Passados os setenta, a gente começa a olhar para o retrovisor com uma nitidez que a juventude não permite. Se você perguntar a um jovem de vinte anos o que ele busca para se sentir realizado, a resposta vem no automático, quase um combo de comercial de tevê, uma conta bancária robusta, mulheres monumentais, pra lá de gostosas, o casamento de capa de revista e, claro, a garantia vitalícia de uma virilidade inabalável.
É o pacote padrão do topo do mundo. Mas o tempo, esse mestre sutil e implacável, gosta de embaralhar essas cartas.
Olhe para o dinheiro. Ele é um excelente servo, mas um péssimo patrão. Compra o conforto, paga a conta do hospital, garante o vinho bom na mesa de sábado. Mas o dinheiro, isolado, tem um silêncio gelado. Ele não dá bom-dia, não abraça nas noites frias de São Paulo e não ri das suas piadas sem graça. E você terminar a vida como o homem mais rico do cemitério é, no fundo, uma ironia trágica.
Aí passamos para o desejo... mulheres, paixões, conquistas. Há uma beleza inegável no jogo da sedução, no perfume que fica no travesseiro, no frio na barriga. Mas se a busca for apenas colecionar silhuetas e momentos efêmeros, a alma acorda de ressaca. A carne farta cansa se não houver um olhar que enxergue além da superfície.
E a ereção até o fim da vida? O Santo Graal da masculinidade moderna. É o orgulho do galo no terreiro. Mas vamos ser honestos, despidos de hipocrisia, o que adianta o motor funcionar perfeitamente se você não tem para onde viajar? O que vale a potência física se ela não estiver a serviço do afeto, da cumplicidade, do toque que conforta tanto quanto incendeia?
A biologia é maravilhosa, mas o tesão pela vida, aquele que faz os olhos brilharem diante de algum plano ou de uma conversa inteligente, esse sim é "Imbrochável".
Sobrou o casar e constituir família. Para muitos, é o porto seguro. Ver os filhos crescerem, formados, seguirem seus caminhos, ver a casa cheia no domingo, o barulho dos netos. É uma das formas mais bonitas de imortalidade que nos é permitida. Mas a família não é um contrato de garantia de felicidade. Ela exige renúncia, paciência, e só realiza quem se entrega por inteiro, não quem entra nela apenas para cumprir tabela social.
Então, afinal, o que o homem deveria buscar para se sentir realizado?
Talvez a resposta não esteja em nenhuma dessas opções isoladas, mas no que resta quando tiramos o excesso de todas elas. A realização não é um troféu que se guarda na estante, seja ele um saldo bancário ou uma promessa de juventude eterna.
Realização é a paz de espírito de olhar no espelho, ver os cabelos grisalhos e perceber que você foi o autor da sua própria história. É a liberdade de não ser refém dos próprios desejos, a sabedoria de amar sem posse, e a capacidade de tomar um café no fim da tarde sabendo que não se deve nada a ninguém.
Se pensarmos muito bem, a maior potência de um homem não está entre as pernas, nem na conta bancária... Está na sua capacidade de caminhar pela vida com leveza, sabendo que soube amar, soube rir de si mesmo e, acima de tudo, soube viver o presente sem a ansiedade de ter que provar nada para o mundo. Pois todo o resto é cenário cenográfico da própria vida.
Por Alfredo Guilherme

11 comentários:
Como mulher, é fascinante ver um homem desarmar esse "orgulho do galo no terreiro" com tanta sensibilidade e honestidade. Vou passar para uns amigos meus.
Sou fã da sua escrita urbana mais uma vez parabéns amigo Alfredo pela crônica que vc nos deu.
Realmente que adianta o motor funcionar perfeitamente se você não tem para onde viajar?" Que metáfora brilhante! Esse trecho me pegou em cheio.
Alfredo, tenho 28 anos e confesso que seu texto me deu um puxão de orelha necessário. A gente vive numa ansiedade boba de postar a foto perfeita, de bater a meta financeira, de provar algo para um tribunal invisível na internet.
O tesão pela vida e a paz de espírito são, de fato, os únicos bens que a traça não corrói. Obrigado por essa crônica que abraça a alma da gente lendo seu blog.
Ler que tudo isso é "cenário cenográfico" me fez respirar fundo. Quero chegar aos meus cabelos grisalhos com essa mesma leveza de quem soube ser o autor da própria história, e não um mero figurante das expectativas alheias. Virei fã do blog!
Que ótimo texto, Alfredo! Assino embaixo de cada linha.
Você tem a capacidade rara de fotografar a alma humana com palavras, Alfredo. Essa busca por colecionar momentos efêmeros realmente deixa a alma de ressaca.
Realmente amar sem posse é amar sempre. Parabéns perfeita essa crônica.💝💝💝
A verdadeira potência está no afeto, na conversa que rende, no olhar que enxerga além da superfície. Seus netos e filhos têm muita sorte de ter essa sabedoria por perto, Alfredo. Texto belíssimo!
Só depois que a prata toma conta do cabelo é que a gente entende o valor desse café no fim da tarde com a mente tranquila.Valeu 👍
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