terça-feira, 25 de agosto de 2026

Crônica : Esse sou eu...

 



​       A biblioteca é um lugar solitário, quando tudo o que reparavam em mim era na gramatura da minha capa. Desenharam-me em tons quentes, com letras douradas em alto-relevo que reluziam à distância, ostentando a promessa irrecusável de uma grande leitura. Quem passava olhava, admirava e apontava o dedo... "Essa obra deve ser incrível."

​     O problema de nascer como uma boa capa é que todos assumem que a história já está dada pelo título.

​     Quando encontrei alguém disposto a me tirar da estante, imaginei que finalmente seria lido. Mas o encontro logo virou exposição de galeria. Passei a ser o livro sobre a mesa de centro da sala, perfeito para ornamentar, bonito de mostrar às visitas, impecável para a foto do momento. Ela me elogiava com entusiasmo, fascinada pela embalagem, mas nunca avançava para a capítulo seguinte.

​     Ser apreciado apenas pela estampa é um exercício doloroso de solidão a dois. Eu esperava o gesto simples de me abrir em um capítulo, aquele onde guardo minhas inseguranças e os rascunhos que ninguém viu, mas ela preferia fechar o volume para admirar a ilustração. E se eu revelasse uma folha amarelada ou uma orelha dobrada pelo cansaço, o desapontamento era imediato... "Você não era assim quando te conheci."

​     Eu nunca quis ser um clássico intocável em encadernação de luxo. Só queria ser lido no escuro, debaixo do cobertor, à luz fraca do abajur. Queria que rabiscasse minhas margens a caneta, grifasse meus parágrafos mais confusos e aceitasse que o meu texto carrega rasuras, deslizes e capítulos incompletos.

​     Ninguém se apaixona de verdade pela capa,  apaixona-se pela história. 

     O amor pela leitura interna, não exige perfeição gráfica, exige o tempo de folhear, a coragem de atravessar a densidade do texto e a delicadeza de permanecer até a última página, mesmo quando a narrativa se torna difícil.

    Por Alfredo Guilherme 


6 comentários:

Anônimo disse...

Aquela frase sobre a "orelha dobrada pelo cansaço" me arrepiou. É exatamente a canseira que a gente esconde para parecer perfeito. Que sensibilidade!

Anônimo disse...

Querer ser lido debaixo do cobertor, no escuro, foi o ponto alto do texto. A verdadeira intimidade retratada em poucas palavras. Perfeito meu amigo Alfredo !.

Anônimo disse...

A analogia da gramatura da capa matou a pau. A gente vale muito mais do que a embalagem que vende. Aula de crônica!

Anônimo disse...

Texto brilhante, meu caro amigo Alfredo. A literatura sempre nos salva porque espelha o invisível. Ficar na encadernação de luxo é uma prisão elegante. Preferível a página gasta e vivida. Parabéns pela sensibilidade de sempre!

Anônimo disse...

Belo paralelo entre o mercado editorial e os relacionamentos modernos. A pressa de julgar pelo título impede o aprofundamento na narrativa do outro. Excelente crônica, Alfredo!

Anônimo disse...

Me emocionei com a parte do abajur e do cobertor... O amor de verdade é esse do cotidiano, sem filtro, que aceita as nossas rasuras e parágrafos confusos. Obrigado por essa leitura maravilhosa!