O mundo, como se sabe, está preocupado com coisas vastas. Sabemos que existem equipes inteiras de cientistas tentando mapear a inteligência artificial, filósofos a debater a natureza do tempo e economistas a tentar prever o juros no próximo trimestre.
A humanidade corre atrás de grandes respostas, de certezas absolutas, de fórmulas que expliquem o universo e resolvam a pressa dos dias.
Eu, por outro lado, encontrei a minha maior revelação existencial da semana às quatro da tarde de uma terça-feira, a molhar a ponta do dedo num copo d’água.
Foi um gesto involuntário. Estava na mesa da cozinha, compenetrado no aborrecimento de uma tarefa qualquer, quando o indicador resolveu fazer uma visita ao líquido. Bastou cruzar essa fronteira transparente para o tempo mudar de tom.
Enquanto lá fora, a vida continuava na sua exigência habitual, na mesma merda de sempre, boletos por pagar, o trânsito da cidade a rosnar ao longe. Mas lá dentro, sob a lente improvisada do vidro, o meu dedo parecia subitamente mais saboreado pelo tempo, ampliado, solene, suspenso numa gravidade zero que custou 0800...
A luz curvava-se. A realidade distorcia-se com uma elegância que nenhum filtro de telemóvel consegue replicar. Fiquei ali uns bons dois minutos, o equivalente a três eras geológicas na linguagem da pressa moderna, a contemplar a profunda diferença entre ser um dedo seco no mundo real e ser um dedo submerso no país das maravilhas em um copo que nem de cristal era.
Se alguém tivesse entrado na cozinha naquele momento, teria visto um homem adulto, de olhar fixo e expressão contemplativa, com o dedo mergulhado na água como quem testa a temperatura do mar antes de partir para um mergulho... Diriam, com razão... " Tá chapado" ou "Perdeu o juízo". Mas a verdade é que nunca estive tão lúcido.
Há algo de profundamente sutil no modo como a pele reconhece a água. Olhando para a cena, pensa-se no mistério das mãos e na sua dupla vida, desse mesmo dedo que aqui flutua, suspenso na refração do vidro, é o mesmo que, no recolhimento e na intimidade, navega por outros relevos e desperta o prazer da companheira amada. É a mesma ponta de pele que ativa, no silêncio do corpo, as pequenas tempestades hormonais da hipófise, essa fábrica secreta de afeto, ocitocina e desejo. No fundo, seja na intimidade a dois ou num copo de água à tarde, a magia é sempre a mesma, e a ciência impecável de um simples toque.
Enquanto a física quântica tenta explicar como duas partículas se comunicam à distância, eu descobri que a melhor maneira de desligar do ruído do planeta não exige retiros espirituais nem viagens ao Teto do mundo no Tibete. Basta um copo transparente, com quatro dedos de água e a coragem de ser ridículo por alguns instantes, ficando com dedo dentro dele.
Tirei o dedo... A água tremeu, ajustou-se e voltou a ficar serena. Sequei a ponta do indicador na calça e voltei à rotina.
O mundo continuava sem grandes respostas, lá fora, eu já tinha a minha, de vez em quando, para ajustar a perspetiva, só precisamos de ver a vida através de um dedo dentro de um copo d'água.
Por Alfredo Guilherme

9 comentários:
Muito sutil e de ótimo bom gosto. a sua crônica meu amigo Alfredo. Sem cair no vulgar, o leitor percebe que a verdadeira intimidade reside nos pequenos relevos e no tempo que se dedica ao outro.
Excelente texto! Fica só a dúvida técnica para os próximos leitores que tentarem reproduzir o experimento em casa funciona melhor com água gelada para despertar a filosofia, ou água em temperatura ambiente para garantir o transe?
kkkk cara vc é demais ... Sua crônica mostra a nobreza das mãos humanas com a mesma mão que se enfrenta o peso do dia a dia, constrói-se o refúgio do amor. É um texto muito humano, que traz um calor bonito para a reflexão da crônica.
Um dedo safadinho no bom sentido, que sabe ler a água é também é um dedo que sabe ler o corpo de quem se ama.
Que belíssimo achado essa sua crônica ! A gente passa a vida procurando grandes sacadas em livros grossos, cursos de meditação ou retiros no topo da montanha, e de repente descobre que o "Nirvana" custa só meio copo d’água da torneira.
O que eu mais apreciei na sua crônica é essa sua capacidade quase mágica de transformar uma bobeira colossal para muitos, numa pausa filosófica de alto nível.
A única questão delicada é a etiqueta. Depois de ler um texto desses, o perigo é a gente começar a testar a física do mundo em qualquer recipiente por aí. Molhar o dedo no copo d’água em casa é poesia, fazer isso na taça de vinho do restaurante fino ou na xícara de café da reunião de trabalho já é pedido de demissão. Há que se ter serenidade para saber a hora exata de ser filósofo de dedo aquático.... kkkkkk
É fascinante como o texto consegue unir a física de um copo d’água à biologia do afeto. Esse mesmo indicador que parece bobo e suspenso no vidro é o instrumento da delicadeza na intimidade.
adorei a crônica.
Texto leve, bem humorado e que dá vontade de parar tudo agora, pegar um copo, molhar a ponta do indicador e ficar simplesmente olhando o nada por dois minutos. Parabéns Alfredo Guilherme pela sensibilidade de enxergar tanto em tão pouco!
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