quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crônica: Bets, sorte ou passaporte para o inferno...

 


​     O Peso da Aposta... ​De tudo o que a casa perdeu com o jogo, nada pesou tanto quanto o ombro curvado da Mãe. Nada destruiu tanto quanto a fenda aberta no peito da família.

     ​Mãe tem um radar antigo, daqueles que não precisam de aplicativo nem de notificação para prever o temporal. Ela percebeu antes de todo mundo, o balançar frenético da perna debaixo da mesa, o celular com a tela sempre virada para baixo, as olheiras fundas e roxeadas de quem passa madrugadas inteiras refém de um brilho frio de tela.

     ​No começo, tentou se enganar. Achou que era fase, cansaço do trabalho. Chegou a entregar as poucas economias que guardava para uma emergência quando o filho pediu socorro, com os olhos marejados e uma promessa apressada de que devolveria no mês seguinte. Mas o mês seguinte veio limpo de dinheiro e carregado de silêncio,  aquele olhar esquivo de quem já não consegue sustentar a própria palavra.

     ​O impacto na mãe não se mede pelos boletos que ela tentou cobrir com a aposentadoria minguada. Mede-se pelo pavor constante. É a dor dilacerante de ver o filho, o mesmo menino criado com tanto sacrifício, transformar-se em um estranho. Um refém da próxima rodada de jogo de futebol, do próximo escanteio, da ilusão crua de recuperar o que já evaporou.

​     A casa, outrora um porto, virou campo minado. Na cozinha, enquanto passava o café, ela encarava a porta do quarto trancada com o coração esmagado pela dúvida mais vil que uma mãe pode carregar, a de não saber como resgatar a própria carne do buraco em que se afundou sozinha.

     ​Quando o jantar esfriou no prato e o rapaz se levantou sem tocar na comida, a mãe não gritou. Apenas recolheu a louça em silêncio. Naquele momento, ficou claro, a pior perda das "bets" não fora o dinheiro tragado pelas plataformas, mas a paz roubada do seu teto.

​     O choro contido que se ouviu da pia foi o golpe de misericórdia.

​     Ao ver as mãos da mãe tremerem ao lavar o prato intacto, algo finalmente ruiu por dentro do rapaz. A ilusão do controle caiu por terra, entedeu que não estava apenas apostando dinheiro, estava queimando a sanidade e a dignidade de quem mais o amava.

​     A primeira vitória real não veio no aplicativo, mas no rasgar do orgulho. Admitir que a promessa do dinheiro fácil virara uma dependência brutal exige uma coragem que o vício tenta esmagar. Sentar à mesa no dia seguinte, encarar a mãe nos olhos e entregar a verdade por inteiro, sem meias palavras, sem desculpas, foi o primeira respiração  de ar puro em meses.

​     A cura não é milagre de estalar de dedos, é reconstrução tijolo por tijolo. Começou no ato drástico de deletar os perfis nas plataformas, bloquear acessos e entregar a gestão da própria vida financeira à família. Seguiu no passo firme de buscar ajuda especializada, o apoio do Jogadores Anônimos e a terapia, lugares onde a vergonha finalmente cedeu espaço ao tratamento.

     ​O silêncio chumbo da casa aos poucos deu lugar a conversas dolorosas, porém francas, sobre limites, finanças e verdade. A dívida acumulada ainda vai demorar a ser paga, boleto por boleto. Mas a maior de todas as perdas já começou a ser restaurada: a presença.

​     Naquela mesma noite, quando o celular vibrou dentro da gaveta trancada, o rapaz nem piscou. Permaneceu na sala, tomando um café recém-passado com a mãe, descobrindo que a única aposta que não empobrece a alma é a que se faz no próprio recomeço.



     Por Alfredo Guilherme 


3 comentários:

Anônimo disse...

Meu caro amigo apanhanhei cada palavra... O vício em apostas é uma epidemia silenciosa que está destruindo famílias inteiras. Você retratou a angústia da mãe e a virada do filho com uma sensibilidade absurda. Texto necessário demais!

Anônimo disse...

A única aposta que não empobrece a alma é a que se faz no próprio recomeço. Que frase gigante! Sua escrita toca na ferida, mas cura ao mesmo tempo. Acolhedor demais, Alfredo. Eu tive esse problema em familia com o meu filho que sirva de alerta ao pais o seu texto.

Anônimo disse...

Que direta no peito esse texto, Alfredo. Se não podemos ter cassinos porque essa desgraça de bet existe ? brasileiros gastam fortunas jogando nos cassinos em paises vizinho. Ou libera geral ou acaba com essa porra. Que está virando vicio nacional.