terça-feira, 7 de julho de 2026

Crônica: Janelas para o Caos...

 

   

​     Quem viveu a infância antes da virada do milênio, certamente lembram do tempo em que o mundo operava em câmera lenta. Para se descobrir um segredo da vida, um mistério do corpo ou as engrenagens que faziam isso acontecer, era preciso tempo. O conhecimento era um fruto colhido no topo da árvore, depois de esticar muito o braço. Hoje, o fruto caiu, apodreceu no chão e as crianças estão pisando nele antes mesmo de aprenderem a amarrar os cadarços.

​     Olho para o lado e vejo um garoto de dez anos fixado em uma tela brilhante. Seus dedos deslizam com uma agilidade assustadora. Ele não está jogando paciência ou assistindo a desenhos animados inocentes, ele está sendo exposto ao bombardeio bruto da existência humana. Guerras transmitidas ao vivo em formato de stories, debates hipersexualizados fragmentados em vídeos de quinze segundos, e uma superexposição voluntária onde a intimidade virou a moeda de troca mais barata do mercado.

​     A maturidade, que antigamente era um casaco pesado que a gente só vestia lá pelos dezoito ou vinte e um anos, virou um figurino compulsório para crianças de filliação digital. Aos dez anos, a infância é abortada pela enxurrada de algoritmos. Eles já sabem tudo, viram tudo, debatem tudo. Mas será que compreendem algo? 

     A internet prometeu nos conectar ao topo do conhecimento humano, mas parece ter aberto os portões dos nossos porões mais profundos e obscuros.

​     Gera-se uma urgência febril em chocar, em expor a própria carne, as próprias dores e as próprias convicções, como se a vida só existisse se validada pelo olhar de um tribunal de desconhecidos virtuais. As guerras reais ceifam vidas do outro lado do mundo, enquanto as guerras virtuais destroem a saúde mental em tempo recorde dentro de quartos trancados.

​     É inevitável o paralelo bíblico... estaríamos vivendo uma espécie de Sodoma e Gomorra da modernidade?

​     A diferença é que as cidades antigas foram destruídas pelo fogo que caiu do céu por causa de seus excessos. A nossa Sodoma contemporânea não precisa de fogo divino nós mesmos construímos o nosso próprio incêndio, pixel por pixel, e o carregamos de bom grado  e destribuindo-o em mãos ainda inocentemente com a desculpa de paz pra nós e distração para eles. O fogo atual é a luz azul da tela, que queima a inocência, derrete o bom senso e consome o silêncio que a mente humana tanto precisa para se manter sã.

​     Assistimos ao espetáculo do absurdo na primeira fileira, aplaudindo ou cancelando, mas sempre consumindo. 

     Mas será que ?... Não estamos apenas repetindo o que nossos pais falavam de certos programas na TV, ou que os nossos avós falavam do Rock 'n' Roll?,  E  criticavam a canção Jet'aime moi non plus de 1969, que para eles era pornografia musicada, Toda geração acha que o mundo está acabando. 

     Vamos ter também  a autoconsciência e evitar o clichê do "No meu tempo tudo era melhor". Reconhecendo o viés geracional, A internet também traz coisas incríveis, acesso à cultura e educação que nós nunca tivemos. 

     O problema não é a ferramenta, é a falta de mediação dos pais. E hora de aplicar menos apocalipse, mais educação digital! 

    Por Alfredo Guilherme 


11 comentários:

Anônimo disse...

Pura verdade 1👏👏👏👏👏

Anônimo disse...

O seu paralelo sobre nós mesmos construirmos o nosso próprio incêndio, pixel por pixel, foi preciso. Mais uma crônica brilhante que me faz parar o dia para pensar. Parabéns!

Anônimo disse...

Confesso que comecei a ler com o coração apertado, Alfredo. Olho para os meus netos e sinto exatamente esse medo de que como a infância esteja sendo abortada. Mas adorei a sua virada de chave no final! Me fez lembrar de quando minha mãe escondia meus discos de Rock dizendo que era "coisa do diabo", rs rs rs rs....

Anônimo disse...

O que nos falta hoje não é tecnologia, é o silêncio que você mencionou a capacidade de digerir o que se vê. Texto impecável, no nível que a gente já espera por aqui.

Anônimo disse...

A maturidade virou um figurino compulsório para crianças de filiação digital. Que frase, Alfredo! Você consegue traduzir o caos da nossa modernidade com uma poesia e uma clareza que poucos têm. Sou sua fã e seguidora desse blog justamente por isso você nos choca com a realidade, mas nos devolve a lucidez no final. Um abraço!

Anônimo disse...

Excelente provocação, mestre Alfredo! Citar Je t'aime... moi non plus foi uma sacada genial para nos lembrar de que toda geração acha que o mundo vai acabar no próximo domingo. A diferença cultural e de velocidade é brutal, claro, mas a essência do pânico moral dos adultos é a mesma.

Anônimo disse...

Alfredo, que soco no estômago de texto! Você resgatou perfeitamente a nossa infância "em câmera lenta". Lembro de passar tardes tentando entender como funcionava o gravador de fita do meu pai... o tempo para descobrir as coisas tinha outro sabor.

Anônimo disse...

Você tem toda razão o problema não é a ferramenta, é a nossa ausência na mediação. Menos apocalipse e mais limites. Texto necessário para os pais de hoje!

Anônimo disse...

Seu texto é um chamado à ação realista. Meu caro amigo. A internet não vai asumir a culpa. O problema central é a negligência parental a tela usada como "babá eletrônica" para dar paz aos pais e distração aos filhos. educação digital e mediação é a única saída viável.

Anônimo disse...

Simplesmente maravilhosa essa crônica, do que vivemos é estamos presenciando nos tempos de hj parabéns.💝💝💝

Anônimo disse...

Seu texto é uma crônica excelente. Ele acolhe a angústia de quem vê a infância sendo "deglutida" pelas telas, mas não cai na armadilha do pessimismo absoluto. Ele cobra responsabilidade de quem realmente a tem os adultos que entregam as telas. Parabéns pela reflexão!