Se o sábio de Atenas Sócrates, passou a vida caminhando pelas praças para concluir que a verdadeira sabedoria reside no reconhecimento da própria ignorância, o amor de dois apaixonados é, em essência, o laboratório mais refinado dessa máxima.
Diante do outro, no território sagrado e por vezes aterrorizante na intimidade, é a única certeza razoável de que nada sabemos.
E, ainda assim, teimamos em vestir a couraça do pudor.
Chegamos ao primeiro momento do encontro amoroso carregados de manuais invisíveis, expectativas sociais e um medo ancestral do ridículo. A vergonha nada mais é do que o pavor de ser descoberto em nossa humanidade imperfeita.
O pudor, quando excessivo, funciona como uma armadura medieval sendo usada num mergulho no mar, protege de arranhões, sim, mas garante um afogamento lento no oceano da superficialidade.
Quando o desejo acende, é o passo mais banal. O verdadeiro sobressalto acontece quando precisamos nos despir, antes da alma, Será que vai haver julgamento? Da silhueta do corpo amado. Se preoculpar com o mito de que existe um roteiro perfeito para a entrega, o ego da ilusão de que precisamos controlar o que sentimos ou desejamos.
Para que o verdadeiro conhecimento mútuo aconteça, é preciso coragem para aceitar algumas posições desajeitadas. O amor íntimo não habita nas poses ensaiadas de cinema, mas sim em meio aos beijos, e confissões sussurrandas de desejos secretos, na liberdade de não precisar parecer impecável.
Conhecer alguém intimamente é um ato de arqueologia afetiva. Exige escavar medos, tocar cicatrizes e navegar por zonas desconhecidas sem a bússola do julgamento.
Quando o casal decide deixar a vergonha na porta do quarto, o ridículo se dissolve. Descobre-se que a pele do outro é um país sem mapa fixo, cujas fronteiras mudam a cada toque. O que era constrangimento vira cumplicidade, o que era pudor vira curiosidade.
Sócrates tinha razão. O universo do outro é vasto demais para ser decifrado em poucas noites ou teorizado em frases feitas. É entender que abraçar o desconhecido não é um risco, mas o único caminho para a entrega real.
E ser quem se é com todas as idiossincrasias, vulnerabilidades e paixões, o casal não apenas se desnudará fisicamente. Eles finalmente se permitirão olhar nos olhos e admitir, com um sorriso leve e a pele arrepiada... "Só sei que nada sei sobre você... e mal posso esperar para descobrir tudo."
Por Alfredo Guilherme

5 comentários:
Você capturou com maestria aquela tensão entre o medo de se expor e a libertação que vem quando a gente finalmente abandona a armadura.
Que texto belíssimo e de uma sensibilidade ímpar, Alfredo! A analogia entre o “só sei que nada sei” socrático e a vulnerabilidade da intimidade a dois é simplesmente perfeita.
Que a gente nunca perca a curiosidade de continuar descobrindo quem amamos este texto despertou em mim algo maravilhoso...
Pressionar o 'botão de desligar' do nosso orgulho e do medo do ridículo é, talvez, o maior ato de coragem em uma relação.
Despir o corpo é fácil. O verdadeiro ato de coragem é despir o ego. O que é mais difícil.
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