorge dirigiu até um pequeno bistrô escondido, onde as mesas eram separadas por cortinas de veludo. O vinho foi servido, mas as taças mal foram tocadas. O diálogo não era banal, era sobre o agora.

​     - Sabe o que eu pensei a semana toda?...  Jorge perguntou, cobrindo a mão de Heloisa com a dele... - Que passamos a vida inteira sendo o que os outros esperam. O pai provedor, a mãe zelosa, o avô paciente. Mas quem sobra quando as luzes se apagam?

     - Sobra o desejo, Jorge. Aquele que a gente tentou domesticar mas que ainda ruge aqui dentro.

     - Então vamos viver o melhor de nós... Jorge levantou-se e estendeu a mão. ... - Eu reservei uma suíte no hotel antigo da praça. Aquele com lençóis de algodão egípcio e uma vista da cidade, que a gente não vai se importar em olhar.

​     O Manifesto da Carne...

​     No quarto, a luz era suave, e quente. O silêncio da noite era preenchido apenas pelo som da respiração de ambos. Heloisa sentiu o peso dos seus setenta anos desaparecer. As marcas em sua pele não eram defeitos, eram o mapa de uma estrada longa que finalmente chegava ao destino prazerosomente.

​     Jorge a tocou com a firmeza de quem conhece o valor do tempo. Não havia a pressa atrapalhada da juventude, mas havia uma profundidade que só a maturidade permite. Cada beijo era um reconhecimento, cada toque era uma afirmação.

​     - Você é linda, Heloisa... ele disse, com a voz rouca, enquanto seus dedos traçavam as curvas do corpo dela.

     - Eu hoje, eu sou sua.

     ​Naquela noite, a Tibolona e o Estrogênio foram apenas figurantes. O papel principal foi da coragem. Heloisa descobriu que o prazer aos setenta não é um consolo, é um banquete. Foi intenso, foi cru, foi humano foi selvagem. Ela não se sentiu uma vovozinha, sentiu-se a própria força da natureza.

​     O Amanhecer...

​     No domingo de manhã, Heloisa chegou em casa. Marta já estava na varanda, com o café pronto com pães com manteiga na chapa quentinhos. Ela olhou para a prima, que trazia o cabelo levemente desalinhado e um brilho nos olhos que nenhuma maquiagem consegue simular.

​     - E então?... Marta perguntou, com um sorriso cúmplice. - O incêndio foi grande?

     Heloisa sentou-se, tomando um gole de café, deu uma mordida lenta no pão e suspirou de satisfação.

     - Marta... o incêndio foi tão grande que eu acho que mudei o clima da cidade com nuvens escuras no céu.

     - E o Jorge? Sobreviveu?

     - Ele não só sobreviveu, como já marcou o próximo encontro no sábado...  Heloisa piscou para a prima. - E sabe de uma coisa? Descobri que tem coisas prazerosas para a gente descobrir entre quatro paredes. Mas a sociedade insiste em dizer que devem ser guardados em gavetas com cheiro de naftalina.

​     Marta olhou para dentro de si, pela primeira vez em anos, ajeitou o próprio cabelo e soltou o primeiro botão da blusa, deixando seus seios parcialmente a vista, foi neste instante que a pergunta surgiu, carregada de uma curiosidade renovada e urgente...

     - Heloisa... me passa o contato daquele seu médico? Que te indicou a usar aquele... injetável, que ativou seus receptores ligados à excitação. Acho que está na hora de eu conferir como anda a minha "porcelana".

     ​As duas riram alto, o som ecoando pela varanda, celebrando a descoberta de que a vida, afinal, não tem data de validade para quem decide arder de prazer no amor.

FIM...

     Por Alfredo Guilherme


terça-feira, 7 de abril de 2026

Crônica : Inventário do Absurdo e o Silêncio do Céu...

 


​       Ligo a televisão pra ver o telejornal e a sensação é de que o mundo virou um rascunho malfeito, rabiscado por mãos apressadas e cruéis. A gente olha em volta e se pergunta... em que momento o bom senso pediu demissão e o ódio virou o CEO do planeta?

​     Parece que estamos vivendo em um roteiro de ficção científica de baixo orçamento, onde os vilões usam ternos caros e discursam sobre proteção, enquanto gastão o que poderia acabar com a fome mundial. É uma estupidez que dói na retina. Ver gente poderosa, que tem o mundo na palma da mão, gastar saliva e recursos para perseguir quem só quer um lugar para não morrer de fome ou de medo. O imigrante, esse eterno estrangeiro da humanidade, virou o alvo preferencial de quem confunde pátria com condomínio fechado.

​      E o racismo? Esse fantasma que nunca foi embora, agora resolveu andar à luz do dia, sem lençol na cabeça, destilando um veneno que a gente achou que o tempo tivesse neutralizado. É o auge da burrice humana odiar alguém pela tonalidade da pele, como se a biologia fosse um critério de caráter.

​      Mas o que aperta o peito de verdade, o que faz o café da manhã amargar, é a imagem das bombas. Elas caem silenciosas no papel, mas barulhentas na alma. Inocentes, crianças que mal aprenderam a amarrar o sapato, virando efeito colateral. Quem aperta o botão dorme tranquilo? Quem financia o metal que vira estilhaço, será que consegue olhar nos olhos do próprio filho?

​     Aí a gente olha para cima. No meio do caos, a pergunta inevitável brota como erva daninha na calçada... "Até quando, Deus?".

​     É um grito que ecoa há séculos. A gente quer uma intervenção, um raio que desmonte as fábricas de armas, uma ventania que leve a arrogância dos tiranos. Queremos que o Criador desça do camarote e tome as rédeas da carruagem que parece estar indo direto para o abismo.

​     Mas talvez, e aqui entra a parte difícil da crônica e da vida... O silêncio de Deus não seja ausência. Talvez seja um espelho. É como se Ele estivesse nos devolvendo a pergunta...  "Até quando vocês vão deixar isso acontecer?".

​      Remover as coisas estúpidas do planeta não é como apagar um arquivo corrompido no computador. Exige uma faxina ética que começa no quintal de casa, na nossa recusa em rir de uma piada racista, na nossa coragem de dizer não, a quem prega o ódio disfarçado de ordem.

​     A divindade, seja qual for a sua crença, deu aos homens a inteligência para criar a penicilina a vacina contra a covid e a música de Bach. Se usamos essa mesma inteligência para fabricar bombas e cercas, a culpa dificilmente é de quem está nas nuvens. É de quem está com os pés no chão e as mãos sujas de indiferença.

​      O mundo está feio, estamos no habituando com o desrespeito, sim. Mas enquanto houver alguém indignado o suficiente para perguntar "até quando", ainda há uma fagulha de humanidade tentando não apagar no meio do temporal. Que a gente não perca a capacidade de se espantar com o absurdo, porque o dia em que a estupidez for vista como normal, aí sim, estaremos verdadeiramente órfãos.


     Por Alfredo Guilherme 


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Crônica: Compasso de um Abraço em Chamas...

 



​       O mundo lá fora parecia estar desabando em ruídos metálicos e pressas sem sentido, mas, em algum lugar, a palheta do artista não pede licença, é o próprio calor boêmio de Buenos Aires após o entardecer, transmutado em tinta.

​     O salão estava mergulhado naquela penumbra aconchegante que só os lugares que guardam segredos sabem cultivar. No ar, o perfume era uma mistura de madeira antiga, vestígios de tabaco e a promessa de um vinho tinto recém-servido. Quando as primeiras notas do bandoneón rasgaram o silêncio, o mundo lá fora,  com seus prazos, contas a pagar e ruídos banais,  simplesmente deixou de existir.

​     Eles se aproximaram sem pressa, como quem reconhece um território sagrado. Não houve convite verbal, o chamado estava na curvatura exata do braço dele e no leve inclinar da cabeça dela. No tango, o consentimento é um sussurro magnético.

​     Ao se unirem, o abraço aconteceu. Não um abraço de despedida ou de cumprimento, mas o encaixe de duas peças, pessoas que simplesmente passaram o dia separadas pela rotina. O rosto dela buscou o dele e, por um instante, as têmporas se tocaram, um ponto de contato onde o pensamento de um se tornava o movimento do outro.

​     Eles começaram a caminhar. O tango é, essencialmente, o ato de caminhar juntos sob uma tempestade controlada. A cada passo, o terno risca-de-giz dele roçava o vestido dela, um atrito suave que ditava o pulso da dança. Ela fechou os olhos, entregando o equilíbrio ao eixo dele, confiando que o mundo não cairia enquanto aquela mão espalmada em suas costas a mantivesse firme.

​     Musicalmente, eles eram o próprio instrumento. Quando a melodia se tornava dramática e o músico apertava o fole do bandoneón com força, os dois estancavam em um corte seco, uma pausa cheia de tensão e desejo. É o som do bandoneón reclamando da vida, enquanto o salto dela risca o chão como um fósforo.

​     Quando o som subia em um agudo lírico, os movimentos se tornavam circulares, fluidos, quase como se flutuassem sobre o piso de taco encerado.

​     Não havia plateia para eles. Naquele quadrado de chão, eram apenas os dois e a memória de todos os casais que já dançaram aquela mesma dor e aquela mesma alegria. O calor que emanava do fundo avermelhado da cena parecia vir de dentro deles, uma combustão lenta alimentada pela proximidade e pelo ritmo.

​     Ao final da música, não houve aplausos imediatos no coração do casal. Apenas o silêncio compartilhado de quem acabou de fazer uma viagem sem sair do lugar. Ele a segurou por um segundo a mais do que o necessário, ela respirou fundo, guardando o cheiro do momento na memória.

​     Saíram da pista como quem acorda de um sonho bom, ainda envolvidos pela música, com as mãos entrelaçadas e a certeza de que, naquela noite, o tempo tinha sido gentil o suficiente para parar, envolvendo-os.


     Por Alfredo Guilherme 


    Obra do artista Juarez Machado