quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Crônica : Carro Elétrico... Ou um formo micro-onda com 4 rodas ...



      Era uma terça-feira comum até eu me ver parado no trânsito, segurando o volante do meu novíssimo carro elétrico. Não vou dizer a marca porque não vou ganhar porra nenhuma fazendo propaganda pra eles. O silêncio do motor era tanto que dava para ouvir meus próprios pensamentos, o que, cá entre nós, costuma ser um perigo.

​      Olhei para o painel digital reluzente, depois para os cabos de alta tensão que eu sabia estarem passando em algum lugar debaixo do meu assento. Foi aí que me veio à mente a pérola destrutiva que li na internet naquela mesma manhã... "Dirigir um carro elétrico é o mesmo que ficar sentado dentro de um forno micro-ondas ligado."

      ​Olhei para os meus braços. Olhei no espelho retrovisor para ver como estava o meu rosto.

​      Pensei e repensei... Será que se eu ficasse preso nesse engarrafamento por mais duas horas, eu sairia do carro pronto, descongelado e no ponto correto de servir, acompanhado de uma porção de batatas?...  Comecei a me apavorar discretamente. Travei o fiofó...  nem um peidinho sairia naquele instante. Se a teoria da internet estivesse certa, a qualquer momento o painel daria três apitos agudos, a porta destravaria sozinha e uma luz amarela se acenderia sobre a minha cabeça, indicando que o meu lado esquerdo já estava bem passado.

​      Aqueci as mãos no volante, por puro nervosismo, claro, e não por radiação, e comecei a checar os sintomas. Sentia um calor no peito. Seria a tal frequência magnética agitando as moléculas de água do meu corpo a 2,45 Gigahertz? Não, era só o café coado que tomei pressionando a porta dos fundos para a saída do número 2.

​      Passei a mão no cabelo para ver se não estava estalando como pipoca. Tudo no lugar. Testei o rádio. Em vez de emitir o chiado assustador de uma tempestade solar, começou a tocar uma música do The Bee Gees calma e relaxante. Nenhum sinal de que meu almoço interno estava sendo preparado pela bateria de lítio no assoalho.

      ​Eis a grande piada do pavor moderno, criamos veículos dignos de ficção científica, blindados com toneladas de aço, alumínio e engenharia de ponta, cujos campos magnéticos são tão inofensivos quanto os de uma geladeira de casa... mas basta um boato de algum "fdp" na "rede social" para a gente achar que está virando lasanha congelada sobre quatro rodas.

      ​O sinal finalmente abriu. Acelerei suavemente, sem barulho de motor, sem fumaça, sem poluir o meio ambiente e, para a decepção dos alarmistas de plantão da net, sem dourar a pele. A única coisa que realmente corre o risco de esquentar dentro de um carro moderno é a cabeça do motorista quando tenta entender as teorias da internet. 

​      Em resumo... Essa é só mais uma crônica que eu escrevi... Eu, brasileiro aposentado, só vou poder ter um carro moderno assim só se for na outra encarnação... Quando eu for um político abençoado por algum banqueiro safado... Deus me livre !!!!...



      Por Alfredo Guilherme 


Crônica : A Gratidão que se Oculta... Anjos do Cotidiano...

 

Vivemos em um mundo apressado, onde os olhos correm mais rápido que o coração. Passamos por pessoas todos os dias, vizinhos, colegas, desconhecidos, e raramente percebemos que, entre elas, caminham anjos sem asas. Não são seres celestiais, mas homens e mulheres comuns, que carregam em seus gestos a delicadeza de Deus.

No hospital, quando a dor nos dobra, há mãos que seguram as nossas com firmeza. Enfermeiros que vigiam noites intermináveis, médicos que se desgastam em silêncio, técnicos que ajustam máquinas que respiram por nós. E, ao receber a cura, levantamos os olhos ao céu em agradecimento a Deus, esquecendo que o divino se manifesta também naqueles que se doaram para que a vida continuasse.

Na rua, quando o carro falha, quando o pneu fura ou o motor se cala, surge alguém que interrompe sua pressa para oferecer ajuda. Geralmente é um motoqueiro que mesmo apressado e xingado, pela maioria dos motoristas no transito é ele quem para oferecendo ajuda. Não pedem nada em troca, apenas estendem a mão. E nós, aliviados, seguimos viagem sem perceber que acabamos de ser tocados pela bondade invisível aquela que não pede reconhecimento, mas que transforma o mundo em lugar menos árido.

A gratidão, muitas vezes, é tímida. Ela se volta apenas para o alto, esquecendo-se de que o céu também se revela na terra. Reconhecer a bondade invisível é aprender a agradecer não só a Deus, mas também aos mensageiros que ele nos envia em forma de gente comum. É dizer “obrigado” ao motorista que esperou você atravessar a rua, ao colega que dividiu o pão, ao desconhecido que com um sorriso segurou a porta para você entrar.

A vida se torna mais leve quando percebemos que não caminhamos sozinhos. Há uma rede silenciosa de gestos que nos sustenta, uma corrente de pequenas ações que nos salva todos os dias. E talvez o maior milagre não seja o extraordinário, mas o ordinário, o sorriso oferecido sem motivo, a ajuda inesperada, o cuidado que chega sem ser chamado.

A gratidão verdadeira é aquela que enxerga o invisível. É aquela que reconhece que Deus se manifesta não apenas em grandes sinais, mas também na bondade discreta dos que passam por nós. E quando aprendemos a agradecer a esses anjos cotidianos, descobrimos que o mundo é mais generoso do que imaginávamos.


Por Alfredo Guilherme



sábado, 26 de setembro de 2026

Crônica : A Grande Teoria do Dedo Molhado...

 


       O mundo, como se sabe, está preocupado com coisas vastas. Sabemos que existem equipes inteiras de cientistas tentando mapear a inteligência artificial, filósofos a debater a natureza do tempo e economistas a tentar prever o juros no próximo trimestre. 

     A humanidade corre atrás de grandes respostas, de certezas absolutas, de fórmulas que expliquem o universo e resolvam a pressa dos dias.

​     Eu, por outro lado, encontrei a minha maior revelação existencial da semana às quatro da tarde de uma terça-feira, a molhar a ponta do dedo num copo d’água.

​     Foi um gesto involuntário. Estava na mesa da cozinha, compenetrado no aborrecimento de uma tarefa qualquer, quando o indicador resolveu fazer uma visita ao líquido. Bastou cruzar essa fronteira transparente para o tempo mudar de tom.

​     Enquanto lá fora, a vida continuava na sua exigência habitual, na mesma merda de sempre, boletos por pagar, o trânsito da cidade a rosnar ao longe. Mas lá dentro, sob a lente improvisada do vidro, o meu dedo parecia subitamente mais saboreado pelo tempo, ampliado, solene, suspenso numa gravidade zero que custou 0800... 

​     A luz curvava-se. A realidade distorcia-se com uma elegância que nenhum filtro de telemóvel consegue replicar. Fiquei ali uns bons dois minutos, o equivalente a três eras geológicas na linguagem da pressa moderna, a contemplar a profunda diferença entre ser um dedo seco no mundo real e ser um dedo submerso no país das maravilhas em um copo que nem de cristal era.

​     Se alguém tivesse entrado na cozinha naquele momento, teria visto um homem adulto, de olhar fixo e expressão contemplativa, com o dedo mergulhado na água como quem testa a temperatura do mar antes de partir para um mergulho... Diriam, com razão... " Tá chapado" ou "Perdeu o juízo". Mas a verdade é que nunca estive tão lúcido.

     Há algo de profundamente sutil no modo como a pele reconhece a água. Olhando para a cena, pensa-se no mistério das mãos e na sua dupla vida, desse mesmo dedo que aqui flutua, suspenso na refração do vidro, é o mesmo que, no recolhimento e na intimidade, navega por outros relevos e desperta o prazer da companheira amada. É a mesma ponta de pele que ativa, no silêncio do corpo, as pequenas tempestades hormonais da hipófise, essa fábrica secreta de afeto, ocitocina e desejo. No fundo, seja na intimidade a dois ou num copo de água à tarde, a magia é sempre a mesma, e a ciência impecável de um simples toque.

​     Enquanto a física quântica tenta explicar como duas partículas se comunicam à distância, eu descobri que a melhor maneira de desligar do ruído do planeta não exige retiros espirituais nem viagens ao Teto do mundo no Tibete. Basta um copo transparente, com quatro dedos de água e a coragem de ser ridículo por alguns instantes, ficando com dedo dentro dele.

​     Tirei o dedo... A água tremeu, ajustou-se e voltou a ficar serena. Sequei a ponta do indicador na calça e voltei à rotina. 

     O mundo continuava sem grandes respostas, lá fora, eu já tinha a minha, de vez em quando, para ajustar a perspetiva, só precisamos de ver a vida através de um dedo dentro de um copo d'água. 


         Por Alfredo Guilherme 



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Crônica : Arquiteto das letras…


​         O escritor chega sem alarde. Não importa a roupa, se ele veste a sobriedade de quem reconhece a gravidade do que está por vir. Ajusta a postura, mas é nas mãos que habita o verdadeiro peso da criação. 

     O notebook que carrega não é mero instrumento digital, é um pilar de metal refinado sustentando o universo de tudo o que ainda não foi dito. Ele o segura como quem abraça o próprio destino.

      ​Não há leveza no ato de incluir inspirações em mundos diferentes. Cada caractere impresso na tela iluminada exige um esforço físico e da alma. Quando ele se inclina sobre o teclado, a tensão atravessa seu corpo, pois sabe que uma única palavra mal posicionada pode desequilibrar todo o horizonte.

​      Seus pensamentos caminham sobre o abismo. Sob a pressão do toque nas teclas, o nada ganha forma e se transforma em esquinas repletas de histórias.

      Enquanto o mundo lá fora corre, o autor se detém na exatidão da frase. Ele não digita apenas para ser lido, digita para que o mundo tenha onde pisar.

      A escrita nasce do esforço bruto do texto e deságua na leveza da melodia. Do terno sóbrio e do metal do computador brota a poesia fluida que gênio nenhum faz por acaso.

      Toda essa gravidade um dia deságuou na voz e na genialidade de Toquinho. Quando a disciplina da escrita originalmente escrita em italiano por Guido Moura, se une à arte da música, o rigor do terno dá lugar ao lápis que desliza no papel, provando que recriar o mundo é o ápice da literatura...

    ​"Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo

    E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...

    Corro o lápis em torno da mão e dou-me um luva

    E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva 

    Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel 

    Num instante, imagino uma gaivota a voar no céu "

     Toquinho (Aquarela)

    ​     Quando a linha alcança o ponto final, ela já se estendeu até onde a vista alcança. O silêncio retorna, mas agora habita nele uma marca indelével. 

         O escritor deixa para trás o rastro de sua inspiração, uma cicatriz de luz que prova que alguém teve a força necessária para desenhar o caminho de uma grande leitura.


                        Por Alfredo Guilherme 


domingo, 20 de setembro de 2026

Crônica: Como Manter a Essência Intacta…


     Viver a dois é um exercício de arquitetura invisível, é preciso construir um abrigo para o afeto, sem sufocar o espaço onde a intimidade respira. Intercalar o amor e a vida íntima é como aprender a dançar uma música que muda de ritmo sem aviso, alternando entre o abraço que acolhe o mundo e o silêncio que preserva o mistério.

     O amor é a praça pública da relação. É o compromisso, a rotina compartilhada, o café servido, a conta paga, o plano para o futuro. É o terreno onde se planta a segurança e se colhe a parceria. Mas, para que esse amor não se torne apenas uma engrenagem funcional, é preciso proteger a vida íntima, aquele jardim secreto que cada um cultiva dentro de si e que, de vez em quando, se permite compartilhar com o outro.

     A intimidade não é apenas o toque ou a proximidade física, é a capacidade de manter a própria essência intacta, mesmo estando junto. É saber que, para amar bem o outro, é preciso primeiro estar bem consigo mesmo. Intercalar esses dois mundos exige a delicadeza de saber quando segurar a mão e quando soltá-la, para que cada um possa caminhar um pouco em direção aos seus próprios sonhos.

     É um equilíbrio poético, ser o porto seguro, mas também ser o horizonte que convida à exploração. É entender que a união não é a fusão de duas metades que se anulam, mas o encontro de dois inteiros que se somam. O amor é o laço que nos une, mas a vida íntima é o ar que circula entre nós, impedindo que o nó se torne um aperto.

     A crônica de uma vida a dois se escreve assim, entre o “nós” que constrói a casa e o “eu” que mantém a alma acesa. É na alternância entre o calor do encontro e o respeito pelo espaço do outro que o amor encontra sua forma mais duradoura e bonita.

      

    Por Alfredo Guilherme 




segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Crônica: A Asa Que Não Voa, Mas Canta...

 


​      Havia um muro esquecido no coração do Pelourinho, uma pele de pedra e cal descascada que parecia pedir socorro. Os turistas passavam, os vendedores gritavam, o sol castigava, e o muro continuava lá, como uma cicatriz silenciosa de outros tempos. Até que, numa manhã cinzenta, a magia aconteceu.

​     Não foi um milagre vindo dos céus, mas da criatividade e da alma de um artista cujo nome, agora repousava ali, imortalizado na própria obra. Ele não pintou um anjo como os dos altares das igrejas de ouro. Ele não usa túnica nem ostenta asas de gesso, e não vive suspenso nas abóbadas de ouro das catedrais, não tinha a pele alva nem as vestes fluidas e transparentes dos querubins barrocos.

​     O anjo era negro. E não tinha asas comuns.

​     No lugar delas, uma explosão caligráfica em forma de revoada abraçava o lado esquerdo de sua face. O muro parecia ter ganhado voz. Não uma voz que se ouve com os ouvidos, mas que se sente vibrar no peito. As letras não eram apenas texto, eram formas sagradas, símbolos de uma ancestralidade que o tempo não conseguiu apagar, trazia sua mensagem escrita em suas penas textuais... "O Meu Anjo Negro de Matrizes Africanas" 

      Para entender é preciso ir buscar na raiz dos primeiros povos a palavra que consiga desenhar essa luz sem peso, como foi gravada na pedra ancestral do Ge’ez: መልአክ (Mal’ak)... ( Anjo).

​     Era uma manhã de domingo quando parei para observá-lo. O sol já estava alto, e a praça lá embaixo pulsava. Uma baiana vendia acarajé, o cheiro de dendê misturava-se ao som distante de um berimbau se misturando ao batuque arrepiante do Olodum. O anjo, com seu olhar profundo, fitava o vazio, mas parecia ver tudo. Seus traços eram feitos de labirintos e círculos, um mapa de histórias orais compactadas em cada linha.

​     Fiquei imaginando os momentos vividos daquele muro. Ele vivenciou séculos de dor e resistência. Ouvira as correntes rilharem, o choro das mães, mas também o canto dos terreiros e o batuque do candomblé. O artista não apenas colorira a pedra, ele a libertara. Ele dera a ela uma voz que não se calaria já mais.

​     Enquanto eu observava, uma menina pequena, com os cabelos em tranças nagô, parou ao meu lado. Ela não olhou para o texto. Ela olhou para o rosto do anjo.

​     - Mãe, ele é igual a mim... disse ela, com a simplicidade que só as crianças possuem.

​      E ali estava a resposta. Aquele anjo não precisava de asas para voar. Ele já estava no céu. No céu que ele pintara dentro do coração de cada um que parava para lê-lo. Ele não era uma figura de contemplação passiva, ele era um manifesto. Ele dizia... "Eu sou. Eu estou aqui. Eu te permaneço."

​     Senti dentro de mim, que o muro não estava mais calado. "O Anjo Negro" cantava em silêncio, e eu cantei junto com ele... 

      "O Canto das três raças", que na voz da Clara Nunes ecou pelo Brasil... 

     “Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil...” 

     É o retrato definitivo do canto de resistência e da força que vem do lamento transformado em beleza e arte.Traduzindo exatamente o que o 'Anjo Negro" traz de mistério e de sabedoria ancestral que ele transmite no olhar. 

     O Silêncio  Finalmente Canta Sua Sabedoria... O muro finalmente tinha voz. Não a voz que se ouve com os ouvidos, mas aquela que vibra no peito, que ressoa nas tranças nagô de uma menina, que ecoa nas ruas do Pelourinho misturada ao aroma de dendê e ao batuque do Olodum. 
      O anjo negro cantava em silêncio, e eu cantei junto com ele, reconhecendo que a sabedoria ancestral não pede licença, não espera aprovação, simplesmente persiste, se recusa a morrer, se transforma em arte quando encontra as mãos certas.  
     O Pelourinho é espaço onde segredos finalmente voam

     Por Alfredo Guilherme





domingo, 13 de setembro de 2026

Crônica: Qual o tamanho ideal de uma união…



      A busca pelo tamanho ideal de uma união é, talvez, o exercício de geometria mais complexo que um ser humano pode tentar resolver. Passamos a vida medindo espaços, o espaço entre o “eu” e o “outro”, a distância entre o que se espera e o que se entrega, e a largura da ponte que precisamos construir para que o afeto atravesse o abismo das nossas individualidades.

     Dizem que o tamanho ideal é aquele que permite a proximidade sem o sufocamento. É uma medida elástica, que precisa se expandir nos dias de celebração e se contrair, como um abraço protetor, nos dias de tempestade. Se a união for pequena demais, vira uma jaula onde os sonhos se esbarram e as vontades se atropelam. Se for grande demais, torna-se um deserto onde o silêncio deixa de ser paz e passa a ser ausência.

     Sobre a durabilidade, a ideia de que o “ideal” é o “eterno” é uma armadilha romântica que herdamos dos contos de fadas. A longevidade é um desejo nobre, mas não pode ser o único critério de sucesso. Uma união duradoura é um troféu, sim, mas apenas se for mantida pela qualidade do que se vive, e não pela teimosia de se manter o que já se esgotou.

      O tamanho ideal de uma união não se mede em anos, mas em profundidade. É melhor um ciclo intenso, honesto e transformador que se encerra com gratidão, do que uma estrutura vasta e duradoura que se sustenta apenas pela inércia do hábito.

     O tamanho perfeito é aquele que cabe o crescimento de ambos. É uma união que não tenta moldar o outro para que ele caiba no seu espaço, mas que se molda para que o outro possa florescer. 

    Se for para durar, que seja porque o espaço entre vocês continua sendo o lugar mais interessante do mundo para se estar, não porque não há mais para onde ir.

     Você acredita que a longevidade é o objetivo principal de um relacionamento ou a qualidade do tempo vivido é mais importante?

        Por Alfredo Guilherme 

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Crônica : O Polegar Frenético...

 


​        Outro dia, saí de casa, não para fazer caminhada no parque, é meu costume sempre que o sol se faz presente, tornando o dia mais convidativo para acordar mais cedo. Sai para andar pelo bairro. Em uma das esquinas do bairro, entrei na padaria para um café matinal, acompanhado pelo ritual sagrado do pão na chapa. O que aconteceu, no entanto, deu um nó em minha garganta, e na cabeça comecei a tomar um café atráz do outro.

​     Uma conhecida de longa data entrou na padaria, cumprimentou-me e pediu licença para sentar à minha mesa. Mas, ali, sentada à minha frente, ela não estava presente. Trocamos palavras por alguns segundos e foi só... ela logo migrou para um "lugar-nenhum", perdida nas profundezas do seu smartphone.

​     O polegar subia e descia numa cadência quase mecânica, frenética. O olhar, vidrado, ignorava o sol que invadia nosso espaço na mesa, o movimento da rua e até o café, que esfriava esquecido na xícara. Ali, entre memes de gosto duvidoso, discussões acaloradas em grupos de WhatsApp e vídeos curtos, que se apagam da memória no instante em que terminam, ela se exilava... E eu já estava me sentindo transparente, perdendo densidade enquanto ela rolava a tela infinitamente.

​     Quando, enfim, baixou o aparelho por dois míseros segundos para um gole de café, arrisquei um comentário sobre a leitura, de como é prazeroso mergulhar num bom livro e de deixar o tempo se dilatar entre as páginas. 

     Ela me olhou como se eu falasse igual a sua professora do primeiro grau. Com uma sinceridade cortante, toda  orgulhosa, disparou...

​     - Ah, não... Nem me fale. Ler um livro? Não tenho a menor paciência. É muita coisa, é muito lento.

​      Fiquei em silêncio. A ironia, essa entidade sagrada, pairou sobre a nossa mesa.

​      Pensei em dizer muita coisa. Mas só fiquei pensando como alguém que devora centenas de mensagens irrelevantes por dia, que consome milhares de caracteres em frases fragmentadas e emojis sem alma, não encontra fôlego para percorrer um único parágrafo.

​     Mas me calei... 'Paciente' diante da falta de paciência dela que é o espelho do nosso tempo, estamos todos viciados no imediatismo, nessa dose curta de dopamina que o próximo scroll (rolar), na tela nos promete. É impressionante como as pessoas confundem 'estar conectado' com 'viver'. O celular virou uma chupeta emocional para adultos. 

​     Estamos perdendo a capacidade de sustentar o olhar, na leitura de um livro que exige um pacto, uma entrega que o celular não pede,  talvez seja por isso que o aparelho vença essa batalha. O livro nos obriga a parar, a sentir o peso do papel, a construir imagens na mente, a dialogar com o silêncio. 

     O celular, pelo contrário, nos bombardeia com o ruído, com a urgência do supérfluo, com a obrigação de estar o tempo todo "ligado".

​     É curioso, quase trágico. Ela se diz sem paciência para um livro, mas dedica horas do seu bem mais precioso o tempo... a um entretenimento infinito que não deixa rastro, não ensina nada, não acalma o peito. A paciência, que ela alega faltar para a literatura, é gasta em doses homeopáticas na ansiedade de esperar a próxima notificação.

​     Despedimo-nos e saí dali para continuar caminhando pelo bairro, pensando que, talvez, o segredo seja justamente a resistência. Enquanto o mundo se esmigalha em mensagens fugazes, ainda há beleza em se perder pelas paginas de um livro que não tem prazo de validade. 

     Mesmo que o polegar alheio a tudo isso, insista em nos convencer de que a velocidade ao teclar é o único caminho, eu prefiro o ritmo lento da alma que, só nas páginas, de um livro podemos encontrar... A essência da vida.

​     

          Por Alfredo Guilherme



terça-feira, 1 de setembro de 2026

Crônica: Você sabe o que é caviar ?....


         Você... sabe o que é caviar ? "Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar!"

      A canção de Luiz Grande, Barbeirinho e Marquinhos Diniz. Que ficou famosa na voz do Zeca Pagodinho resumindo com perfeição... A  relação do brasileiro com o 'Caviar'. 

       O caviar é aquele mistério gastronômico do mundo dos ricos, basicamente ovos de um peixe chamado esturjão que custam o preço de um carro popular usado, é claro, por um potinho. 

       A graça é que o rico come aquilo de colherinha prateada, com cara de quem acabou de gozar gostoso com a Madame, é agora comendo está tendo uma experiência transcendental, enquanto na prática parece só um monte de bolinha preta salgada que estoura na boca.

​      Agora, se o caviar é o topo da pirâmide dos milionários, qual é a versão da vida real? Qual é o "Caviar de nós desabastados ?,  Porque, quem é pobre é o cidadão, que é pobre de espírito"?

      Na lista do nosso caviar popular, o grande destaque é o "Sagu de Vinho"... As bolinhas são iguais, o visual é parecido, mas em vez de gosto de mar e ostentação, tem gosto de sobremesa de domingo na casa da Vó. É o caviar doce de uma infância feliz.

      ​E não para por ai.. Tem o Feijão Fradinho / Farofa de Aritana. Aqueles carocinhos pretos no meio da farofa que você come fingindo que está em um resort 5 estrelas, em Fortaleza na praia de Jericoacara.

      E na madrugada... ​"Miojo de Galinha Caipira". Esse é o caviar da madrugada. Não tem glamour, mas salva vidas às 2h da manhã chegando da balada e ainda dá para harmonizar com um belo suco em pó sabor laranja.

      Não podemos deixar de fora da lista o .... ​Ovo frito com gema mole... O rico paga R$ 120 num "Ovo poché com azeite de trufas". O pobre joga o ovo na frigideira quente, deixa a gema mole, joga em cima do arroz quente e vive uma experiência gastronômica infinitamente superior.

​      A grande verdade é que a diferença entre o caviar de rico e o pobre, é só o marketing. O do rico precisa de harmonização com champagne importado e garçom de gravata borboleta. O nosso só precisa de uma colher de pau na cozinha, arroz quentinho um zoião (ovo), feijão preto uma coquinha bem gelada ou um guaraná, para ser um banquete dos deuses. Com o pagode rolando de primeira no boteco.

​     E você, se ganhasse na loteria hoje, encararia um potinho de caviar de verdade ou preferia investir tudo numa gostosa feijoada... Qual o seu prato preferido?


          Por Alfredo Guilherme