Inicindo, mais essa crônica com aquele sorriso de quem sabe das coisas até certo ponto... A gente vive num país onde o Marechal Deodoro da Fonseca cheio de razão, pois tinha acabado de meter o pé na bunda da família real que só não levaram o morro do Pão de Açúcar no Rio, pra Portugal porque não tinha mais Pau Brasil pra fazer uma Super Caravela de Transporte...
Sabe o que ele fez... o tal Marechal... Tentou mandar no nosso coração por decreto? É sério! Em 1890, o homem deu uma canetada... achando que estava resolvendo a vida dos brasileiros... Instituiu o casamento civil, acho que ele queria separar a Igreja do Estado e disse... 'A partir de hoje, o amor só vale se tiver carimbo do juiz!'.
E hoje, não é fácil aguentar a minha vizinha carola que mora no 402, que não perde a chance quando me vê e fala com aquela voz de fofoqueira... Ô, vizinho... vocês já moram juntos há dez anos, dividem o edredom, o boleto do condomínio e até o remédio do colesterol... Quando é que sai esse casório? Deus tá vendo essa pouca vergonha, viu?'
Pois é. Pro Estado, eu sou 'União Estável'. É chique, né? Parece nome de firma de seguro. 'Senhor fulano & Cia / Estabilidade Garantida'. Pro juiz, se a gente divide a escova de dentes e o espaço da cama, tá resolvido. Tá no contrato.
Mas pra religião? Aí, vem a bagunça... Pra religião, eu sou um "Funicador", que mora com o 'inquilino o pecado'... Eu adoro essa expressão... "Viver em Pecado". Dá a entender que o pecado é um cara folgado de chinelo e regata, que mora no meu apê, não paga aluguel, torce contra o meu time, toma a minha cerveja e ainda dorme na minha cama !. Tipo como no filme, "Dona Flor" e seus dois maridos. Enquanto o Estado e a Igreja discutem na porta quem tem a chave da verdade. Resumindo, o pecado parece ser o único que está se divertindo na história toda!
A doutrina diz que o amor é tipo um vinho caro, safra especial. Só pode abrir se tiver a bênção. Se você abrir, numa noite em que o tesão falou mais alto, antes do café da manhã, com um pão na chapa... pronto! Tá confirmado, acabou a inocência você, provou o fruto proibido.
E na boa... quem não provou esse fruto antes, pode acabar provando um fruto bichado que teve marimbondo beliscando a fruta no pé.... O mundo mudou, a gente já viaja pra Marte, usa inteligência artificial pra tudo... mas a gente ainda treme! Quando a Igreja olha pra gente e diz... 'Fornicador!'. O Estado olha e diz... 'Parceiro!'. E eu olho pro extrato do banco e digo... 'Quem paga essa porra sou eu, caramba!'
O mais engraçado é o pessoal da 'melhor idade', que de melhor às vezes só tem o desconto na farmácia, passagem gratuita no busão. O casal tá junto há trinta anos. Já criou filho, já criou neto, já sobreviveu a cinco planos econômicos e três pandemias... mas aí resolve 'regularizar', entram na igreja com os joelhos trêmulos. Parece que estão indo confessar um crime! Querem o carimbo de Deus pra ver se o tal 'inquilino o pecado' finalmente se muda da casa.
E nessa confusão toda a gente fica nesse equilíbrio em cima do muro... de um lado papel que o Marechal firmou, do outro o líder religioso com o sermão.
E a gente, fica tentando entender se o amor precisa de firma reconhecida ou se basta a insistência de acordar do lado da mesma pessoa todo o santo dia... e ainda achar que valeu a pena.
Porque, vou dizer pra vocês.. O amor "sem firma reconhecida" tem um sabor de liberdade que nenhum cartório consegue autenticar.
Por Alfredo Guilherme

10 comentários:
O texto mostra como o amor sempre escapa das tentativas de controle, seja do Estado ou da Igreja.
Gostei da provocação: será que precisamos de firma reconhecida para validar sentimentos?
Crônica leve, divertida e cheia de verdade. KKKKKKK
Caro amigo Alfredo, eu diria que essa sua crônica tem aquele sabor de ironia bem brasileira: mistura história, cotidiano e humor com uma pitada de sarcasmo que deixa tudo mais leve.
A comparação do “pecado” como um inquilino folgado de chinelo e regata é uma imagem que fica na cabeça, quase dá vontade de rir alto.
O texto também provoca reflexão, afinal, o que vale mais, o papel assinado ou a constância de acordar ao lado da mesma pessoa todos os dias? Você consegue equilibrar crítica social com humor, sem perder a ternura. Adorei a crônica ....
Caro amigo... Que crônica afiada e divertida! Você conseguiu transformar um tema sério a relação entre Estado, Igreja e amor em uma narrativa leve, cheia de imagens criativas. O pecado de chinelo é impagável. E esse final sobre a liberdade do amor sem cartório é pura poesia.
A parte da vizinha carola é deliciosa, porque todo mundo já teve ou conhece alguém assim, que acha que a vida dos outros e pra ser cuidada.
Casamento civil devia vir com garantia estendida igual geladeira.kkkkkkk
A crônica revela bem o contraste entre tradição e liberdade, e como cada casal encontra seu próprio caminho. Muito bom texto.
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