quarta-feira, 18 de março de 2026

Poema ... Silêncios da Guerra



​     As ruas não secaram de gente, mas transbordam de medo.

     Onde o passo era dança, hoje o chão é incerteza, e destruição, o vazio caminha onde o mundo parou.

​     Mães erguem braços, muralhas de fé e espanto,
protegendo o amanhã com o peso do manto, enquanto pessoas silenciosas são pó no vidro trincado, rostos de papel num retrato guardado.

     O aroma do pão, que o sol despertava, é o fantasma de uma mesa que a paz diária visitava.

​     A guerra é cega, não soletra batismos, só entende de faltas, de lutos, de abismos.

     Ela invade o refúgio, descostura a vida, devora o sustento, e se farta.

​     Em cada soleira, a espera é um rio estancado, o passo que ecoa, mas nunca é chegado, a voz que se perde no vácuo do vento, suspenso no frio do momento.

​     Lá fora, líderes discursam impérios e glória, enquanto, o povo soletra com dor a memória.

     E entre o estrondo do ferro e o vácuo do chão, resta apenas a saudade, essa chega sem chão, florindo em silêncio no centro cinzento da destruição. 


     Meu Deus... Porque isso ainda acontece?


     Por Alfredo Guilherme 


      O silêncio na guerra não é paz, é suspensão. É o silêncio do telefone que não toca, da rua que ficou vazia pelo medo, e da voz que se calou. Esse "silêncio ensurdecedor" é, muitas vezes, mais aterrorizante do que o barulho das bombas, porque ele representa a ausência definitiva.




quinta-feira, 12 de março de 2026

Crônica : O Custo e o Brilho de um Olhar...

 


​       Existe uma diferença abissal entre o olhar que admira a paisagem e o olhar aproximado. O primeiro é turista... o segundo é morador. Quando nos aproximamos o suficiente para ver as ranhuras na íris do outro, estamos pedindo licença para entrar. Mas quanto vale essa entrada?

​     A moeda de troca aqui não é o ouro, mas o tempo e a entrega. E é nesse balanço que a gente esbarra na eterna dualidade entre o "para sempre" e o "agora".

​     Muitos buscam o infinito do amor eterno como quem busca um seguro de vida. Querem a garantia de que, daqui a cinquenta anos, aquele olhar ainda estará lá, intacto, como uma estátua de mármore. É uma busca nobre, mas perigosa. O infinito, por definição, não cabe no relógio humano. Quando olhamos muito longe, para o horizonte do "eterno", corremos o risco de tropeçar nos cadarços do presente.

​     Aí entra a sabedoria do Poetinha... Vinícius de Moraes, com a malícia e a ternura de quem viveu muitas vidas em uma só, nos deu a saída de emergência mais elegante da literatura...

​"Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure."

​     O que Vinícius propõe não é um amor descartável, mas um amor presencial. O olhar aproximado de que ele fala não está preocupado se haverá brilho nos olhos no próximo século, ele está ocupado demais incendiando o minuto atual.

​     Um olhar aproximado vale exatamente o risco da decepção.... De longe, todo mundo é perfeito, uma pintura impressionista... De perto, vemos as rugas, olheiras, e dúvidas, no leve tremor da pálpebra.

​     E é aí que o amor ganha valor real. Amar o "Eterno" é fácil, pois o eterno é uma ideia. Amar o "Enquanto dure" exige coragem, porque aceita a finitude. Vale o peso de saber que cada segundo é único e que a eternidade, se existir, é apenas uma sucessão de agoras, bem vividos.

     ​O olhar aproximado vale a vida inteira comprimida em um instante. Não importa se o contrato é de cem anos ou de uma tarde de sol, se houve a coragem de enxergar e ser visto, a conta já está paga.

    E  bebendo da fonte do estilo Vinícius, com a mistura do clássico com o cotidiano, na busca pelo absoluto no frágil e a entrega ao momento... 

     Aí vai... O Contrato do Instante...

​Não me peça o juramento das estrelas,

que brilham mortas há milênios no vazio.

Eu prefiro o calor das mãos, o arrepio,

e o direito sagrado de perdê-las.

​Não quero o amor de mármore e museu,

estático, perfeito, emoldurado.

Quero o amor que chega desgrenhado,

dizendo, o mundo lá fora se perdeu.

​Pois o que vale o infinito sem o toque?

A eternidade é um deserto sem cansaço.

Que o destino, enfim, nos desloque,

para o centro exato de um abraço.

​E se o tempo for um sopro ou for um rio,

que nos leve enquanto o brilho ainda é chama.

Pois só conhece o sol quem sente o frio.

E só vive de fato quem se inflama.

​Que seja eterno, sim, mas no presente,

neste olhar aproximado que nos consome.

Pois o amor não é um título ou um nome,

é o susto de se achar outra pessoa.

     Por Alfredo Guilherme



segunda-feira, 9 de março de 2026

Crônica: O Microatrito do Silêncio no WhatsApp...

 


        Vamos tocar em uma ferida aberta da nossa era digital a tirania do visto e ter que no mesmo momento  responder. Isso é que a psicologia chama de autorregulação emocional. 

     Vivemos em um mundo que exige reflexos de fibra óptica, extremamente rápido e a pausa é, ironicamente, a maior prova de controle da sofisticação mental. É a diferença entre reagir (instinto) e responder (consciência).

     E é nesse exato momento de "maturidade vs. ansiedade", que o celular da Helena não tocou, mas ela sentiu o peso dele vibrando sobre a mesa de madeira, como se o aparelho tivesse ganhado vida própria tendo um estrimilique, após o outro ao receber a última notificação. Era uma destas  perguntas idiotas no grupo de família, seguida por um comentário sarcástico de um parente em outra aba.

​     Helena olhou para a tela. A luz azul iluminou o seu rosto, mas ela não estendeu a mão para pegar.

​     E se lembrou de quando a comunicação tinha o ritmo de uma conversa de varanda, havia o tempo para um café, o tempo do silêncio e o tempo da resposta. Agora, o cursor fica piscando parecendo um metrônomo desregulado, exigindo uma pressa que o coração não quer mais acompanhar.

     Ela tinha acabado de ler em um artigo naquela manhã, sobre a maturidade psicológica, um nome sofisticado para o que ela sentia naquele instante, na verdade, pra ela era um ato de resistência.

​     Seus dedos coçaram… A dopamina sussurrava em sua mente…“Responda logo, mostre que você está online, que você é produtiva, que você é presente”... Mas Helena respirou fundo. Ela percebeu que a pressão por ser instantânea era, no fundo, uma forma de ser superficial.

​     Ela levantou-se e foi até a janela. Observou o movimento da rua por exatos dois minutos. Naquele intervalo, ela não era um perfil, com uma foto melhorada com filtro, ou presente com o status de "digitando...". Ela era apenas Helena, uma mulher que possuía o seu próprio tempo.

​     Ao voltar para a mesa, a ansiedade tinha dado lugar a uma clareza mansa... Desbloqueou o aparelho, não como uma súdita... mas como uma editora da própria vida. Digitou uma resposta curta, precisa e gentil. Não porque o conteúdo da mensagem pedia, mas porque ela, finalmente, tinha algo a dizer.

​     E o"visto azulzinho" apareceu. E o mundo não acabou por essa atitude. Assim Helena descobriu que a paz mora no espaço entre a notificação e o toque.

​     Consciente, Helena estava representando a transição entre o usuário reativo, que vive para apagar incêndios de mensagens digitais, e o usuário consciente que entende que a tecnologia deve servir ao ritmo humano, e não o contrário.

     A Teoria da Autodeterminação... A pressão pela resposta instantânea é uma motivação extrínseca, vem de fora, do dispositivo, da expectativa de outras pessoas. ​

     A maturidade psicológica, nesse contexto, é um exercício de autonomia. ​Quando o indivíduo escolhe o tempo da interação, ele retoma ao "foco de seu controle interno". Deixando de ser um processador de dados passivo para ser um agente ativo da própria comunicação pessoal.


     Por Alfredo Guilherme 



terça-feira, 3 de março de 2026

Crônica: O Alinhavo do Tempo...

 



     Essa imagem de um casal de feltro, abraçados e sorridentes sob o sol, é o lembrete visual de que o "Inverno da vida" não precisa ser frio. Existe uma doçura tátil na velhice que a juventude, em sua pressa, muitas vezes não consegue sentir.

​     Dizem que a velhice é o "fim da linha", um desfecho inevitável onde as cores desbotam e o corpo, antes ágil, torna-se uma máquina de ruidos e cautelas. Mas há um segredo guardado por aqueles que decidiram envelhecer com o coração macio, como o feltro dos bonecos da ilustração, a felicdade na idade avançada não é sobre o que resta, mas sobre a textura do que foi construído.

​     Quando somos jovens, a vida é um tecido de cetim brilhante, escorregadio, tudo é urgente. Queremos o mundo para ontem. Na maturidade, a trama muda. O tecido se torna lã. É mais denso, mais quente, cheio de pequenas imperfeições que contam uma história. 

     O "fim de vida" que tanto assusta, mas para quem o vive com sabedoria, é apenas o momento em que a pressa finalmente pede licença para a presença.

​     Ser feliz aos setenta, oitenta ou noventa anos é uma rebeldia deliciosa. É entender que, se os passos são mais lentos, a paisagem finalmente pode ser vista. É descobrir que o amor não precisa mais de grandes arroubos dramáticos, ele se manifesta no encaixe de um abraço que já conhece todas as curvas do outro, na mão que segura a cintura com a firmeza de quem atravessou tempestades e agora só quer aproveitar o sol na areia.

​"A velhice só é um fardo para quem acredita que o valor da vida está na velocidade, e não no sentido."

​     Muitos olham para os cabelos brancos e veem o fim. Mas, se olharmos bem, a velhice pode ser o ápice da liberdade. É quando o que os outros vão pensar, perde a validade. É a hora de usar o chapéu de palha, os óculos escuros e o maiô colorido, sorrindo para o mar como se o tempo fosse apenas um detalhe técnico.

​     No fim das contas, a idade avançada nos ensina que nada é realmente um fim, mas um alinhavo. Juntamos os retalhos de quem fomos, das perdas que sofremos e dos risos que demos, e costuramos tudo com o fio da gratidão.

     E nesse abraço final, descobrimos que, enquanto houver sol e alguém para segurar nossa mão... A vida ainda é um presente feito à mão, único e absolutamente macio.

​    Poética e Profunda...

Não conte os anos pelos danos,

mas pela maciez da alma que resiste.

A pele pode rugar o pano,

mas o amor é o fio que nos assiste.

​O fim não é o abismo ou o cansaço,

é o momento de colher o que foi luz.

É a calma de se perder num abraço,

onde o peso do mundo não mais reluz.

​Ser feliz no outono da existência

é descobrir que o sol ainda aquece,

que a pressa deu lugar à paciência

e que o coração, enfim, floresce.


          Por Alfredo Guilherme