A biblioteca é um lugar solitário, quando tudo o que reparavam em mim era na gramatura da minha capa. Desenharam-me em tons quentes, com letras douradas em alto-relevo que reluziam à distância, ostentando a promessa irrecusável de uma grande leitura. Quem passava olhava, admirava e apontava o dedo... "Essa obra deve ser incrível."
O problema de nascer como uma boa capa é que todos assumem que a história já está dada pelo título.
Quando encontrei alguém disposto a me tirar da estante, imaginei que finalmente seria lido. Mas o encontro logo virou exposição de galeria. Passei a ser o livro sobre a mesa de centro da sala, perfeito para ornamentar, bonito de mostrar às visitas, impecável para a foto do momento. Ela me elogiava com entusiasmo, fascinada pela embalagem, mas nunca avançava para o capítulo seguinte.
Ser apreciado apenas pela estampa é um exercício doloroso de solidão a dois. Eu esperava o gesto simples de me abrir em um capítulo, aquele onde guardo minhas inseguranças e os rascunhos que ninguém viu, mas ela preferia fechar o volume para admirar a ilustração. E se eu revelasse uma folha amarelada ou uma orelha dobrada pelo cansaço, o desapontamento era imediato... "Você não era assim quando te conheci."
Eu nunca quis ser um clássico intocável em encadernação de luxo. Só queria ser lido no escuro, debaixo do cobertor, à luz fraca do abajur. Queria que rabiscasse minhas margens a caneta, grifasse meus parágrafos mais confusos e aceitasse que o meu texto carrega rasuras, deslizes e capítulos incompletos.
Ninguém se apaixona de verdade pela capa, apaixona-se pela história.
O amor pela leitura interna, não exige perfeição gráfica, exige o tempo de folhear, a coragem de atravessar a densidade do texto e a delicadeza de permanecer até a última página, mesmo quando a narrativa se torna difícil.
Por Alfredo Guilherme








