sexta-feira, 24 de abril de 2026

Um conto contado... Desatando o Nó...




        Atmosfera do "sertão é  mística" tem uma força única, não é? É aquele lugar onde o sagrado e o humano se misturam no meio da poeira.
      Esse é um conto, sobre a fé, e o sertão e os nós que a gente aperta quando não consegue soltar do coração de alguém.

​      Dizem em causos contados... ou o que sobrou deles entre os bancos de madeira da praça da Vila dos Desatados, escondida nos confins do sertão baiano, ela só existe por causa de mágoas de amor.

     Já que a Vila dos Desatados foi batizada, agora imagine a cena, o final de tarde, o céu cor de goiabada e o vento trazendo o som das fitas de cetim batendo contra as grades da igreja.

​      Diferente de todas as igrejas do mundo, onde os fiéis vem renovar a fé, pedem chuva, saúde, melhoras financeiras, ou até mesmo um amor pra vida eterna, na pequena capela azul-anil da Vila, o povo só entra para tratar de uma doença específica do coração, quem está padecendo por amor... Aquele amor que não volta.          

     Lá reside a imagem de Nossa Senhora dos nós do Amor, a única santa no mundo destadora destes nós, que veste um manto celestial liso, segura entre as mãos uma fita de seda vermelha, cheia de laços cegos, apertados pelo suor de quem amou sozinho.

​      O Milagre do Desapego... A história começou com a beata Zulmira, uma mulher que passou quarenta anos esperando por um tropeiro que prometeu voltar, quando o umbuzeiro desse flor. O umbuzeiro floresceu, secou, caiu e virou lenha, mas Zulmira continuava com o coração amarrado num nó tão apertado que ela já nem conseguia mais respirar fundo.

​      Dizem que, numa noite de lua de sangue, ela fez um pedido inusitado a santa. Não pediu que o tropeiro voltasse. Zulmira, cansada da espera que róia os ossos, pediu algo mais difícil... "Minha Mãe, não traga ele de volta, não. Desate o nó que ele deu dentro de mim. Solte a ponta da minha vida que ficou presa na dele."

      ​No dia seguinte, Zulmira acordou e, pela primeira vez em quatro décadas, não olhou para a estrada. Tomou um café forte, sentiu o gosto da rapadura e percebeu que o nó no peito tinha virado fita solta ao vento.

       Outro causo contado é o da "Fita Púrpura de Tião da Terra"... Fora da pequena capela, o mundo se veste de fitas de cores vibrantes. São milhares delas, amarradas nas grades de ferro forjado que circundam a capela de Nossa Senhora dos Nós de Amor. Com o tempo, as fitas mais antigas desbotavam sob o sol implacável do sertão, tornando-se brancas e quebradiças, como esqueletos de promessas esquecidas. Mas as novas… gritavam suas dores ao vento.

​      Tião da Terra, um homem cujo apelido vinha da cor de sua pele e da secura de sua alma, chegou numa tarde em que o céu parecia sangrar. O vento trazia o som das fitas batendo contra o metal, um sussurro constante, como se a própria igreja estivesse respirando as mágoas acumuladas. Ele segurava uma fita púrpura, a magoa era com a Niceia, a moça que partira para a capital vinte anos atrás e nunca mais dera notícias.

​     Ele caminhou em direção à Capela. As mãos dele, calejadas pelo trabalho na terra rachada, tremiam. Ele não queria rezar para que ela voltasse. A razão, embora tardia, já lhe dissera que Niceia não existia mais na sua vida. Ele viera para desatar.

​     Ele segurou a fita púrpura, sentindo o cetim macio, em contraste com a pele grossa de suas mãos. Ele fechou os olhos e, por um momento, a voz do vento pareceu organizar-se em palavras. Ele começou a dar o nó na grade.

​     O primeiro nó… é pela lembrança do sorriso dela dizendo te amo... sussurrou, a voz rouca. Ele apertou a fita. O nó ficou cego.
​     O segundo… é pela promessa que a gente fez na primeira noite de amor... continuou. Ele deu mais duas voltas na fita, apertando com tanta força que os nós ficaram brancos nas pontas.
​     O terceiro… é pela raiva de você ter ido sem dizer adeus... O nó foi dado com fúria, quase rasgando o cetim.

​     Ele parou. O vento continuava. O som das fitas era hipnótico. Ele olhou pela porta principal para a imagem da Santa no altar. Os olhos dela, feitos de madeira pintada e verniz, pareciam absorver toda a sua angústia. Tião sentiu o peso de duas décadas acumulado no peito, como uma pedra que carregava.

​     Ele deu um passo para trás, como o ritual exigia. Virou de costas, se olhasse para trás, o nó apertaria de novo.

      ​- Minha Senhora... começou a falar, e a voz já não era dele, mas de um homem exausto... -  Eu já dei os nós. O nó está na grade, mas a ponta está presa no meu coração. Me ajude a largar.

​      O silêncio na igreja foi total por um segundo, até que uma rajada de vento mais forte passou por ele e entrou pela porta aberta. As fitas coloridas no altar e nas grades subiram em um redemoinho frenético. A fita púrpura de Tião, recém-amarrada, estalou.

​      Foi quando Tião sentiu um tremor sutil. Ele teve a nítida sensação de que a mão da santa, que antes segurava a fita vermelha simbólica, agora estava estendida em direção à sua fita púrpura. 

     ​Ele caminhou devagar em direção a praça em frente à  capela, a poeira subindo a cada passo. Ele sentiu o sol poente, cor de goiabada, bater no rosto. Ele não olhou para trás. Ele não conferiu se a Santa realmente se mexera ou se fora apenas um truque da luz e do seu desejo de cura.

​      A fita púrpura ficara para trás, amarrada na grade, com nós cegos no metal, a pedra que ele carregara no seu caminho, por vinte anos tinha, finalmente, virado poeira. O vento que batia na Vila dos Desatados agora corria livre, sem encontrar mais nenhum nó que o impedisse de passar. Ele estava livre.

​      A Romaria dos Esquecidos continua até hoje... Já, Vila dos Desatados, vive de quem precisa esquecer. A rotina da cidade é ditada pelo ritmo dos desamados... O fiel chega à igreja com uma fita de cetim. Cada nó na fita representa uma lembrança o cheiro do perfume, o primeiro beijo no pé da serra, e de promessas feitas em nome do amor. 

        ​A Cura... A pessoa deve sair da igreja sem olhar para trás. Se olhar, o nó aperta de novo.

​     A cidade é silenciosa, pois quem sofre de amor não faz barulho. Os moradores são especialistas em remédios caseiros para o "aperto no peito", geralmente um chá de casca de angico com um pouco de mel e o conselho de que "ninguém morre de saudade, a gente só fica mais leve depois que desata".

​      O Mistério da Santa... O que ninguém conta aos turistas é que a imagem da Santa, parece mudar de expressão. Se o nó é de um amor que ainda tem jeito, as mãos dela parecem relaxadas. Mas, quando chega um coração teimoso, daqueles que insistem em sofrer por quem já casou e teve filhos em outra freguesia, dizem que a Santa franze a testa, como quem diz... "Tenha juízo, cristão, que eu sou Desatadora, não sou fazedora de milagre impossível!"

​      Na Vila dos Desatados, o milagre não é o encontro. É a liberdade de caminhar sozinho sob o sol do meio-dia, sentindo que o coração, finalmente, está livre para um amor verdadeiro...

    

       Por Alfredo Guilherme




10 comentários:

Anônimo disse...

Gostei meu grande amigo... O conto tem uma força estética rara. A linguagem é carregada de imagens sensoriais, o “céu cor de goiabada”, o “vento trazendo o som das fitas” que criam uma atmosfera quase cinematográfica.

Anônimo disse...

É literatura que se aproxima com beleza dos causos, mas com acabamento poético. show meu amigo Alfredo !!!!!

Anônimo disse...

Esse conto mexe com a gente porque fala de algo que todo mundo já sentiu, o nó no peito de um amor que não volta.

Anônimo disse...

Adorei a Vila dos Desatados. Por aqui, a gente tá precisando de um guia turístico pra visitar esse lugar, porque o pessoal tá querendo esse milagre e o melhor que não precisa pagar dizino para conseguir essa paz mental. kkkkkkk

Anônimo disse...

Grande sacada a ideia da Vila dos Desatados como espaço simbólico é brilhante, um lugar inventado, mas que parece real, porque traduz uma verdade universal sobre o peso das lembranças de amores mal resolvidos. belissimo conto com cheiro e sabor brasileiro.

Anônimo disse...

Belo conto! Eu ganhei como seu leitor, meu amigo. Seu texto abriu a porteira, pra gente se divertir com muito humor. "sincero" e "desesperado". Adorei.!!!!!

Anônimo disse...

Como leitora, o que mais chama atenção é a forma como o texto transforma a dor do amor perdido em um ritual coletivo, quase uma liturgia sertaneja. A “Vila dos Desatados” é uma invenção poética poderosa, um lugar onde o esquecimento não é fraqueza, mas milagre gostaria de ver uma continuidade neste conto.

Anônimo disse...

O ritual das fitas é tão simbólico que dá vontade de estar lá, amarrando a própria fita e deixando o vento levar.

Anônimo disse...

É um conto que consola, porque mostra que até no sertão mais seco existe um jeito de florescer por dentro.

Anônimo disse...

Texto cirúrgico, Alfredo!... Esse conto tem uma atmosfera muito envolvente, quase mágica, que mistura o sertão com o sagrado de uma forma única.