domingo, 20 de julho de 2025

Fome de você…

 


       Acordei faminto…
     Não por café, nem por pão quente.
     Com a luz entrando pela janela no seu travesseiro amassado, percebi que era desejo em jejum, carência de você, que apertou o meu peito antes mesmo do despertador.

     E foi essa memória quente, crua que me serviu saudade no café da manhã.

     Minha boca queria seus desabafos matinais, seus olhos ainda meio sonâmbulos, sua pele com cheiro de ontem, e aquele silêncio no abraço apertado de bom dia.

    Acordei com fome de você, amor. 
    Dos seus desejos mais íntimos.
    Queria novamente saborear teus segredos, lamber teus silêncios, morder tuas saudades, como quem implora… Se pertencer.

     Acordei… querendo devorar a lembrança do seu riso nu, dos nossos corpos sem pressa.
     Do rastro do teu perfume no lençol, do seu jeito distraído.
     Do nosso suor que a gente confundia com poesia.

     Senti falta até do seu incômodo…
     Da tua mania de mudar de lado, dos pés frios grudando nos meus, do seu suspiro profundo dormindo ao meu lado.

     Hoje, minha fome é memória, meu apetite é a sua ausência.
     Meu corpo não esquece os caminhos de sedução do seu corpo, na minha cama.

     E mesmo sozinho, me deitei de novo no espaço onde você se deita, tentando  saborear, em pensamentos, aquele último beijo que você me deu… Em uma despedida com retorno marcado.


     Por Alfredo Guilherme 




quinta-feira, 17 de julho de 2025

Crônica : Quando o Tempo Alonga o Prazer…

 


      Chega um tempo em que o coração não bate por impulso.  

     Ele já não se lança no primeiro olhar, nem se perde em promessas apressadas. Ele observa.      

     Escuta o silêncio antes do beijo. E só então... decide pular no peito.

      Na maturidade, o amor não é mais urgência é escolha refinada. Não se ama para ser salvo. Ama-se porque ainda se tem algo a oferecer. E, surpreendentemente, não é pouco.

    O corpo muda. Claro que muda. O desejo também muda de endereço. Sai do centro do peito e vai morar nos detalhes, no jeito como alguém te cobre sem que você peça, ou como espera você se sentar antes de começar a falar.

    A gente descobre, por fim, que o prazer não está mais nas noites sem hora, mas sim nas manhãs com propósito.
    Na mão que não esfria porque alguém segurou sua mão.
    No riso que vem sem força mas vem inteiro.

     Preencher o coração depois dos 70 não é tarefa para apressados.
     É arte para quem aprendeu a degustar o tempo, como quem saboreia um café forte, sem açúcar, mas com alma.

     E o prazer?
     Ah… O prazer permanece.
     Menos barulhento, mais certeiro.
     Prazer de ter vivido e, mesmo assim, ainda querer.
     Querer um novo afeto, uma nova paz, um novo motivo pra levantar da poltrona e vestir a alma de domingo.

     Porque longevidade não é extensão de vida. É profundidade de sentimento.

      E amar com leveza, com humor, com inteligência emocional é a forma mais bonita de resistir ao tempo... com o coração batendo no compasso da felicidade.


      Por Alfredo Guilherme 




quarta-feira, 16 de julho de 2025

Crônica : Respirar Brasil com os Pulmões Inteiros…

 


      Tem dias em que o ar do Brasil vem denso.
     Cheio de memórias, de lutas que ainda não terminaram e de esperanças que teimam em nascer à cada raiar do dia, junto com o café,  e o pão na chapa, da padaria da esquina.

     Respirar a soberania de um país é mais do que defender fronteiras com mapas.
     É proteger o cheiro do feijão da avó, a música que nasceu no morro, a reza sussurrada em Aparecida, o sotaque que não se dobra à gramática dos outros.

     É dizer, com o corpo inteiro… "Eu sou daqui… Sou brasileiro”.
     E daqui eu me levanto, sem precisar pedir licença ao mundo nem traduzir minha alma pra inglês.

     A gente vive num país que já foi saqueado antes de ser entendido.
     Tentaram nos ensinar o que comer, como amar, o que vestir, o que pensar.
     Mas o Brasil, quando respira por si, tem pulmão de floresta. 
E floresta, meu amigo… não se dobra fácil. Ela cresce, mesmo depois do fogo.

    Negar interferência externa não é fechar os olhos pro mundo.
    É abrir bem os olhos pra si.
    E perceber que a nossa terra fala em guarani, em yorubá, em português com sotaques arrastado pelo vento vindo de outros estados.

     Soberania, democracia não é só voto, é gesto.
     É quando o pescador conhece o mar melhor que o Departamento de Pesca.
     É quando a criança aprende a cantar hino e funk sem contradição e se apaixonar pelo futebol.
     É quando o povo entende que não precisa de aval de fora pra sonhar grande aqui dentro.

     Respirar o “Brasil com os pulmões inteiros” é resistir a ser moldado por moldes alheios.
     É cultivar o que é nosso sem medo de parecer “menos global”  porque o mundo inteiro mora aqui, mas em ritmo de samba e o calor de um abraço.

    Não somos colônia emocional.
    Não aceitamos tutores sentimentais.
    Temos feridas, sim. Mas também temos memória. E orgulho de cicatriz.

    No Brasil, até a dor tem uma maneira curiosa de ensinar aquilo que a calma. 

    Quando a gente atravessa momentos difíceis, é como se estivéssemos sendo moldados, às vezes de forma dolorosa, mas com o potencial de nos tornar mais fortes, mais conscientes, mais humanos.

    E quem nos quiser ensinar a viver… que aprenda, primeiro, a nos respeitar ao nosso jeito de como a gente sorri feliz por ser brasileiro.

    Por último, quero dizer… Essa casa tem dono. E também tem alma.


     Por Alfredo Guilherme

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Crônica : Quando o amor se veste de perfume...

 


    Há noites em que o amor se veste de perfume e o desejo escapa pelos nossos poros… não por corpos vazios, mas pela presença do corpo amado.

     Nesses momentos, a nossa pele transcende sua própria natureza. Deixa de ser limite e se torna, um mapa desenhado por anseios, marcado pela sedução. Com o corpo, faminto, buscamos aquele que sabemos que não mente no toque, que nos ame, que fale sem palavras. Que seja então simplesmente...  "Esquecer o mundo por algumas horas."

     E acontece essa dança crua e delicada, onde  amantes se encontram como velhas memórias. Se reconhecem na urgência do momento. Não perguntam o quanto se desejam, perguntam com a boca, com o toque das mãos, e com os olhos cerrados.

     Então, nos bebemos. Com sede. Com fome. Com aquela intensidade de quem imagina que talvez tenha apenas esta noite para ser tudo o que desejamos. Há uma beleza nisso na vulnerabilidade de assumir que, por trás do desejo, existe uma alma sedenta de conexão. O amor é, por essência, uma experiência efêmera e eterna ao mesmo tempo.

     Não há espaço para pudor ou receios na entrega. Sabemos que o corpo também ama, também chora, também pede abrigo, ainda que disfarçado de luxúria. E o prazer, quando vivido em sua totalidade, não é apenas físico... é uma prece pagã, murmurada entre gemidos e sorrisos ofegantes.

     Depois, o mundo pode voltar a girar. Os lençóis podem esfriar. Mas por um instante breve e absoluto, dois corpos se tornaram lar, refúgio e alimento um do outro. 

     Porque o amor não é só aquele que permanece... é também aquele que nos atravessa como um raio, que nos acende, sem jamais permitir que a paixão se apague.


      Por Alfredo Guilherme



segunda-feira, 7 de julho de 2025

Crônica : O Último Frasco de Fé...

  


     Para ser lido com as mãos limpas de pressa e os olhos sujos de memória...

    No final do livro coletivo, "A Fé de cada um,"entre trinta vozes e cicatrizes, dos escritores, eu participei, escrevi no final, que guardaria o último frasco de álcool gel. E se alguém perguntasse por quê, eu diria... porque ali dentro havia mais que um produto hospitalar. Havia o suor da sobrevivência. Havia fé destilada.

    Guardei...

    No fundo de uma gaveta, entre as máscaras amarrotadas sem uso, e uma carta que nunca enviei que virou cicatriz, ficou ele, o último frasco de álcool gel. Ainda com metade da esperança líquida.

    Ainda com o cheiro desagradável dos dias em que tocar era perigo, abraçar era risco, e respirar um ato de fé.

    A pandemia, dizem, passou. Mas quem passou mesmo fomos nós.
    Por salas fechadas, por janelas abertas para a esperança demais, por dias longos demais, por noites cheias de estatísticas e orações confusas. 
Por dias longos demais. Por ausências sonoras.

    Cada um à sua maneira aprendeu a respirar com os olhos. A sobreviver por dentro da máscara, no silêncio perturbador.

     Esse frasco permaneceu. Como um totem cotidiano. Lá, empoeirado, como quem sussurra... “Lembre-se que você passou por isso". 
    Não de medo, mas de memória. Como quem guarda não pelo líquido, mas pela história contida ali.

    Fomos trinta autores. Cada texto, cada linha, cada pausa uma tentativa de dizer, à sua maneira... “Continuei... mesmo sem saber como.”

    Agora, fecho este texto como quem fecha uma janela antes da próxima tempestade. Não por pessimismo mas por sabedoria.
    Outros vírus virão... Será ?... Da natureza, de código, de crença, sabe-se lá de onde.
    Mas ainda deixo esse frasco aqui, não como relíquia, mas como símbolo.

    Se a fé é invisível, que ao menos tenha o cheiro do álcool gel na memória, essa foi minha maneira simbólica de dizer... “Eu ainda me lembro”

    Por Alfredo Guilherme 



quarta-feira, 2 de julho de 2025

Mesmo que o mês de Maio não volte mais…

 



      Mesmo que Maio não volte mais, e as flores se cansem de florescer no chão, carrego teu nome no vento feito promessa na contramão.

     Teu silêncio me fala tão alto, tua ausência grita em mim. Teu adeus foi um laço apertado que o tempo não desfaz assim.

     Mesmo que Maio me leve de ti, vou lembrar do teu rosto na chuva. O amor, quando é fundo, resiste, mesmo em ruína, mesmo em dúvida. E se a saudade me despedaçar, te amar ainda vai me bastar.

     Te procurei entre ruas vazias, em sonhos partidos no chão. Tua sombra me guia em silêncio, é farol na escuridão.

     Teu perfume ainda mora em Maio, mesmo quando já é Junho em mim. E cada pétala que cai no asfalto me pergunta por ti no fim.

     Não preciso de promessas, só do que a lembrança traz. Um amor que mesmo ausente nunca se desfaz...

     Mesmo que o tempo não cure o que há, vou te guardar na canção que o vento traça. 

     E enquanto houver Maio em mim, e uma primavera que insiste em florescer mesmo depois da estação ter partido. Vou te amar. 


      Alfredo Guilherme




segunda-feira, 30 de junho de 2025

Crônica :– Carinhas Ensacadas…

 



    Tem dias que a gente se sente assim, carinha sorrindo por fora, mas trancada num saco de plástico.

    Olha só esse pacote. Parece inocente, um saquinho de doces, talvez. Mas, se você observar direito, ele carrega uma metáfora das boas, um monte de carinhas desenhadas, felizes, presas num espaço apertado. Amontoadas, sufocadas, em um saco plástico. Sorrisos organizados pelo sufoco.

    Talvez seja isso que acontece com a gente de vez em quando. A vida empacota nossos afetos. A gente vai se adaptando, fingindo que está acostumada, estampando sorriso automático. Dizendo " Tá tudo bem " mais na verdade, mantendo a alma em modo economia de sentimentos.

    As carinhas dentro do saco têm algo de encantador e inquietante. Parecem prontas para a festa, mas não foram convidadas a sair. Ficam ali, empilhadas, simpáticas, mas esquecidas. Como aqueles sentimentos que a gente guarda para não atrapalhar ninguém.

    E o mais curioso é que, mesmo dentro do saco, elas ainda sorriem.
    Como se dissessem... “Oi gente ainda estamos  aqui, tá? Esperando a hora certa de respirar ai fora.”

    Talvez a crônica de hoje seja só isso, um lembrete de que não dá pra viver muito tempo ensacado. 

     Que é preciso, de vez em quando, abrir a embalagem da rotina, deixar o ar entrar, e permitir que nossas carinhas e sentimentos, tomem a forma que quiserem. Desde que sejam verdadeiros.

    E isso vai ser mais do que carinhas e sentimentos livres...Vai ser poesia...

     Por Alfredo Guilherme


terça-feira, 24 de junho de 2025

Crônica : Amar é quando os neurônios perdem a compostura…


      Ninguém avisa, mas quando a gente ama... O cérebro enlouquece antes do coração.
     O amor não começa no coração.
     Mais especificamente, num colapso coletivo dos seus neurônios, que antes funcionavam lindamente… até você topar com um olhar tão aguardando na hora certa.

     Aí pronto… A lógica sai de fininho, o juízo entra em coma, e a química cerebral começa a fazer festa como bebida adulterada na balada noturna.

     Dopamina, serotonina, oxitocina.
     Esse trio arma um motim.
     Te deixa bobo, carente, faminto e, pior de tudo… “esperançoso”.

     Você acha que está vivendo um romance como os de seus sonhos.
     Mas, na real, é só o seu córtex pré-frontal em pane, desligando o botão do "cuidado" e ligando o da "fantasia irracional".

     A amígdala, coitada, que deveria gritar “perigo!”, aplaude o caos.
     Ela assiste você romantizar migalha, inventar futuro com base em emoji, e ainda bate palma.

     E a culpa é de quem? Dos seus neurônios.
     Que acham que estão num festival de serotonina e não perceberam que o outro já foi embora mentalmente faz tempo.

      O amor é esse estado de exceção biológica.
      É a única loucura socialmente aplaudida.
      Você perde o apetite, o sono, o critério.
      Vira um "perseguidor" elegante, um poeta por acidente. 
      Um viciado esperando a próxima notificação como quem espera milagre.

      Pior... você sabe que está exagerando.
      Mas não quer voltar ao normal.
      O normal é frio. O normal é lúcido.
      E ninguém quer lucidez quando está amando.

      Amar, no fundo, é pedir para sofrer com estilo.
      É vestir a camisa do time que nunca vence, mas acreditar até o apito final.

      E quando termina?
      Os neurônios demoram semanas pra desinflamar.
      
Você passa dias revendo mensagens, interpretando silêncios, como se fosse possível reescrever a história com análise de comportamento online.

      É patético… É poético… É profundamente humano.

     No fim das contas, amar é um colapso neuroquímico com final incerto.
     Mas mesmo sabendo disso, a gente mergulha.
      De novo e de novo.
      Porque, entre a sanidade entediante e a loucura apaixonada, o coração e o cérebro sempre escolhem se perder um pouco.

      Amar é um tipo de loucura sagrada.
      É o cérebro dizendo... "Sim, eu sei que isso não faz o menor sentido… mas me deixa sonhar um pouco".

     Vai entender né…


      Por Alfredo Guilherme


 … Para quem já amou tanto que confundiu poesia com neurociência. E não se arrependeu.

   O que sobra da gente quando o amor sai da cabeça?

   O amor, quando vai embora, não avisa.
   Ele desocupa o cérebro devagar, como quem desliga as luzes de um palco depois de uma peça.
   Fica a sensação de que ainda há algo acontecendo… mas é só eco.

   Os neurônios, antes em festa, agora fazem faxina.
Jogam fora os roteiros inventados, apagam as notificações que nunca vieram, e com um pouco de vergonha  tentam retomar a programação normal.

   Mas o normal já não é o mesmo.
   Porque amar, mesmo que tenha sido um erro, deixa marcas como uma febre boa que bagunçou o calendário interno.
   E o que sobra da gente quando o amor sai da cabeça… é quase uma outra pessoa.

   Mais cética, talvez.
   Mais ciente de que o desejo inventa, sim mas o corpo acredita.
   Mais atenta aos sinais, mas ainda assim… disponível para o próximo tropeço.

   O que sobra da gente é um rascunho com cheiro de recomeço.
   Um cérebro que aprendeu que a paixão é desordem, mas também é vida.

   E por mais que doa o fim, a gente agradece.
   Porque, no fundo, viver com os neurônios totalmente sob controle é seguro… mas completamente sem graça.

   Dedicado ao caos químico que me derrubou com um emoji"…


sexta-feira, 13 de junho de 2025

Encontro poético : Duas Almas…

 


     O palco repousa em um vazio solene.
    No centro, um piano de cauda banhado por luz azulada, como se o próprio tempo o iluminasse.       
    Uma névoa suave paira no ar... como um véu de música suspenso.

    Surge...
    Uma mulher à frente do seu tempo. "Chiquinha Gonzaga" que caminha como quem desliza sobre partituras, a saia longa ondulando ao compasso dos passos. 
     Senta em frete ao piano, fecha os olhos e toca, abrindo um portal no tempo. Uma valsa se desenha no improviso.

    Chiquinha respira fundo, sussurrando ao piano...  - Há notas que só aparecem quando o silêncio confia na gente.

    A melodia muda. No canto escuro do palco, Elis Regina se manifesta como um relâmpago. Os cabelos curtos, e seus gestos elétricos.
    Entre elas, o tempo se curva. Nunca se viram, mas se reconhecem.

    Elis, com os olhos marejados de lembranças, se aproxima sem pressa...  
     - Essa valsa, Chiquinha… Tem cheiro de jasmim e coragem. Você a compôs ou nasceu da saudade?

    Chiquinha responde, o olhar perdido na música... - Foi a saudade que me compôs. Cada tecla que toquei foi um gesto que me negaram. Você canta como quem morde o mundo e chora depois… Cantou “Como Nossos Pais” e nunca mais saiu do peito do brasileiro.

    - Eu canto pra não explodir. Canto pra não calar. Minha garganta tem a força de um rio represado… Você, Chiquinha, é eterna. “Ó Abre Alas” abriu caminhos pra mim, e eu nem sabia.

    Chiquinha sorri, com ternura e dor. Abrir alas dói. Tive que partir pra não ser partida. Fui mulher, compositora, instrumentista, regente. A primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Mas o que me deu mais orgulho foi ser abolicionista… O que para muitos era meu pecado.

    Elis, os olhos cheios de emoção...  - Você era sinfonia num tempo que só aceitava marcha. E ainda assim… fez carnaval. Você é piano com alma de tamborim.

    Ela continua, embalando as palavras... - Me contaram que você enfrentou o mundo pra tocar sua música. Abandonou marido, rompeu com a família… Pra viver de arte!

    - E me chamaram de desavergonhada, subversiva, mulher sem modos. Mas fiz meu carnaval… E você? Cantou com o coração exposto e deixou seus fãs de peito aberto… Você sempre foi trovão com voz de colibri. Na sua boca, Elis, até a lágrima tem afinação.

    - Ah, Chiquinha… O palco era minha trincheira. Eu cantava como quem grita. E gritei tanto, que às vezes a alma se despedaçava.

    - É o preço de ser mulher e artista. A gente canta, mas o mundo quer nos calar. Compus marchas para libertar escravos, quando ninguém achava que música era lugar de protesto.

    - É sempre assim. Quando a mulher ergue a voz, dizem que é histeria. Quando é homem, chamam de gênio revolucionário.

    Elis ri, emocionada...  - Mas a gente não se calou, Chiquinha. Você tocou piano nos becos, eu samba na censura. Fizemos da música um ato de resistência.

    O silêncio se torna melodia. Elis se aproxima do piano. Chiquinha cede espaço, como quem passa um bastão invisível.

    Elis toca uma nota suave... - Às vezes eu achava que morri cedo demais… Mas aqui, contigo, parece que cheguei no tempo certo. Talvez o tempo seja só uma clave diferente.

    Chiquinha lança o olhar para longe... - O tempo é uma pauta onde Deus compõe em segredo. A gente só decifra quando morre cantando.

    Elas tocam e cantam. A melodia nasce entre modinhas e tempestades, partituras escondidas no peito. Com o piano ainda vibrando, Chiquinha murmura... 

     - Nos encontramos na música, Elis… Assim ninguém nos julga, só nos escuta.
     Elis responde com voz de luz... - E quem escuta… nos ama.

    Os olhares se perdem nas poltronas vazias na plateia, e decidem caminhar juntas em silencio por alguns instantes, pelo palco, poetizando pensamentos e quando voltam até o piano. Chiquinha inicia uma nova melodia. Elis improvisa um canto entre samba, valsa e lamento. Um tom maior, pra desafinar menos na tristeza e soar mais bonito na lembrança.

    A luz do palco se apaga lentamente, enquanto o som do piano continua… tocado por mãos invisíveis.

   Uma última nota ecoa, longa como um abraço entre elas. Não foi só um encontro. Foi uma celebração.


     Por Alfredo Guilherme

domingo, 8 de junho de 2025

Quando eu digo…


   
    Quando eu digo que eu quero com você em uma atmosfera poética e onírica, não é sobre palavras difíceis.

     É só o jeito mais bonito que eu encontrei de dizer que o que eu desejo entre a gente, não cabe nas fórmulas prontas do mundo.

     Não quero um amor cronológico, com mensagens marcadas, de boas noites automáticas e promessas feitas com pressa.

     Quero…que cada detalhe desse amor tenha uma delicadeza que convida à contemplação, que se sinta como um domingo de manhã, um silêncio que não pesa, um olhar que diz tudo sem precisar ensaiar.

     Quando eu falo “poético”,
é porque eu quero que a gente se toque não só com as mãos, mas com palavras sussurradas, Com gestos que não precisam legenda.

      Poético é deixar que o outro veja a alma descabelada, o riso torto, e a fragilidade bonita de quem não finge ter força o tempo todo.

      E quando eu falo em “onírico”, é porque eu quero que a gente flutue em sonho.
      Não pra fugir do mundo, mas pra criar um cantinho só nosso.
      Onde o tempo desacelera e os detalhes viram eternidade.

      É isso.
      Eu só quero um amor que abrace o invisível, que respeite o mistério, que escolha a ternura mesmo quando a vida for tempestade.

      Eu não quero promessas.
      Quero poesia em forma de presença.
      Quero sonho e caminhar com os pés no chão, mas com o coração nas nuvens.

      Quando eu digo isso tudo...
      É só porque, eu acredito que o amor mesmo quando é real se deixa atravessar por um pouco de magia.

       E é isso que eu quero com você.


       Por Alfredo Guilherme 

   “ Nem todo amor precisa ser explicado.
    Alguns só precisam ser sentidos com poesia e um pouco de sonho.”



sexta-feira, 6 de junho de 2025

Imagine… Ainda sou um sonhador…



      Vamos imaginar John Lennon hoje, mais velho, olhando para o mundo com os mesmos olhos sonhadores mas agora mais maduros, talvez um pouco mais céticos, porém ainda cheio de esperança.
    “Imagine”, foi escrita por Lennon, que hoje seria um septuagenário, que veria o mundo mudar, melhorar em partes... e também infelizmente repetir seus velhos erros.

    Eu imagino ainda sou um sonhador…

    Sabe...
    Quando escrevi Imagine, eu achava que estava pedindo demais.
     Um mundo sem fronteiras, sem guerra, sem fome, sem ganância...
     Parecia impossível.
     Mas, veja bem... metade do impossível já aconteceu.

     Hoje, as pessoas falam com quem quiserem, em qualquer lugar do mundo, segurando um pedaço de tecnologia nas mãos.
     O amor atravessa oceanos em segundos.
     A música não tem mais dono, nem país  é de quem sente.
     Parece pouco... mas é muito.

     A outra metade... Bom, essa ainda tropeça no ego, na vaidade, na necessidade absurda de fazer guerra e ter razão em vez de ter paz.
     O velho jogo de quem grita mais alto, de quem acumula mais, de quem ergue muros...
     Quando, no fundo, todo mundo sabe que vai embora do mesmo jeito.
despido de tudo, menos do que plantou no coração dos outros.

     Se eu escrevesse Imagine hoje, talvez não pedisse pra imaginar um mundo sem posses...
     Já entendi que alguns ainda precisam delas pra se sentirem alguém.
     Nem um mundo sem religião...
     Porque vi que, pra muita gente, é ela que segura a alma quando tudo desaba.

     Hoje eu John Lennon diria… Imagine...

     Um mundo onde as posses não valem mais que as pessoas.
     Onde a fé não divide ela acolhe.
     Onde as fronteiras existem, sim...
     Mas só no mapa não no peito e na alma.

     Imagine menos discurso e mais escuta.
     Menos dedo apontado e mais mão estendida.
     Menos "eu tenho razão" e mais "me conta quero saber mais é aí do seu lado".

      Sabe...
     O sonho não acabou. Ele só ficou mais simples.
     Mais pé no chão. Menos utopia, mais prática.
     Amar quem tá perto, cuidar de quem se ama.

      E não esquecer que, no fim, a vida inteira cabe num abraço sincero.

      Imagine…então…


           Por Alfredo Guilherme 


segunda-feira, 2 de junho de 2025

Crônica : "A Vida Antes da Vida"…

 



       E se essa vida, a que chamamos de real, for apenas o estágio probatório da alma? Um tipo de cursinho intensivo, com provas surpresa, trabalhos em grupo desastrosos e aquele professor invisível que nunca dá a resposta certa, só mais perguntas? E se esta vida com seus dias cansados, alegrias fugidias, filas demoradas, amores mal curados e cafés que esfriam antes da primeira pausa for apenas um ensaio? Um grande teste de empatia, uma oficina de humanidade?  
      Talvez não sejamos o produto final, mas o rascunho. O esboço borrado de algo que ainda está em formação. Como barro nas mãos de um tempo silencioso que nos molda sem pressa, com cada perda, com cada recomeço.
      Às vezes me pergunto se não estamos todos em um tipo de treinamento, como astronautas confinados numa base de simulação. A diferença é que aqui, ao invés de macacões prateados, tipo usado na NASA, vestimos contas a pagar, ansiedades, medos antigos e sorrisos que tentam não desmanchar. 
      E se, na verdade, a nossa verdadeira "identidade" estiver guardada para depois, numa outra vida, numa outra frequência, quando finalmente formos diplomados em empatia, coragem e paciência? Onde seremos, enfim, aquilo que só sonhamos ser por aqui? Imagina só… essa existência seria um grande ensaio, onde errar faz parte do script, onde chorar no palco não cancela a peça. 
      A gente aprende, reaprende, desaprende. Cada queda seria uma chamada oral da vida perguntando: "E aí, vai desistir ou tentar de novo?" Talvez os que mais sofrem aqui, sejam os mais prontos. Talvez aqueles que sentem demais, que tropeçam mais do que andam, estejam só adiantando a matéria. 
      E aí, um dia, quando o sinal tocar pela última vez, nos chamam pela lista não mais com nome de batismo, mas com o nome que forjamos em silêncio, no escuro, entre as dores e as pequenas alegrias. Um nome que só o universo sabe. 
      E ali, enfim, não seremos mais uma versão “Beta” e sim uma versão “Premium” de nós mesmos. Seremos inteiros. E verdadeiros. Sem máscaras. Sem provas. Sem medo da próxima etapa. E se for isso? Se viver for só um longo preparo... para aprender, com todas as falhas e belezas, quem a gente nasceu pra ser? 

      Após você acabar de ler, essa crônica, convido você a olhar com outros olhos para as suas quedas, para os seus medos, para as suas pequenas vitórias silenciosas. Independente de credo ou religião. Talvez você descubra, como eu, que viver é mais sobre a travessia do que sobre a chegada. Que ser inteiro é um exercício diário. E que, no fim, o que importa mesmo não é passar no teste... é o quanto a gente amou tentando.


        Por Alfredo Guilherme 



domingo, 1 de junho de 2025

Stand-up de Letras : Tatuagem… Manual de Instruções Não Incluso

 


      Cacete !!!… que loucura, é essa ? As pessoas estão fazendo tatuagem hoje como quem pede um combo de lanche no drive-thru. Uma atrás da outra, sem respirar, sem pensar, sem nem saber... o que raios significa aquilo que estão gravando na própria pele. E sem cerimônia pede..  Ah, me vê também uma fênix no antebraço, uma palavra em sânscrito na costela e um raio minimalista atrás da orelha… Pago a vista no Pix, tá?

      E eu não tô aqui pra criticar, não! Eu acho bonito... na pele dos outros, inclusive. Tatuagem é arte, é expressão. Mas... precisa ter pelo menos uma ideia clara, do que você vai pedir para tatuar, né? Imagino na sua velhice o seu bisneto garotinho ainda, tentando soletrar em meio as suas “pelancas” o que foi escrito, muitos, muitos anos atrás.

   A galera faz umas escritas tão aleatórias... que eu juro, já joguei no Tradutor e no Google Lens, no Deep Web…Até na Inteligência Artificial, e o que voltou foi só… erro 404: “Significado não encontrado.”

     Tentei de todas as formas, e sabe quem acabou me dando pelo menos uma satisfação ?…  A “Siri” no meu iPhone… “Desculpe, mais não entendi… essa porra ? De escrita...”

      E o mais curioso é que nem eles sabem o que fizeram e quando pergunta pra pessoa? É sempre essa resposta…
    “- Ah... então... significa... tipo... é uma coisa muito minha... é... sabe... conexão... energia... ressignificar... Entendeu !!!”

   - Não. Não mesmo. Nem você sabe. E, garanto, que nem o tatuador sabia. Ele só desenhou, tatuou, sorriu e pensou… “ Que se foda… É… Mais um boleto pago.”

       A real é que tatuagem virou uma espécie de legenda da vida. Porque hoje ninguém tá dando conta de processar o que sente... E é nesse momento que… Bate na cabeça uma ideia de jerico, ( fazer burrada) Aí você sente no peito... imprime na pele. Tá faltando terapia e sobrando máquina de tatuar…

    Momento de reflexão distintos leitores…

    E não é que eu seja contra, não. Eu entendo e aprovo aquela feita com amor, a quem amamos…A vida tá difícil, o mundo tá maluco... Tem gente que olha no espelho e pensa… “Não tô entendendo nada da minha existência... Vou tatuar no braço uma coisa e escrever um negócio… pra eu lembrar quem sou.”

       E no dia seguinte !!! … A voz do tatuador… - “Quer a frase em inglês, árabe ou idioma inventado?”

    E pior que tem gente com tanta tatuagem que daqui a pouco esse “ser humano tatuado” vai precisar andar com QR Code na testa. A curiosidade alheia, chega perto, escaneia e lê…
“Essa “Borboleta” representa minha fase de superação pós-chifre, e o término, do meu relacionamento, agora já essa “frase” em japonês significa ‘fé’ (ou yakisoba, ainda não sei), não pesquisei a tradução, e esse “ Infinito” na ponta do dedo... é porque eu pago boleto todo mês. E significa… “Infinito Sofrimento.”

    Não tem jeito... sabe porque ?…  A tatuagem virou um grito de liberdade na pele. Porque tem muita coisa que a gente não tá conseguindo resolver por  dentro. jogamos pra fora... desenhado e tatuando.

    E eu entendo, juro que entendo... porque tá difícil encontrar alguém, com a saúde mental em dia.

     Só acho que a vida já nos deixa cicatriz de graça... não precisamos parcelar distribuindo tatuagem, pelo nosso corpo. 

     Vou … Parar  por aqui… E se você ama se tatuar sei que lá no fundo certamente deve estar pensando…“Caramba, não é que em certos detalhes ele tem razão...”


      Por Alfredo Guilherme 


sexta-feira, 30 de maio de 2025

Stand up de letras : A Ditadura da Cadeira


      Queridos leitores… vocês já perceberam que a cadeira é o objeto que mais controla a nossa vida?
      É sério! A cadeira é tipo aquele ex que te larga, mas te persegue, tá em todo lugar!

     Vivemos sentados.. Você nasce...  no colo da mãe. crescemos na carteira escolar, trabalhamos na cadeira giratória do escritório... e, se der sorte, ao se aposentar, terminamos na cadeira de balanço.

      Mas se bobear... terminamos sim naquelas cadeiras de rodas... que é tipo a versão hard da cadeira de balanço.
      Você deve estar achando que eu estou fazendo humor negro…Não é tá? É humor ortopédico.

      E é impressionante como a relação com a cadeira muda conforme a idade.

        A cadeira é um pedaço do mundo que a gente carrega para o conforto das nádegas…. Isso todos nós sabemos… Uma prisão confortável, mas ainda assim... é uma prisão.

     A criança senta... e não para sentada. A cadeira, pra ela, é trampolim de energia. É navio pirata. É torre de comando.
     Levanta a cada três minutos, porque o corpo dela sabe o que o cérebro adulto esqueceu… Que se "Mexer é viver".

     O adolescente senta meio torto, de lado, escorrendo da cadeira, desafiando a própria coluna. Levanta pra abrir a geladeira. Fecha. Abre de novo. Fecha.
     Levanta pra checar o celular... De preferência no banheiro longe do olhos dos pais. É um levanta mental, ou seja mente agitada, corpo largado…
 o adolescente... ele não senta, ele derrete não na cadeira, mais sim no sofá.

     O adulto... ah !!... o adulto senta na cadeira... esquece de levantar. 

      Senta pra trabalhar em casa home office, pra comer, pra dirigir, pra esperar uma consulta... Até em um voo de ferias.
      Levanta? Só quando a lombar reclama ou melhor grita…
      Cadeira pro adulto é tipo casamento antigo… “Não é confortável... mas já que tô aqui, fico aqui mesmo.”

      Você pega  as crianças no colégio! Corre pro mercado! Tá atrasado pro  trabalho… E nesse caso levantar, não é lazer. É missão.

       E  no final do dia... relaxa... como? Sentado no sofá! 
       Deixe eu dizer uma coisa…Maratonar assistindo Netflix, não é atletismo, Brasil !!!!

       E o idoso? Já olha a cadeira com mais respeito… Dá aquele gemido passivo-agressivo…O idoso não levanta, ele negocia. Levantar é um ritual sagrado.

       Apoia aqui... ajeita ali... dá aquela balançada no corpo...
       Conta... UM... DOIS... e VAI !... Levantou? Aleluia! Palmas pro quadril que não reclamou !

       E sabe qual é a parte mais cruel?... A gente só percebe que ficou muito tempo sentado... quando tenta levantar e parece que esquecemos de lubrificar o joelho.
      O joelho faz aquele barulho de porta velha: "NHEEEEEEEE"

      Mas, no fundo, a cadeira só revela o que a idade faz com a gente.

      Então, gente... fica aqui meu conselho… Se você não faz caminhada ou não frequenta uma academia... 

       Levanta da cadeira. Dá uma voltinha.
       Nem que seja pra dar uma volta... na cadeira. 
Porque, no fundo, quem se levanta da cadeira também se levanta um pouco da própria rotina.

       Inclusive... vou encerrar, esse texto porque meu ciático tá começando a reclamar. Fui…!!!!


          Por Alfredo Guilherme