A ocitocina, apelidada carinhosamente pela ciência de "hormônio do amor" ou "hormônio do abraço", é o verdadeiro cimento bioquímico dos relacionamentos.
Se a dopamina é aquela montanha-russa do início do namoro, onde acontece o frio na barriga, insônia e obsessão, a ocitocina é a fase coberta e pipoca num domingo chuvoso. Ela entra em cena para transformar a paixão louca em um vínculo duradouro, agindo das seguintes formas...
Marcos e Mariana estavam casados há quatro anos. Isso significava que a dopamina inicial já tinha pegado as malas e ido embora, deixando o relacionamento sob a custódia exclusiva da ocitocina, de quem limpa a merdinha do cachorro no meio da sala, de boa, sem reclamar.
Era uma terça-feira, 21h30. Marcos estava deitado no sofá, com a televisão ligada e ele com a cara feia fixada no tabret, enguanto ela estava terminando de lavar a louça do jantar.
A causa da discórdia?... Mariana tinha esquecido de comprar o pote de doce de leite. Que ele adora lamber colheradas, mesmo sabendo que cada colher contém 59 de calorias, e ele não estava nem aí com a ingetão calórica.
Mariana, que leu um artigo científico na hora do almoço, empolgada, resolveu aplicar a neurociência no casamento.
- Amor... disse ela, se aproximando sorratoriamente na mansidão predatória.
- Qual foi ?... Não vem de "amor". Eu passei o dia pensando no doce de leite. Minha dopamina caiu para níveis subaquáticos... resmungou Marcos, sem tirar os olhos da tela azulada do tabret.
- Marcos, olhe para mim. Preciso disparar sua hipófise posterior.
- O que ? você está falndo...
Antes que ele pudesse continuar protestando, Mariana se jogou sobre ele no sofá, prendendo-o em um abraço urso.
- O que é isso? Me solta, tá calor!... protestou Marcos, tentando se esquivar.
- Etá meu gostoso, quer me deixar sem desejos inflamados para o que eu pretendo fazer com você mais tarde? na cama... Cale a boca e respire. A ciência diz que precisamos de vinte segundos de abraço contínuo para liberar ocitocina. Não estrague o protocolo!
- Um... dois... Conformado parcialmente Marcos começou a contar, num tom de pura birra.
- Caramba... Para de contar alto! Tem que ser sincero. Fecha os olhos e sente a conexão.
Nos primeiros cinco segundos, Marcos permaneceu rígido como uma tábua de passar roupa. No oitavo segundo, porém, o cheiro do xampu de amêndoas de Mariana atingiu seus receptores olfativos. No décimo segundo, ele percebeu que o ambiente estava fresquinho e o sofá estava quentinho de calor afetivo.
No décimo quinto segundo, a magia da biologia fez o seu trabalho, o cortisol, o hormônio do estresse do doce de leite foi esquecido, e começou a despencar. A amígdala cerebral de Marcos relaxou. E algo começou a despertar por entre suas pernas.
No vigésimo segundo, ele soltou um suspiro profundo após carinhos no cabelo, e o olhar no fundo dos olhos dela, envolveu os braços ao redor dela, enterrando o rosto no pescoço de Mariana.
- Viu só?... sussurrou Mariana, vitoriosa. A ocitocina acabou de inundar sua corrente sanguínea, no efeito abraço, você já não me odeia mais pela falta do doce de leite.
Marcos abriu um olho, ainda encostado nela...
- O seu golpe bioquímico foi baixo. Eu sinto uma vaga sensação de paz e um carinho irracional por você.
- É a neurobiologia do afeto, meu bem.
- Pois é... respondeu Marcos, bocejando, mas a ocitocina não compra o meu doce de leite, né amor. Amanhã você vai no mercado, e me traz dois potes. E me dá mais dez segundos desse envolvente momento aqui, acontece que o meu dia amanhã vai ser ... 'Foda"... tenho duas reuniões com clientes, e delas vai depender de como engordar o nosso orçamento familiar meu amor.
Por Alfredo Guilherme

14 comentários:
Aqui vão as minhas impressões de leitor de carteirinha. A sacada de comparar a dopamina do início é aquela loucura com a ocitocina do casamento de anos que aceita até a sujeira do cachorro é genial! Você conseguiu traduzir a ciência de um jeito leve e absurdamente relacionável.Um grade abraço meu amigo.
Texto leve, bem-humorado e com aquele quentinho no coração que só a sua escrita entrega. Continue nos brindando com essas pérolas! meu grande amigo Alfredo.
kkkkkkk adorei ...
Sensacional mais uma crônica de mestre, Alfredo! Quem é leitor do seu blog já sabe você tem um talento único para pegar esses detalhes do cotidiano de casal e transformar em pura poesia cômica.
O ápice da crônica pra mim é o Marcos admitindo que o golpe bioquímico funcionou, mas sem perder a oportunidade de negociar dois potes de doce de leite para o dia seguinte. Genial.
Kkkkk... A transição da neurobiologia para a vida real com direito a preocupação com orçamento chave de ouro e com aquele toque de humanidade que a gente adora ler por aqui.
Fantastico texto mistura humor ,neurobiologia e cotidiano de casal
No amor, as vezes um abraço resolve o que mil argumentos não conseguem, adoro suas sacadas e essas comparações inusitadas
Quem nunca ficou emburrado por causa de uma besteira no fim do dia? A cena do Marcos rígido como uma tábua de passar no começo do abraço é maravilhosa.
Viajei no texto rindo até agora kkkk
Real esse texto bem assim uma bobagem, quebra o clima kkkk adorei.💝💝💝💝
Deixo uma sugestão provocativa: o personagem masculino agora é quem traz o abraço "ocitosinoso" e a mocinha é quem fica dura como uma tábua de passar roupa. Como seria essa cena cômica?
Será que daria liga essa troca, com certeza os sentimentos seriam os mesmos.
Muito legal curti sorri e adorei este texto.
A ocitocina não compra meu doce de leite, né amor?" Kkkk Essa frase já entrou para o hall das melhores do blog! kkkk
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