terça-feira, 9 de junho de 2026

Crônica : Meu ouvido virou pinico...

 


       Solta a batida e segura o coração! Senhoras e senhores, bem-vindos a tentativa de sobrevivência de um homem romântico. 

     Você acorda esperando calmaria o cheiro do café passado na hora, mas o destino que adora um deboche resolve trocar a calmaria com vizinhos aí o bagulho é louco, o som é de rachar. Quando a tarde e à noite se aproxima nos fins de semana.

     Meu ouvido vira pinico...De tanta merda que eu tenho que ouvir... Um toca funk, a outra música de louvor, e o outro sertanejo e arrocha tipo sofrencia, pra vizinhança toda participar e se irritar... aí a merda toda se completa... tudo sem a permissão do "Apolo' o principal deus da música na mitologia grega, enquanto as Musas, especialmente Euterpe, que são deusas inspiradoras da música e da poesia.

      E o pior não é as músicas, Pior é volume do som e das tais letras... Do tal do funk com palavras recheadas de tanta baixaria que eu fico até sem jeito de reproduzir. O cara liga o som num volume que a vizinhança inteira é obrigada a saber, com detalhes anatômicos e cirúrgicos, o que o MC pretende fazer com a moça na parte de trás do carro.

​      Olha não tá fácil. Eu sou de uma época em que, para conquistar alguém, você precisava de uma playlist com fita K7, com uma seleção de músicas com Ray Conniff e com uma luz baixa o Fábio Jr. sussurrando... "Você pintou como um sonho/  E eu fui atrás com tudo/  Se isso são coisas do amor/  Acredito que estou vivendo em outro mundo".

      Hoje? Hoje a paz acabou. O amor moderno não sussurra, ele vem com uma caixa de som JBL do tamanho de uma geladeira batendo no talo.

​     E aí você escuta... "Só as popozudas, as preparadas, huuu!"

​     Rapaz, quando eu ouço isso, a minha primeira reação não é dançar. É uma reação de preocupação genuína, quase paternal. Eu olho para o lado e penso..."Preparadas para quê, meu Deus?...  Pro Enem? ... Elas levaram casaco? O Tempo vai mudar, vai esfriar ? ... Será que levaram o celular para pegarem o uber para voltar pra casa? Ou vão mesmo tremer a bunda no terreiro do batidão ?

     A verdade é que o choque cultural é violento. No meu mundo, a música romântica te ensina a sofrer sentado, olhando a chuva cair na janela, pensando na amada. No funk, não tem tempo para chorar. O cara levou um fora na terça-feira, na quarta ele já tá no pancadão, mandando... "Chorou porque, taca, taca... na xereca, você vai encontrar o amor que te completa". É uma eficiência emocional que a minha geração nunca teve! 

     Nós demorávamos seis meses de terapia para superar um desafeto amoroso, um olhar torto, o jovem de hoje supera o término de uma relação no tempo de um hiat de bateria.

​     Então se você, assim como eu, tem o coração mole e o ouvido acostumado com uma boa música, aqui vão algumas regras de ouro para sobreviver à era do "pancadão de som"... Use a Técnica da "Tradução Simultânea". Você não precisa aceitar a letra literalmente.Traduza o funk para o dialeto do romantismo.

     Quando o MC grita... "Vem quicando, vem sentando!"... Você fecha os olhos e finge que ele está dizendo: "Aproxime-se com delicadeza e ocupe o assento estofado ao meu lado para partilharmos abraços e beijos apaixonados."  Fica muito mais palatável. O ritmo é agressivo, mas na sua mente, tem que parecer que está escutando "bossa nova" ao cair da tarde ensolarada, ao som de Vinícios de Morais.

​     No baile, todo mundo desce até o chão com uma elasticidade que me dá dor na lombar só de olhar. 

​     O segredo é a fusão. Se não pode vencê-los, confunda-os. Imagina que ser romântico é você chegar na patroa, olhar bem nos olhos, colocar aquela voz aveludada de locutor de rádio da madrugada e manda aveludadamente... "Meu amor... você é o meu chão. E como diz o poeta contemporâneo... hoje eu vou te dar um trato que você vai esquecer até o seu próprio nome. Com todo respeito e carinho."

​     Em resumo, o funk e a música romântica querem a mesma coisa, juntar as pessoas. A diferença é que a música romântica quer que você case, tenha dois filhos e mude para o interior ao se aposentar. O funk quer resolver tudo nas próximas duas horas.

    ​Eu fico com no o meio-termo, posso até ouvir o batidão, mas o meu coração ainda bate em ritmo desse refrão... ♫...Viver e não ter a vergonha de ser feliz ... Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

    O romântico só tem duas opções, mudar de bairro, ou comprar um fone de ouvido com isolamento acústico daqueles que parecem de operador de britadeira, ou aceitar que, pelos próximos meses, a trilha sonora será o amor moderno explicito sem filtro com muito, mais muito batidão.


      Por Alfredo Guilherme



4 comentários:

Anônimo disse...

kkkkk.... Alfredo, meu caro, amigo você tirou as palavras da minha boca! Aqui no bairro é a mesma coisa, parece que as paredes de casa tremem no ritmo da sofrencia e do pancadão. A minha vontade e de mudar para um bairro mas civilizado...

Anônimo disse...

Que texto espetacular, Alfredo! Você conseguiu traduzir com uma ironia fina, muita leveza o verdadeiro choque cultural e acústico de quem vive o romantismo na era dos decibéis exagerados.

Anônimo disse...

kkkk eu e a minha familia sofre todo final de semana com esse merda de som tirando a paz do meu lar....

Anônimo disse...

Pois é, meu amigo! O isolamento acústico virou item de primeira necessidade para a nossa sanidade mental. Se a gente tentar sofrer olhando a chuva hoje em dia, o som do vizinho faz a gota d'água parecer que está caindo pedras de gelo do tamanho de uma bola de futebol no telhado da gente kkkkk.