sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Crônica: Guerra Química na VIda Conjugal.....

 


       A ocitocina, apelidada carinhosamente pela ciência de "hormônio do amor" ou "hormônio do abraço", é o verdadeiro cimento bioquímico dos relacionamentos.

​     Se a dopamina é aquela montanha-russa do início do namoro, onde acontece o frio na barriga, insônia e obsessão, a ocitocina é a fase coberta e pipoca num domingo chuvoso. Ela entra em cena para transformar a paixão louca em um vínculo duradouro, agindo das seguintes formas...

     Marcos e Mariana estavam casados há quatro anos. Isso significava que a dopamina inicial já tinha pegado as malas e ido embora, deixando o relacionamento sob a custódia exclusiva da ocitocina, de quem limpa a merdinha do cachorro no meio da sala, de boa, sem reclamar.

​     Era uma terça-feira, 21h30. Marcos estava deitado no sofá, com a televisão ligada e ele com a cara feia fixada no tabret, enguanto ela estava terminando de lavar a louça do jantar.

      A causa da discórdia?... Mariana tinha esquecido de comprar o pote de doce de leite. Que ele adora lamber colheradas, mesmo sabendo que cada colher contém 59 de calorias, e ele não estava nem aí com a ingetão calórica.

      Mariana, que leu um artigo científico na hora do almoço, empolgada, resolveu aplicar a neurociência no casamento.

​     - Amor... disse ela, se aproximando sorratoriamente na mansidão predatória.

    - Qual foi ?...  Não vem de "amor". Eu passei o dia pensando no doce de leite. Minha dopamina caiu para níveis subaquáticos...  resmungou Marcos, sem tirar os olhos da tela azulada do tabret.

​     - Marcos, olhe para mim. Preciso disparar sua hipófise posterior.

      - O que ? você está falndo...  

​     Antes que ele pudesse continuar protestando, Mariana se jogou sobre ele no sofá, prendendo-o em um abraço urso.

​     - O que é isso? Me solta, tá calor!...  protestou Marcos, tentando se esquivar.

​    - Etá meu gostoso, quer me deixar sem desejos inflamados para o que eu pretendo fazer com você mais tarde? na cama... Cale a boca e respire. A ciência diz que precisamos de vinte segundos de abraço contínuo para liberar ocitocina. Não estrague o protocolo!

​    - Um... dois... Conformado parcialmente Marcos começou a contar, num tom de pura birra.

​    - Caramba... Para de contar alto! Tem que ser sincero. Fecha os olhos e sente a conexão.

​     Nos primeiros cinco segundos, Marcos permaneceu rígido como uma tábua de passar roupa. No oitavo segundo, porém, o cheiro do xampu de amêndoas de Mariana atingiu seus receptores olfativos. No décimo segundo, ele percebeu que o ambiente estava fresquinho e o sofá estava quentinho de calor afetivo.

     No décimo quinto segundo, a magia da biologia fez o seu trabalho, o cortisol, o hormônio do estresse do doce de leite foi esquecido, e começou a despencar. A amígdala cerebral de Marcos relaxou. E algo começou a despertar por entre suas pernas.

​    No vigésimo segundo, ele soltou um suspiro profundo após carinhos no cabelo, e o olhar no fundo dos olhos dela, envolveu os braços ao redor dela, enterrando o rosto no pescoço de Mariana.

    - Viu só?... sussurrou Mariana, vitoriosa. A ocitocina acabou de inundar sua corrente sanguínea, no efeito abraço, você já não me odeia mais pela falta do doce de leite.

    Marcos abriu um olho, ainda encostado nela...

​    - O seu golpe bioquímico foi baixo. Eu sinto uma vaga sensação de paz e um carinho irracional por você.

​    - É a neurobiologia do afeto, meu bem.

​    - Pois é... respondeu Marcos, bocejando, mas a ocitocina não compra o meu doce de leite, né amor. Amanhã você vai no mercado, e me traz dois potes. E me dá mais dez segundos desse envolvente momento aqui, acontece que o meu dia amanhã vai ser ... 'Foda"... tenho duas reuniões com clientes, e delas vai depender de como engordar o nosso orçamento familiar meu amor.


     Por Alfredo Guilherme 


6 comentários:

Anônimo disse...

Aqui vão as minhas impressões de leitor de carteirinha. A sacada de comparar a dopamina do início é aquela loucura com a ocitocina do casamento de anos que aceita até a sujeira do cachorro é genial! Você conseguiu traduzir a ciência de um jeito leve e absurdamente relacionável.Um grade abraço meu amigo.

Anônimo disse...

Texto leve, bem-humorado e com aquele quentinho no coração que só a sua escrita entrega. Continue nos brindando com essas pérolas! meu grande amigo Alfredo.

Anônimo disse...

kkkkkkk adorei ...

Anônimo disse...

Sensacional mais uma crônica de mestre, Alfredo! Quem é leitor do seu blog já sabe você tem um talento único para pegar esses detalhes do cotidiano de casal e transformar em pura poesia cômica.

Anônimo disse...

O ápice da crônica pra mim é o Marcos admitindo que o golpe bioquímico funcionou, mas sem perder a oportunidade de negociar dois potes de doce de leite para o dia seguinte. Genial.

Anônimo disse...

Kkkkk... A transição da neurobiologia para a vida real com direito a preocupação com orçamento chave de ouro e com aquele toque de humanidade que a gente adora ler por aqui.