quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Desejo vs - O Estereótipo da Idade...



      Sinopse... Aos 70 anos, o amor pode até ser poesia, mas a pele ainda exige prosa. Heloísa recusa-se a aceitar o papel de "vovozinha assexuada" que a sociedade tenta lhe impor. Entre o ceticismo de sua prima Marta e o charme de um novo encontro, ela descobre que o desejo não tem prazo de validade.

     ​A Narrativa...

​     Dizem que, com o tempo, a gente vai ficando invisível. Primeiro, as pernas e depois as nádegas deixam de ser o foco dos olhares, e na praia, o olhar dos marmanjos nos atravessa como se fôssemos feitas de vidro soprado. Mas há um segredo que os jovens não imaginam... o desejo não tem rugas.

​     Chegar aos 70 e sentir-se desejada não é teimosia, é um ato de resistência. É a validação de que o corpo, embora tenha mudado o ritmo, ainda é território de conquista. Quando o celular toca com uma mensagem de segundas intenções, algo dentro da gente dá uma risada gostosa. É a afirmação de que a vida não está passando, ela está acontecendo.

​     A sensualidade na maturidade é uma obra de arte. É olhar no espelho e, em vez de contar vincos, reconhecer a mulher que sobreviveu e ainda tem fome de prazer. Não somos "bonitas para a nossa idade". Somos mulheres, vibrantes, sacudindo a poeira dos estereótipos. Se a pele ainda arrepia com um beijo na nuca, a vida deu o veredito, você ainda está pronta.

​    A Cena na Varanda...

​    Eu sou a Heloisa. Eu e minha prima Marta somos inseparáveis desde que ficamos viúvas. Adoramos o café com bolinhos de chuva ao entardecer, mas somos opostas. Eu uso cores vibrantes, ela é conservadora e acha que já passou da fase de se entregar a uma nova oportunidade de amar.

​     Naquela tarde dourada, retoquei o batom e Marta me olhou com ironia.

     - Vai sair mesmo com o tal do Jorge?

     - Marta, se temos idade para remédio de pressão, por que não aceitar um encontro? Prefiro que minha pressão suba hoje só porque ele olhou para o meu decote!

     - Mas Heloisa... você não se sente exposta? Achei que a invisibilidade nos traria paz.

     - A invisibilidade não é paz, Marta. É exílio. Ontem, quando ele me convidou, senti que meu corpo ainda se comunica otimamente com o sexo oposto.

     - Eu nem lembro mais como é sentir desejo, suspirou Marta... - Sabe Heloisa eu fechei a porta e joguei a chave fora.

     Toquei o ombro dela... 

     - A porta nunca tranca por fora, querida. É por dentro. Diga ao espelho... "Eu ainda sou um incêndio, mesmo sob as cinzas".

     Marta sorriu... olhando para as próprias mãos, sem a aliança de casada, ensaiou outro sorriso e falou... - Um incêndio, é?

     - O maior de todos, pode acreditar... Agora me empresta o seu brinco de pérola? Quero que ele tenha algo bonito para focar em mim, enquanto eu conto sobre a minha viagem para a Grécia.

     - Grécia ?... Desde quando você viajou para a Grécia.

     - Desde que entrei no Google-Maps, e vi o quanto é lindo aquele lugar.

​     Heloisa personifica a afirmação da alegria de viver o melhor que a vida pode dar, enquanto a Marta traz as dúvidas que a sociedade planta na cabeça das mulheres.

     O Jantar e o Conflito...

     ​O restaurante era charmoso, luz baixa. Jorge,  cabelos grisalhos e um olhar que sorri antes dos lábios entenderem a graça do momento, levantou-se ao me ver.

     - Você está deslumbrante. O tempo parou na porta quando você entrou.

     - O tempo não para, Jorge. Ele só aprendeu a caminhar ao meu lado.

     Brindamos. Ele confessou que os filhos acham que ele só deveria morar e cuidar do sitio escutando os pássaros cantar na alvorada. Eu ri...

     - Ai é esperar a morte com resiliência... A minha prima acha que perdi o juízo. Mas e você? O que espera daqui em diante?

     - O frio na barriga... ele respondeu com ternura... - A prova de que o mundo ainda tem mistérios, E eu quero descobrir todos os seus. Como se sente sendo desejada, Heloisa?

     Fizemos uma pausa segura, com olhares de ousadia.

     - Eu me sinto viva, é a confirmação de que eu não sou apenas uma espectadora. Neste momento sou a protagonista.

     Ele estendeu a mão sobre a mesa, num gesto convidativo tocando a minha mão.

     - Esse toque veio carregado de eletricidade.

     Então, Heloisa... vamos pular etapas, e ir direto para o que realmente interessa, um momento que faça a gente esquecer de olhar o relógio?

​     E assim... A rua nos recebeu com o fresco da noite. O som do restaurante ficou para trás, substituído pelo ruído quase silencioso da cidade naquele horário. caminhamos devagar. Não por cansaço, mas para esticar o tempo.

     ​Nossas mãos se roçam, sem querer algumas vezes até que Jorge, com uma coragem juvenil, entrelaça seus dedos nos meus.

     Sentindo o calor dele na minha mão a sensação foi de prazer, liberando os hormônios da  recompensa. 

     - Engraçado Jorge como a gente desaprende a dar as mãos, não é? A gente acaba esquecendo como é bom ser apenas... um par, um casal.

​     Casualmente passamos em frente a um pequeno bar de jazz. A música vaza pela porta entreaberta, um saxofone baixo, rouco. Jorge faz um gesto de convite, uma reverência leve.

      - Diz a lenda... quem não aceita dançar na calçada, corre o risco de virar estátua. Me concede?

      Mesmo acanhada aceitei... - Jorge, as pessoas vão achar que bebemos vinho demais.

      - E bebemos. O vinho da audácia.

​      Dançamos na calçada ao som de um jazz vindo de um bar. Houve um beijo, com gosto de vinho e descobertas.

      Mas... ao chegar em casa, eu não estava flutuando... Entrei como um furacão, joguei a bolsa no sofá, chutei os sapatos pela sala, Marta, de pijama, estranhou.

     - O príncipe virou sapo?

     - O jantar foi divino, Marta! A conversa foi de tirar o fôlego!

     - Então por que essa cara? Ele te beijou?

     - Beijou! Um perfeito macho alfa !

     - E qual é o problema, criatura?

     - O problema é que o cidadão me deixou na porta com um "durma com os anjos"! Marta, olha o meu RG! Eu não tenho tempo para "conhecer a alma" antes de conhecer o que tem debaixo do lençol! Eu usei hidratante caro, lingerie de renda vermelha... e ele nem viu, e me tratou como uma porcelana chinesa!

​     Marta riu alto...

     - Ele teve respeito, Heloisa!

     - Respeito? E eu lá queria essa porra de respeito, eu queria era gozar intensamente! Acho que as doses de Tibolona e a Bremelanotida, ativaram tudo aqui dentro, os meus receptores estão até agora  ligados à excitação.

     - Que santa inocência a minha, jamais imaginava que as mulheres tinham os seus segredinhos, para liberar o libido. 

      - Eu estava pronta para o "vamos para um lugar reservado" e ganhei um beijinho na testa!

​     Peguei o celular, decidida...

     - Vou mandar uma mensagem agora... "Jorge, a porcelana está inteira, mas o conteúdo é inflamável. No próximo jantar, traga menos poesia e mais coragem."

      ​Minutos depois, o celular vibrou. O sorriso que brotou no meu rosto era predatório. Mostrei a tela para Marta.

     "Heloisa, passei o caminho me culpando por ser cauteloso. Achei que avançar o sinal seria desrespeito. Que erro o meu. Sábado, não quero poesia. Quero o incêndio. Passo aí às oito."

     ​Marta se jogou no sofá, rindo...

     - Ele vai te matar, ou você vai matar ele! Você literalmente é um perigo para os macho da melhor idade.

     - Que seja uma morte com o coração a mil, e não parando por tédio!

​     O Manifesto Final....

​     Sozinha no quarto, soltei o cabelo diante do espelho. Tirei o brinco de pérola, o símbolo da "senhora respeitável". Olhei minhas marcas. A sociedade nos quer vovozinhas que cheiram a sabonete de glicerina. Mas o desejo é o último fôlego da juventude que se recusa a morrer em mim. Meu corpo não é um museu fechado, é uma casa com as luzes acesas e a mesa posta.

     ​O outono pode estar lá fora, mas aqui dentro... ainda é pleno verão. E sábado? Sábado, o Jorge que se prepare.

     Sábado... O Incêndio...

​     O relógio da sala marcava 19h45. Marta estava sentada na poltrona, fingindo ler o seu livro de receitas, mas seus olhos não saíam da figura que caminhava de um lado para o outro pelo corredor.

​     Heloisa não estava para brincadeira. Usava um vestido preto justo, de um tecido que brilhava suavemente sob a luz, e um perfume que deixava um rastro de mistério no ar. Nada de pérolas hoje, apenas um par de brincos dourados que balançavam conforme ela caminhava.

​     - Meu Deus, Heloisa...  Marta baixou o livro... - Se o Jorge sobreviver essa noite, ele merece uma medalha. Ou um check-up cardiológico completo.

     - Marta, querida, se ele vier com a coragem que prometeu na mensagem, quem vai precisar de fôlego extra sou eu... Heloisa conferiu o batom vermelho no espelho.... - Hoje não tem papo de Google Maps e viagem falsa. Hoje eu quero ser o território real pra ele explorar.

​     Às oito em ponto, a campainha tocou. Não era um toque tímido. Era um toque firme.

     ​Jorge estava parado à porta. Não usava o terno do primeiro jantar. Estava com uma camisa de linho azul-escura, os primeiros botões abertos, e um olhar que não pedia licença. Ele não me disse "Você está deslumbrante". Ele apenas me segurou pela cintura, puxou para perto dele e sussurrou no meu ouvido... 

     - A porcelana ainda está inteira, Heloisa? Porque eu vim disposto a quebrar o protocolo.

     ​Eu senti um calafrio que não vinha do vento da noite. Era a eletricidade da "Bremelanotida" encontrando o destino certo.

     - Jorge... a porcelana foi guardada. O que sobrou é inflamável.

     Jorge dirigiu até um pequeno bistrô escondido, onde as mesas eram separadas por cortinas de veludo. O vinho foi servido, mas as taças mal foram tocadas. O diálogo não era banal, era sobre o agora.

​     - Sabe o que eu pensei a semana toda?...  Jorge perguntou, cobrindo a mão de Heloisa com a dele... - Que passamos a vida inteira sendo o que os outros esperam. O pai provedor, a mãe zelosa, o avô paciente. Mas quem sobra quando as luzes se apagam?

     - Sobra o desejo, Jorge. Aquele que a gente tentou domesticar mas que ainda ruge aqui dentro.

     - Então vamos viver o melhor de nós... Jorge levantou-se e estendeu a mão. ... - Eu reservei uma suíte no hotel antigo da praça. Aquele com lençóis de algodão egípcio e uma vista que a gente não vai se importar em olhar.

​     O Manifesto da Carne...

​     No quarto, a luz era suave, e quente. O silêncio da noite era preenchido apenas pelo som da respiração de ambos. Heloisa sentiu o peso dos seus setenta anos desaparecer. As marcas em sua pele não eram defeitos, eram o mapa de uma estrada longa que finalmente chegava ao destino prazeroso.

​     Jorge a tocou com a firmeza de quem conhece o valor do tempo. Não havia a pressa atrapalhada da juventude, mas havia uma profundidade que só a maturidade permite. Cada beijo era um reconhecimento, cada toque era uma afirmação.

​     - Você é linda, Heloisa... ele disse, com a voz rouca, enquanto seus dedos traçavam as curvas do corpo dela.

     - Eu hoje, eu sou sua.

     ​Naquela noite, a Tibolona e o Estrogênio foram apenas figurantes. O papel principal foi da coragem. Heloisa descobriu que o prazer aos setenta não é um consolo, é um banquete. Foi intenso, foi cru, foi humano foi selvagem. Ela não se sentiu uma vovozinha, sentiu-se a própria força da natureza.

​     O Amanhecer...

​     No domingo de manhã, Heloisa chegou em casa. Marta já estava na varanda, com o café pronto com pães com manteiga na chapa quentinhos. Ela olhou para a prima, que trazia o cabelo levemente desalinhado e um brilho nos olhos que nenhuma maquiagem consegue simular.

​     - E então?... Marta perguntou, com um sorriso cúmplice. - O incêndio foi grande?

     Heloisa sentou-se, tomando um gole de café, deu uma mordida lenta no pão e suspirou de satisfação.

     - Marta... o incêndio foi tão grande que eu acho que mudei o clima da cidade com nuvens escuras no céu.

     - E o Jorge? Sobreviveu?

     - Ele não só sobreviveu, como já marcou o próximo encontro no sábado...  Heloisa piscou para a prima. - E sabe de uma coisa? Descobri que tem coisas prazerosas para a gente descobrir entre quatro paredes. Mas a sociedade insiste em dizer que devem ser guardados em gavetas com cheiro de naftalina,

​     Marta olhou para dentro de si, pela primeira vez em anos, ajeitou o próprio cabelo e soltou o primeiro botão da blusa, deixando seus seios parcialmente a vista, foi neste instante que a pergunta surgiu, carregada de uma curiosidade renovada e urgente...

     - Heloisa... me passa o contato daquele seu médico? Que te indicou a usar aquele... injetável, que ativou seus receptores ligados à excitação. Acho que está na hora de eu conferir como anda a minha "porcelana".

     ​As duas riram alto, o som ecoando pela varanda, celebrando a descoberta de que a vida, afinal, não tem data de validade para quem decide arder de prazer no amor.

FIM...

     Por Alfredo Guilherme


13 comentários:

Anônimo disse...

Meu amigo que legal...Você não teve medo de citar a ciência a Tibolona, a Bremelanotida, os receptores de excitação. Isso traz um realismo moderno para o texto. Não é apenas um romance platônico de flores e pôr do sol; é sobre corpo, química e a coragem de usar a medicina a favor do prazer.

Anônimo disse...

Caro amigo Alfredo, que texto vigoroso ! Esse é o tipo de texto que tira o leitor da zona de conforto e sacode a poeira dos preconceitos. Parabéns!!!

Anônimo disse...

Publicar um conteúdo assim no blog é prestar um serviço de utilidade pública emocional, especialmente para uma geração que foi ensinada a se recolher ao chegar em certa idade. Gostei de cabo a rabo esse postagem.

Anônimo disse...

O momento em que a Marta desabotoa o primeiro botão da blusa e pede o contato do médico no final é o ápice da sua escrita é a transformação do personagem em tempo real. Me fez querer se identificar com uma ou querer ser a outra. Adorei !!!!

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto, Alfredo! A Heloísa certamente vai inspirar muitas "vovozinhas" a abandonarem agulhas de tricô pela lingerie de renda.

Anônimo disse...

Eita? Vc me acordou... A minha porcelana está a muito tempo guardada na cristaleira, depois de ler a sua postagem vou deixar ela pronta para ir ao fogo? Quero tb viver esse fogo da paixão!!!

Anônimo disse...

Pra mim foi uma explosão algo que nem todos se permitem passar, mas quem sabe depois de ler criem alma nova para se permitir ser feliz, Pra você meu escritor favorito minha palavra mais correta EXPETACULAR adorei 💝💝

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto afinal. Pra arder de prazer não tem hora nem validade é só viver.💝💝💝

Anônimo disse...

Você tocou na ferida de como a sociedade trata o envelhecimento feminino. Transformar o "olhar que atravessa" em um "território de conquista" é um ato de rebeldia que dá um fôlego incrível para quem lê.

Anônimo disse...

A frase "A invisibilidade não é paz. É exílio" é profunda. Me fez pensar em voltar a viver sem medo de ser feliz!!

Anônimo disse...

Amei....Amei..... Quero ser a Heloisa tem algum...Jorge por ai ???? Kkkk belíssimo texto parabéns autor....

Anônimo disse...

Que bom que a ciência esquenta as relações intimas de ambos os amantes de 60 ou mais, parabéns aos casais que tem a coragem de usar a medicina a favor do prazer vivemos em novos tempos e quem não aceita que tenha bons sonhos dos velhos tempos em que o sexo fazia parte da sua vida... kkkkkk

Anônimo disse...

A mensagem da Heloísa sobre a porcelana inflamável é o golpe de mestre. É o aviso de que a maturidade não quer apenas cuidados, quer intensidade.