Se o homem das cavernas tivesse um cérebro estritamente cartesiano, pelo uso da dúvida metódica, a humanidade teria acabado na primeira geada da última grande 'Idade do Gelo'.
Imagine a cena... Dois hominídeos cobertos de peles sentados à beira de uma fogueira crepitante. Lógica pura, zero hormônio. Ele olha para ela, ajustando o canino de sabre que usava no pescoço. E faz um rápido cálculo de custo-benefício e conclui...
"Prover calorias para essa fêmea durante nove meses de gestação, mais uma década de cuidados intensivos a um filhote indefeso, Sem contar que o choro do recém-nascido aumentará em 83% as chances de atrair predadores num raio de três quilômetros, reduzindo a minha eficiência de caça em 64.7%. Inviável... Descendência é amplamente descartada".
Ela, por sua vez, analisa a probabilidade de sobrevivência ao parto sem anestesia e sem assepsia, ela decreta...
"Mais riscos biológicos desproporcionais do que benefícios ? ..."Prefiro ficar no meu canto, segura, tranquila e com o básico de sempre do que me arriscar em algo tão doloroso ou perigoso."... Projeto canselado.
Pronto. Fim da história humana... Estaríamos todos extintos e você não estaria hoje abraçando marido, seus filhos e netos.
É aí que entra a maior e mais brilhante trapaça da Mãe Natureza... Ela intala no sistema uma lente de aumento afetiva... O Amor !!
Para salvar a espécie da própria frieza analítica, a evolução instalou no nosso sistema nervoso uma espécie de vírus que entra e não sai tão facilmente.
Quando duas pessoas se olham e sentem aquela descarga desmedida de ocitocina e vasopressina, o que está acontecendo não é um milagre metafísico, mas um golpe de estado neuroquímico. A razão é sumariamente deposta, o córtex pré-frontal, esse gerente burocrático do cérebro, é mandado para tomar um cafezinho lá na esquina, enquanto o sistema límbico assume o controle da sua vida.
Sob o efeito dessa "loucura" programada, o sujeito subitamente acha razoável atravessar a cidade de madrugada atrás de um sorvete de pistache só para satisfazer a vontade da sua esposa gravida, enfrentar engolir piadas sem graça do mamute do chefe é um salário de merda que o patrão oferece, apenas para garantir que a parceira e o filhote tenham o que comer.
A fidelidade, o apego dócil e essa mania absurda de achar o outro "a pessoa mais incrível do planeta" nada mais são do que cordas invisíveis tecidas pela biologia para manter dois adultos unidos pelo tempo estritamente necessário para garantir as próximas gerações.
Se encarássemos o próximo com lógica perfeita cem por cento do tempo, ninguém dividiria o último pedaço de pão, ninguém perderia noites de sono e ninguém perdoariam, amiguinhas e amiguinhos no virtual.
A sobrevivência exige um bocado de irracionalidade. Precisamos dessa lente de aumento afetiva que transforma defeitos triviais em "charme" e rotina pesada em "parceria".
O romantismo adora vender o amor como algo divino, misterioso, que vem e nós toma por completo sem pedir licença. Mas a verdade é muito mais pragmática e, de certo modo, tocante, amamos porque fomos programados para durar. A paixão é a tecnologia mais antiga do mundo para garantir que a vida continue acontecendo.
Por isso, na próxima vez em que você se pegar suspirando por alguém totalmente apaixonado e cometendo pequenas e gloriosas doidices, não se envergonhe... É só o seu código genético da Idade do Gelo, dando uma piscadela para o Futuro e dizendo... "Relaxa, e agradeça, a gente sobreviveu por causa dessa doce irracionalidade."
Por Alfredo Guilherme
