Há quem teime em dizer que o amor é fogo. Fogo que consome, que queima, que exige ser alimentado por dois e só dois, sob o risco de virar cinzas. Mas quem olha para o alto percebe o engano. O amor é firmamento. É um céu imenso onde cada estrela brilha com luz própria e, longe de anular a vizinha, junta-se a ela para desenhar constelações.
Nesse horizonte, o sexo não é a chama que disputa o mesmo oxigênio. É expansão. É o próprio universo dobrando de tamanho a cada toque.
Quando os corpos se encontram nesse território sem fronteiras, as mãos parecem se multiplicar na pele. Há um idioma secreto feito de olhares, uma cumplicidade silenciosa que não pede contrato nem exige exclusividade. Ali, a palavra 'posse' perde o sentido, reina a 'partilha'. Não existem paredes ou limites sufocantes, apenas horizontes que se dobram para revelar novas paisagens.
O coração humano, quando desarmado das velhas molduras e dos velhos medos, descobre sua verdadeira natureza, ele não é quarto fechado, é casa grande. Cabe mais de um hóspede sem que a ternura de cada gesto perca o afeto, o desvelo ou a verdade. Cada presença traz sua própria luz, nenhuma ocupa o lugar da outra.
E o mundo... Ah, o mundo assiste de fora, de sobrancelhas franzidas, desconfiado com suas réguas curtas. "Como é possível?", é a pergunta norma engravatada.
Os amantes não se dão ao trabalho de explicar com lógica. Eles respondem com a linguagem da vida, “O amor não se mede pela escassez de um prato dividindo migalhas. Ele não se esgota. Ele transborda.”
Pois o amor é como um jardim em plena primavera. A rosa não exige que o girassol se feche para que ela possa abrir suas pétalas ao sol. A beleza de uma flor não rouba o encanto da outra, antes, somam-se no mesmo perfume. É como uma grande sinfonia de vozes distintas, nenhuma precisa calar para que a harmonia seja perfeita.
É, acima de tudo, a coragem de amar. Sem pedir licença ao tempo, sem se curvar à idade, sem baixar a cabeça quando o mundo insiste em erguer muros e pronunciar seus "nãos". Porque onde a regra vê desordem, o coração livre enxerga apenas o seu estado mais natural, a imensidão.
Por Alfredo Guilherme

7 comentários:
Que texto sublime, Alfredo! A metáfora do céu e das constelações é de uma sensibilidade ímpar. A gente passa a vida inteira aprendendo que o amor é posse, uma gaiola estreita, e ler essa sua ode à expansão e à liberdade dá um alívio na alma.
A 'norma engravatada' realmente pira quando vê a liberdade de amar sem réguas! O texto toca em um ponto crucial, o medo da escassez.
Imagina a cara do mundo 'de sobrancelhas franzidas' lendo uma pedrada poética dessas! A imagem das mãos se multiplicando na pele e do sexo como expansão do universo ficou espetacular. Vontade de emoldurar esse croniqueta no meio da sala!"
🙏👏👏👏👏👏👏lindo texto
Apaixonante pra quem já viveu esses momentos um Belo texto.💝💝💝💝
Lindo texto, fala de amor, liberdade, confiança e coragem de viver sentimentos fora da molduras impostas pela sociedade
A parte sobre não se curvar à idade e não pedir licença ao tempo me pegou em cheio. O mundo adora ditar prazos e limites para o que a gente pode ou não sentir. Que coragem bonita transborda da sua escrita, Alfredo. O amor de verdade não envelhece, só ganha mais horizontes. Obrigado por essa leitura no meio da semana!"
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