Dizem que na juventude abusamos do desperdício, e isso é normal, quando somos jovens, mas a verdade é que o tempo só ganha sabor quando a gente aprende a desacelerar. Passamos a maior parte da existência correndo atrás do relógio, batendo cartões, acumulando metas e empilhando boletos. Trabalhar, produzir, vencer. E então, um dia, a engrenagem dá uma trégua.
É quando olhamos no espelho, contamos os fios de prata e percebemos que o horizonte que nos resta é precioso demais para ser gasto com pressa.
Mas afinal, o que é ser um "bom vivant" quando a maior parte da jornada profissional já ficou para trás?
Há quem confunda o termo com ostentação, jantares caríssimos, viagens de luxo, poses milimetricamente calculadas. Bobagem.
O verdadeiro bom vivant da maturidade é um mestre da simplicidade sofisticada. É aquele que descobriu que o luxo não está no preço das coisas, mas no valor do tempo que dedicamos a nós.
Ser um bom vivant, hoje, é ter a audácia de não fazer nada sem carregar nenhuma culpa por isso. É trocar o despertador estridente pelo canto dos pássaros ou pelo silêncio bom de uma manhã de sol. É esticar o café da manhã por duas horas, lendo as noticias pelo tablet, vendo a vida passar pela janela e sentindo o gosto real da bebida, sem engoli-la correndo para encarar o trânsito para o trabalho.
Saborear a vida depois de tanto trabalhar é aprender a ver o invisível. É caminhar pela cidade sem um destino fixo, apenas pelo prazer de observar a arquitetura, os tipos humanos, o movimento das ruas. É carregar os olhos com curiosidade, como quem fotografa mentalmente os pequenos milagres do cotidiano, o riso de uma criança, a conversa fiada no balcão da padaria, o pôr do sol que a gente sempre esquecia de olhar porque estava trancado em uma sala da empresa.
O bom vivant desta etapa não tem pressa para chegar, porque ele entendeu que a graça está no caminho. Ele escolhe a dedo suas batalhas e, principalmente, suas companhias. Não há mais espaço para conversas vazias, relações por conveniência ou redes sociais barulhentas que nada tem de produtivo, que esgotam a nossa energia.
Em vez disso, busca-se o abraço demorado dos netos, a mesa com cervejas com os velhos amigos, as cantorias despretensiosas que lembram os tempos de outrora e as paixões que ainda fazem o peito vibrar, seja por uma música, por um livro ou pelo clube do coração, ou pilotar uma moto na estrada vendo o dia nascer e ter o infinito como destino.
Aproveitar os dias que nos restam não é uma corrida contra o tempo para recuperar o que passou, é, sim, um pacto de paz com o presente. É olhar para trás com orgulho da história escrita e olhar para frente com a leveza de quem não precisa provar mais nada para ninguém.
Cada novo amanhecer deixa de ser "mais um dia de luta" e passa a ser o que sempre deveria ter sido, um bônus, um presente, um brinde. Ser um bom vivant é, em suma, assinar o próprio manifesto de liberdade. É viver o hoje com a sabedoria de quem sabe que a vida é curta, mas pode ser imensa se soubermos como degustá-la.
Já que ganhamos o direito a mais um pouco de prosa, vale a pena colocar os pingos nos is. Se até aqui crônica foi um manifesto, daqui em diante vai ser um "guia de bastidores" para o bom vivant que cansou de formalidades. Porque, convenhamos, a teoria é linda, mas a prática exige um certo verniz de sem-vergonhice no bom sentido, claro.
Para começar, o bom vivant da maturidade é ser um mestre na arte de dizer "não". E diz com um sorriso tão pacífico que o outro não tem nem como ficar chateado.
Precisar responder no grupo de mensagens agora? Claro que não, o mundo pode esperar duas horas ou até dois dias, enquanto a gente caminha sem rumo ou tira aquele cochilo sagrado após o almoço.
Essa nova fase é o campeonato mundial do desapego. A gente passa trinta, quarenta anos guardando a louça fina para uma "ocasião especial" que nunca chega, ou economizando aquele vinho bom para uma visita que sempre desmarca. O bom vivant descobre que a ocasião especial é o fato de estar vivo hoje. É o foda-se para a liberdade, sem precisar abertar o tal botão do Foda-se.
Outra grande virtude desse estágio é a reconexão com os sentidos. Quando a pressa sai de cena, os olhos finalmente enxergam as nuances da cidade a luz do sol que bate torta na fachada daquele prédio antigo, o desenho das sombras nas calçadas. Os ouvidos passam a preferir uma boa melodia, daquelas que tocam na alma, em vez do barulho metálico das notificações do celular.
Aproveitar o tempo que nos resta depois de uma vida de labuta não é nenhum bicho de sete cabeças. É apenas parar de adiar a própria felicidade. É entender que o terno e a gravata, reais ou metafóricos já cumpriram seu papel e que agora a vida combina muito mais com uma roupa confortável, um par de tenis confortavel, bernuda e camisa regata e caminhar por uma bela praia do nordeste e o direito absoluto de ser o dono do próprio tempo.
No fim das contas, ser um... "Bom Vivant" é a melhor vingança que a gente pode ter contra a correria dos tempos modernos. É olhar para o relógio e, pela primeira vez na vida, rir da cara dele.
Por Alfredo Guilherme

11 comentários:
Alfredo parabéns pelo texto, mais não podemos esquecer que tudo tem validade, é podemos voltar no nó ponto de partida, deixar sempre uma porta aberta se precisar voltar,💝💝
Texto cirúrgico, Alfredo! Rir da cara do relógio é o nosso maior troféu nessa fase da vida. Parabéns pela escrita.
Alfredo, você gabaritou a vida com esse texto! Esse "verniz de sem-vergonhice" para dizer não e deixar o grupo do WhatsApp mofando por duas horas é a minha nova meta de vida. Já tirei o terno do armário e a bermuda com tênis confortável viraram meu uniforme oficial. A vida é curta demais para a gente guardar o vinho bom para os outros. Vou abrir o meu agora kkkkk
A ocasião especial é o fato de estar vivo hoje." Que paulada de frase! Vou levar esse mantra pra minha semana. Obrigado, Alfredo.
Texto espetacular. Me vi perfeitamente na cena de jogar conversa fora no balcão da padaria e ver o dia nascer sem a obrigação de bater cartão. A maturidade nos dá esse filtro maravilhoso: só fica por perto o que faz o peito vibrar seja uma boa música, os netos correndo pela casa ou o nosso clube do coração na TV. Parabéns pela prosa leve e cheia de verdades.
Que crônica linda, Alfredo! "Fotografar mentalmente os pequenos milagres do cotidiano"... essa frase vai ficar ecoando em mim por dias.
Renato Azevedo
Mestre na arte de dizer "não" e deixar o WhatsApp esperando... Me descreveu perfeitamente! Crônica fantástica, meu caro.
Que paz ler isso. Trocar a correria por duas horas de café olhando a janela não tem preço que pague. Lindo texto!
Camisa regata, bermuda, peito vibrando pelo clube do coração e zero pressa. Você gabaritou o que é ser um bom vivant! sem ter milhoes no banco.
Caro amigo seu texto muito legal seu texto, faz com que diferentes perfis de públicos refletam e se identifiquem profundamente com o seu texto.
Rapaz, que soco no estômago (daqueles bons, que acordam a gente). Eu passei trinta anos da minha vida achando que ser bem-sucedido era ter a agenda cheia. Hoje, aposentado, meu maior troféu é passar duas horas tomando café e olhando o movimento da rua. Essa parte de "rir da cara do relógio" é a mais pura verdade. O tempo agora é nosso, Alfredo! Texto pra acordar a galera. Obrigado por traduzir o que sinto.
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