Existe uma diferença abissal entre o olhar que admira a paisagem e o olhar aproximado. O primeiro é turista... o segundo é morador. Quando nos aproximamos o suficiente para ver as ranhuras na íris do outro, estamos pedindo licença para entrar. Mas quanto vale essa entrada?
A moeda de troca aqui não é o ouro, mas o tempo e a entrega. E é nesse balanço que a gente esbarra na eterna dualidade entre o "para sempre" e o "agora".
Muitos buscam o infinito do amor eterno como quem busca um seguro de vida. Querem a garantia de que, daqui a cinquenta anos, aquele olhar ainda estará lá, intacto, como uma estátua de mármore. É uma busca nobre, mas perigosa. O infinito, por definição, não cabe no relógio humano. Quando olhamos muito longe, para o horizonte do "eterno", corremos o risco de tropeçar nos cadarços do presente.
Aí entra a sabedoria do Poetinha... Vinícius de Moraes, com a malícia e a ternura de quem viveu muitas vidas em uma só, nos deu a saída de emergência mais elegante da literatura...
"Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure."
O que Vinícius propõe não é um amor descartável, mas um amor presencial. O olhar aproximado de que ele fala não está preocupado se haverá brilho nos olhos no próximo século, ele está ocupado demais incendiando o minuto atual.
Um olhar aproximado vale exatamente o risco da decepção.... De longe, todo mundo é perfeito, uma pintura impressionista... De perto, vemos as rugas, olheiras, e dúvidas, no leve tremor da pálpebra.
E é aí que o amor ganha valor real. Amar o "Eterno" é fácil, pois o eterno é uma ideia. Amar o "Enquanto dure" exige coragem, porque aceita a finitude. Vale o peso de saber que cada segundo é único e que a eternidade, se existir, é apenas uma sucessão de agoras, bem vividos.
O olhar aproximado vale a vida inteira comprimida em um instante. Não importa se o contrato é de cem anos ou de uma tarde de sol, se houve a coragem de enxergar e ser visto, a conta já está paga.
E bebendo da fonte do estilo Vinícius, com a mistura do clássico com o cotidiano, na busca pelo absoluto no frágil e a entrega ao momento...
Aí vai... O Contrato do Instante...
Não me peça o juramento das estrelas,
que brilham mortas há milênios no vazio.
Eu prefiro o calor das mãos, o arrepio,
e o direito sagrado de perdê-las.
Não quero o amor de mármore e museu,
estático, perfeito, emoldurado.
Quero o amor que chega desgrenhado,
dizendo, o mundo lá fora se perdeu.
Pois o que vale o infinito sem o toque?
A eternidade é um deserto sem cansaço.
Que o destino, enfim, nos desloque,
para o centro exato de um abraço.
E se o tempo for um sopro ou for um rio,
que nos leve enquanto o brilho ainda é chama.
Pois só conhece o sol quem sente o frio.
E só vive de fato quem se inflama.
Que seja eterno, sim, mas no presente,
neste olhar aproximado que nos consome.
Pois o amor não é um título ou um nome,
é o susto de se achar outra pessoa.
Por Alfredo Guilherme

7 comentários:
Como leitor, a sensação é de que você pegou aquela angústia moderna de "querer garantias" e a desmontou com uma delicadeza cirúrgica. belo texto caro amigo Alfredo.
Você foi muito feliz ao colocar o tempo e a entrega como o preço da entrada. Em um mundo de conexões rápidas, dedicar o "agora" a alguém é, de fato, o maior luxo que existe.
Parabéns pelo fôlego da escrita e pela sensibilidade!
Amei o seu texto é um convite corajoso para pararmos de olhar o horizonte com binóculos e começarmos a olhar o outro com lupa, aceitando que a beleza está justamente naquilo que pode acabar.
Que texto visceral, meu grande amigo Alfredo.
A citação do Poetinha caiu como uma luva, mas o seu poema final, O Contrato do Instante, deu um passo além.
Pois o amor não é um título ou um nome, / é o susto de se achar outra pessoa. expetacular esse momento do texto.
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