Outro dia, saí de casa, não para fazer caminhada no parque, é meu costume sempre que o sol se faz presente, tornando o dia mais convidativo para acordar mais cedo. Sai para andar pelo bairro. Em uma das esquinas do bairro, entrei na padaria para um café matinal, acompanhado pelo ritual sagrado do pão na chapa. O que aconteceu, no entanto, deu um nó em minha garganta, e na cabeça comecei a tomar um café atraz do outro.
Uma conhecida de longa data entrou na padaria, cumprimentou-me e pediu licença para sentar à minha mesa. Mas, ali, sentada à minha frente, ela não estava presente. Trocamos palavras por alguns segundos e foi só... ela logo migrou para um "lugar-nenhum", perdida nas profundezas do seu smartphone.
O polegar subia e descia numa cadência quase mecânica, frenética. O olhar, vidrado, ignorava o sol que invadia nosso espaço na mesa, o movimento da rua e até o café, que esfriava esquecido na xícara. Ali, entre memes de gosto duvidoso, discussões acaloradas em grupos de WhatsApp e vídeos curtos, que se apagam da memória no instante em que terminam, ela se exilava... E eu já estava me sentindo transparente, perdendo densidade enquanto ela rolava a tela infinitamente.
Quando, enfim, baixou o aparelho por dois míseros segundos para um gole de café, arrisquei um comentário sobre a leitura, de como é prazeroso mergulhar num bom livro e de deixar o tempo se dilatar entre as páginas.
Ela me olhou como se eu falasse igual a sua professora do primeiro grau. Com uma sinceridade cortante, toda orgulhosa, disparou...
- Ah, não... Nem me fale. Ler um livro? Não tenho a menor paciência. É muita coisa, é muito lento.
Fiquei em silêncio. A ironia, essa entidade sagrada, pairou sobre a nossa mesa.
Pensei em dizer muita coisa. Mas só fiquei pensando como alguém que devora centenas de mensagens irrelevantes por dia, que consome milhares de caracteres em frases fragmentadas e emojis sem alma, não encontra fôlego para percorrer um único parágrafo.
Mas me calei... 'Paciente' diante da falta de paciência dela que é o espelho do nosso tempo, estamos todos viciados no imediatismo, nessa dose curta de dopamina que o próximo scroll (rolar), na tela nos promete. É impressionante como as pessoas confundem 'estar conectado' com 'viver'. O celular virou uma chupeta emocional para adultos.
Estamos perdendo a capacidade de sustentar o olhar, na leitura de um livro que exige um pacto, uma entrega que o celular não pede, talvez seja por isso que o aparelho vença essa batalha. O livro nos obriga a parar, a sentir o peso do papel, a construir imagens na mente, a dialogar com o silêncio.
O celular, pelo contrário, nos bombardeia com o ruído, com a urgência do supérfluo, com a obrigação de estar o tempo todo "ligado".
É curioso, quase trágico. Ela se diz sem paciência para um livro, mas dedica horas do seu bem mais precioso o tempo... a um entretenimento infinito que não deixa rastro, não ensina nada, não acalma o peito. A paciência, que ela alega faltar para a literatura, é gasta em doses homeopáticas na ansiedade de esperar a próxima notificação.
Despedimo-nos e saí dali para continuar caminhando pelo bairro, pensando que, talvez, o segredo seja justamente a resistência. Enquanto o mundo se esmigalha em mensagens fugazes, ainda há beleza em se perder pelas paginas de um livro que não tem prazo de validade.
Mesmo que o polegar alheio a tudo isso, insista em nos convencer de que a velocidade ao teclar é o único caminho, eu prefiro o ritmo lento da alma que, só nas páginas, de um livro podemos encontrar... A essência da vida.
Por Alfredo Guilherme

6 comentários:
É impressionante como as pessoas confundem 'estar conectado' com 'viver'. O paradoxo é exatamente esse o cara tem o mundo inteiro na palma da mão, mas não consegue suportar dez minutos de silêncio com as próprias ideias em um livro.
Rapaz, eu me irrito demais com isso! Outro dia tentei falar com o meu neto num almoço e ele parecia um zumbi piscando luz azul na cara. Falei pra ele, 'O que você está lendo aí é melhor do que o que estamos juntos aqui?'. A resposta foi o silêncio. Acho que essa crônica tinha que ser lida em voz alta no meio da praça. Genial!
Ótimo texto 👍👍👍👍👏👏👏👏
Alfredo, sua escrita é um respiro. Enquanto o mundo parece que vai colapsar de tanta pressa, você nos convida a sentar, tomar um café e observar. Se essa pessoa soubesse o prazer que ela está perdendo ao ignorar os livros, talvez a paciência dela voltasse.
Parabéns pelo texto, preciso compartilhar isso no grupo da família se eles largarem o celular por um segundo, claro.
Que tristeza essa cena, Alfredo. O celular virou uma chupeta emocional para adultos. A gente tem medo do tédio, medo de ler uma página e encontrar uma verdade que não seja um meme engraçadinho.
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