sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Um Conto Contado : A Lenda...​Raízes de um Amor...

 


     Nas terras onde a mata fechada sussurra segredos ancestrais ao vento, os mais velhos ainda contam a lenda de 'Babatunde e Olori', duas almas entrelaçadas no amor, entre a saudade da terra-mãe e o encanto sagrado da floresta brasileira.

​     Babatunde atravessara o oceano contra a sua vontade. Trazia no corpo as marcas do sofrimento do porão infecto do navio negreiro, mas mantinha o peito intacto de fé. Carregava na memória o ritmo dos atabaques de sua aldeia e a bênção dos orixás. Ao aportar em Salvador, foi vendido a um senhor de engenho. 

     Os anos se arrastaram entre o desespero e a dor, até que, cansado de testemunhar a violência e a crueldade dos castigos, e mulheres violentadas servido sexualmente o senhor do engenho, ele alimentou a esperança ao ouvir falar do Quilombo, um refúgio sagrado de liberdade.

      Numa noite emoldurada pela escuridão, ele fugiu, esgueirando-se pela mata densa para escapar dos temidos 'Capitães do Mato', caçadores de fugitivos das fazendas.

​     Seu destino era um dos quilombos que resistiam nas matas suburbanas. Ao chegar, foi acolhido por seus irmãos de raça, e encontrou na vastidão verde o refúgio seguro para manter viva a chama de seu povo. 

     Foi ali, sobre a copa de árvores centenárias, que seus olhos cruzaram com os de Olori... Uma mulher de olhar profundo como a noite e voz tão doce que parecia acalmar tempestades.

​     O amor entre eles floresceu como uma flor rara no coração da floresta. Não era apenas paixão de corpos, mas um encontro de espíritos, guiado pela força de Oxóssi e pela doçura de Oxum. Babatunde entoava cantos para a folhagem, enquanto Olori dançava ao som do vento, erguendo entre as árvores um santuário inabalável de paz e devoção.

​     Contudo, o tempo terreno de Babatunde cumpriu-se. Numa tarde serena, seu sopro de vida descansou e seu corpo foi devolvido à terra. Devastada pela dor, Olori ajoelhou-se junto às raízes de uma árvore secular, e entregou suas lágrimas ao solo úmido, suplicando a Olodumare que não a separasse de seu grande amor.

​     Atentos às suas preces e à pureza de uma união que alimentava a vida da própria mata, os orixás intervieram com uma poética metamorfose. O corpo de Babatunde desfez-se suavemente sob a terra, transformando-se nas raízes profundas de um imponente Jequitibá. Instantes depois, Olori sentiu seus pés criarem raízes e seus braços estenderem-se em ramos verdejantes. Ela renasceu como Floridil, uma majestosa trepadeira de flores perfumadas que abraçou o Jequitibá eternamente, subindo por seu tronco até alcançar a luz do céu.

​     Até hoje, quem caminha em silêncio por uma mata, jura ouvir o sussurro do vento entre as folhas, entoando a melodia eterna de amor e fé de "Olori e  Babatunde" que o tempo jamais conseguirá apagar.


          Por Alfredo Guilherme 


3 comentários:

Anônimo disse...

O amor deles virando Jequitibá e Floridil arrepiou até a alma. Acompanho o seu blog há tempos e essa com certeza virou uma das minhas lendas favoritas!

Anônimo disse...

Só você mesmo para imaginar criar e trazer para nós uma lenda tão linda... Que agora vai existir realmente em nossos pensamentos.

Anônimo disse...

Que história linda e emocionante, Alfredo! A leitura flui como água de rio. Essa transição do sofrimento da travessia para o refúgio do quilombo e a bênção dos orixás e o final ficou poesia pura.