segunda-feira, 6 de abril de 2026

Crônica: Compasso de um Abraço em Chamas...

 



​       O mundo lá fora parecia estar desabando em ruídos metálicos e pressas sem sentido, mas, em algum lugar, a palheta do artista não pede licença, é o próprio calor boêmio de Buenos Aires após o entardecer, transmutado em tinta.

​     O salão estava mergulhado naquela penumbra aconchegante que só os lugares que guardam segredos sabem cultivar. No ar, o perfume era uma mistura de madeira antiga, vestígios de tabaco e a promessa de um vinho tinto recém-servido. Quando as primeiras notas do bandoneón rasgaram o silêncio, o mundo lá fora,  com seus prazos, contas a pagar e ruídos banais,  simplesmente deixou de existir.

​     Eles se aproximaram sem pressa, como quem reconhece um território sagrado. Não houve convite verbal, o chamado estava na curvatura exata do braço dele e no leve inclinar da cabeça dela. No tango, o consentimento é um sussurro magnético.

​     Ao se unirem, o abraço aconteceu. Não um abraço de despedida ou de cumprimento, mas o encaixe de duas peças, pessoas que simplesmente passaram o dia separadas pela rotina. O rosto dela buscou o dele e, por um instante, as têmporas se tocaram, um ponto de contato onde o pensamento de um se tornava o movimento do outro.

​     Eles começaram a caminhar. O tango é, essencialmente, o ato de caminhar juntos sob uma tempestade controlada. A cada passo, o terno risca-de-giz dele roçava o vestido dela, um atrito suave que ditava o pulso da dança. Ela fechou os olhos, entregando o equilíbrio ao eixo dele, confiando que o mundo não cairia enquanto aquela mão espalmada em suas costas a mantivesse firme.

​     Musicalmente, eles eram o próprio instrumento. Quando a melodia se tornava dramática e o músico apertava o fole do bandoneón com força, os dois estancavam em um corte seco, uma pausa cheia de tensão e desejo. É o som do bandoneón reclamando da vida, enquanto o salto dela risca o chão como um fósforo.

​     Quando o som subia em um agudo lírico, os movimentos se tornavam circulares, fluidos, quase como se flutuassem sobre o piso de taco encerado.

​     Não havia plateia para eles. Naquele quadrado de chão, eram apenas os dois e a memória de todos os casais que já dançaram aquela mesma dor e aquela mesma alegria. O calor que emanava do fundo avermelhado da cena parecia vir de dentro deles, uma combustão lenta alimentada pela proximidade e pelo ritmo.

​     Ao final da música, não houve aplausos imediatos no coração do casal. Apenas o silêncio compartilhado de quem acabou de fazer uma viagem sem sair do lugar. Ele a segurou por um segundo a mais do que o necessário, ela respirou fundo, guardando o cheiro do momento na memória.

​     Saíram da pista como quem acorda de um sonho bom, ainda envolvidos pela música, com as mãos entrelaçadas e a certeza de que, naquela noite, o tempo tinha sido gentil o suficiente para parar, envolvendo-os.


     Por Alfredo Guilherme 


    Obra do artista Juarez Machado