sábado, 24 de outubro de 2026

Crônica : A Síntese em Alguns Traços...

 


​      Há na arte, assim como na vida, um momento em que descobrimos que o excesso é o maior inimigo da essência. 

     Sentado diante de uma folha com traços de um perfil feminino,  acompanhado por um bom café ao som de um violão de Toquinho, podemos perceber que não são necessárias paletas complexas ou um realismo fotográfico para eternizar o que realmente importa. A maturidade nos ensina a arte da síntese.

​     Olho para a folha vendo a arte nela, já para o olhar  apressado de um estranho, pode parecer apenas um esboço rápido ou um estudo de formas geométricas minimalistas.

      Mas, para a mão do artista que desenha guiado pela lembrança da mulher amada, aquelas linhas contêm o universo inteiro.

​     O primeiro traço, suave e contínuo, sugere a curva do ombro e o declive das costas. O segundo e o terceiro se cruzam com os outros na dança silenciosa da cintura e do quadril, desenhando a silhueta exata que a memória conhece de cor. O último traço, um arremate sutil e alongado, finaliza o contorno da perna, trazendo movimento e fluidez ao desenho.

​     A beleza da mulher, quando desenhada pelas lentes do afeto, dispensa os detalhes minuciosos. A mente de quem ama é seletiva e ao mesmo tempo, poética, ela guarda o balanço do caminhar, a sombra da silhueta contra a luz da janela, o calor do toque. Ao riscar o papel com tamanha economia, o artista não busca fazer uma cópia da realidade. Ele busca traduzir a saudade, a admiração e o desejo em sua forma mais pura e despojada.

​     Dizem que a perfeição de uma obra de arte não é alcançada quando não há mais nada a acrescentar, mas sim quando não há mais nada a retirar. 

     E assim, na simplicidade absoluta desse contorno, o artista prova que alguns simples traços são mais do que suficientes para abrigar a imensidão do amor.


         Por Alfredo Guilherme 


8 comentários:

Anônimo disse...

Texto belíssimo e inspirador! Há uma sensibilidade muito refinada e tocante em toda a crônica.

Anônimo disse...

Belo texto Pena que é um conto.

Anônimo disse...

É impressionante como você constrói a cena de maneira tão sensorial. Quase dá para sentir o cheiro do café, ouvir o violão do Toquinho ao fundo e ver a mão deslizando com precisão e afeto sobre o papel em branco.

Anônimo disse...

Pra que gastar mais grafite desenhando se o que faz o coração bater forte cabe em alguns riscos certeiros? A poesia também é questão de praticidade.

Anônimo disse...

​O seu texto toca em um ponto em que a arte e a maturidade da vida se encontram de forma perfeita a arte de retirar o excesso.

Anônimo disse...

Muito bonito, Alfredo! Mas se a mulher amada olhar pro papel e não se reconhecer em quatro traços, como é que fica a diplomacia em casa?

Alguil disse...

Deixa de ser pão duro e paga um curso de desenho artístico pra sua esposa ela merece !!!!! Kkk

Anônimo disse...

Alguns traços bem dados resolvem a saudade e ainda sobra tempo pra tomar o café quente. Menos é mais... inclusive na quantidade de entulho que a gente junta na gaveta e na cabeça!