quinta-feira, 12 de março de 2026

Crônica : O Custo e o Brilho de um Olhar...

 


​       Existe uma diferença abissal entre o olhar que admira a paisagem e o olhar aproximado. O primeiro é turista... o segundo é morador. Quando nos aproximamos o suficiente para ver as ranhuras na íris do outro, estamos pedindo licença para entrar. Mas quanto vale essa entrada?

​     A moeda de troca aqui não é o ouro, mas o tempo e a entrega. E é nesse balanço que a gente esbarra na eterna dualidade entre o "para sempre" e o "agora".

​     Muitos buscam o infinito do amor eterno como quem busca um seguro de vida. Querem a garantia de que, daqui a cinquenta anos, aquele olhar ainda estará lá, intacto, como uma estátua de mármore. É uma busca nobre, mas perigosa. O infinito, por definição, não cabe no relógio humano. Quando olhamos muito longe, para o horizonte do "eterno", corremos o risco de tropeçar nos cadarços do presente.

​     Aí entra a sabedoria do Poetinha... Vinícius de Moraes, com a malícia e a ternura de quem viveu muitas vidas em uma só, nos deu a saída de emergência mais elegante da literatura...

​"Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure."

​     O que Vinícius propõe não é um amor descartável, mas um amor presencial. O olhar aproximado de que ele fala não está preocupado se haverá brilho nos olhos no próximo século, ele está ocupado demais incendiando o minuto atual.

​     Um olhar aproximado vale exatamente o risco da decepção.... De longe, todo mundo é perfeito, uma pintura impressionista... De perto, vemos as rugas, olheiras, e dúvidas, no leve tremor da pálpebra.

​     E é aí que o amor ganha valor real. Amar o "Eterno" é fácil, pois o eterno é uma ideia. Amar o "Enquanto dure" exige coragem, porque aceita a finitude. Vale o peso de saber que cada segundo é único e que a eternidade, se existir, é apenas uma sucessão de agoras, bem vividos.

     ​O olhar aproximado vale a vida inteira comprimida em um instante. Não importa se o contrato é de cem anos ou de uma tarde de sol, se houve a coragem de enxergar e ser visto, a conta já está paga.

    E  bebendo da fonte do estilo Vinícius, com a mistura do clássico com o cotidiano, na busca pelo absoluto no frágil e a entrega ao momento... 

     Aí vai... O Contrato do Instante...

​Não me peça o juramento das estrelas,

que brilham mortas há milênios no vazio.

Eu prefiro o calor das mãos, o arrepio,

e o direito sagrado de perdê-las.

​Não quero o amor de mármore e museu,

estático, perfeito, emoldurado.

Quero o amor que chega desgrenhado,

dizendo, o mundo lá fora se perdeu.

​Pois o que vale o infinito sem o toque?

A eternidade é um deserto sem cansaço.

Que o destino, enfim, nos desloque,

para o centro exato de um abraço.

​E se o tempo for um sopro ou for um rio,

que nos leve enquanto o brilho ainda é chama.

Pois só conhece o sol quem sente o frio.

E só vive de fato quem se inflama.

​Que seja eterno, sim, mas no presente,

neste olhar aproximado que nos consome.

Pois o amor não é um título ou um nome,

é o susto de se achar outra pessoa.

     Por Alfredo Guilherme



7 comentários:

Anônimo disse...

Como leitor, a sensação é de que você pegou aquela angústia moderna de "querer garantias" e a desmontou com uma delicadeza cirúrgica. belo texto caro amigo Alfredo.

Anônimo disse...

Você foi muito feliz ao colocar o tempo e a entrega como o preço da entrada. Em um mundo de conexões rápidas, dedicar o "agora" a alguém é, de fato, o maior luxo que existe.

Anônimo disse...

Parabéns pelo fôlego da escrita e pela sensibilidade!

Anônimo disse...

Amei o seu texto é um convite corajoso para pararmos de olhar o horizonte com binóculos e começarmos a olhar o outro com lupa, aceitando que a beleza está justamente naquilo que pode acabar.

Anônimo disse...

Que texto visceral, meu grande amigo Alfredo.

Anônimo disse...

A citação do Poetinha caiu como uma luva, mas o seu poema final, O Contrato do Instante, deu um passo além.

Anônimo disse...

Pois o amor não é um título ou um nome, / é o susto de se achar outra pessoa. expetacular esse momento do texto.