segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Crônica: A Asa Que Não Voa, Mas Canta...

 


​      Havia um muro esquecido no coração do Pelourinho, uma pele de pedra e cal descascada que parecia pedir socorro. Os turistas passavam, os vendedores gritavam, o sol castigava, e o muro continuava lá, como uma cicatriz silenciosa de outros tempos. Até que, numa manhã cinzenta, a magia aconteceu.

​     Não foi um milagre vindo dos céus, mas da criatividade e da alma de um artista cujo nome, agora repousava ali, imortalizado na própria obra. Ele não pintou um anjo como os dos altares das igrejas de ouro. Ele não usa túnica nem ostenta asas de gesso, e não vive suspenso nas abóbadas de ouro das catedrais, não tinha a pele alva nem as vestes fluidas e transparentes dos querubins barrocos.

​     O anjo era negro. E não tinha asas comuns.

​     No lugar delas, uma explosão caligráfica em forma de revoada abraçava o lado esquerdo de sua face. O muro parecia ter ganhado voz. Não uma voz que se ouve com os ouvidos, mas que se sente vibrar no peito. As letras não eram apenas texto, eram formas sagradas, símbolos de uma ancestralidade que o tempo não conseguiu apagar, trazia sua mensagem escrita em suas penas textuais... "O Meu Anjo Negro de Matrizes Africanas" 

      Para entender é preciso ir buscar na raiz dos primeiros povos a palavra que consiga desenhar essa luz sem peso, como foi gravada na pedra ancestral do Ge’ez: መልአክ (Mal’ak)... ( Anjo).

​     Era uma manhã de domingo quando parei para observá-lo. O sol já estava alto, e a praça lá embaixo pulsava. Uma baiana vendia acarajé, o cheiro de dendê misturava-se ao som distante de um berimbau se misturando ao batuque arrepiante do Olodum. O anjo, com seu olhar profundo, fitava o vazio, mas parecia ver tudo. Seus traços eram feitos de labirintos e círculos, um mapa de histórias orais compactadas em cada linha.

​     Fiquei imaginando os momentos vividos daquele muro. Ele vivenciou séculos de dor e resistência. Ouvira as correntes rilharem, o choro das mães, mas também o canto dos terreiros e o batuque do candomblé. O artista não apenas colorira a pedra, ele a libertara. Ele dera a ela uma voz que não se calaria já mais.

​     Enquanto eu observava, uma menina pequena, com os cabelos em tranças nagô, parou ao meu lado. Ela não olhou para o texto. Ela olhou para o rosto do anjo.

​     - Mãe, ele é igual a mim... disse ela, com a simplicidade que só as crianças possuem.

​      E ali estava a resposta. Aquele anjo não precisava de asas para voar. Ele já estava no céu. No céu que ele pintara dentro do coração de cada um que parava para lê-lo. Ele não era uma figura de contemplação passiva, ele era um manifesto. Ele dizia... "Eu sou. Eu estou aqui. Eu te permaneço."

​     Senti dentro de mim, que o muro não estava mais calado. "O Anjo Negro" cantava em silêncio, e eu cantei junto com ele... 

      "O Canto das trêz raças", que na voz da Clara Nunes ecou pelo Brasil... 

     “Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil...” 

     É o retrato definitivo do canto de resistência e da força que vem do lamento transformado em beleza e arte.Traduzindo exatamente o que o 'Anjo Negro" traz de mistério e de sabedoria ancestral que ele transmite no olhar. 


     Por Alfredo Guilherme





11 comentários:

Anônimo disse...

Alfredo! A imagem da garotinha se reconhecendo no anjo arrepiou até a alma. A arte nas ruas do Pelourinho não é só decoração, é resgate e identidade. E fechar com a lembrança de Clara Nunes foi de um sensibilidade ímpar. Que crônica linda!

Anônimo disse...

Fiquei hipnotizada por essa imagem do anjo sem asas, mas com a revoada caligráfica. Tem coisas que só a escrita inspirada consegue nos fazer enxergar com tanta nitidez. Lindo demais, meu caro amigo!

Anônimo disse...

​Esse texto é um manifesto sobre pertencimento. O Pelourinho carrega as marcas da nossa história, e ver a ancestralidade representada com tanta dignidade em um anjo de matrizes africanas que diz 'Eu sou, eu estou aqui' é de lavar a alma. Texto emocionante.

Anônimo disse...

Você não apenas contou uma história, Alfredo, você pintou com palavras a própria textura do muro. Fantástico! neste lugar que foi de muito sofrimento para para os homem pretos na cor adorei vc é o cara meu amigo.

Anônimo disse...

Enquanto eu lia o texto, a voz da Clara Nunes já subia na minha cabeça... 'Canto das Três Raças' foi o arremate perfeito para essa cena. O Pelourinho tem essa força viva que você capturou com perfeição. Arte, ancestralidade e resistência no mesmo compasso. Um verdadeiro presente de texto.

Anônimo disse...

Quando você diz que o anjo não tinha asas, mas sim uma revoada de letras, a arte deixa de ser mero ornamento e vira linguagem viva. Uma crônica soberba que honra a memória e o chão do Pelourinho. Como filho dessa terra Salvador te agradeço pelo texto.

Anônimo disse...

Texto impecável! A fala da menininha no final me tirou lágrimas dos olhos. A poesia do cotidiano no seu melhor nível. Parabéns, Alfredo! me sinto honrado de um dia ter participado junto com vc numa exposição de arte no Hospital do Servidor Publico bons tempos aqueles meu mestre.

Anônimo disse...

Parabéns lindo texto.

Anônimo disse...

Excelente texto parabéns.

Anônimo disse...

O que mais me impressiona na sua escrita, Alfredo, é essa capacidade de entrelaçar a matéria bruta da cidade a pedra e o cal muita usaram óleo de baleia, com a dimensão imaterial do afeto. tenho orgulho de ser sua parceira tb como escritora neste mundo cultural .

Anônimo disse...

👏👏👏👏👏👏👏👏👏