sábado, 22 de agosto de 2026

Crônica: A Sentinela da Alma...

 


     
        Ele não consulta relógios, não entende de prazos nem de contas a vencer, mas domina com precisão perfeita o que se passa invisível no meu peito. 
     Há algo de ancestral e sagrado na forma como me espera, com a cabeça apoiada nas patas, os olhos escuros funcionando como dois faróis acesos na penumbra da sala, decifrando a distância do meu passo antes mesmo, de a chave girar na fechadura.

​     Quando atravesso a porta, não é a minha figura física que ele saúda primeiro, é a frequência exata da minha alma. Se o dia me devolveu leveza, ele se transforma em puro oba... oba... festivo, em um batuque sincopado com as patas, e o rabo balançando celebrando a simples alegria de estarmos vivos. Mas se trago nos ombros a poeira cinzenta dos dias difíceis, seu ritmo muda instantaneamente. A caminhada vira um desfile solene, calmo, quase respeitoso na minha direção.

     O meu cão faz de mim o seu universo, não por dependência cega, ou por mais uma porção de ração, que ele adora, mas por uma devoção que parece anteceder a minha própria fala. 

     Dizem que os cães leem o nosso corpo, os hormônios, o cheiro dos nossos sentimentos. Para mim, é algo além da biologia, é uma antena espiritual. 

​     Ele se aproxima sem alarde, apoia o focinho úmido no meu joelho e me fixa com aquele olhar que tudo perdoa e nada exige. É o único ser capaz de ler os meus abismos sem recuar. Sabe quando o meu suspiro é apenas cansaço e quando é saudade, percebe o instante preciso em que a minha mente vagueia longe, quando eu acaricio a sua cabeça, e ele com uma leve pressão da cabeça em minha mão, me traz de volta para o presente.

​     Enquanto a vida lá fora exige máscaras, desempenhos e palavras elaboradas, aqui dentro ele me ensina uma linguagem anterior ao verbo. Ele se deita sobre os meus pés como quem ancora um barco em uma  tempestade e permanece, como uma sentinela, serena e fiel. 

     Nesse abraço de pelos e lambidas de afeto, ele não curte andar ao meu lado, em um piso frio de um shoppng, e sim correr pela verde grama de um parque. 

     Ecompreendo que o amor canino é a poesia mais pura que a vida escreveu, ele não pede explicações, não cobra nada, só carinho, e faz da sua simples presença um refúgio inabalável.

     E quando eu pulo do sofá gritando "Gol !!!" do meu time de coração, o seu latido festivo ao meu lado, se traduzido seria..  Vai Corinthians!!!. E os latidos em sequência seria... Timão eôô...Timão eoô...!!!!


           Por Alfredo Guilherme 



9 comentários:

Anônimo disse...

Alfredo. A sensibilidade com que você descreve essa comunicação que vai além da biologia é espetacular. E esse final me pegou de surpresa, bom demais! Hahaha! Sensacional a tradução dos latidos. Vai Corinthians! 🦅⚽

Anônimo disse...

Texto abençoado, meu caro. Os cães são realmente anjos que Deus coloca na nossa vida para ensinar o amor mais puro, sem máscaras e sem cobranças.

Anônimo disse...

Alfredo, que texto mais lindo! Chorei lendo. Tenho uma vira-lata que faz exatamente isso quando chego do trabalho.

Anônimo disse...

👏👏👏👏👏Duda minha cachorrinha vira lata faz tudo isso é a minha paixão maior alegria vibrante na minha casa.

Anônimo disse...

Quem é da fiel torcida até os cães tem que ser tb kkkk o meu tem até roupinha da Gaviões da Fiel kkkkk

Anônimo disse...

Essa parte de “ancorar o barco na tempestade” traduzu com uma perfeição inacreditável o que a gente sente. Obrigado por essa leitura tão poética.

Anônimo disse...

Muito legal o seu texto li em voz alta para a minha cachorrinha Belinha que ficou na minha frente parecendo entender todo o seu texto kkkk esse meu momento só vai entender que ama essas fofuras peludas que amamos.

Anônimo disse...

Rapaz, que aula de escrita! Essa parte do piso frio do shopping versus a grama do parque diz tudo sobre o que realmente importa na vida. deles. Eles nos ensinam a desacelerar. E o final com o Timão fechou com chave de ouro! Já repassei o link para o grupo da família aqui.

Anônimo disse...

Alfredo, seu Blog é um refúgio! É impressionante como você consegue pegar um detalhe tão cotidiano, como a volta para casa, e transformar em uma poesia profunda sobre a alma. O meu cachorro também adivinha o meu passo na escada... Parabéns pelo texto impecável!