Sentaram-se à mesa como quem se prepara para um duelo de esgrima. As armas, porém, eram sílabas e o campo de batalha, um desejo represado ou, para ser mais exato, o puro tesão, contido.
Ele encarava a porcelana vazia do prato, ela, transbordava do vinho no cristal. No centro da mesa, quase palpável, pairava aquele... "Estranho gozo"... A satisfação de não se pertencerem por inteiro, guardando sempre uma margem para o erro e um respiro para a dúvida.
Eram arquitetos do atalho da incompletude. Sabiam, com uma lucidez cortante, que se atingissem a plenitude, aquela 'mornidão' doméstica e previsível, o encanto poderia desabar em cinzas. Preferiam o desvio, por atalhos para estarem juntos, exigiam que ouvesse, o atrito elétrico entre o que queriam e o que se negavam a ter.
Foi então que ele lançou o primeiro oxímoro da noite... - Nossa distância é o que mais nos aproxima, disse ele, com a leveza de quem pede uma garrafa de vinho de uma safra especial ao garçom.
Ela sorriu, aceitando o convite para esse jogo. Passaram a se desfiar em contradições deliciosas, amarrados pelo avesso por um fio de seda... Falavam de uma "liberdade aprisionada", de um "silêncio ensurdecedor" que gritava entre os talheres. Criavam sintagmas capazes de angustiar qualquer gramático, mas que, para eles, eram a única tradução possível. Ergueram castelos feitos de "sim" e "não" pronunciados no mesmo fôlego.
O ápice da noite deu-se quando o assunto roçou o sexo em seus corpos. Não havia fome, mas urgência. Não havia sede, nesse deserto vasto em que viviam. Debateram, com uma volúpia quase cerebral, o grande impace... "O porque da falta de apetite sexual".
Concluíram que não era desinteresse. Era uma espécie de "luxúria casta". Desejavam-se com tal intensidade que o ato físico parecia uma simplificação grosseira, uma tradução mal feita do que realmente sentiam.
Preferiam o gozo das palavra, a ereção da ideia, o orgasmo abstrato do conceito. Alimentavam-se da própria carência, e era justamente essa falta que os mantinha, paradoxalmente, inteiros.
Ao final da noite, levantaram-se sem tocarem em suas mãos, caminharam lado a lado. Ainda assim, transbordavam intimidade.
É preciso conhecer muito bem a intimidade mais profunda do outro e não está no toque, mas no conhecimento silencioso do outro, e na capacidade de ser incompleto estando ao lado.
Por Alfredo Guilherme

11 comentários:
Ótimo esse seu texto, meu amigo Alfredo, ele é existencial, Simone de Beauvoir falava que o amor só é autêntico quando não tenta possuir o outro, mas reconhece sua liberdade. O seu texto mostra exatamente isso, o casal se conhecem tão bem que conseguem ser “incompletos juntos.
O amor, nesse sentido, não é apagar fronteiras, mas aceitar que o outro é um ser livre, e que a intimidade nasce justamente desse respeito. Amei o texto cara !
Você nos lembra que amar não é possuir, mas dançar na borda da ausência. É aceitar que o desejo nunca se resolve, e que é justamente essa incompletude que mantém o encanto vivo.…
Belo texto parabéns
Alfredo Guilherme seu texto provoca uma sensação de estranhamento e fascínio ao mesmo tempo. 👏👏👏👏👏👏
Erotismo intelectual, Não é a minha pegada sexual, kkkk mas curti o texto que sugere que o desejo deles não se realiza no corpo, mas nas palavras, nos conceitos e no jogo mental.
A minha impressão pessoal ao ler esse texto, a sensação que fica é de estar diante de um jogo erótico e filosófico ao mesmo tempo. Não é uma cena comum entre os casais, é quase um ritual, uma coreografia de palavras e silêncios. Um show de texto.
O recado foi dado em texto, ele é muito significativo, conhecer o outro profundamente não significa se fundir a ele, mas saber conviver com sua diferença.
Há uma beleza melancólica: eles se desejam, mas escolhem não se possuir. Isso cria uma tensão que prende o leitor, como se estivéssemos diante de um espetáculo de contenção.👍👍👍
Adorei o texto
Esse texto ecoa a ideia sartriana de que o ser humano está sempre em busca, sempre em falta e é essa falta que o define.
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