O escritor chega sem alarde. Não importa a roupa, se ele veste a sobriedade de quem reconhece a gravidade do que está por vir. Ajusta a postura, mas é nas mãos que habita o verdadeiro peso da criação.
O notebook que carrega não é mero instrumento digital, é um pilar de metal refinado sustentando o universo de tudo o que ainda não foi dito. Ele o segura como quem abraça o próprio destino.
Não há leveza no ato de incluir inspirações em mundos diferentes. Cada caractere impresso na tela iluminada exige um esforço físico e da alma. Quando ele se inclina sobre o teclado, a tensão atravessa seu corpo, pois sabe que uma única palavra mal posicionada pode desequilibrar todo o horizonte.
Seus pensamentos caminham sobre o abismo. Sob a pressão do toque nas teclas, o nada ganha forma e se transforma em esquinas repletas de histórias.
Enquanto o mundo lá fora corre, o autor se detém na exatidão da frase. Ele não digita apenas para ser lido, digita para que o mundo tenha onde pisar.
A escrita nasce do esforço bruto do texto e deságua na leveza da melodia. Do terno sóbrio e do metal do computador brota a poesia fluida que gênio nenhum faz por acaso.
Toda essa gravidade um dia deságuou na voz e na genialidade de Toquinho. Quando a disciplina da escrita originalmente escrita em italiano por Guido Moura, se une à arte da música, o rigor do terno dá lugar ao lápis que desliza no papel, provando que recriar o mundo é o ápice da literatura...
"Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...
Corro o lápis em torno da mão e dou-me um luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante, imagino uma gaivota a voar no céu "
Toquinho (Aquarela)
Quando a linha alcança o ponto final, ela já se estendeu até onde a vista alcança. O silêncio retorna, mas agora habita nele uma marca indelével.
O escritor deixa para trás o rastro de sua inspiração, uma cicatriz de luz que prova que alguém teve a força necessária para desenhar o caminho de uma grande leitura.
Por Alfredo Guilherme




















