A física tem a maçã de Newton. A astronomia tem os telescópios de Galileu. E a filosofia... Bem ela passou milênios tentando mapear o terreno acidentado do amor com sonetos, imperativos categóricos e dialética.
Mas coloque três pensadores de épocas e estilos bem diferentes para observar uma desilusão amorosa numa bancada de laboratório, e aí sem dúvidas o romantismo perde o jaleco num piscar de olhos, e o real se faz presente.
Dizem que o amor nasce no coração, mas qualquer biólogo do sistema nervoso sabe que o coração é apenas um bombeador de sangue que atende às ordens de um centro de comando muito mais caótico, o cérebro. Se colocássemos Platão, René Descartes e Friedrich Nietzsche para analisar uma paixão súbita pelo prisma da fisiologia moderna, a conversa teria o tom de um boletim médico um tanto satírico.
Imagine então o Platão observando um jovem apaixonado que deu de cara, no metrô, suando frio ao ver a pessoa amada.
- Vejam só... Diria o grego, ajeitando a túnica. - O que os poetas chamam de "busca pela outra metade da laranja" nada mais é do que uma grande tempestade de dopamina na área tegmental ventral. É a busca desesperada por um circuito de recompensa que projeta no outro a 'Idéia do Belo', mas que, na prática, funciona exatamente como um vício químico. O amor platônico nada mais é do que dopamina represada.
'Descartes', que adorava ver o corpo humano como uma máquina cheia de engrenagens e fluidos, os famosos "espíritos animais", interromperia com a precisão de um cirurgião... dizendo.
- Não se esqueça da noradrenalina, meu caro. Olhe como as pupilas dele se dilatam, o ritmo cardíaco acelera e a pressão arterial sobe. É a reação de "luta ou fuga" da máquina biológica. O indivíduo acha que encontrou a alma gêmea, mas fisiologicamente o corpo dele está reagindo da mesma forma que reagiria ao dar de cara com um leão na floresta, adrenalina pura, vasoconstrição periférica e palma da mão suada. O dualismo mente-corpo nunca foi tão sarcástico, a mente jura que é poesia, mas o corpo trata a paixão como uma ameaça iminente.
'Nietzsche', rindo do canto da sala, tomaria um gole de café forte para aplacar suas próprias enxaquecas e daria a palavra final...
- E o tal "sofrimento de amor" quando o romance acaba? O que chamam de dor da alma é apenas a queda abrupta da serotonina somada ao pico de cortisol, o hormônio do estresse! O sujeito não está sofrendo pela perda da amada, está em crise de abstinência fisiológica. A Vontade de Potência foi reduzida a um punhado de receptores desregulados exigindo mais ocitocina. É a biologia zombando da nossa ilusão de controle!
E quer saber de uma coisa... Encarar essas e outras questões amorosas pela lente da fisiologia não tira o valor da experiência, apenas muda os atores do drama.
A paixão deixa de ser um mistério metafísico e vira um espetáculo neuroquímico de primeira ordem. Amamos com o córtex pré-frontal bloqueado e sofremos com a amígdala hiperativa.
Quando você sentir aquela borboleta no estômago ao olhar para alguém, lembre-se dos "Pensadores" e da "Fisiologia"... não é magia, é apenas o seu sistema nervoso autônomo enviando sangue dos órgãos digestivos para os músculos, preparando você para cair fora.. Ou para se apaixonar intensamente. Fisiologicamente falando, dá no mesmo.
Por Alfredo Guilherme


7 comentários:
kkkk vc é mesmo foda me amigo Alfredo ... acordou a galera geral kkkkk Sensacional! A partir de hoje, em vez de mandar 'estou com saudades', vou enviar um gráfico de declínio de ocitocina e pico de cortisol para a minha noiva. Se ela não me largar depois disso, aí sim é amor verdadeiro ou uma anomalia neuroquímica irreversível.
Achei essa crônica um desserviço, Alfredo! Eu passei seis meses chorando ouvindo samba triste achando que era uma dor metafísica na alma, pra você vir me dizer que era só o meu cortisol e a falta de serotonina?! Quer dizer que o meu grande drama romântico foi só um piti do meu sistema nervoso autônomo? Devolvel a minha alto estima kkkkkk
A parte do leão na floresta me quebrou! Quer dizer que quando o ser humano vê o crush vindo na direção dele, o cérebro não pensa 'nossa, que visão poética', ele pensa 'CORRE QUE É UM PREDADOR!'? Isso explica muita coisa sobre os meus escolhas amorosas... Excelente texto!
Saber que a paixão e o pânico usam exatamente os mesmos hormônios explica perfeitamente por que a gente faz tanta besteira apaixonado. É o córtex pré-frontal desligado e a amígdala no comando! Da próxima vez vou colocar 'baixa de ocitocina' no atestado médico pra faltar na segunda-feira. Genial, Alfredo! vc é o cara meu amigo!!!!!
Dr. Roberto S. Cardiologista aposentado, Como médico, me peguei rindo sozinho com a cena do Descartes e da noradrenalina! Você conseguiu traduzir a fisiologia do estresse e do afeto com uma leveza incrível. O coração realmente só cumpre ordens do sistema nervoso autônomo, mas que ordens bagunçadas ele recebe quando a gente se apaixona, viu? Parabéns pela perspicácia!
Há uma grande ironia em analisar o amor pela via biológica, e você o fez com maravilhosamente meu amigo, quanto mais a ciência tenta despi-lo de seu mistério, mais fascinante ele se torna. Saber que a paixão ativa os mesmos circuitos neurais do vício em substâncias não torna o beijo menos doce só torna a nossa espécie tragicamente cômica. Somos poetas reféns da própria química.
Eu sabia! Quando meu neto veio me dizer que estava com o peito queimando de paixão, eu mandei ele tomar um antiácido. Agora o Alfredo vc confirmou a minha tese kkkk não era amor, era só a noradrenalina azedando o estômago do coitado. Ciência pura!
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