segunda-feira, 15 de junho de 2026

Crônica : Somos...Camaleões de Interesse...



      E como mudar de humor... Num piscar de olhos ?... Dizia o sábio Barão de Montesquieu que “Os homens mudam de sentimentos e de comportamento com a mesma rapidez com que mudam os seus interesses”. Lindo, profundo, filosófico. 

     Mas o Barão, coitado, escrevia no século XVIII. Se ele vivesse hoje, teria completado a frase... " E as mulheres fazem exatamente a mesma coisa, só que com uma paleta de cores muito mais complexa e justificativas bem mais elaboradas ”.

​    A verdade nua, crua e levemente hipócrita é que o ser humano é um camaleão de conveniências. Nossos sentimentos têm a solidez de um gelo no asfalto quente ao meio-dia, dependendo exclusivamente do que estamos querendo ganhar com a situação.

​     O Homem no "Modo Camaleão" é primoroso…  No universo masculino, a mudança de comportamento baseada no interesse é quase matemática. É uma chave que vira com o barulho de um clique de esperança.

​     Vejamos um exemplo clássico do Héber, um sujeito que odeia drama, detesta filas e sempre considerou coisa de jovem babaca, acampar para ver show.

    Mas quando pintou o interesse, Héber ao conhecer a Letícia. Parecia ser o amor de sua vida, pelo menos até o próximo mês, ela é fã fervorosa de uma banda islandesa que toca instrumentos feitos de gelo reciclável.

     A Metamorfose aconteceu em menos de 48 horas, Héber desenvolveu uma paixão súbita pela cultura nórdica, comprou uma bota de trilha e passou doze horas na fila do festival debaixo de chuva, sorrindo e dizendo que "A energia da lama reconecta o homem com a sua essência".

​     O sentimento dele pela chuva mudou? Não... Mas o interesse pode mudar. Dois meses depois, se a Letícia terminar com ele, a lama volta a ser uma nojeira pra cacete, e a banda islandesa vira uma bosta, um bando de cabeludos  cuzão fazendo barulho.

​     A mulher e a "Engenharia dos Sentimentos"... Se os homens mudam de interesse como quem troca de marcha no carro, as mulheres operam em um sistema de computação quântica. A mudança é igualmente rápida, mas vem envelopada em uma narrativa impecável.

​     Tomemos como exemplo... A jovem Camila, ela sempre defendeu o consumo consciente, a simplicidade e jurava de pé junto que detestava ostentação e que "Gente que gasta fortuna em restaurante chique, e compra bolsa de marca famosa, tem vazio na alma".

     Camila descobriu que a sua arquirrival do trabalho, a Marcela, foi pedida em casamento em Paris com direito a champanhe com folhas de ouro. E lua de mel no Caribe.

     Além disso, por outro lado ... A Camila acabou de ganhar um bônus gordo em espécie na empresa.

    ​A Metamorfose aconteceu... O vazio na alma virou experiência gastronômica conceitual. Na mesma semana, Camila foi vista jantando no restaurante mais caro da cidade, postando fotos com uma bolsa da Louis Vuitton, com a legenda... “Celebrando as pequenas conquistas porque a vida pede um toque de poesia e sofisticação”.

​     Os sentimentos de Camila sobre o capitalismo mudaram? Jamais vai mudar. Mas o interesse em não ficar por baixo da Marcela operou um milagre filosófico em seu coração.

​    Na dança das conveniências o interesse é o verdadeiro mestre dos magos das nossas emoções.

    Então um viva a Flexibilidade!... Não sejamos hipócritas. Mudar de sentimento conforme o interesse não é falta de caráter, é instinto de sobrevivência social. Se fôssemos rígidos e coerentes o tempo todo, morreríamos solteiros, desempregados e ainda dirigindo um carro velho que não paga mais IPVA, e sem amigos.

​     Portanto, quando você vir um homem que jurava odiar sertanejo chorando ao som de um modão, tudo porque a pretendente é fã deu-lhe um pé na bunda... Isso faz parte.

      Ou uma mulher que detestava rotina acordando às 5h da manhã para fazer crossfit, com roupa justa, quase transparente que dá pra ver a alma, com as novas amigas ricas, não julgue. Apenas observe a beleza da evolução humana... Porque também isso faz parte.

      Afinal, como já dizia o ditado que acabei de inventar... 

     "Quem não muda de opinião conforme o interesse, ou já ganhou na loteria ou desistiu de viver."


     Por Alfredo Guilherme 




11 comentários:

Anônimo disse...

Alfredo, me senti violentamente atacada por essa crônica! 😂 Brincadeiras à parte, texto cirúrgico. Eu mesma jurei que nunca pisaria numa academia de Crossfit, achava uma seita. Hoje estou aqui, postando foto do pós-treino às 6h da manhã e chamando dor muscular de 'sensação de dever cumprido'. Viva a hipocrisia saudável que nos mantém namorando! Parabéns pelo texto, excelente reflexão!

Anônimo disse...

A verdade é que a coerência rígida é um luxo para poucos ou um fardo para os chatos. O interesse move as engrenagens do mundo. O ditado que você inventou no final merece ir para a lápide da nossa geração! Grande abraço."

Anônimo disse...

Que crônica fantástica, Alfredo! O texto tem aquele humor ácido e cirúrgico que prende o leitor da primeira à última linha. A transição de Montesquieu para o "Heber na lama islandesa" e a "Camila esnobando marca famosa Louis Vuitton" ficou genial. O ritmo é ótimo e a leitura flui muito bem.

Anônimo disse...

Fantástica essa definição, quem não muda de opinião desistiu de viver.💝💘💝💘💝

Anônimo disse...

Sensacional, Alfredo. Se Montesquieu estivesse vivo hoje, ele não apenas completaria a frase, como fecharia o perfil no X (antigo Twitter) para não passar raiva.

Anônimo disse...

A malandragem da Camila me fez chorar de rir, porque conheço pelo menos três 'Camilas' no meu departamento! O 'vazio na alma' que vira 'toque de poesia' com um bônus no bolso é a definição perfeita do Instagram atual. Texto leve, irônico e incrivelmente real. Já vou compartilhar no grupo das amigas (as que não fazem crossfit, claro)!

Anônimo disse...

Alfredo, você andou me espionando? Kkkkk Há três anos eu dizia que praia era um inferno de areia, farofa e sol na cabeça. Aí conheci uma caiçara. Mês passado me peguei comprando uma prancha de surfe, usando colarzinho de miçanga e falando 'gratidão' pro pôr do sol. Ela me deu um pé na bunda, voltei a ser o paulistano rabugento que sou na mesma hora e vendi a prancha na OLX. Texto é real demais cara !"

Anônimo disse...

Rindo alto com o final do texto! Eu sou exatamente a pessoa que você descreveu rígida, coerente, cheia de princípios... e andando num Palio 2008 que já nem paga mais IPVA. 🥲 Vivendo a prova viva de que a coerência não enche barriga e nem dá status no Instagram. Acho que vou começar a fingir interesse em culinária para ver se mudo de vida! Kkkkkkkk

Anônimo disse...

Muito interessante , e lindamente escrita, espero que o escritor não esteja nesta fase, acho muito triste, na vida se tem algumas paqueras mas oh amor a oh amor pode ser muito duradouro quase eterno e quem não sabe amar pra sempre , infelizmente nunca soube amar , o que é uma pena ! 💙💝

Alguil disse...

Alfredo Guilherme: ...
Minha cara leitora o amor tem o poder de transformar o asfalto em areia fina! A 'gratidão' fazem parte do figurino de sobrevivência do camaleão moderno. Se o namoro durar, o próximo passo não é virar vegetariano. É aproveitar o sol enquanto o interesse durar! Um abraço.

Anônimo disse...

Com certeza, Alfredo! Esse tema é um prato cheio para o humor porque todo mundo conhece alguém (ou é esse alguém) que já deu uma leve "flexibilizada" nos próprios valores por pura conveniência.adorwi mais essa crônica amigo