quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Crônica : Um Momento de Expectativa…


      Há um instante suspenso entre o desejo de sentir o corpo amado realizando os seus desejos ser a presença, onde o próprio ar parece densificar-se, carregado de uma gravidade invisível. 

     No silêncio denso e quase tátil do quarto, onde a penumbra dilui todas as certezas do mundo exterior, a luz desenha apenas o contorno preciso do seu rosto. Ela não é apenas espera, ela se tornou a própria personificação do aguardo, um altar erguido à iminência.

​     Seus olhos mantêm-se fechados, recusando a distração das formas e das sombras materiais. Não buscam a luz da janela nem o contorno dos móveis do quarto, em vez disso, escutam a ressonância de uma presença que ainda não cruzou o limiar do visível, mas que já habita, com mansidão e peso, o ar ao seu redor. É o milagre da antecipação, é o ser amado que já existe no espaço antes mesmo de tocá-lo.

​     Cada linha de seu perfil suavemente cinzelada  por essa claridade tênue como se a própria alma estivesse na iminência de transbordar a pele, fala de uma entrega absoluta e serena. Não há vertigem, mas a quietude solene de quem compreende a fragilidade e a força do agora a consciência plena de que o próximo piscar de olhos, o próximo fôlego, tem o condão de reescrever o curso de toda uma vida. 

     O queixo, levemente erguido em direção ao invisível, e a boca entreaberta em um suspiro contido e morno compõem a geometria perfeita de um apelo, de uma prece sem palavras para que a vastidão do vazio seja finalmente habitada pelo calor do toque do sexo do prazer com o corpo amado.

​     Não existe pressa nessa atemporalidade. Apenas a intensidade pura de um anseio que deixou de ser pensamento para se fazer corpo, luz e sombra. 

     Ela aguarda a chegada do beijo não como um mero gesto afetivo ou um evento passageiro, mas como uma promessa antiga que finalmente se cumpre na geografia sagrada do encontro. 

     É a celebração do intervalo, o instante infinito em que o universo inteiro retém a respiração e se apaga para que, no suave colidir dos lábios amado, o mundo possa, finalmente, recomeçar.


       Por Alfredo Guilherme 



6 comentários:

Anônimo disse...

Que texto arrebatador! A leitura me obrigou a diminuir a marcha e respirar fundo. É impressionante como você consegue transformar alguns segundos de espera em um universo inteiro de sensações.

Anônimo disse...

Raro ler algo que trate o desejo e o erotismo com tanta nobreza e poesia. Valeu meu amigo Alfredo.

Anônimo disse...

Você consegue unir a entrega do corpo e a elevação da alma sem perder a intensidade. Texto belíssimo! Meu grande amigo.

Anônimo disse...

O grande triunfo do texto está na capacidade de transformar o aguardo em uma presença física. O vazio do quarto não é ausência, é matéria densa. Amei o texto...

Anônimo disse...

Mais uma crônica impecável hein amigo... O mundo possa, finalmente, recomeçar que forma sublime de fechar a crônica!

Anônimo disse...

Como mulher amei... Terminei a leitura com a sensação de ter testemunhado um instante sagrado. Parabéns por mais essa joia no blog!