sexta-feira, 26 de junho de 2026

Um Conto Contado : O Relógio... Que Esqueceu de Bater...

 


​      A varanda de madeira sempre foi nosso refúgio. Não era apenas a vista da marina, e da cidade, onde as luzes começavam a piscar como estrelas caídas, até o pôr do sol que pintava o céu há pouco, já estava se despedindo. 

     Era o silêncio compartilhado, no compasso tranquilo das nossas respirações que abafava o ruído do mundo lá fora.

​     Naquela noite, porém, havia algo diferente no ar. Um pequeno caderno repousava entre nós, cheio de anotações e rabiscos de contas a pagar e roteiros de futuras viagens.

     Mas foi o olhar dela que me parou. Um olhar que eu conhecia há décadas, mas que parecia ter a frescura de uma eterna juventude. Ela segurava minha mão, e eu segurava a dela, e o tempo, aquele carrasco implacável que dizem medir a vida, em segundos simplesmente parou de funcionar.

​     Foi ali, sob a luz suave de uma luminária rústica, que meus olhos pousaram no relógio de parede. Não era um relógio comum. Seus numerais romanos e as engrenagens de bronze expostas eram apenas o cenário para o coração pulsante bem no centro dele. 

    Um coração de luz que não marcava segundos, mas eternidade. E a inscrição nele dizia tudo... “O amor ignar o relógio.” ... Um erro gramatical bobo, talvez, ou uma sabedoria poética que eu nunca havia notado antes.

​     Dizem que o tempo mede a vida, mas o amor ignora qualquer relógio. Olhando para ela, eu não via o peso dos anos, nem a contagem das estações que vivemos. Eu via apenas o presente, esse momento perfeito em que nossas histórias se entrelaçavam novamente. 

     A felicidade não pede licença e nem consulta o calendário, ela desperta, como a luz de um raio que rompe a noite quando menos se espera. Encontra-la não foi uma questão de tempo, foi uma questão de destino.

​     A inscrição no relógio parecia zombar da nossa obsessão humana por contar tudo, horas, dias, anos. Eu fico feliz por saber que o amor não sabe contar. Ele apenas sabe ser

     E enquanto estávamos ali, com o pequeno caderno de anotações sobre a mesa de centro, com o aroma de mar e madeira da varanda nos envolvendo, percebi que, no encontro das nossas histórias, o que importava não era o que já tínhamos vivido, mas o que ainda nos restava por viver.

​     A cidade continuava a acender suas luzes, os barcos continuavam a deslizar silenciosamente pelo mar que já tinha a cor da noite, mas ali, naquela varanda, éramos apenas nós dois. 

     O relógio, com suas engrenagens de bronze e seu coração de luz, continuava pendurado na parede, mas sua única função era nos lembrar que, para o amor verdadeiro, o tempo é apenas um detalhe que esquecemos de conferir. 




     Por Alfredo Guilherme 



terça-feira, 23 de junho de 2026

O Ancestral Inesperado: Crônica de uma Evolução Inusitada...

 


​      Às vezes, olhando par a tecnologia que carregamos nos bolsos e para as inovações que prometem o "bem-estar absoluto", eu me pego pensando...será que a humanidade sempre foi tão desesperada por um alívio imediato? 

     A resposta, galera amiga, reside nos porões empoeirados da medicina vitoriana, onde o Dr. Frank E. Young, em 1892, nos brindou com algo que hoje, com o perdão do trocadilho, faria qualquer um sentar e refletir antes de usar.

     Sim, os dilatadores retais foram amplamente utilizados nos Estados Unidos, especialmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Foram vendidos com sucesso comercial por cerca de 40 anos. Com o avanço da medicina baseada em evidências e a pressão de órgãos reguladores, o produto foi desacreditado e retirado do mercado. O caso de Frank E. Young é frequentemente citado em museus de história da medicina e curiosidades como um exemplo clássico de "charlatanismo médico".

​     Estou falando dos famosos "Dilatadores Retais do Dr. Young". Sim, você não leu errado. Naquela época, acreditava-se piamente que a tal "auto-intoxicação" era a mãe de todos os males. Se você estava nervoso, com insônia ou até mesmo com aquele humor duvidoso, o problema, de garantia de resultado garantidos estavam nos manuais, na sua parte inferior. A solução?... Um kit de cilindros de borracha endurecida, vendidos sob a promessa de curar desde hemorroidas até a "insanidade mental".

     Esses objetos fazem parte de uma linhagem de dispositivos médicos da época que prometiam por meio de métodos invasivos ou estimulantes, similares aos vibradores que, na mesma época, também eram vendidos com a promessa de tratar a chamada "histeria" feminina. Por outro lado... Alguns que não podiam sair  do ' armário,', usavam o kit sorrateiramente para não dar o que falar.

​     O que há de mais cômico e, devo admitir, poeticamente irônico é notar que esses artefatos, tão sisudos e com cara de ferramentas de oficina, são, na verdade... "Os Tataravôs dos Vibradores Modernos". Enquanto o Dr. Young pregava o alívio através da "dilatação", para vender o que, na verdade, só tinha o efeito placebo e o de distrações físicas de prazeres sexuais.

      A evolução tecnológica logo percebeu que um pouco de vibração seria muito mais eficiente para resolver certas tensões da vida moderna.

​     É fascinante notar essa evolução, saímos do "Dr. Young" e chegamos aos diversos produtos eróticos à venda hoje. Onde antes tínhamos um conjunto de hastes rígidas, hoje temos tecnologia de ponta, carregamento ultrarrápido e designs ergonômicos que fariam o próprio Frank Young soltar um "E isso carrega na tomada?".

       O que hoje chamamos de "tecnologia de ponta", daqui a cem anos, provavelmente será visto com o mesmo ceticismo ou com risadas com que olhamos para as hastes de borracha do Dr. Young.

​     A medicina mudou, os padrões mudaram, e felizmente a ciência nos libertou da ideia de que todos os nossos problemas mentais residiam onde o "Sol não Bate". 

     Mas, ao olhar para a imagem que ilustra essa crônica, não consigo conter o sorriso. A história é, no fundo, uma sequência infinita de tentativas humanas de buscar conforto, O caso dos dilatadores é, de fato, um lembrete antropológico fascinante de como o desespero e a falta de conhecimento podem pavimentar estradas bizarras para a "cura" que só nos resta rir da nossa própria criatividade.

​      Afinal, se o "Ideal Rectal Dilator" serviu para alguma coisa, foi para nos ensinar que, por mais que a tecnologia avance, o ser humano sempre estará à procura de um botão de "liga/desliga" para o estresse do dia a dia. A diferença é que, hoje, a gente prefere o modo sol, praia, caipirinha, cerveja estupidamente gelada e o mar a nossa frente.


     Por Alfredo Guilherme 

                                                    




quinta-feira, 18 de junho de 2026

Crônica : O Amor Sem Capinha....

 


     O designer passou noites em claro em um escritório minimalista em Seul ou Cupertino. Discutiu com engenheiros a fração de milímetro da curvatura do vidro, a textura fosca do titânio que absorve a luz sem refletir os dedos, o clique perfeito dos botões laterais. Um poema de silício e alumínio, feito para ser acariciado pela polpa dos dedos, uma joia da tecnologia moderna criada para o deleite dos sentidos.

     Aí você compra o aparelho. Abre a caixa com o coração acelerado e, antes mesmo de ligar a tela, comete o sacrilégio, enfia o milagre da engenharia humana dentro de uma capinha de silicone vagabunda, e a pior de todas é aquela cheia de brilho, comprada na banca do metrô por trinta reais.

      Pronto. O design ultrafino virou um paralelepípedo opaco. O toque acetinado foi substituído por essa porcaria barata. O celular perdeu a identidade, a beleza e a dignidade. Tudo em nome do medo. O pavor absoluto do chão, da quina da mesa, do destino cruel que aguarda os desatentos. Vivemos na era do celular blindado, onde a estética se curva diante da paranoia da queda.

     O mais trágico é perceber que fazemos exatamente a mesma coisa fora das telas. Quantos de nós não recebemos a vida de peito aberto, com todas as suas linhas elegantes, suas vulnerabilidades táteis e sua beleza original, para logo em seguida tratarmos de providenciar uma "capinha" protetora? No amor, então, somos campeões de vendas na banquinha de acessórios de proteção emocional.

      Conhecemos alguém que é puro titânio e vidro curvo. Alguém que brilha, que tem cliques perfeitos, que desperta aquela vontade de tocar sem pressa. Mas o medo do tombo fala mais alto. A lembrança daquela última tela estilhaçada na calçada da desilusão ainda dói no bolso da alma.

Então, por precaução, envelopamos o sentimento.    

     Colocamos uma película de distanciamento, uma capinha grossa de ironia, um para-choque de desculpas. Deixamos o amor pesado, quadrado, sem graça, mas teoricamente protegido contra quedas livres.

     Passamos a vida segurando uma blindagem de insegurança, esquecendo a textura do que está escondido ali dentro. O amor fica sem riscos, é verdade. Mas também fica sem toque, sem o frescor do material original, sem o design que o destino planejou.

     Há quem diga que o amor precisa ser vivido "na pele", com o risco do risco, com a iminência do trinco. Porque um coração intacto, que nunca sofreu um arranhão e passou a vida protegido por uma capa de covardia, pode até chegar ao fim da jornada sem nenhuma marca na carcaça. Mas vai terminar sem nunca ter sabido o que é, de fato, a beleza de sentir o mundo de verdade.

     Talvez seja hora de tirar o celular da capinha. E algumas outras coisinhas do peito também. Se quebrar, a gente junta os pedaços ou aprende a conviver com as cicatrizes.




     Por Alfredo Guilherme


                                                         



segunda-feira, 15 de junho de 2026

Crônica : Somos...Camaleões de Interesse...



      E como mudar de humor... Num piscar de olhos ?... Dizia o sábio Barão de Montesquieu que “Os homens mudam de sentimentos e de comportamento com a mesma rapidez com que mudam os seus interesses”. Lindo, profundo, filosófico. 

     Mas o Barão, coitado, escrevia no século XVIII. Se ele vivesse hoje, teria completado a frase... " E as mulheres fazem exatamente a mesma coisa, só que com uma paleta de cores muito mais complexa e justificativas bem mais elaboradas ”.

​    A verdade nua, crua e levemente hipócrita é que o ser humano é um camaleão de conveniências. Nossos sentimentos têm a solidez de um gelo no asfalto quente ao meio-dia, dependendo exclusivamente do que estamos querendo ganhar com a situação.

​     O Homem no "Modo Camaleão" é primoroso…  No universo masculino, a mudança de comportamento baseada no interesse é quase matemática. É uma chave que vira com o barulho de um clique de esperança.

​     Vejamos um exemplo clássico do Héber, um sujeito que odeia drama, detesta filas e sempre considerou coisa de jovem babaca, acampar para ver show.

    Mas quando pintou o interesse, Héber ao conhecer a Letícia. Parecia ser o amor de sua vida, pelo menos até o próximo mês, ela é fã fervorosa de uma banda islandesa que toca instrumentos feitos de gelo reciclável.

     A Metamorfose aconteceu em menos de 48 horas, Héber desenvolveu uma paixão súbita pela cultura nórdica, comprou uma bota de trilha e passou doze horas na fila do festival debaixo de chuva, sorrindo e dizendo que "A energia da lama reconecta o homem com a sua essência".

​     O sentimento dele pela chuva mudou? Não... Mas o interesse pode mudar. Dois meses depois, se a Letícia terminar com ele, a lama volta a ser uma nojeira pra cacete, e a banda islandesa vira uma bosta, um bando de cabeludos  cuzão fazendo barulho.

​     A mulher e a "Engenharia dos Sentimentos"... Se os homens mudam de interesse como quem troca de marcha no carro, as mulheres operam em um sistema de computação quântica. A mudança é igualmente rápida, mas vem envelopada em uma narrativa impecável.

​     Tomemos como exemplo... A jovem Camila, ela sempre defendeu o consumo consciente, a simplicidade e jurava de pé junto que detestava ostentação e que "Gente que gasta fortuna em restaurante chique, e compra bolsa de marca famosa, tem vazio na alma".

     Camila descobriu que a sua arquirrival do trabalho, a Marcela, foi pedida em casamento em Paris com direito a champanhe com folhas de ouro. E lua de mel no Caribe.

     Além disso, por outro lado ... A Camila acabou de ganhar um bônus gordo em espécie na empresa.

    ​A Metamorfose aconteceu... O vazio na alma virou experiência gastronômica conceitual. Na mesma semana, Camila foi vista jantando no restaurante mais caro da cidade, postando fotos com uma bolsa da Louis Vuitton, com a legenda... “Celebrando as pequenas conquistas porque a vida pede um toque de poesia e sofisticação”.

​     Os sentimentos de Camila sobre o capitalismo mudaram? Jamais vai mudar. Mas o interesse em não ficar por baixo da Marcela operou um milagre filosófico em seu coração.

​    Na dança das conveniências o interesse é o verdadeiro mestre dos magos das nossas emoções.

    Então um viva a Flexibilidade!... Não sejamos hipócritas. Mudar de sentimento conforme o interesse não é falta de caráter, é instinto de sobrevivência social. Se fôssemos rígidos e coerentes o tempo todo, morreríamos solteiros, desempregados e ainda dirigindo um carro velho que não paga mais IPVA, e sem amigos.

​     Portanto, quando você vir um homem que jurava odiar sertanejo chorando ao som de um modão, tudo porque a pretendente é fã deu-lhe um pé na bunda... Isso faz parte.

      Ou uma mulher que detestava rotina acordando às 5h da manhã para fazer crossfit, com roupa justa, quase transparente que dá pra ver a alma, com as novas amigas ricas, não julgue. Apenas observe a beleza da evolução humana... Porque também isso faz parte.

      Afinal, como já dizia o ditado que acabei de inventar... 

     "Quem não muda de opinião conforme o interesse, ou já ganhou na loteria ou desistiu de viver."


     Por Alfredo Guilherme 




sábado, 13 de junho de 2026

Força e Raça Seleção Brasileira...


O amor pelo Corinthians é eterno, mas quando a Seleção entra em campo, vai ter... Poropopó.... O coração da Fiel bate junto. Na arquibancada, nas ruas ou em casa, o grito é o mesmo: “Vai, Corinthians!” e “Vamos, Brasil!”, duas paixões que se unem em uma só vibração. ⚽ Porque quem é Corinthians sabe o que é torcer com alma, e essa mesma força move o Brasil na Copa!

Nas arquibancadas, o verde e o amarelo se misturam em um mar de alegria. Bandeiras tremulam, rostos pintados brilham sob o sol, e cada grito ecoa como um hino de esperança. É a Copa do Mundo, o momento em que o Brasil se transforma em um só coração pulsando pelo futebol.

A torcida brasileira é mais do que um público, é uma alma coletiva. Cada gol é celebrado como uma vitória da vida, cada defesa é um suspiro de alívio compartilhado. Entre lágrimas de alegria, abraços e sorrisos que unem gerações. O som dos surdos e pandeiros e o canto de Vamos, Brasil!fazem o estádio vibrar como se o próprio país estivesse jogando.

O futebol, para o brasileiro, é poesia em movimento. É o sonho que nasce nos campos de terra e ganha o mundo. E quando a seleção entra em campo, não são apenas onze jogadores, é uma nação inteira que corre, dribla e acredita. Em mais uma Estrela Dourada na camisa.

Por Alfredo Guilherme


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Crônica ; O Fluxo do Afeto...


​     Dizer “eu te amo” deveria ser como soltar uma pipa ao vento, um ato leve, fluido, sem o sobressalto de que ela voe alto demais. 

     Permitir que as relações fluam, despidas de rótulos, é abrir espaço para que o afeto se multiplique em vez de se encolher. É compreender que o amor não é propriedade, mas presença. Ele pode ser encontro, despedida e reencontro, sem jamais perder sua essência.

​     Há quem ainda insista em enclausurar o sentimento dentro de molduras, como se a vida fosse um quadro estático na parede. Mas o amor ignora contornos, ele escorre, dança, transborda. Precisamos, urgentemente, nos entregar a esse embalo do que não sufoca. Um amor que respira, que se permite ser, sem as cobranças do relógio.

​     E isso só pode semear mais amor​... Quando não há grades, o coração se expande. Quando não há etiquetas, o sentimento se reinventa e você sente o melhor de você, e o melhor sabor.

​     Essa leveza não nasce da ausência de compromisso, mas da urgência de uma presença de verdade. É a coragem de amar sem amarras, de confiar na correnteza e de se entregar ao instante. 

     Eu vou bater de frente... Afinal, o que é o amor senão o próprio movimento? Ele não precisa ser colado, basta ser vivido. Amanhã, talvez, cada um siga seu rumo, mas o agora já terá valido por inteiro.

​    Como a sombra das árvores em uma praça, o amor muda com o sol, mas nunca deixa de acolher. É presença sem exigência, abraço sem contrato.

​    Talvez o grande aprendizado seja este, dizer “Eu te amo” como quem oferece uma flor, sem a ilusão de que ela permaneça eterna no vaso. 

     E, quando derrubamos as cercas, o coração finalmente encontra o seu espaço. E o mundo, inevitavelmente, se inunda de mais amor.


     Por Alfredo Guilherme




terça-feira, 9 de junho de 2026

Crônica : Meu ouvido virou pinico...

 


       Solta a batida e segura o coração! Senhoras e senhores, bem-vindos a tentativa de sobrevivência de um homem romântico. 

     Você acorda esperando calmaria o cheiro do café passado na hora, mas o destino que adora um deboche resolve trocar a calmaria com vizinhos aí o bagulho é louco, o som é de rachar. Quando a tarde e à noite se aproxima nos fins de semana.

     Meu ouvido vira pinico...De tanta merda que eu tenho que ouvir... Um toca funk, a outra música de louvor, e o outro sertanejo e arrocha tipo sofrencia, pra vizinhança toda participar e se irritar... aí a merda toda se completa... tudo sem a permissão do "Apolo' o principal deus da música na mitologia grega, enquanto as Musas, especialmente Euterpe, que são deusas inspiradoras da música e da poesia.

      E o pior não é as músicas, Pior é volume do som e das tais letras... Do tal do funk com palavras recheadas de tanta baixaria que eu fico até sem jeito de reproduzir. O cara liga o som num volume que a vizinhança inteira é obrigada a saber, com detalhes anatômicos e cirúrgicos, o que o MC pretende fazer com a moça na parte de trás do carro.

​      Olha não tá fácil. Eu sou de uma época em que, para conquistar alguém, você precisava de uma playlist com fita K7, com uma seleção de músicas com Ray Conniff e com uma luz baixa o Fábio Jr. sussurrando... "Você pintou como um sonho/  E eu fui atrás com tudo/  Se isso são coisas do amor/  Acredito que estou vivendo em outro mundo".

      Hoje? Hoje a paz acabou. O amor moderno não sussurra, ele vem com uma caixa de som JBL do tamanho de uma geladeira batendo no talo.

​     E aí você escuta... "Só as popozudas, as preparadas, huuu!"

​     Rapaz, quando eu ouço isso, a minha primeira reação não é dançar. É uma reação de preocupação genuína, quase paternal. Eu olho para o lado e penso..."Preparadas para quê, meu Deus?...  Pro Enem? ... Elas levaram casaco? O Tempo vai mudar, vai esfriar ? ... Será que levaram o celular para pegarem o uber para voltar pra casa? Ou vão mesmo tremer a bunda no terreiro do batidão ?

     A verdade é que o choque cultural é violento. No meu mundo, a música romântica te ensina a sofrer sentado, olhando a chuva cair na janela, pensando na amada. No funk, não tem tempo para chorar. O cara levou um fora na terça-feira, na quarta ele já tá no pancadão, mandando... "Chorou porque, taca, taca... na xereca, você vai encontrar o amor que te completa". É uma eficiência emocional que a minha geração nunca teve! 

     Nós demorávamos seis meses de terapia para superar um desafeto amoroso, um olhar torto, o jovem de hoje supera o término de uma relação no tempo de um hiat de bateria.

​     Então se você, assim como eu, tem o coração mole e o ouvido acostumado com uma boa música, aqui vão algumas regras de ouro para sobreviver à era do "pancadão de som"... Use a Técnica da "Tradução Simultânea". Você não precisa aceitar a letra literalmente.Traduza o funk para o dialeto do romantismo.

     Quando o MC grita... "Vem quicando, vem sentando!"... Você fecha os olhos e finge que ele está dizendo: "Aproxime-se com delicadeza e ocupe o assento estofado ao meu lado para partilharmos abraços e beijos apaixonados."  Fica muito mais palatável. O ritmo é agressivo, mas na sua mente, tem que parecer que está escutando "bossa nova" ao cair da tarde ensolarada, ao som de Vinícios de Morais.

​     No baile, todo mundo desce até o chão com uma elasticidade que me dá dor na lombar só de olhar. 

​     O segredo é a fusão. Se não pode vencê-los, confunda-os. Imagina que ser romântico é você chegar na patroa, olhar bem nos olhos, colocar aquela voz aveludada de locutor de rádio da madrugada e manda aveludadamente... "Meu amor... você é o meu chão. E como diz o poeta contemporâneo... hoje eu vou te dar um trato que você vai esquecer até o seu próprio nome. Com todo respeito e carinho."

​     Em resumo, o funk e a música romântica querem a mesma coisa, juntar as pessoas. A diferença é que a música romântica quer que você case, tenha dois filhos e mude para o interior ao se aposentar. O funk quer resolver tudo nas próximas duas horas.

    ​Eu fico com no o meio-termo, posso até ouvir o batidão, mas o meu coração ainda bate em ritmo desse refrão... ♫...Viver e não ter a vergonha de ser feliz ... Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

    O romântico só tem duas opções, mudar de bairro, ou comprar um fone de ouvido com isolamento acústico daqueles que parecem de operador de britadeira, ou aceitar que, pelos próximos meses, a trilha sonora será o amor moderno explicito sem filtro com muito, mais muito batidão.



      Por Alfredo Guilherme





sábado, 6 de junho de 2026

Crônica : Vibrante... O Voo e o Florescer...

      


​       Naquele fim de tarde, o vento soprava suave, guardando segredos entre as árvores. Não havia pressa, apenas o desejo latente de permanecer. Sob o dourado do sol, um colibri aproximou-se da flor. O coração da ave batia em frenesi, enquanto as pétalas se abriam em um silêncio sagrado, oferecendo-se ao encontro.

​    O amor humano é esse cortejo, uma dança aérea de delicadeza, vibração e desejo. Nos seres apaixonados, a metáfora ganha vida e se transforma em poesia concreta. São dois corações que se buscam, dois olhares que se cruzam e duas almas que se reconhecem no voo da ternura.

​    Assim como o colibri vibra suas asas diante do mistério da flor, o coração humano pulsa acelerado diante de quem ama. Nesse estado de encantamento, cada gesto é um voo sutil, cada palavra é néctar e cada silêncio é um repouso suave sobre pétalas invisíveis. A aproximação deixa de ser apenas busca e torna-se celebração, o instante exato em que o tempo se suspende e o universo se resume ao encontro.

​    A flor, por sua vez, é a imagem da vulnerabilidade que confia. É a beleza que desabrocha e expõe sua essência, tal como alguém que se desarma para ser visto de verdade. O cortejo, tecido em pequenos rituais, mensagens inesperadas, toques sutis, sorrisos que iluminam o dia, é uma promessa silenciosa de cuidado.

​    Nesse ritual, habitam juntas a fragilidade e a força. O apaixonado é o pássaro que assume o risco do voo, e a amada é a flor que se abre em entrega. Há uma promessa de eternidade escondida na urgência desse instante efêmero.

​    Em suma, amar é a arte de ser colibri e flor ao mesmo tempo o que voa e o que floresce, o que busca e o que acolhe, a asa que se entrega e o perfume que recebe. É o espaço sagrado onde dois corações, finalmente, se reconhecem e florescem juntos.

​      Por Alfredo Guilherme





terça-feira, 2 de junho de 2026

Camarão que dorme, a onda leva...

 


       Quem nunca ouviu o ditado popular “Camarão que dorme, a onda leva”? Ele é um clássico, mas essa variação traz uma verdade ainda mais objetiva sobre a realidade do ditado... "O Siri que não anda deixa o Camarão passar".

     Na biologia das praias e dos mangues, enquanto o "Siri" permanece estático, o "Camarão", com sua esperteza, está sempre em movimento, assumindo o controle da área e saindo na frente. 

     Na vida real, principalmente no amor a dinâmica é exatamente a mesma.

Qual é o preço da estagnação? A vida não tem botão de “pausa”. Enquanto você hesita, o tempo corre, as oportunidades mudam de mãos e o mundo continua girando.

       A zona de conforto é um disfarce. Ficar parado fingindo que está tudo bem é o caminho mais rápido para ver os outros conquistarem os objetivos que você queria.

O “Camarão” da vez pode ser aquele colega de trabalho que aceita o projeto difícil, o amigo que arrisca abrir o próprio negócio ou quem simplesmente decide estudar algo novo dentro da Inteligência Artificial.
      Eles não são necessariamente mais inteligentes, apenas estão atentos às novidades que surgem em nossas vidas  todos os dias.

Se você não der o passo firme à frente, alguém dará por você. E não adianta reclamar da “sorte” que o Camarão tem, quando foi você quem escolheu fincar as patas na areia.

      Quem hesita, ou melhor dizendo, vacila, vê a fila andar. No terreno dos sentimentos, o “siriismo” é fatal. Quantas histórias de amor morreram antes mesmo de começar porque alguém teve medo de dar o primeiro passo?

No amor, o silêncio e a lentidão raramente são interpretados como timidez, na maioria das vezes, parecem desinteresse.

     Seja por orgulho, medo da rejeição ou pura acomodação, deixar para amanhã aquela mensagem, aquele convite ou aquela conversa sincera é um risco enorme. O Camarão do amor não espera.

Enquanto você ensaia, a onda passa e leva a oportunidade embora.

     Na moral, galera, papo reto e sem rodeios, quem não se movimenta vira espectador da vitória dos outros. Não dá para passar a vida assistindo aos “camarões” alcançarem o sucesso profissional ou viverem romances incríveis enquanto você apenas observa.

     Se você quer ter sucesso, mude a estratégia. Se você quer aquela pessoa, vá em frente. Saia da inércia, mexa as pernas e ande rápido, antes que o “Camarão” passe à frente, mudando o rumo da sua história.



     Por Alfredo Guilherme