Vamos tocar em uma ferida aberta da nossa era digital a tirania do visto e ter que no mesmo momento responder. Isso é que a psicologia chama de autorregulação emocional.
Vivemos em um mundo que exige reflexos de fibra óptica, extremamente rápido e a pausa é, ironicamente, a maior prova de controle da sofisticação mental. É a diferença entre reagir (instinto) e responder (consciência).
E é nesse exato momento de "maturidade vs. ansiedade", que o celular da Helena não tocou, mas ela sentiu o peso dele vibrando sobre a mesa de madeira, como se o aparelho tivesse ganhado vida própria tendo um estrimilique, após o outro ao receber a última notificação. Era uma destas perguntas idiotas no grupo de família, seguida por um comentário sarcástico de um parente em outra aba.
Helena olhou para a tela. A luz azul iluminou o seu rosto, mas ela não estendeu a mão para pegar.
E se lembrou de quando a comunicação tinha o ritmo de uma conversa de varanda, havia o tempo para um café, o tempo do silêncio e o tempo da resposta. Agora, o cursor fica piscando parecendo um metrônomo desregulado, exigindo uma pressa que o coração não quer mais acompanhar.
Ela tinha acabado de ler em um artigo naquela manhã, sobre a maturidade psicológica, um nome sofisticado para o que ela sentia naquele instante, na verdade, pra ela era um ato de resistência.
Seus dedos coçaram… A dopamina sussurrava em sua mente…“Responda logo, mostre que você está online, que você é produtiva, que você é presente”... Mas Helena respirou fundo. Ela percebeu que a pressão por ser instantânea era, no fundo, uma forma de ser superficial.
Ela levantou-se e foi até a janela. Observou o movimento da rua por exatos dois minutos. Naquele intervalo, ela não era um perfil, com uma foto melhorada com filtro, ou presente com o status de "digitando...". Ela era apenas Helena, uma mulher que possuía o seu próprio tempo.
Ao voltar para a mesa, a ansiedade tinha dado lugar a uma clareza mansa... Desbloqueou o aparelho, não como uma súdita... mas como uma editora da própria vida. Digitou uma resposta curta, precisa e gentil. Não porque o conteúdo da mensagem pedia, mas porque ela, finalmente, tinha algo a dizer.
E o"visto azulzinho" apareceu. E o mundo não acabou por essa atitude. Assim Helena descobriu que a paz mora no espaço entre a notificação e o toque.
Consciente, Helena estava representando a transição entre o usuário reativo, que vive para apagar incêndios de mensagens digitais, e o usuário consciente que entende que a tecnologia deve servir ao ritmo humano, e não o contrário.

9 comentários:
O seu texto meu amigo Alfredo Guilherme é, tecnicamente, um guia de higiene mental para a era da hiperconectividade.
Que texto necessário! Como leitor, a minha sensação é de que você colocou em palavras aquela palpitação silenciosa que a gente sente toda vez que a tela acende.
Leitura fenomenal! É impressionante como nos tornamos escravos desse 'metrônomo desregulado' que o texto descreve. A história da Helena é um espelho para todos nós, quem nunca sentiu o celular 'vibrar' mesmo quando ele estava parado, apenas pelo peso da expectativa de uma resposta?
Parabéns pelo texto, Alfredo! Precisamos de mais lembretes de que a paz, de fato, mora no espaço entre a notificação e o toque. O mundo não acaba porque o visto azul demorou dez minutos para aparecer
Realmente não é sobre ser antipático ou inacessível, é sobre ser como vc descreveu ser o editor da própria vida e não apenas um processador de dados passivo.
kkkkkk É o que faz os nossos dedos coçarem para responder logo. É pela economia de energia e pelo medo social de não ser presente.
Ao analisar esse texto sob uma perspectiva técnica revela uma base sólida em conceitos da psicologia comportamental e cognitiva. adorei o texto.
Grande amigo seu texto é genial, dentro conceito central da Logoterapia, de Viktor Frankl e do Mindfulness. A personagem Helena aumenta esse espaço propositalmente. Ao se afastar da tela por dois minutos, assim ela reduz a ativação da amígdala, centro do medo/urgência e permite que o córtex pré-frontal reassuma o controle.
O momento em que Helena respira, e vai até a janela e decide se tornar a editora da própria vida, e sensacional.
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