quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Luz ânbar e fios de prata...


   Dedicatória

     Para aqueles que não temem o tempo. Para os que entendem que a pele possui memória e que o vinho é apenas o fogo que a maturidade não apaga, ela refina.


 

​     O gosto suave daqueles primeiros beijos no carro incendiou nossas bocas, mas o que realmente ardia era a coragem de admitir o óbvio, não queríamos, naquele momento, apenas sair para conversar. Cedemos ao que os sentidos gritavam. Isso conferiu ao nosso encontro uma dimensão espiritual, quase predestinada.

    E fizemos o que nossos anseios desejavam.

    O Malbec era um rastro de veludo e fogo em nossas gargantas, tornando o mundo lá fora um mero detalhe esquecido. Sob a luz âmbar que recortava o quarto, cada movimento nosso era uma confissão. Não houve a hesitação comum aos desconhecidos, havia, sim, uma liberdade selvagem, como se nossas almas tivessem marcado esse encontro séculos antes de nossos corpos se tocarem.

​     Aproximei-me e vi a luz brincar com os fios de prata em seu cabelo, moldura sagrada para a urgência do seu olhar. Ali, a paz profunda deu lugar ao delírio. Minhas mãos leram sua pele como quem descobre um mapa antigo e precioso. O que era silêncio e desejo contido tornou-se uma sinfonia de respirações curtas e entregas sem reservas.

     Apesar do peso dos anos, a intimidade surgiu como se nossos corpos tivessem memória própria. Não havia o receio do novo, apenas a liberdade de quem realiza o desejo sem pedir licença. Cada centímetro revelado era uma estação de prazer, onde a maturidade celebrava a vida em sua forma mais crua e bela.

     ​O Beijo. Não o de quem se conhece agora, mas o de quem se reconhece na sede alheia. Um pacto selado de que nada seria negado. Na fusão do auge, o amor deixou de ser uma promessa futura para se tornar uma presença viva e pulsante, um grito de libertação.

​     O "continuaremos" foi escrito no suor, no calor das peles coladas e na exaustão doce que se seguiu. As taças ficaram vazias, mas nós transbordávamos. Os sorrisos entre os lençóis desalinhados eram puros, carregados da certeza de que, naquela noite, não apenas nos conhecemos, nós nos pertencemos.

     ​O amanhã entrou sem pedir licença, tingindo o quarto com um tom de mel que o tempo parecia não querer apagar. O silêncio, antes preenchido pela urgência, agora pulsava no ritmo calmo de nossas respirações. Ao abrir os olhos, vi que a embriaguez do vinho dera lugar à sobriedade do afeto. O mistério transformara-se em intimidade.

     ​Havia uma beleza crua naquele amanhecer. Sua pele, marcada pelo calor da entrega, brilhava sob os primeiros raios de sol, e os fios de prata em seu cabelo eram fios de luz sobre o travesseiro. Encontramos abrigo no meio da tempestade.

     ​Quando seus olhos encontraram os meus, o sorriso não era de despedida, mas de confirmação. O amor, que atingira sua nota mais alta no escuro, estabilizava-se agora em uma melodia suave e contínua. Beijei-te com a calma de quem já conhece cada curva. O café que viria a seguir teria o sabor daquela primeira taça de Malbec, algo que começou avassalador, mas que possui a estrutura necessária para permanecer.

     ​Saímos cúmplices, entregues ao melhor que a vida guarda.

​     Além do Horizonte do Quarto...

    ​A porta se fechou, mas o que levávamos não cabia em malas. O trajeto de volta foi marcado por um silêncio confortável, aquele que só existe entre quem não precisa mais esconder nada.

​    Já não estávamos sob a luz protegida do hotel. Agora, o sol batia no rosto, revelando as marcas que o tempo e a noite deixaram. Sentamos em uma pequena cafeteria de esquina, o aroma do grão torrado substituiu o rastro do vinho. Ali, entre o tilintar das xícaras, percebemos que a liberdade do escuro era, na verdade, um passaporte para a transparência do dia.

​     A vida real tem horários e distâncias, mas toda vez que nossas mãos se tocavam por cima da mesa, a eletricidade voltava. Descobri que o brilho nos seus olhos ao falar dos seus sonhos era tão intenso quanto o que vivemos entre os lençóis.

    ​Nossas rotinas se entrelaçaram como os fios de prata em nossos cabelos. O "continuaremos" deixou de ser o eco de uma noite para se tornar a mensagem no meio da tarde, o jantar planejado à pressa, o abraço demorado na porta. Não éramos mais apenas dois desejos realizados, éramos dois destinos que decidiram caminhar lado a lado, mantendo o fogo do Malbec aceso em cada novo amanhecer.


    ​Posfácio:

    Dizem que as grandes paixões pertencem à juventude, mas o que descobrimos entre o vinho e os fios de prata é que o desejo maduro é muito mais perigoso e belo, porque ele é consciente. Que cada leitor encontre, entre a taça e o lençol, a coragem de dizer... continuaremos.


     Por Alfredo Guilherme


  

domingo, 25 de janeiro de 2026

Jorge Ben Jor...A constância do som...

   


     Imagine que um som “massa” começa a preencher o carro. Um charme que não tenta ser nada além do que é. O amor, afinal, não precisa de esforço para ser incrível.

     A maré estava pra peixe numa manhã ensolarada. Dois apaixonados desciam a serra rumo ao litoral de Santos quando Jorge Ben Jor entrou em cena. As cordas do violão vibraram no corpo deles, marcando o tempo. Entre notas e sussurros, a conversa se misturava à melodia.

     - Escuta essa voz, esse violão... Ele usa o polegar no grave e o contratempo na outra mão. É uma batida que parece o meu coração quando te vê. Não corre, flutua. É como se Jorge soubesse que, quando estou com você, não tenho pressa de chegar a lugar nenhum.

     - Já passamos por tantos dias de sol... Se hoje chover, tanto faz. Seguramos a mão um do outro em tempestades. O tempo passou, os meses voaram, e continuamos aqui. A chuva caiu lá fora, mas não molhou o que a gente construiu. Criamos o nosso próprio clima.

     Ela tocou a coxa dele, acompanhando com os dedos o balanço suave da melodia.

     - Você se tornou o meu ritmo favorito. Aprendi a ler seus silêncios e amar cada detalhe que só o tempo revela. Jorge pede para a chuva não molhar o amor dele porque sabe que é precioso ser cuidadoso. Eu te prometo continuar cuidando da gente.

     - Pode chover, pode o tempo correr. Se os próximos anos forem como os meses que já vivemos, só tenho a agradecer. Não importa o clima lá fora, desde que o meu mundo continue sendo você.

    O violão de Jorge simbolizava fidelidade e parceria. Eles já haviam enfrentado tempestades e saído secos, reforçando a segurança da relação. Olharam nos olhos, sentindo aquele frio na barriga que só o início traz.

     - Engraçado como o tempo é relativo. São só alguns meses, mas se eu fechar os olhos e ouvir esse violão, parece que já nos conhecemos de outras vidas. Jorge canta com naturalidade, a mesma que sinto quando estou com você. Nada foi forçado, tudo simplesmente fluiu.

     - Você chegou como essa chuva da música... lavando tudo, trazendo frescor. Em tão pouco tempo já sinto que você é meu lugar seguro. Quando o mundo lá fora é barulhento, basta o seu sorriso para tudo se acalmar.

     - Dizem que o início é a melhor parte, mas eu acho que a melhor parte é perceber que, a cada dia, quero mais um mês, mais um ano, mais uma vida ao seu lado. Jorge pede para a chuva parar, e eu peço para o tempo não ter pressa.

     - Pode chover ou fazer sol. Você já transformou meus dias comuns em bênção. Que venham todos os meses que o destino guardar. Você só sai da minha vida se eu for também.

     - Não vou sair... Querer mais e mais é desejar futuro sem pesar o presente.

     - Essa música me lembra a gente... não precisamos de produção. É uma elegância natural, como o seu jeito de acordar.

     - No refrão, Jorge pede... “Por favor, chuva ruim não molhe mais o meu amor assim...” Ela sorriu...

    - Ainda bem que tenho seu abraço para me proteger. Pode cair o temporal que for.

     Falar de Jorge Ben Jor é falar de alegria, balanço e suingue solar. Ele transformou o violão em percussão, criando um transe que obriga o corpo a balançar. O romance com ele não é melancólico, é vibrante.

     - Amor... Jorge canta muito, mas não pode ver o que eu vejo... o brilho dos seus olhos. Isso é o que me aquece de verdade.

     - Fique sabendo, meu querido... Estou rendida, mas de forma leve e alegre. Essa letra mostra que você está enfeitiçado por mim de um jeito positivo. E quando o violão for sumindo no fade out, você pode me beijar no acostamento e dizer: “Eu te amo. Obrigado por ser o motivo dessa música fazer sentido hoje.”

     - Vamos deixar essa música ser a trilha sonora do que estamos construindo. Daqui a dez anos, quando ela tocar, quero lembrar exatamente do brilho dos seus olhos hoje.

     Eles pararam o carro. O beijo selou a promessa.

     “Chove Chuva” é mais que uma canção, é um mantra, uma declaração de amor inesquecível. Enquanto o mundo corre lá fora, Jorge cria uma bolha de intimidade. E dentro dela, o tempo dança com eles e eles dançam com o tempo.

     Por Alfredo Guilherme


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Crônica: O Banquete da Escassez...



​      Sentaram-se à mesa como quem se prepara para um duelo de esgrima. As armas, porém, eram sílabas e o campo de batalha, um desejo represado ou, para ser mais exato, o puro tesão, contido.

    ​Ele encarava a porcelana vazia do prato, ela, transbordava do vinho no cristal. No centro da mesa, quase palpável, pairava aquele... "Estranho gozo"... A satisfação de não se pertencerem por inteiro, guardando sempre uma margem para o erro e um respiro para a dúvida.

​    Eram arquitetos do atalho da incompletude. Sabiam, com uma lucidez cortante, que se atingissem a plenitude, aquela 'mornidão' doméstica e previsível, o encanto poderia desabar em cinzas. Preferiam o desvio, por atalhos para estarem juntos, exigiam que ouvesse, o atrito elétrico entre o que queriam e o que se negavam a ter.

​    Foi então que ele lançou o primeiro oxímoro da noite... - Nossa distância é o que mais nos aproxima, disse ele, com a leveza de quem pede uma garrafa de vinho de uma safra especial ao garçom.

​    Ela sorriu, aceitando o convite para esse jogo. Passaram a se desfiar em contradições deliciosas, amarrados pelo avesso por um fio de seda... Falavam de uma "liberdade aprisionada", de um "silêncio ensurdecedor" que gritava entre os talheres. Criavam sintagmas capazes de angustiar qualquer gramático, mas que, para eles, eram a única tradução possível. Ergueram castelos feitos de "sim" e "não" pronunciados no mesmo fôlego.

​    O ápice da noite deu-se quando o assunto roçou o sexo em seus corpos. Não havia fome, mas urgência. Não havia sede, nesse deserto vasto em que viviam. Debateram, com uma volúpia quase cerebral, o grande impace... "O porque da falta de apetite sexual".

​    Concluíram que não era desinteresse. Era uma espécie de "luxúria casta". Desejavam-se com tal intensidade que o ato físico parecia uma simplificação grosseira, uma tradução mal feita do que realmente sentiam. 

    Preferiam o gozo das palavra, a ereção da ideia, o orgasmo abstrato do conceito. Alimentavam-se da própria carência, e era justamente essa falta que os mantinha, paradoxalmente, inteiros.

​    Ao final da noite, levantaram-se sem tocarem em suas mãos, caminharam lado a lado. Ainda assim, transbordavam intimidade.

​    É preciso conhecer muito bem a intimidade mais profunda do outro e não está no toque, mas no conhecimento silencioso do outro, e na capacidade de ser incompleto estando ao lado.

    

     Por Alfredo Guilherme



domingo, 11 de janeiro de 2026

Crônica: Mistério dos Seios ...


       Os seios não são apenas curvas, são enigmas que atiçam a imaginação.  

     Eles se erguem como desafio, se escondem como promessa. São o território onde o olhar se perde e o desejo os encontra.  

     Na penumbra de um olhar, os seios surgem como horizonte de desejo. São mares que se agitam ao menor toque, se tornam colinas que guardam o sopro da feminilidade. O erotismo deles não está apenas na nudez, mas na sugestão no tecido que desliza, na respiração que os faz dançar, no silêncio cúmplice de quem os observa

     Há uma insolência neles, o jeito como se insinuam sob o tecido de uma blusa de seda, se oferecem ao acaso de um toque. São pele viva de prazer, guiando o corpo para a vertigem. Em cada movimento guiam o corpo para a vertigem, um convite para cada suspiro ser uma provocação.  

     Os seios carregam o poder de transformar silêncio em delírio. Não precisam de palavras, basta o contorno, o ritmo da respiração, o arrepio que percorre a pele. Eles são poesia erótica em carne viva de abundância e de prazer, mas se eles falacem... diriam... “Aproxime-se” quando se erguem, dizem “Espere” quando se escondem… Por serem símbolos de prazer e de poder, são capazes de transformar o instante mais banal em ritual de sedução.  

     E quando revelados, não são apenas vistos, são celebrados. O olhar que os descobre não é inocente, é cúmplice, é faminto, é reverente. Porque os seios não pertencem apenas ao corpo, pertencem ao imaginário, ao desejo, ao fogo que consome e renova.  

     Assim, entre o sagrado e o profano, eles permanecem como o mais provocante dos símbolos, não apenas como fonte de vida, mas também... Um convite eterno à perdição deliciosa na união de corpos. 


      Por Alfredo Guilherme 



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Reflexões... Entre Objetos e Metáforas...



          A borboleta e a tela...

   
     
Havia uma mesa, e sobre ela um celular adormecido. Sua tela clara quando se tornava negra era como um lago sem a luz do luar, um espelho de nada, à espera de rostos que nunca chegavam.

    Então, vinda de um lugar que não se sabe de onde, uma borboleta pousou.
    Era frágil e livre, como se trouxesse nos olhos a lembrança do vento.

    E naquele instante, a tela perdeu sua autoridade de oráculo.
    Nenhuma mensagem, nenhuma chamada, nenhum alerta tinha mais sentido do que o simples bater de asas.

    A borboleta não sabia de aplicativos.
    Não conhecia senhas.
    Não entendia de algoritmos.
    Mas carregava um segredo antigo…
    "O que é vivo só se revela no silêncio atento".

    E assim ficou...
    Pousada no escuro da tela, era a metáfora de tudo o que esquecemos quando escolhemos a vida que brilha por dentro do vidro em vez da que dança voando no ar em liberdade fora da tela.


    O copo e a sede...

    Na mesa esquecida, um copo com água. Transparente, silencioso, paciente.
    Do lado, alguém com a boca seca, rolando telas no celular, como quem procura um gole que nunca vem.

    O copo não vibra, não emite alerta, mas guarda dentro dele a resposta... "A sede não se mata em pixels, só em goles que descem pela garganta e lembram que estamos vivos".


     A janela e o vento...

Havia uma janela fechada.
    Do lado de fora, o vento fazia festa, trazia cheiros de chuva, vozes de passarinhos, e um convite sem palavras.

    Mas dentro, alguém preferia o ar-condicionado constante, previsível, sem surpresas no frescor do ambiente.
    Até que uma fresta se abriu, e o vento entrou, desarrumando os cabelos, derrubando papéis, bagunçando certezas e refinando o ar.

    Foi nesse instante que se descobriu, que a vida não gosta de controles e seus botões de ligar e desligar, ela prefere... "Janelas abertas".


 A chave e a porta...

No bolso, uma chave esquecida...

     De uma porta que nunca se abriu de verdade.
     As pessoas passavam, por ela, todos os dias, sempre olhando para baixo, como quem procura caminhos em mapas digitais na tela do celular.

     Mas um dia, por acaso, a chave caiu do bolso,  rolou até a porta... E no encaixe exato, fez-se o estalo.

     Atrás da silenciosa madeira, havia um quintal, com árvores e flores que ninguém fotografava, e um banco gasto pelo tempo, em um gramado verde esmeralda.
     Ali, a vida estava inteira, esperando o gesto simples de girar a chave e olhar para a vida e viver o melhor dela.


     Por Alfredo Guilherme 



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um conto contado : União sólida...




      Eles eram uma moeda de um real, sólida, brilhante, indivisível. Até que o silêncio, esse ácido lento, começou a corroer a liga que os unia. Sem nenhum alarde, o centro prateado se descolou do aro dourado, revelando que a união era na verdade, um ajuste de pressão que já não suportava a verdade... Dizem que o amor é uma liga metálica, forjada para resistir ao manuseio bruto dos nossos dias, mas não se separam, a não ser por omissão.


       (Ela... para ele...)
       Eu sempre fui o teu contorno. Passei anos acreditando que minha missão era te proteger, te apertar contra mim para que o mundo visse em nós uma peça única, um valor indivisível. Eu era o ouro que brilhava na vitrine da nossa vida social, você era o meu lastro, o meu centro prateado.

​      Mas hoje, deitados sobre este linho do lençol que mais parece uma areia movediça de silêncios, eu percebi que me tornei uma moldura com medo de te apertar nos meus braços... Eu sinto o teu ser, logo ali, a poucos milímetros de distância, mas não me atrevo a me mover. Tenho medo de que, se eu tentar te abraçar de novo, você descubra que meus desejos cresceram para dentro, criando arestas que a sua segurança não suportaria.

​     A gente se perdeu na liberdade. E você se calou para não me ferir com suas vontades mais cruas, e eu me tornei rígida para que você nunca suspeitasse das minhas. Criamos uma etiqueta para o amor, e sexo, uma polidez que, aos poucos, foi desgastando a liga que nos unia. Somos dois prisioneiros de uma perfeição que inventamos. Eu, o círculo, e você, o núcleo central.

​     Olho para o vazio e a distância, que você deixou em mim e vejo o deserto. É curioso como a liberdade de ser quem somos parece mais perigosa do que a segurança de sermos sós, mesmo estando juntos. Queria que você soubesse que eu trocaria todo o brilho das minhas bordas por um minuto de uma verdade que nos fizesse tremer, eu sigo aqui, fingindo que ainda sou inteira.

​      Somos o retrato de um "nós" que desabou para dentro. Estamos no mesmo lençol, na mesma foto. Mas, entre o meu dourado e o teu brilho fosco, ouço o teu eco. Sinto o frio do teu metal roçar a memória da minha pele, mas permaneço aqui, imóvel, como se o peso que carrego no peito me impedisse de rolar de volta para o teu abraço.


      (Ele... para ela...)
      Me descolei de você porque não aguentava mais a pressão de ser exatamente o que você esperava que eu fosse.Tive medo de que, se eu confessasse os meus desejos mais íntimos, aqueles que não têm o brilho limpo da nossa rotina, eu acabaria por arranhar o teu dourado. Eu me tornei menor para não te incomodar, e nesse processo de encolhimento, nasceu esse espaço entre nós.

​     O que você chama de distância, eu chamo de preservação. ​O meu silêncio não é falta de querer, é o medo de que o meu querer seja vasto demais para o teu círculo.​ A minha imobilidade não é desdém é o receio de que, ao tentar me encaixar novamente, a gente descubra que as partes originais juntas, nunca existiu, que fomos apenas dois metais forçados a uma união expostos como um erro de cunhagem

     Mas onde está a poesia do toque? Onde está o risco de sermos uma liga nova, derretida e misturada? ​Mas entre o meu desejo e a tua borda dourada, existe uma parede invisível da nossa liberdade vigiada. Somos vizinhos de um abismo. E, enquanto você não aceitar o meu núcleo imperfeito, e eu não confiar na tua moldura para me acolher sem me sufocar, seremos apenas duas peças de metal esperando que o tempo nos oxide, até que não sobre nada além de pó e da lembrança de uma moeda que nunca se permitiu ser gasta de verdade.

​     Depois deste diálogo...  

​     Sob a luz fraca do abajur, da sala, as mãos de ambos se encontraram por acaso ao lado das duas partes da moeda. Não houve um susto, apenas um reconhecimento. Ele tocou o centro prateado, ela, o aro dourado. Naquele instante, o silêncio de ambos que antes era um muro, transformou-se em uma ponte de vidro.

​     Não houve exagerados pedidos de perdão ou promessas de que tudo voltaria a ser como antes. Eles entenderam, no toque frio do metal, que o tempo tinha dilatado o dourado e o gasto prateado da moeda tinha se separado, e que nunca mais poderia ser a mesma de 2025. 

     ​Com um movimento lento, ele deslizou o núcleo prateado para dentro do círculo dourado dela. Não foi um encaixe perfeito, pois havia uma pequena cicatriz, a ser curada para 2026. Mas foi justamente nessa cicatriz que eles encontraram a liberdade que faltava. 

​      Eles não voltariam a ser "um real". Tornaram-se algo mais valioso e menos comercial, um par que aceita a própria fragmentação. Decidiram que a beleza não estava na perfeição da cunhagem, mas na coragem de permanecerem juntos, mesmo sabendo que agora eram feitos de partes que podem, a qualquer momento, se soltar de novo.

     Descobriram que o amor não precisa ser uma peça fundida e estática, mas um reencontro constante de partes que aprenderam a ser livres, mesmo quando escolhem, deliberadamente, o abraço do mesmo metal.



       Por Alfredo Guilherme